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sábado, 8 de fevereiro de 2014

LIVRO: DIA DE FINADOS - CEES NOOTEBOOM


Nooteboom, Cees. Companhia das Letras, 2001
Tradução: José Marcos Macedo
345 páginas

Arthur Daane, um cinegrafista holandês, perdeu sua esposa e filho num acidente aéreo. Sua vida após esta perda trágica passa a ser perambular e ocasionalmente fazer algum trabalho para ganhar algum dinheiro, mas sua principal ocupação é filmar fragmentos, pedaços, tudo aquilo que está ali, mas ninguém vê ou percebe, e faz isto por onde anda Espanha, Holanda, Japão, Estônia e principalmente em Berlim onde se encontra por mais tempo no momento.

É o relato de um solitário, que não supera seu luto, que busca em vão compreender o que é impossível. Berlim é uma cidade onde os mortos também permanecem, estão ali nos escombros, no ar, na culpa que também acompanha os alemães como a ele também. O último instante quando ele registra sua mulher e filho na fila no aeroporto. Ele não estava com eles.

Apesar da solidão tem bons amigos, Erna na Holanda e Victor, Arno e Zenóbia em Berlim, além de outros cinegrafistas com os quais divide apartamentos pelo mundo. Conhece uma mulher, Elik, que também carrega em si um trauma, é uma historiadora, e da mesma forma que Arthur, também uma solitária, só que ao invés de perambular pelo mundo ela se enclausura na história e está fazendo seu doutorado sobre uma rainha da idade média, Urraca.

Temos interrupções no decorrer do livro, são os anjos que tudo vêem, ou o coro, como acontece no teatro grego que nos falam de coisas que cabe a cada um, mas que o outro não pode ver, mas eles vêem tudo ao mesmo tempo. Arthur socorre uma senhora e a deixa no metrô, mas jamais saberá que ela morreu.

O que o impressiona é aquela sensação de estar num lugar onde tantos já estiveram antes, passaram também por ali, falaram algo, e o lugar fica, mas onde estão todos estes? As vozes ficam? os movimentos? Um lugar onde já houve guerra e muitos morreram, e agora está calmo, mas é o mesmo lugar. Como filmar isto? Uma cidade é feita de edifícios e vozes, mas se retiramos as vozes o que sobra?

Ele busca vestígios, não pode esquecer, e não compreende que as coisas passem, que tudo muda, se transforma, mesmo que o lugar seja o mesmo, a transitoriedade de tudo.

Diante de uma foto do Dia de Finados onde as mulheres se encontram, limpam os túmulos, levam flores, fazem isto todos os anos ele começa a compreender que é preciso lembrar para esquecer.

Cees Nooteboom, pseudônimo de Cornelis Johannes Jacobus Maria, nasceu em 1993 em Haia, Holanda.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

LIVRO: O ATENTADO - HARRY MULISCH



Mulisch, Harry. José Olympio Editora, 2007
Tradução: Cristiano Zwiesele do Amaral
287 páginas

" Sua postura implica que, para ele, os acontecimentos já estejam de alguma maneira presentes no futuro, até chegar o momento em que alcançam finalmente o presente para virem a repousar no passado."

Em questão de minutos a vida de Anton muda completamente, tudo o que poderia ser, o que deveria ser, nunca mais o será, mas aquele instante em sua infância o marcará e irá sem que ele perceba definindo seu futuro até que ele finalmente possa confrontá-lo, compreender para então colocá-lo no passado.

O trauma foi forte, trágico, mas ele o esquece, recalca, e segue sua vida , sem se sentir uma vítima, sem perceber todos os efeitos daquele momento em si mesmo e também do quanto a dúvida, o não saber pode afetar sua vida.

Ele se tornará um anestesista, aquele que anestesia, que faz com que uma pessoa não sinta a dor, o que não deixa de ser uma metáfora sobre ele mesmo, haveria outra possibilidade para o menino que sonhava em ser piloto de avião? Escolherá para sua esposa uma mulher que traz em si os traços de outra mulher que o acalentou no momento trágico de sua infância. Seu filho se chamará Peter, como o irmão. Ele sentirá um mal estar a cada vez que encontra algo que traz o traço do trauma, uma cena de uma mulher na varanda, um dado em cima de uma mesa, até que acabará tendo uma crise de pânico.

Mas o livro não se atém apenas aos efeitos do trauma, ele também fala de como um ato, ou no caso, o atentado, pode modificar várias vidas e salvar outras. No relato da vida de Anton,  surge o panorama da vida na Holanda e do mundo após a Segunda Guerra até os anos 80. Mulisch penetra a alma humana, de como ela reage diante do medo, da culpa, do heroísmo, do que pode ser irrisório para uns e de suma importância para outros, de como o assassino pode se transformar num anistiado, e outro pode ser perdoado, mas a história sempre se repete em outros contextos, com outras pessoas.

Somente quando ele finalmente reconstrói sua história, lhe dá uma coerência e a aceita é que ele pode construir seu futuro, ao invés de deixá-lo ser apenas a consequência.

Um belo livro que recomendo.

Harry Mulisch nasceu em 1929 em Haarlem e faleceu em 2010 em Amsterdam - Holanda.

domingo, 5 de janeiro de 2014

LIVRO: A MORTE DO INIMIGO - HANS KEILSON


KEILSON, Hans. Companhia das Letras, 2013
Tradução: Luiz A. de Araújo
256 páginas

Brilhante! é o mínimo que se pode dizer a respeito deste livro de Keilson, que foi publicado pela primeira vez em 1959 e depois foi esquecido até ser resgatado e considerado obra prima, o que de fato é. 

A narrativa nos oculta nomes, lugares e anos, porém é rapidamente reconhecível seu contexto e sua alusão à Segunda Guerra, o antissemitismo, Hitler e os judeus e nos remete facilmente a outros totalitarismos, mas o brilhante na obra não é esta camuflagem, mas sim a visão que Keilson tem sobre o humano e de como reage ao mal e ao inimigo. Poderia também ser lido como uma alegoria do que se passa dentro de um único indivíduo que se depara com um inimigo interno, e eis toda a beleza do livro e sua riqueza. 

O narrador está fascinado pelo seu inimigo, sem perceber que está com medo, muito medo dele. Aos poucos vai se projetando nele e ao mesmo tempo o introjeta

"Você vê nele apenas o agressor, aquele que nos ameaça. Mas isso é enxergar apenas um lado. É superestimá-lo." 

Aos poucos vai se desvendando a alma humana diante do inimigo e vice versa, ou seja, um não existe sem o outro, pois destruir o agressor significa também uma perda, ele leva uma parte de nós junto com ele. Sua morte significaria a minha destruição, não posso viver sem ele nos diz o narrador. A partir do momento em que o inimigo faz parte, e o introjetamos, ou nos identificamos com ele, retirá-lo é o mesmo que tirar uma parte de nós, e vai ficar um vazio, é uma perda. O inimigo é a razão de viver, para ambos os lados, que procede da vontade de sofrer, do gozo da dor, do qual é difícil se libertar. 

"Mas quem há de romper a solidariedade veladamente estabelecida entre perseguidor e perseguido?" 

Transformamos em inimigo tudo aquilo que não podemos combater em nós mesmos. E é isto que temos em nós que se transforma no inimigo, nós o mantemos vivos. Por isto o narrador precisa ficar no local por onde ele passará, para se convencer de que ele existia de fato, pois ele ganhou vida graças a fantasia, algo criado dentro de nós, para onde se dirigem nosso ódio, medo e também afeição. Só há um modo de se libertar, matando-o, mas dentro de si mesmo, quando reconhecemos finalmente o medo que sentimos, ou então, seremos como alces, que não conseguem viver sem os lobos, pois são estes que os fazem viver, e que não conseguem perceber que os lobos também são mortais. 

Fazia tempo que não encontrava um livro como este. Comédia em tom menor que já postei aqui também é muito bom, mas este aqui é uma obra prima. 

Hans Keilson nasceu em Bad Freienwald, Alemanha em 1909 e faleceu em 2011 na cidade de Bassum - Holanda. Estudou medicina em Berlim, mas quando se formou foi impedido de exercer sua profissão por ser judeu. Em 1936 emigrou para a Holanda fugindo do Nazismo. Um casal em Delft o acolheu e foi um membro ativo da Resistência Holandesa. Quando a guerra acabou especializou-se em psiquiatria infantil e trabalhou principalmente com órfãos traumatizados. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

LIVRO: COMÉDIA EM TOM MENOR - HANS KEILSON


KEILSON, Hans. Companhia das Letras, 2011
Tradução: Luiz A. de Araújo
117 páginas

Peguei este livro hoje e me deitei na rede, e não saí dali enquanto não terminei.

Keilson nos conta uma história para falar do que ele mesmo viveu quando precisou se esconder dos nazistas na Holanda e foi acolhido por um casal em Delft e também como uma homenagem as estas pessoas que foram muitas que correram o risco, mas não recuaram em salvar uma vida, uma pessoa.
A história de Wim e Marie que esconderam Nico em sua casa é singela pela sua simplicidade, mas tremendamente profunda pelo o que aborda. Somente quando o casal, por um desfecho tragicômico, se vê na mesma situação daquele que esconderam, é que conseguem realmente compreender aquele inquilino estranho que ficou em sua casa por um ano.
O que significa ter que deixar para trás tudo o que se tem em questão de minutos e não olhar para trás, mas levar consigo todas as lembranças e hábitos que não podem mais se repetir? A esperança que parece diminuir a cada dia que passa de um dia poder voltar, o o sentimento meio sem sentido, quase nulo, estranho, quando se fica sabendo que pode voltar? Sempre imaginamos ser de euforia, mas quando ocorre, não é assim.
Se sentir um peso, um intruso numa casa alheia, mas ao mesmo tempo ser imensamente grato, mas sem deixar de se sentir um nada. " Representava seu aniquilamento humano, ainda que - talvez lhe salvasse a pele." É como nos sentimos quando vivemos da ajuda da compaixão alheia.
E quanto àquele que acolhe, que mesmo que o faça por compaixão e justiça, não deixa de sentir que está salvando uma vida, e que isto será revelado quando a guerra acabar, e os três saírem juntos para comemorar e todos irão compreender na hora, e isto não acontece? Eis uma decepção humana como diz o autor.
O que Keilson nos mostra não é o pavor da fuga, mas se há o medo de ser encontrado, também há todo o tédio de viver ali, a solidão da solidão como ele diz, e tudo o mais que é humano.

Hans Keilson nasceu em Bad Freienwald, Alemanha em 1909 e faleceu em 2011 na cidade de Bassum - Holanda. Estudou medicina em Berlim, mas quando se formou foi impedido de exercer sua profissão por ser judeu. Em 1936 emigrou para a Holanda fugindo do nazismo. Um casal em Delft o acolheu e foi um membro ativo da Resistência Holandesa. Quando a guerra acabou especializou-se em psiquiatria infantil e trabalhou principalmente com órfãos traumatizados.