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quinta-feira, 12 de maio de 2016

DOCUMENTÁRIO: O GUIA PERVERTIDO DA IDEOLOGIA - 2012


Direção: Shopie Fiennes - 2012
Duração: 134 min
Titulo Original: The pervert's guide of ideology
País de Origem: Irlanda


Neste documentário o filósofo Slavoj Zizek aborda através de vários filmes usando ao mesmo tempo roupas e cenários que se referem aos filmes, as muitas faces da ideologia. Zizek analisa os filmes pelo viés da filosofia e da psicanálise. Também se utiliza de músicas e de comerciais ou de produtos bem conhecidos. 

O primeiro filme que ele aborda é "Eles Vivem" de 1988 do diretor John Carpenter sobre os óculos que o protagonista encontra e ao usá-los ele vê o que os outros não conseguem ver. Zizek então nos fala que a ideologia é nossa relação espontânea com o mundo social, é como percebemos seu significado. Gostamos da ideologia e sair dela machuca. Eis o porque da recusa das pessoas de usarem o óculos, pois têm consciência de que ao colocá-los irá ver a verdade que pode ser dolorosa e não querem passar pela violência extrema da libertação, a liberdade dói. 

Com o filme "A Noviça Rebelde" de 1963 do diretor Robert Wise ele nos fala de uma parte da música que em seu país foi censurado e fazendo uso da psicanálise fala do gozo, de distinguir o gozo dos prazeres corriqueiros. A lógica da igreja católica, não do cristianismo, é que protegido pelo grande Outro - goze! Se você fingir, renunciar poderá ter tudo. O gozo é um estranho dever perverso, o excesso está sempre conosco. 

Para falar do sublime ao excremento, Zizek toma uma coca-cola, de gelada à quente. A dialética elementar da mercadoria é o excedente ilusório. Já o Kinder Ovo é usado para demonstrar o objeto do desejo, o brinquedo que está dentro do ovo que preenche o espaço vazio do ovo. A surpresa é o excedente. 

Com o "Hino à alegria" de Beethoven - Nona Sinfonia ele mostra como esta música é usada por opostos, nazismo, comunismo, maoismo, é o hino não oficial da União Europeia. Cena perversa de fraternidade universal.

A ideologia funciona como invólucro vazio. 

O filme "Laranja Mecânica" de 1971 do diretor Stanley Kubrick nos diz sobre o discurso liberal quando justifica a delinquência pela pobreza, miséria, exclusão. O homem não é apenas um produto de circunstâncias objetivas, tem uma margem de decisão. 

Com o filme "Taxi Driver" de 1976 do diretor Martin Scorsese e "Rastros de ódio" de 1956 de John Ford sobre a vítima que de um modo perverso goza ou participa de sua vitimização. Não quer ser redimida, resiste. 

O filme "Tubarão" de 1975 do diretor Steven Spielberg, Zizek demonstra como este filme unifica todos os medos. Fala do racismo, que o outro tem um gozo , perverso, ele tenta roubar de nós o nosso gozo. Perturba o nosso estilo de vida. 

Além destes filmes também serão citados Titanic para o sagrado e o obsceno, A Queda de Berlim, Mash, Nascido para matar, Batman o Cavaleiro das trevas, A última tentação de Cristo, O segundo rosto entre outros.

Zizek falará ainda sobre o capitalismo ter uma estrutura religiosa, a inércia do Real, dos ritos obscenos que regulam as escolas na Inglaterra. Sobre o grande Outro - o stalinismo. Sobre a histeria e por sermos responsáveis por nossos sonhos que encenam nossos desejos. 

Trata-se de um  documentário denso, para assistir mais de uma vez, mas vale a pena!

Shopie Fiennes nasceu em 1967 em Ipswich, Reino Unido.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

DOCUMENTÁRIO: AMY - 2015


Direção: Asif Kapadia - 2015
Duração: 127 min
País de Origem: Reino Unido e Irlanda do Norte

Documentário sobre a vida de Amy Winehouse (1984-2011)

O filme inicia em sua juventude e traz lembranças da infância e vai até sua morte aos 27 anos em 2011. Uma vida trágica, auto destrutiva analisada com toques sutis da psicanálise.

Uma infância de abandono com seu pai sempre ausente que ela idolatrava e uma mãe que não tinha autoridade para impor limites. Amy passa a buscar alguém que a freie, limite, que lhe diga o que pode e não pode. Tem uma voz maravilhosa mas que destoa da época. Apaixona-se perdidamente por Blake Fielder-Civil que após um tempo de namoro a abandona, retornando a sua vida mais tarde e casando-se com ela, para depois divorciar-se. 

Sua carreira é meteórica, passa a ganhar milhões e é o momento onde seu pai se torna presente em sua vida, mas interessado em gerenciar esta carreira e os milhões que ela representa, aparecendo neste documentário como uma pessoa interesseira que não se importa com os sentimentos da filha, suas dificuldades, sua carência e necessidade de um pai, não de um empresário. 

A paixão por Blake é sua destruição, ela mesma o diz em um momento que é o amor que a mata. Ele a introduz no mundo das drogas do qual não consegue mais sair. A bulimia, que já demonstra claramente questões patológicas em sua vida. O assédio inescrupuloso e constante da mídia que não a respeita em momento algum. 

Ela compõe músicas para expressar o que sente, fala pela música. As cenas que ela canta são belíssimas. Sua voz é extraordinária, e o jazz é a única coisa que a faz viver. 

Recomendo!!!
Asif Kapadia nasceu em 1972 em Hackney no Reino Unido


Música Back to Black (Youtube) 

domingo, 26 de julho de 2015

FILME: TERRA D'ÁGUA - 1992


Direção: Stephen Gyllenhaal - 1992
Duração: 95 Min
Título Original: Waterland
Roteiro: Graham Swift 
País: Reino Unido e Irlanda do Norte

Um filme sobre as consequências de atos da juventude que acabamos carregando por toda uma vida e também de nossa história familiar e que se refletem nas escolhas que fazemos. 

O professor de História Tom Crick (Jeremy Irons) sofre críticas de seus alunos, principalmente de um deles, Price (Ethan Hawke) que questiona para que serve a História e usa o discurso do fim da História. Diante de jovens que não conseguem mais visualizar a importância desta disciplina e que influenciam inclusive as decisões da escola em Pittsburg , uma vez que se valoriza a produção e ganhar dinheiro e se esquece que é preciso também aprender a viver, o professor mostra que somos todos história, e o faz de uma forma diferente contando sua própria história que começa na Inglaterra.

É interessante a forma como foi filmado as lembranças do professor, levando a todos para a época vivida, como ocorre no filme (mini-série) O mundo de Sofia - Romance da filosofia, ou apenas como uma lembrança. A história de vida de Crick e de sua esposa Mary (Sinédia Cusack)  é revivida desde a juventude e está repleta de descobertas, amor, crueldade, incesto, sexualidade, culpa, dores que nunca foram resolvidas, mas é justamente trazendo este passado à tona e ao revive-lo de outra maneira, com outro olhar e significação, que é possível sim encerrar uma etapa da vida, mas ela continua, e é aí que está a possibilidade de uma vida ter outros finais, e não apenas uma que termina. 

Fugir não resolve, negar também não, esquecer não é possível, somente lembrando se esquece. Tom e Mary tentaram esquecer mudando-se para outro continente, mas não é a distância física que modifica algo, você se carrega junto em qualquer viagem, é preciso sim enfrentar o passado, interpretá-lo, falar sobre ele, pois somente assim os fantasmas nos deixam. 

Stephen Gyllenhaal nasceu em 1949 em Cleveland, Ohio, EUA. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

FILME: MIL VEZES BOA NOITE - 2013


Direção: Erik Poppe - 2013
Duração: 112 min
Título Original: Tusen ganger got natt

Filme belíssimo. Rebecca (Juliette Binoche) é uma fotógrafa de guerra. Ela está no Afeganistão tirando fotos de mulheres bombas quando é atingida por uma explosão. Seu marido (Nikolaj Coster-Waldau) lhe dá um ultimato pois nem ele, nem suas filhas aguentam viver sob a tensão de nunca saber se ela está viva ou morta, que é impossível viver assim. Rebecca acaba aceitando e desiste de sua profissão. No entanto sua filha mais velha parece lhe seguir os passos participando de um projeto sobre a África e quando surge a oportunidade de ir ao Quênia tirar fotos de um campo de refugiados que é considerado um local seguro ela pede a mãe que aceite e que a leve junto.





Elas partirão, mas enquanto estão no acampamento há um ataque e elas precisam sair imediatamente, porém Rebecca não parte, pede que levem sua filha para um local seguro e fica para fotografar tudo. Com suas fotos consegue que a ONU mande reforços. Sua filha lhe pede que não conte nada para o pai, mas ela fica traumatizada pelo que ocorreu. Numa conversa com a mãe ela mostra que filmou tudo, o momento em que ela fica e pede para a levarem. O medo, estar sozinha num país estranho, não saber o que iria acontecer, tudo isto foi forte para a jovem adolescente. É então que o pai descobre a filmagem e é a gota d'água. Eles se separam, e Rebecca pensa em retomar sua vida, porém desiste no aeroporto e volta. Vai à apresentação da filha sobre a África e a ouve falar do seu orgulho da mãe e que o mundo e as crianças que sofrem precisam dela e dos fotógrafos para denunciar o que está acontecendo.







Rebecca retoma sua vida de fotógrafa e volta ao Afeganistão. Só que desta vez quem está sendo preparado para explodir é uma criança. O final do filme é um soco no estômago, quando ficam a mãe da criança que se foi ajoelhada no chão e Rebecca que também cai ali ajoelhada. 

Durante o filme acabamos julgando Rebecca como mãe, por ter uma profissão de alto risco e com isto deixar suas filhas sempre num estado de tensão e sofrendo com sua ausência, e mais ainda a julgamos quando ela fica no acampamento e manda levar sua filha para um lugar seguro. Mas e agora? diante desta outra mãe que acaba de entregar seu filho para explodir, uma criança bomba? Ambas agiram de acordo com o que acreditam, de acordo com uma fé, de acordo com aquilo que as move. Só que uma pela paixão de seu trabalho e do que pode conseguir com isto, salvando pessoas, ajudando, e a outra pelo o que acredita ser correto para salvar seu povo, mesmo que seja através de atos terroristas. Ambas são fanáticas de alguma maneira. E ambas são mães. 

Não me arrisco a julgar pelos padrões ocidentais. Obvio que não concordo de forma alguma com a violência, com o ato de matar, mas o que não julgo é a crença delas e que as levam a certas ações. Fiquei aturdida no final do filme, sem saber o que pensar, sentindo uma angustia forte. Que força é esta que move estas duas mães? estas duas mulheres? Sim, eu considero um crime fazer de uma criança um objeto que vai explodir com as bombas, a criança não tem opção de escolha, ela está sob o jugo dos adultos. Notamos o quanto o ser humano tem em si mesmo a vida e a morte. Eros que nos leva ao desejo e à vida e Tânatos que nos leva à morte, a destruição. Rebecca é movida por Eros, pelo desejo, mesmo que seja fotografando a morte, a destruição, a miséria, a guerra. O que ela quer é chocar o mundo, sacudir, tentar fazer com que as pessoas acordem. A outra mãe está movida por Tânatos, pela morte. Mas segundo suas ideias é uma morte necessária para se atingir algo. Como encarar isto? Para mim é um crime, um absurdo, inconcebível, mas não para ela. A criança bomba vai morrer e com ela outros. 

Rebecca fica com um sentimento de culpa após a primeira explosão por ter descido do carro e atraído a atenção da polícia levando a mulher a detonar a bomba ali mesmo, onde havia crianças, mulheres, velhos. E esta mãe do menino? tem culpa? qual o tamanho da dor dela ali ajoelhada e rezando?

Erik Poppe nasceu em 1960 em Oslo, Noruega. Ele foi fotógrafo de guerra antes de ser cineasta.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

FILME: JIMMY'S HALL - 2014





Direção: Ken Loach - 2014
Duração: 109 min
País: Irlanda - Reino Unido - França 

Indicado para Festival de Cannes 2014 para longa-metragem 

Uma cinebiografia de Jimmy Gralton (Barry Ward), um irlandês que desafiou a igreja católica e os latifundiários desafiando a censura e liberdade de expressão. 

Jimmy retorna à Irlanda após ter passado 10 anos nos Estados Unidos. De 1919 a 1921 a Irlanda lutou pela sua independência do Império Britânico. Em 1922 houve uma guerra civil entre os que aceitaram o tratado com os ingleses e os que não aceitaram. Os britânicos apoiaram os primeiros que venceram provocando uma grande amargura em todo país. Jimmy foi embora nesta época e agora retorna em 1932. Sua mãe está sozinha, seu irmão faleceu e seu grande amor Oonagh (Simone Kirby) está casada com outro e tem filhos. 


Os jovens da cidade o procuram e lhe pedem para reabrir seu salão. Jimmy e seus amigos acabam concordando e reabrem o salão que é um local onde se pode falar, trocar idéias, aprender com as aulas ofertadas e principalmente dançar. Jimmy irá ensinar a dançar o jazz, ele trouxe um gramofone e discos dos Estados Unidos. Nada de mais aparentemente, mas o padre católico não gosta nada disto e diz que somente a Igreja tem permissão para o ensino, e que o salão paroquial é suficiente para o entretenimento e para dançar.






A situação na Irlanda não está boa, os latifundiários dominam e expulsam os pobres de suas casas por não conseguirem pagar o aluguel. É o começo do IRA e eles procuram a ajuda do grupo de Jimmy pedindo a ele que discurse para o povo, que somente à ele irão ouvir e confiar. Os sacerdotes se colocam contra Jimmy e pregam contra ele na igreja além de ameaçar e subornar os fiéis para que se afastem dele. Oonagh sugere que ele tente trazer o padre para o salão o que ele tenta fazer, mas a condição do padre é a escritura do terreno e do salão em nome da igreja. Jimmy se retira dizendo que ele só escuta aos que estão de joelhos.



Após a retomada de posse de uma casa da qual um latifundiário havia expulsado uma mulher com seus filhos, haverá tiros contra o salão e na sequência o mesmo será queimado. A polícia prende Jimmy e ele é deportado, nunca mais podendo retornar à sua terra natal, morreu em Nova York em 1945. 

A intolerância, a ganância, o poder, o velho refrão que se repete sempre. Jimmy era considerado comunista porque lutava pelos pobres e pela liberdade, para que todos pudessem ter uma vida digna, alimentos e moradia, enquanto os latifundiários viviam na opulência e massacravam os trabalhadores. A igreja intolerante, querendo deter também o poder se coloca ao lado destes latifundiários e oprime qualquer tentativa do povo de se emancipar, estudar ou até mesmo de ter um simples prazer como dançar. 

Jimmy Gralton 

Ken Loach nasceu em 1936 em Nuneaton, Reino Unido 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO BBC - HUMANO, DEMASIADO HUMANO - JEAN-PAUL SARTRE - O CAMINHO PARA A LIBERDADE - 1999



III- JEAN-PAUL SARTRE - O CAMINHO PARA A LIBERDADE

Sartre diz: Nunca fomos tão livres como durante a ocupação alemã. Perdemos todos os direitos, a livre expressão, éramos insultados e tínhamos que nos calar, e é por isto que éramos livres. Enquanto o veneno alemão adoecia nossas mentes éramos constantemente vigiados, cada gesto que fazíamos era um compromisso.

A liberdade para Sartre era um senso fisiológico de liberdade de modo que a liberdade se incorporasse, se tornasse corpo.

Após a Segunda Guerra os valores do passado entraram em colapso. Sartre recusa tudo - casamento - família - filhos - religião e é feliz. Torna-se uma referência para as pessoas que buscavam algo novo naquele momento e já não podiam mais se referenciar nos valores antigos. 

Não é o passado que nos dirige, é o que nós fazemos, temos que assumir a responsabilidade por nossas ações e de um jeito novo. "Você tem não apenas o direito de escolher, mas também a culpa pela escolha."
"O que importa é o que você escolhe ser no futuro."

Tudo isto caia perfeitamente no momento que a Europa vivia após a guerra. Transformou-se numa esperança e possibilidade de reconstruir a vida e um futuro. Todos queriam esquecer a guerra, havia uma negação do que ocorreu, e poder negar o passado dentro desta filosofia da existência era perfeito.

Sartre nasceu em 1905 em uma família de classe média alta. A morte de seu pai e o ódio ao seu padrasto levou a criança precoce a se reinventar com uma personalidade desconectada de tudo ao seu redor. A morte do pai o livrou de ter um modelo e ele teve que inventar um. 
Quando lhe tiraram as roupas de bebê descobriu-se diferente no espelho. Era feio e o pior, descobriu que as pessoas não mais reagiam a ele como antes. Diante disto seu cérebro passa a valer ouro.

Foi estudar na Ecole Normale Supérieure em Paris onde conhece Simone de Beauvoir. 

Foi professor e interessou-se pela fenomenologia. Em 1933 foi estudar em Berlim com Edmund Husserl. 

Estar consciente de algo é ter relação com algo no mundo, de modo que relacione este algo a uma representação mental. Ele pensou sobre a autoconsciência como uma ideia que temos do mundo. A ideia que nós temos do EU como um caráter essencialmente como de fato é. Não há caráter predeterminado que faz com que você seja quem você é. Você é aquilo que você está tentando fazer. 

Amava o cinema, principalmente filmes de suspense. À diferença dos personagens, lá fora não há roteiro. Escreve o artigo " A contingência da existência" e o romance "A náusea" - a falta de sentido na existência. 

O fato que a vida não tem sentido é o que nos dá a oportunidade de lhe dar um significado. Por não ter significado anterior é que estamos justificados ao criar um. 

Escreve sua principal obra - "O ser e o nada" com influência de Martin Heidegger. 

Foi como prisioneiro de guerra que percebeu que sua filosofia era individualista e precisava relacioná-la ao social. 
Após a guerra fundou a revista Tempos Modernos, deu uma conferência - "Existencialismo é um humanismo". Publicou "Os caminhos da liberdade" e estreou a peça "Entre quatro paredes". 

Foi acusado pela mídia por suas ideias ateístas corromperem os jovens, como um Sócrates. Ele dizia que se Deus existe o homem não é livre. Eu sou a minha liberdade. 

Isolou-se indo morar com a mãe na Rue Bonaparte. 

Da infância em diante era alguém que sofria quando não podia ter o controle da imagem que os outros formavam dele. Isto era para ele o inferno. Era profundamente aflitivo quando pensava sobre o que os outros pensavam quando olhavam para ele. A aprovação. O olhar eterno sobre ele das outras pessoas, sentiu a existência real da vergonha. Parou de pensar no "EU" como um objeto único. Constrói uma ideia de "NÓS" como um outro mundo. Como uma entidade como o "EU" surge? Isto implica que não é possível as pessoas sentirem-se confortáveis umas com a outras. É impossível pensar em vários "EUs" simultanemente. O seu "EU" sempre será um objeto para o outro observador. Todo "EU" está sempre em conflito. Não podemos escapar destes jogos terríveis das pessoas conosco o tempo todo. 

Ao perceber nas pessoas as semelhanças, o uso dos mesmos códigos, isto vai contra o "isto é milha escolha." "EU" prefiro fazer isto. Exagero de liberdade. É a destruição dos outros valores, sob os quais vivemos a maior parte do tempo. 

Um mundo existencialista em que tomamos decisões por nós mesmos seria um mundo socialista em que todos nós nos trataríamos como iguais, mas é difícil ver se este não seria um mundo de maníacos tratando-se da mesma maneira. 

Em 1964 ganhou o prêmio Nobel, mas recusou-o. Não quer ser inserido no sistema. Pensa que se foi escolhido é porque agora o sistema o aceita, e se coloca contra isto. 

Como ele concebe a liberdade sempre fora uma fantasia, mas se tornou claro que a liberdade individual não existe. 

"Eu penso contra eu mesmo. Contra tudo que lhe foi inculcado pela educação. Você tem que criticar tudo o que foi "dado" à você.

Faleceu em 19 de abril de 1980. 

Participaram deste documentário:

- Bernard- Henry Levy - Filósofo
- Annie Cohen-Solal - Biógrafa
- Michele Vian - Amiga
- Jonathan Rée - Filósofo
- Ronald Hayman - Biógrafo
- Baroness Mary Warnock - Filósofa
- Olivier Todd - Escritor
- Patrick Vauday - Filósofo
- Jean Pouillon - Amigo
- Michel Contat - Amigo
- Mary Warnock - Filósofa

Parte 1: https://www.youtube.com/watch?v=jDHnW6U0Tk4
Parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=ts-fcq6ZNHk
Parte 3: https://www.youtube.com/watch?v=8Hu2mW20pes
Parte 4: https://www.youtube.com/watch?v=rHeUm5W00mY&spfreload=10




sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO BBC: HUMANO, DEMASIADO HUMANO - MARTIN HEIDEGGER - PENSAR O IMPENSÁVEL - 1999



II - Martin Heidegger - Pensar o impensável 

"Aquele que pensa grande amiúde comete grandes erros".


Martin Heidegger nasceu em 1889 em Messkirch onde também está sepultado. Foi um filosofo simultaneamente muito admirado e execrado. Admirado pela sua mente brilhante e sua produção intelectual, execrado por seu lado político, aderindo ao nacional-socialismo e se tornando um nazista fanático. 

Foi somente após sua morte que surgiram documentos que se tivessem aparecido antes não teriam possibilitado seu retorno ao lugar de professor de filosofia na Universidade, sem contar que teria que ter respondido pelo o que fez. Que ele pensasse que Hitler era a salvação da Alemanha, isto a maioria dos alemães pensaram, mas o que não se aceita é que depois de todos saberem do Holocausto foi ele declarar que nunca teve nada a ver com isto e que nada tinha a dizer ou algo do tipo. Morreu sem pronunciar uma palavra sobre isto, sem dizer que errou, ou qualquer outra menção. 

Seus pais eram camponeses, mas viviam bem. Seu pai era sacristão e ele foi coroinha e antes dos 10 anos decidiu que queria ser padre. Em 1909 após terminar a escola secundária custeado a maior parte pela igreja católica, inscreveu-se na Universidade de Freiburg. Iniciou seus estudos em teologia católica, mas foi perdendo a fé, mudou para matemática e finalmente para filosofia influenciado por um professor que admirava - Edmund Husserl - que iniciou a fenomenologia que oferecia uma nova maneira de entender a consciência humana. Husserl tomou Heidegger sob sua proteção e muito fez para incentivar e possibilitar sua carreira, ao que seria retribuído de forma cruel por seu discípulo durante a Segunda Guerra. 

Na Primeira Guerra Heidegger muito se gabou, mas na verdade ele evitou o front, mantendo-se sempre atrás. Durante a guerra casou-se com Elfriede Petri com quem teve dois filhos. Em 1923 mudaram-se para Marburg no centro da Alemanha onde Husserl havia ajudado a encontrar um lugar como professor de filosofia. Ele nunca se acostumou ao lugar e sempre voltava à floresta negra onde construiu ele mesmo uma cabana de madeira na subida da Montanha Todtnauberg. Era seu retiro espiritual e onde escrevia seus livros.

Sua grande obra - Ser e Tempo, que tem em seu âmago uma pergunta aparentemente simples: o que realmente significa o verbo "ser". O tempo e a existência humana estão inextricavelmente ligados. Nosso ser é o processo de "tornar-se", Rechaça a ideia de que haja algum tipo de essência humana fixa. O que vem em primeiro é a própria existência do homem. A existência é o ato de "expansão" pelo qual estamos projetando-nos constantemente para o futuro, sempre na expectativa, esperando coisas. 

A maioria das pessoas, principalmente as que vivem em cidades grandes, tende a perder o contato com a sua individualidade. forçados a conformarem-se com os padrões de comportamento das massas. Experimentamos fortes sentimentos de ansiedade o que nos leva ao que ele chama de "vidas inautênticas". A maioria vive "a vida da gente", Nós somos um - a gente faz isso, a gente pensa assim. Ele diz - o "eu" não é "a gente". E tudo isto nos anos 20 como uma premonição do que viria pela frente, antes do que temos atualmente com a vida e a morte padronizados. 

Em 1924 Hanah Arendt torna-se sua anula e envolvem amorosamente. Quando Hitler sobe ao poder esta relação há havia acabado. 

O documentário mostra bem todo o envolvimento de Heidegger com o nazismo, seu comportamento, sua influência sobre os estudantes. Hermann Staudinger, professor de química foi perseguido por Heidegger que fazia denúncias infundadas sobre ele para a polícia e para a Gestapo. Posteriormente ele recebeu o prêmio nobel. Mas o pior foi sua postura diante de Edmund Husserl que tanto fez por ele. Husserl era judeu e foi proibido de ter acesso as salas da Universidade. Heidegger assumiu a reitoria e poderia ter revogado esta ordem, mas não o fez, pelo contrário, a executou o que dilacerou por dentro Husserl. 

Ao final Heidegger acreditou que o nacional-socialismo era sua teoria na realidade, aproximava a vida rural, sem grandes avanços tecnológicos, e privilegiava a vida em comunidade. Seu anti-semitismo era algo arraigado na cultura alemã da época. Mas ele pensa que Hitler precisa de um guia, e quem mais além dele próprio? Ele sucumbiu à ilusão de que poderia desempenhar o papel de um rei filósofo. Virou um nazista fanático e megalomaníaco. 

Após o fim da Guerra ele se esconde durante um tempo e retorna para enfrentar a questão, mas desmente todas as acusações. Tentou o suicídio e foi internado por um tempo. Depois recolheu-se à sua cabana de madeira e voltou a se ocupar dos assuntos da mente. E novamente vai se sobressair. 

Não somos nós que falamos, mas é a língua que nos fala. Ela estrutura nosso mundo, estrutura nosso sentido de tempo, da identidade e das relações humanas, do amor, da violência. Novamente é o filosofo. 

Encontrara-se com Arendt que acaba por ajudá-lo divulgando sua obra nos Estados Unidos. Também será apoiado por Sartre. Volta a brilhar. 

Morreu em 1976. 

A questão é agora, diante de todos os documentos que foram encontrados se ele vai continuar sendo tão admirado.

Participaram do documentário:

- Andrew Benjamin - Filósofo
- George Steiner - Escritor
- Thomas Sheehan - Filósofo
- Hans-Georg Gadamer - Filósofo
- Hugo Ott - Historiador
- Miguel de Beistegui - Filósofo
- Elizabeth Young-Bruehl - Biógrafa
- Richard Wolin - Historiador
- Raymond Klibansky - Filósofo
- Richard Rorty - Filósofo
- Tom Rockmore - Filósofo

Assista:




DOCUMENTÁRIO BBC: HUMANO DEMASIADO HUMANO - FRIEDRICH NIETZSCHE - ALÉM DO BEM E DO MAL - 1999



Documentário produzido pela BBC em 1999 dividido em 03 episódios e conta a história de três filósofos: Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre.


I- Friedrich Nietzsche - Além do bem e do mal

Nietzsche é tão importante quanto Marx, Freud e Einstein na evolução do modo como as pessoas pensam no século XX e XXI. 

Com a entrada na modernidade há o que Nietzsche chama de a morte de Deus e com isto o enfraquecimento das certezas morais e intelectuais. O que é certo e o que é errado? o que é bem e o que é mal? A igreja era o árbitro da moral, a guardiã da verdade moral. Hoje não somos mais determinados por forças exteriores, a vida é algo para ser construído e somos responsáveis por isto. A filosofia de Nietzsche não é um guia para quem pensa como ele, mas sim é um guia para quem pensa por si mesmo. Ele nos incita a pensar. 

Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 em Röcken. Seu pai era pastor. No seu batizado o pai perguntou o que seria desta criança , o  bem ou o mal? Nietzsche tentará vencer esta dicotomia, relacionando o bem e o mal, para torná-los dependentes um do outro. 

Teve um infância feliz até 1847, quando estava com 05 anos e seu pai morreu. Um ano depois foi seu irmãozinho que morreu. Então ele se questiona: porque Deus punira seu pai com tanto sofrimento. Surgem as dúvidas sobre o cristianismo.

Após a morte de seu pai e irmão muda-se com a mãe e a irmã Elizabeth para Naumburg e foi enviado para o internato de Schülpforta de tradição em educação religiosa. Após estas perdas ele mudou muito, passou a buscar a solidão. 
Foi estudar teologia na Universidade de Bonn com a ideia de ser pastor. Em 1865 num domingo de Páscoa recusou-se a comungar. Neste ano abandonou sua vocação religiosa para estudar línguas como filólogo clássico. Em uma carta para sua irmã explica que há os que creem e os que buscam. 

Em 1869 foi nomeado professor de filologia clássica na Universidade de Basiléia. 

Havia se libertado das amarras do cristianismo e buscava algo para substituí-lo. Sem o cristianismo a dor e o sofrimento humano não fazia sentido (castigos pelos pecados). Procurou então na filosofia e encontrou em Schopenhauer, que é uma filosofia pessimista, Para escapar do sofrimento há a arte, principalmente a música diz Schopenhauer e Nietzsche encontra isto em Richard Wagner. Assistiu três vezes a ópera Tristão e Isolda e se identificou com o sofrimento deles. 

Wagner se torna um pai substituto. Na arte deste Nietzsche viu a possibilidade de um renascimento da ultura européia baseado no modelo grego clássico da tragédia. ("O nascimento da tragédia"). A música de Wagner representa o ideal pré-cristão simbolizado pelo deus grego Dionísio. A cultura dionisíaca era selvagemente enérgica, musical. Era associada à embriaguez, intoxicação, os excessos, a alegria e a mais absoluta insensibilidade à tristeza, à dor e à tragédia. 

Nietzsche sofria debilidades, era míope, contraiu sífilis apesar de nunca ter falado isto em público, aos 30 anos estava parcialmente inválido, sentia dores de cabeça fortíssimas, e ficava vários dias de cama. "Surpreendo-me o quão difícil representa viver". Sua enfermidade vai ser um ponto de mudança decisivo em sua vida. 

Em 1876 ocorre a inauguração do grande teatro de Wagner em Bayreuth. Nietzsche sai depois do primeiro ato sentindo náuseas, o que é simbólico e um sintoma físico que expressava um estado psicológico. A relação com Wagner fica tensa, ele não aceita o nacionalismo deste. Ele precisa de sua filosofia.

Deixei de ser pessimista nos piores anos de minha vida. O instinto de auto-reparação proibiu-me uma filosofia de pobreza e desalento. Afasta-se de Schopenhauer. 

O autodomínio e o autoconhecimento está no corpo. O cristianismo baniu o corpo da cultura. O físico e o psicológico tem relação com a nossa forma de pensar. A vontade de poder é o fazer-se a si próprio. 

Nietzsche libertou-se das tradições e das opiniões que não eram suas. Condena-se a uma solidão selvagem. Renuncia a seu lugar de professor na Universidade e muda-se para St. Moritz nos Alpes Suíços. Nos próximos dez anos viverá no verão nos Alpes e no inverno na Riviera francesa ou italiana. 

O super-homem é transcender-se a si mesmo, superar-se, buscar um novo caminho, mas dentro do que é humano. O Nazismo corrompeu isto por causa da irmão de Nietzsche, Elisabeth, que promovia o ideal ariano. Mas o super-homem de Nietzsche não é o homem superior, a raça superior. É o humano, a humanidade que está incluída nisto. 

Em 1888 vai viver em Turim na Itália. Em janeiro de 1889 sofre um colapso em uma rua de Turim. Foi para um sanatório e depois para a casa de sua mãe. É declarado louco e sua irmã cuida dele em Weimar. Morreu em 1900 de uma infecção pulmonar. 

Elisabeth controlou por 30 anos o legado literário do irmão e tentou promover falsamente o filósofo como um pensador nazista.

Participam do documentário:
- Ronald Hayman - Biógrafo de Nietzsche
- Leslie Chamberlain - Biógrafa de Nietzsche
- Andrea Bollinger - Arquivista
- Reg Hollingdale - Tradutor
- Will Self - Escritor
- Keith Ansell Pearson - Filosofo





terça-feira, 11 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: POR DENTRO DA MENTE MEDIEVAL - Conhecimento - 2008


Documentário da BBC 
Título original: Inside the Medieval MInd - Knowledge - 2008 

Sinopse da série: o especialista em Idade Média, Prof. Robert Bartlett, apresenta uma série que analisa a forma que o homem pensava durante a época medieval. Para os nossos ancestrais, o mundo parecia ser misterioso, até encantado, ver homens verdes, com cabeça de cães e seres estranhos era algo comum. O próprio mundo era um livro escrito por Deus. Mas à medida que a Idade Média aproximava-se do seu fim, ele se tornou um lugar para ser dominado e explorado. Série em 04 episódios.

São quatro episódios que no link abaixo estão juntos falando sobre o conhecimento na mente medieval.

No período que conhecemos como Idade Média, e não precisamos lembrar que se trata de uma divisão para facilitar os estudos, as ideias no Ocidente eram sufocadas pela religião, porém assim mesmo havia exploração, ciência, não condizendo com as trevas que alguns atribuem a este período.

O importante é compreender como era a visão de mundo das pessoas naquela época, muito diferente da atual. Eles tinham muitas visões de seres estranho, mas isto não é folclore, para eles era fato, verídico.

Na Catedral de Hereford existe um mapa mundi de 1300 feito sobre o couro de um bezerro onde o que vemos não é exatamente um mapa como o compreendemos hoje que nos indicaria os lugares e como fazer para ir de um lugar a outro, não era isto, este mapa mostra como eles imaginavam a terra. Jerusalém é simbolicamente o centro deste mapa, temos então 03 continentes, o oriente na parte de cima e a Europa e África na parte de baixo. Os locais são simbolizados por gravuras, como por exemplo a Rússia por um urso. Também temos neste mapa o tempo e o espaço, com imagens de Adão e Eva, da crucificação de Jesus, e também do futuro com o juízo final. O que se nota é que o natural e o sobrenatural coexistiam pacificamente.



Eles se utilizavam da lógica e da observação para ver a forma como as coisas encontram seu lugar num mundo inteiramente religioso. Para a mente medieval um fato podia ser ao mesmo tempo natural e sobrenatural, eles não faziam esta divisão. Um eclipse era ao mesmo tempo um fenômeno natural e um sinal divino.

Os bestiários é outra coisa maravilhosa daquela época. São livros escritos à mão com desenhos magníficos descrevendo a natureza, mas não como nós faríamos, pois a natureza não é vista de forma independente, e o que os seres representam é uma mensagem para o homem moral e espiritual.

Porém tem início o desencantamento do mundo. Surgem as primeiras Universidades que é talvez o maior legado da Idade Média para o conhecimento. Neste momento também temos as guerras cristãs e eles invadem Toledo na Espanha onde estavam os muçulmanos retomando-a. Toledo era um centro de artes e ciências com bibliotecas maravilhosas. Os europeus irão descobrir então Aristóteles que lhes era desconhecido e isto irá causar uma revolução intelectual, uma vez que os gregos buscam explicações para o universo que não incluem um Deus cristão que criou o mundo em sete dias. Para os gregos não houve a criação, e eles acreditam que o Universo sempre existiu e sempre vai existir. Obviamente que isto suscita uma reação cristã e é proibido ler Aristóteles sob pena de excomunhão. 

Será preciso São Tomás de Aquino para reunir tudo isto fazendo uso da razão dos gregos para explicar a revelação divina. Assim surge a Escolástica. 

Este encontro com o mundo muçulmano também trará outras informações e descobertas na ciência, na química, álgebra e principalmente os números arábicos, pois fazer somas com os números romanos não é algo fácil. 

Aos poucos se vai passando da contemplação maravilhada à consciência do domínio. O tempo que antes era medido por fatos irregulares diários, refeições, missas, marés altas e baixas, passará a ser medido de forma precisa através dos relógios mecânicos. 

Mas ainda há mais por vir. Quando entram em contato com os mongóis e a China e todo o conhecimento que este povo possuía. Marcos Polo um italiano escreverá sobre as maravilhas que viu, apesar de poucos acreditarem nele na época. E depois virá outro italiano, Cristóvão Colombo que descobrirá a América e pensará que chegou ao éden, ao paraíso. 

O interessante é notar que as indagações medievais como por exemplo sobre os anjos ocuparem um mesmo espaço ou não são as mesmas que a física quântica faz hoje. 

Sempre fui fascinada pela Idade Média, por seu imaginário, sua visão de mundo, suas construções, os livros manuscritos e os desenhos. Este documentário é muito bom e nos mostra um pouco de tudo isto. 




Robert Bartlett nasceu em 1954. É um historiador e medievalista inglês. Atualmente ocupa o cargo de Professor de História Medieval na Universidade de St. Andrews. É especialista em colonialismo medieval, culto dos santos e sobre a Inglaterra entre o século XI e XIV.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

FILME: MAHLER UMA PAIXÃO VIOLENTA - 1974

Direção: Ken Russell - 1974 
Duração: 115 min 
Título Original: Mahler 

Gustav Mahler foi uma maestro e compositor judeu austríaco. O filme se passa com Mahler (Robert Powell) durante uma viagem de trem retornando à Viena com sua esposa Alma (Georgina Hale).

Durante a viagem ambos se recordam do passado. Desde a infância de Mahler e seus traumas e dificuldades da infância que refletirão em suas criações mais tarde e também na sua maneira de ser, até o momento atual, assim como Alma relembra seu início de casamento com Gustav e do quanto precisou abrir mão de seus sonhos e desejos para atender ao marido e todas as suas idiossincrasias para compor.

Mahler queria captar a natureza, mas tinha que ser o silêncio dela, e Alma tinha que calar o que havia em torno, tirando os sinos das vacas, impedindo a banda de tocar, o pastor de tocar a flauta, e ainda houve do marido que não conseguiu calar as gralhas. Ele nunca valorizou as composições dela alegando que não queria que ela sofresse o que ele sofreu na sua carreira.

Ele tenta expressar em suas músicas tudo que se passa nele mesmo, é uma viagem onírica, ele sonha e compõe, é como se fosse seu inconsciente atuando na composição. Quando ele compõe a música das crianças mortas é como se ele sentisse que algo iria ocorrer, mas não tinha palavras para isto, e de fato, coincidência ou não, uma de suas filhas morreu em seguida.

Na viagem ambos tentam compreender onde foi parar o amor que os unia. Alma tem um pretendente que a aguarda, e Mahler lhe dá a liberdade de escolha dizendo que sempre se deve fazer tudo por amor, pelo coração, não pelo dever, e se recorda de tudo que fez por dever.

Os tormentos psicológicos de Mahler, a relação conturbada com Alma, que o levou inclusive a se consultar com Freud, o que não aparece no filme, sua conversão ao catolicismo, são fragmentos de sua vida que aparece no filme mas que nos dão uma boa visão de sua vida.


Ken Russell nasceu em 1927 em Southampton, Reino Unido e faleceu em 2011 em Londres. 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

DOCUMENTÁRIO: GOOGLE E O CÉREBRO DO MUNDO - 2013





Direção: Ben Lewis -2013
Duração: 89min 
Título original: Google and the world brain 

Trata-se de um documentário sobre a digitalização de todos os livros do mundo, projeto do Google para disponibilizar na internet o acesso a todos os livros que existem nas bibliotecas. A questão que se levanta é se isto é bom e para quem é bom?

Em 2002 a Google deu início a este ambicioso projeto que sempre foi um sonho da humanidade, começando pela Biblioteca de Alexandria, mas apesar de sua alegação de estar fazendo um bem para todos há muitos que não concordam com isto, uma vez que a Google não é uma ONG e sim uma empresa comercial. Além disto há toda a questão dos direitos autorais,e os escritores e editoras entraram com processos na justiça contra o projeto.

O documentário faz referência ao "Cérebro do mundo" de HG Wells que previu isto em 1937, e a google criou o google books. Vemos vários pontos de vista e entrevistas sobre o projeto e também sobre a ação que ocorreu em New York onde o juiz Chin considerou o projeto "injusto, inadequado e irracional."

Não sou a favor de monopólios, porém foi o Google que tornou esta digitalização em grandes quantidades possível com sua tecnologia. Como toda vez que surge algo novo e diferente sempre haverá os que serão contra e a favor, mas uma coisa é certa, a tecnologia e o virtual já não é o futuro, é o presente. O que precisa é encontrar outras formas de remunerar os escritores, como também os músicos, os atores, pois não se trata apenas de livros, mas de música e filmes que a internet disponibiliza e torna acessível a todos. Por que para aquele que está num grande centro é fácil ter acesso,mas e os que não estão nestes locais? E também em muitos países a cultura tem um preço elevado considerado em relação ao salário que se recebe. Também há a questão da preservação das obras, pois o papel sofre um desgaste natural, além de outros perigos,como por exemplo, governos radicais que queimam livros ou acidentes como terremotos, incêndios, inundações.

A internet tem possibilitado outras coisas, como por exemplo, músicos, cantores ou escritores que antes jamais teriam acesso ou poderiam publicar um livro ou ter sua música conhecida pois o crivo das gravadoras e editoras impedia isto. Hoje isto mudou, todos podem colocar um vídeo na internet ou publicar um livro, e com isto ter ou não seu talento reconhecido. E outro ponto, a disponibilização das obras esgotadas que não conseguimos mais encontrar nem em sebos. Neste ponto as editoras também se preocupam apenas com seu lucro e não com a divulgação do conhecimento, reeditando apenas os livros vendáveis e em certas quantidades.

Recentemente vi a história de uma senhora idosa que tem dificuldades de se locomover e não tem quem a leve dizer que a possibilidade de ter acesso pela internet a várias opções culturais mudou sua vida. Isto também deve ser pensado. Eu pessoalmente ainda gosto muito do livro impresso, gosto de levá-lo comigo, de cheirá-lo, virar páginas, mas não deixo de pensar naqueles que moram em locais onde não há livrarias ou há apenas uma que nunca possuirá todos os títulos que uma mega livraria possui. Há o aspecto ecológico, livros são feitos de papel e papel é feito de madeira - árvores.

Os direitos autorais devem ser respeitados, mas uma obra de arte é feita para o público e tem que estar acessível ao maior número possível de pessoas, de qualquer poder aquisitivo. Volto a repetir, o que é necessário é encontrar novas formas de remunerar os criadores, até porque eles vivem disto e senão ganharem seu sustento irão parar de produzir também. Como as editoras, como os provedores, como os que investem em tecnologia.

É fantástico poder ter acesso a um livro que está lá num mosteiro na Espanha que de outra forma muitos não teriam, mas também é fantástico essas pessoas que escrevem, compõem, tem ideias, criam algo, e elas devem ser incentivadas, reconhecidas e ganhar sua vida com isto. É fantástico estas pessoas que desenvolvem tecnologias com as quais não podíamos nem sonhar há 30 anos atrás. Quando eu era criança o computador era algo inimaginável, e pense então o que era um tablet, um notebook, um micro em casa.

Quanto a privacidade infelizmente é um preço que estamos pagando, hoje quando se instala um telefone em casa passamos a receber chamadas de vários fornecedores com os quais nunca tivemos contato. É irritante, concordo, ainda mais que é repetitivo, mesmo se dizendo Não. Este é outro ponto que precisa ser melhor avaliado e tem que surgir novas regras para isto. A lei sempre vem depois dos fatos.

O diálogo existe para isto, por isto este documentário é importante, ele mostra vários pontos de vistas, e nos deixa a opção de pensar a respeito.


Ben Lewis

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

FILME: CHOCOLATE - 2000


Direção: Lasse Hallström - 2000
Duração: 121 min
Título Original: Chocolat

Vianne Rocher (Juliette Binoche) e sua filha de seis anos Anouk chegam a uma pequena cidade da França onde o povo segue os desejos do Conde Reynaud (Alfred Molina) que preza a moralidade e a igreja fazendo com que todos ali se comportem de forma prevista e que não destoe disto.

Vianne aluga uma antiga confeitaria de Armande (Judi Dench) e abre uma chocolateria na quaresma o que deixa a todos indignados. Mas ela também é mãe solteira e o Conde se aproveita disto tudo para desmoraliza-la e fazer com que vá embora.




Os chocolates que Vianne prepara são especiais, ela conhece segredos e se utiliza de uma roda onde pede às pessoas para dizer o que vêem quando ela gira para então baseada no imaginário de cada um saber qual o chocolate preferido daquela pessoa.



Desta forma ela conquista algumas amizades, mas principalmente de Josephine (Lena Olin) que é considerada louca por todos na cidade que já não suporta o marido Serge (Peter Stormare)que a agride. Ela foge e pede refúgio à Vianne que a acolhe o que irá mudar sua vida. Outros também se encantam com os chocolates e pelas transformações que isto lhes traz em suas vidas, mas o Conde não desiste e como detém o poder na cidade obriga o padre a fazer sermões inflamados contra a chocolateira.

Mas mal sabe ele que ainda estava por vir o pior, chega à cidade que fica a beira de um rio vários nômades que viajam em seus barcos, cujo líder é Roux (Johnny Deep). O conde então lança uma campanha para que eles partam deixando claro que não são bem vindos.



O que ele não esperava é que aos poucos Vianne irá conquistando as pessoas, inclusive as mais próximas a ele, e isto trará grandes mudanças na cidade.

Os preconceitos e o medo das mudanças, o estranho e o estrangeiro, o pecado, e um conde tirano que gosta de comandar a tudo e a todos, eis os ingredientes, mas quando se acrescenta chocolate, pimenta, nozes e outros itens nesta mistura algo acontece, e o prazer de viver aparece mudando as pessoas, ou melhor, libertando o que há de melhor dentro delas e com isto permitindo que possam sentir prazer sem culpa, possam mudar suas vidas, possam construir algo.
Lasse Hallström nasceu em 1946 em Estocolmo, Suécia. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

FILME: PATAGÔNIA - 2011



Direção: Marc Evans - 2011
Duração: 118 min
Título original: Patagonia

Em memória de Edi Dorian Jones, fotógrafo de Chubut (1952 - 2008)

Um belo filme sobre perdas, separações e reencontros, o passado e o futuro, além das belas paisagens da Patagônia e do País de Gales.

Em 1865 um navio - Mimosa - partiu de Liverpool com destino à Argentina levando vários galeses que iam em busca de uma vida melhor e da liberdade. Este navio aportou na Patagônia onde viviam as tribos nômades do povo Tehuelche. Era um deserto estéril e inóspito, mas juntos, os galeses e os nativos sobreviveram e venceram o deserto e até hoje a colônia galesa sobrevive por lá.

Duas mulheres realizam uma jornada íntima. Cerys (Marta Lubos) já é idosa e sofre de diabetes.Seu desejo é retornar à Gales e encontrar a fazenda onde nasceu sua mãe que foi enviada para a Patagônia por estar grávida de Cerys e para evitar a vergonha teve que ser afastada. Ela nunca mais retornou e se casou com um argentino que criou Cerys com ela. Ela partirá com seu vizinho Alejandro (Nahuel Pérez Biscayart) para Gales.

A outra é Gwen (Nia Roberts) que tenta engravidar de seu companheiro, o fotógrafo Rhys (Matthew Gravelle) e descobre que não pode ter filhos. Ela então resolve partir com ele para a Patagônia Galesa onde ele pretende fazer fotos das capelas, na tentativa de recuperar o relacionamento que já está desgastado, mas lá conhecerá o guia Mateo (Matthew Rhys).

Com Cerys nos apercebemos do quanto a origem fala alto, e o desejo de encontrar suas raízes, mesmo que já se esteja idosa. Alejandro que a acompanha por seu lado faz também uma passagem rumo a liberdade, ao se separar de sua mãe e viver experiências novas num país desconhecido e onde não falam a língua. Com Gwen e Rhys vemos o desencontro e a incapacidade de falar sobre tudo isto, sendo necessário viver algo diferente, vivenciar dores e afastamentos para quem sabe assim poderem se reencontrar.

Marc Evans nasceu em 1963 em Wales

Trilha Sonora de Joseph Loduca

Edi Dorian Jones 


sábado, 2 de agosto de 2014

FILME: APENAS UMA CHANCE - 2013



Diretor: David Frankel - 2013
Duração: 103 min
Título original: One Chance 

Filme sobre a vida de Paul Potts o tenor que venceu o reality show  "Britain's Got Talent."

Devemos ou não ceder de um desejo? mesmo quando tudo parece indicar que não é para ser?. Neste filme o que vemos é alguém que apesar de tudo, de ser até certo ponto um azarado até sofrendo contingências a todo momento, tímido, que não tinha confiança em si mesmo, não acreditava, mas que apesar de tudo isto, ele persistiu e conseguiu seguir o seu desejo.

Paul Potts (James Corden) desde pequeno amava a ópera e sonhava em ser um tenor. Já quando fazia parte do coral da igreja ele se sobressaia com sua voz, mas justamente por isto sofria bullying de seus colegas, mas mesmo assim, ele persistia. Seu pai (Colm Meaney) odiava a ideia, mas sua mãe (Julie Walters) o apoiava.

Conhece uma jovem Julie-Ann (Alexandra Roach)  pela internet que quis conhecê-lo, ele não tinha coragem de marcar um encontro, mas seu chefe e melhor amigo faz isto por ele e então ele conhece uma jovem que irá se tornar sua esposa e grande incentivadora. Ganha um concurso e vai para Veneza estudar ópera, mas quando é sua grande chance diante de Pavarotti, que era seu ídolo, ele falha e ouve a sentença de que talvez ele nunca seja um cantor de ópera.

Ele volta para casa na Inglaterra e a partir deste momento sua vida irá sofrer vários revés inacreditáveis, a ponto de dizermos: é muito azar para uma pessoa só. Mas sua mulher está ali, firme, e sempre o apoiando. E finalmente ele irá participar de outro concurso onde será o grande vencedor, transformando-o em estrela da noite para o dia.

É um filme tragi-cômico, pois apesar de todas as dificuldades que Paul enfrentou há sempre uma dose de humor nele.

Paul está acima do peso, tem sua dentição da frente um pouco torta, sofreu bullying que lhe deixou uma marca no corpo e um trauma, tem que enfrentar seu pai que não concorda com seu sonho, sofre problemas de saúde, é atropelado, mas ele tem um grande amigo, tem sua mulher e sua mãe que nunca deixam de estar ao seu lado. O fato de ter sido reprovado por Pavorotti o marcou, e vemos o efeito de quando um ídolo, alguém que idealizamos demais nos dá um veredito ruim atuar em Paul, ele acredita que nunca será um tenor depois disto, mas sua esposa não acredita em todo este poder do tenor famoso.

Um outro ponto que chama a atenção, ele foi para uma escola famosa em Veneza, mas será através de um reality show que atingirá o sucesso. Muitas vezes por causa de um preconceito em relação a estes programas podemos deixar de atingir um desejo ou sonho, mas Paul não tem isto, ele tem medo de ser humilhado em frente ao público, e isto devido o que já havia passado em sua vida. Mas podemos ser humilhados por muitos o que não significa que devamos desistir, e por mais difícil que seja, como diz Julie: um passo atrás do outro.


David Frankel 

Paul Potts nasceu em 1970 em Kingswood, Reino Unido.

O vídeo da apresentação de Paul Potts no Reality show

domingo, 25 de maio de 2014

FILME: LORE - 2012


Direção: Cate Shortland - 2012
Duração: 109 min  
País: Alemanha - Austrália - Irlanda - Reino Unido

Baseado no livro de Rachel Seiffert - A Câmara Escura - Revelação comovente de uma dolorosa herança nazista. - The dark room. 


1945, a Alemanha é derrotada. Um oficial nazista tem que fugir às pressas e leva sua família para a Floresta Negra, a mulher e seus cinco filhos, entre eles um bebê. Lore (Saskia Rosendahl) é a fiha mais velha e quando sua mãe se entrega a incumbe de levar seus irmãos para a casa da avó em Hamburgo.



Será um longo trajeto em meio as zonas ocupadas. Lore terá que procurar comida e locais para passar a noite. No caminho vê jornais com fotos do holocausto e de seu pai. Hitler se suicidou.

Ela encontrará Thomas (Kai Malina), um judeu que escapou com vida e que irá ajudá-la, mas ainda assim ela terá todos seus preconceitos sua ideologia nazista impedindo que se aproxime ou acredite nele. Para isto terá que vencer toda a educação e ideologia que recebeu em sua formação e será se defrontando com todas as dificuldades durante o percurso que lentamente ela perceberá que os judeus não eram sujos ou mentirosos como sempre acreditou.

Os alemães no filme não demonstram compaixão nem mesmo por crianças, para conseguir comida ela tem que ter algo para oferecer, dinheiro ou jóias que sua mãe lhe deu para a fuga. É sempre pedido algo em troca, até mesmo o corpo, mas nada é gratuito e com generosidade, exceto Thomas que divide com ela o que conseguiu e ainda assim há uma cena que me repugna, mas que é compreensível pela sua formação, quando ele traz comida e ela o afasta, separando a ela e seus irmãos dele para comer.

Os alemães não acreditam nas fotos do holocausto, dizem que é montagem, que são atores, que é obra dos americanos, que nunca o Führer faria isto. A sacralização deste líder como um pai, que não comete erros e que ama a todos seus filhos alemães como se fosse Deus.

Finalmente conseguem chegar a casa da avó graças a ajuda de Thomas que num determinado momento tem que ir embora, pois seus documentos desapareceram. A avó os recebe, dá comida, tomam banho, e uma boa cama. Quando um dos gêmeos pega o pão com a mão recebe uma dura reprimenda da avó, onde aprendeu estes modos? ela é dura, enérgica, autoritária. Diz que seus pais não estavam errados, que Hitler não estava errado, que seus pais não fizeram nada de errado. É neste momento que Lore rompe com toda esta farsa, ideologia fanática. Ela pega o pão com a mão, derruba a água na mesa e a puxa para a mão para beber para total indignação da avó que a manda se retirar imediatamente, o que ela faz de muito bom grado.



Toda esta educação, disciplina e obediência que levam a não pensar, a aceitar tudo como certo e correto, sem avaliar nada. Estas crianças foram educadas para considerar os judeus sujos, mentirosos, ladrões, indesejáveis. Mas foi um judeu quem ajudou Lore, não foi nenhum alemão.

A Lore do início do filme, em sua bela casa, belas roupas, ainda uma criança que acredita em tudo que lhe dizem vai ter que através deste percurso difícil crescer e se tornar uma mulher no final do filme que consegue ver com seus próprios olhos.

O filme tem dois belos momentos simbólicos, logo no início a irmã de Lore brinca de amarelinha, indo do inferno para o céu, e depois quando Lore enterra a foto de seu pai, a do jornal e a que tinham.



Cate Shortland nasceu em 1968 em Temora, New Shouth Wales, Austrália.

Trilha sonora de Max Richter

Max Richter nasceu em 1966 em Hamelin. É um compositor germânico naturalizado na Grã-Bretanha.