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quarta-feira, 27 de maio de 2026

QUANDO A GUERRA ULTRAPASSA TODOS OS LIMITES


 

HIROSHIMA

JOHN HERSEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2002

176 páginas

Ao lermos o livro “Hiroshima” de John Hersey, nos compadecemos dos japoneses afetados e também ficamos horrorizados com tamanha monstruosidade perpetrada pelos Estados Unidos contra civis. De fato, aquele povo era inocente, exceto talvez pelos militares locados na cidade e em Nagazaki.

É preciso lembrar que os japoneses foram extremamente cruéis na sua expansão pela Ásia, como ocorreu no Massacre de Nanquim (1937), na China, que ficou conhecido como o Estupro de Nanquim, marcado por estupros e assassinatos em massa. Em Cingapura, em 1942, também massacram chineses no episódio conhecido como o Massacre de Sook.

No entanto, esses atos de crueldade não justificam o que ocorreu em Hiroshima e Nagazaki. Lançar bombas atômicas que em questão de segundos destruíram tudo, matando mais de cem mil pessoas imediatamente em Hiroshima.  Muitas outras morreram depois sob os efeitos da radiação, algo totalmente desconhecido pelos médicos na época.

Pessoalmente, não aceito a justificativa dos Estados Unidos de que, agindo assim, pouparam inúmeras vidas. Com certeza, pouparam vidas americanas e de militares. Acredito que foi mais um experimento para observar os efeitos e os resultados de uma bomba atômica e, diante do sucesso destrutivo, impor o medo ao mundo, já que naquele momento apenas eles possuíam tal arma.

Hersey, jornalista estadunidense, traz em seu livro o relato e o testemunho de seis sobreviventes do horror e retorna 40 anos depois para saber o que lhes aconteceu. Mesmo tendo sobrevivido, todos sofreram as consequências de terem sido expostos à explosão e à radiação, o que mudou suas vidas.

É interessante perceber que a cultura japonesa levou a grande maioria da população a aceitar o que ocorreu; em momento algum levantavam a questão ética e moral do uso de uma bomba dessa magnitude contra duas cidades. Mas precisamos, sim, pensar nessa ética, e mais do que nunca, pois estamos assistindo a outra destruição atualmente, em Gaza, com a morte de milhares de pessoas, não instantaneamente, mas dia após dia, sem falar nos traumas dos que conseguem sobreviver.

Ler Hiroshima é um alerta. Aquela primeira bomba ainda era considerada “fraca”; hoje, bombas atômicas ou de hidrogênio possuem um poder de morte e destruição infinitamente maior. 

John Hersey nasceu em Tianjin, China, em 1914 e faleceu em Key West, Flórida, EUA, em 1993. Foi um escritor e jornalista estadunidense. 



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

UMA REGIÃO DECISIVA E POUCO CONHECIDA


 

EUROPA CENTRAL: A HISTÓRIA FASCINANTE DE UMA REGIÃO DECISIVA

JANAINA MARTINS CORDEIRO

CONTEXTO – 1ª ED. – 2025

256 páginas

É difícil encontrar livros que tratem especificamente da Europa Central. Diante dos acontecimentos atuais, muitas vezes nos vemos sem compreender plenamente o que está em curso justamente pelo desconhecimento da história dessa região. Nesse sentido, Europa Central: A história fascinante de uma região decisiva cumpre um papel importante.

O livro não se aprofunda em análises extensas, mas oferece um panorama geral consistente da região, desde o Império Austro-Húngaro até os dias atuais. A autora constrói uma espécie de cronologia comentada, destacando os principais acontecimentos históricos, acompanhados de observações sobre a mentalidade dos povos da região, os efeitos da stalinização e as consequências deixadas após o fim da União Soviética.

Mesmo sendo um livro de caráter mais paradidático, foi uma leitura da qual aprendi muito, justamente porque essa parte da Europa costuma ser pouco abordada. Aprendemos bastante sobre a Europa Ocidental, sobre a Segunda Guerra Mundial a partir da Alemanha e dos países do norte europeu, mas a Europa Central aparece frequentemente como se estivesse à margem desses processos, como se não tivesse sido uma das regiões mais duramente atingidas pelos conflitos.

Na Primeira Guerra Mundial, por exemplo, costuma-se mencionar apenas o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro em Sarajevo, como se esse evento resumisse a participação da região no conflito. No entanto, a Europa Central sofreu profundamente com a guerra, suas rupturas políticas, deslocamentos populacionais e redefinições territoriais — aspectos que o livro ajuda a recolocar em perspectiva.

Vale a leitura, sobretudo para quem deseja compreender melhor a complexidade histórica dessa região decisiva e frequentemente esquecida.

                            Janaina Martins Cordeiro é professora de História Contemporânea



domingo, 15 de fevereiro de 2026

RESISTÊNCIA, COLABORACIONISMO E HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


 

UMA MULHER SEM IMPORTÂNCIA

A história secreta da espiã americana mais perigosa da Segunda Guerra Mundial

SONIA PURNELL

PLANETA – 1ª ED. – 2021

416 páginas


Uma Mulher Sem Importância, de Sonia Purnell, narra a extraordinária trajetória de Virginia Hall, uma mulher de coragem e determinação incomuns. Nascida nos Estados Unidos em uma família de posses, seu destino parecia ser o casamento conforme os desejos de sua mãe, mas Hall aspirava a muito mais. Com o apoio do pai, foi estudar na Europa e sonhava em tornar-se diplomata em uma época em que tal carreira era praticamente inacessível às mulheres.

Um revés inesperado ocorreu na Turquia, quando, em um acidente de caça, Hall disparou acidentalmente no próprio pé, necessitando de amputação acima do joelho devido a uma gangrena. A partir daí, passou a usar uma perna mecânica, carinhosamente apelidada de Cuthbert, sem que isso diminuísse sua determinação.

Com o estourar da Segunda Guerra Mundial, Hall ingressou na SOE, o serviço secreto britânico, e atuou como espiã na França, país que amava como uma segunda pátria. Lá, desempenhou um trabalho imenso com a resistência: treinando combatentes, fornecendo armas, elaborando planos de resgate para prisioneiros e promovendo sabotagens contra os alemães. Apesar de sua coragem e eficácia, jamais recebeu o reconhecimento que merecia durante a vida, muitas vezes devido ao machismo que impedia que suas realizações fossem vistas como equivalentes às dos homens, mesmo quando as superava.

Após a guerra, Virginia Hall trabalhou na recém-criada CIA nos Estados Unidos, novamente enfrentando o silêncio e a falta de reconhecimento. Considerada uma das maiores inimigas do Terceiro Reich, foi procurada incansavelmente, mas nunca capturada, embora tenha perdido amigos e companheiros, especialmente devido ao agente duplo Robert Alesch.

O livro de Purnell não só celebra a vida desta mulher extraordinária, mas também oferece um retrato detalhado da resistência francesa, do colaboracionismo e do contexto de Vichy e do governo de Pétain, proporcionando uma compreensão profunda do período histórico e da luta de indivíduos excepcionais contra o totalitarismo.


Sonia Purnell é uma jornalista e escritora inglesa. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

MEMÓRIA, SILÊNCIO E HERANÇA MORAL NO PÓS-GUERRA ALEMÃO

 


À SOMBRA DO MEU IRMÃO

As marcas do nazismo e do pós-guerra na história de uma família alemã

UWE TIMM

DUBLINENSE – 1ª ED. - 2014

160 páginas 

Durante a Segunda Guerra Mundial, Uwe Timm era apenas uma criança. O irmão mais velho, ao contrário, alistou-se na SS e morreu jovem no front. No pós-guerra, esse irmão ausente transforma-se no ídolo silencioso da família — um herói congelado no tempo, protegido pela morte e pela recusa coletiva de olhar para o que o nazismo realmente foi.

Já adulto, Timm sente a necessidade de compreender. Não para absolver, mas para entender como isso foi possível. Ele parte então para uma investigação íntima: relê obsessivamente o diário do irmão, revisita cartas enviadas do front na Ucrânia, busca indícios de humanidade, dúvida, culpa. Não encontra. O que emerge é uma normalidade perturbadora, uma ausência quase total de empatia pelo sofrimento alheio.

Um dos momentos mais chocantes do livro está no contraste entre dois relatos. Em uma carta, já no final da guerra, o irmão se diz horrorizado com o bombardeio de Hamburgo pelos aliados — um crime contra civis, mulheres, crianças e idosos. Em outra passagem, descreve com orgulho a destruição dos fornos de uma aldeia ucraniana: os tijolos seriam usados para permitir a passagem dos tanques na lama. Não há qualquer reflexão sobre o que isso significaria para a população local: a perda do meio de cozinhar, de se aquecer no inverno rigoroso, a morte provável de idosos, mulheres e crianças. Para Timm, essa assimetria moral é devastadora: quando a violência atinge “os nossos”, é crime; quando atinge “os outros”, é feito de guerra.

O livro inteiro é atravessado por essa busca dolorosa de compreensão. Como pessoas comuns, capazes de afeto na vida cotidiana, podem perder completamente a capacidade de reconhecer o outro como humano? Como a guerra produz essa anestesia moral? E, talvez mais inquietante: como o pós-guerra permitiu que tantas famílias alemãs se colocassem apenas como vítimas, desviando o olhar dos crimes cometidos em seu nome?

Há também uma dimensão íntima e familiar profunda. Por que esse irmão mais velho permaneceu como ideal do pai, enquanto o caçula, que não matou ninguém, que era apenas uma criança durante o regime nazista, jamais ocupou o mesmo lugar? A pergunta atravessa o texto sem nunca se resolver plenamente, porque o que está em jogo não é apenas uma rivalidade fraterna, mas o peso simbólico do silêncio, da negação e da herança moral não elaborada.

À Sombra do Meu Irmão é um livro incômodo e necessário. Ele mostra como é fácil não querer ver, não querer saber, não reconhecer os próprios erros — e ainda transferir a culpa para os outros. Em tempos de radicalizações e revisionismos, a leitura se impõe como um alerta: a barbárie não nasce apenas de monstros, mas de pessoas comuns que aceitam calar. E esquecer que quem iniciou a guerra foi Hitler e que o esquecimento nunca é neutro.


Uwe Timm nasceu em Bad Kreuznach, Alemanha, em 1940. É um escritor alemão


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A guerra vista por uma mulher

 

O MUNDO QUE ENLOUQUECEU

OS DIÁRIOS DA GUERRA 1939 – 1945

ASTRID LINDGREN

MADRAS EDITORA – 1ª ED. 2020

368 páginas 


Astrid Lindgren é uma escritora de livros infantojuvenis reconhecida internacionalmente, sobretudo por sua série “Pippi Meialonga”. Durante a Segunda Guerra Mundial, ela manteve diários pessoais, e são justamente os registros desse período que nos são apresentados nesta publicação.  

Estamos acostumados a pensar a Segunda Guerra como a invasão nazista de territórios alheios, em busca do que Hitler denominava o “espaço vital” da Alemanha. Há inúmeras publicações sobre o tema; no entanto, elas geralmente se concentram na Inglaterra, França, Itália, Áustria, Polônia, Bélgica, no Holocausto e, ainda, nos Estados Unidos, no ataque a Hiroshima e Nagasaki e no efeito letal da bomba atômica. Publicações históricas, relatos pessoais e diários não faltam – o que falta, muitas vezes, é o olhar sobre outros países.  

A Segunda Guerra Mundial faz jus ao seu nome: de fato, atingiu muitos países diretamente e outros tantos de forma indireta. Neste livro, encontramos o relato de uma escritora sueca sobre o que aconteceu nos países nórdicos: Suécia, Finlândia e Noruega.

No primeiro momento da Guerra, Stálin firmou um pacto com Hitler e também passou a invadir países, entre eles a Finlândia. Somente quando Hitler rompeu o pacto e invadiu a Rússia ocorreu a reviravolta, levando Stálin a se unir aos aliados.

Costumamos pensar que, à exceção dos países do chamado Eixo – Itália, Alemanha e Japão –, todos estariam automaticamente contra Hitler. É justamente aí que este diário nos surpreende. Com a invasão da Finlândia pelos russos, o maior medo dos suecos era que o exército vermelho avançasse também sobre a Suécia, o que levou parte da população a preferir, paradoxalmente, uma invasão alemã. Não se tratava de adesão ao nazismo, mas de uma escolha pautada pela sobrevivência nacional. A Suécia foi, afinal, o único país da região que conseguiu se manter oficialmente neutro e não ser invadido por nenhuma potência durante a guerra.

O diário relata o cotidiano dos suecos durante o conflito. Por terem permanecido neutros, em comparação com outros países europeus, encontravam-se em uma situação relativamente privilegiada. Ainda assim, Lindgren demonstra uma percepção aguçada sobre o conflito mundial e sobre o que estava ocorrendo em outras partes da Europa. Ela lia jornais, recortava artigos e os guardava, compondo uma espécie de arquivo íntimo da guerra.

 Ao mesmo tempo, emergem as preocupações de uma mãe, esposa e amiga em tempos de conflito, quando ainda era uma dona de casa – não a escritora consagrada que viria a se tornar.  Trata-se do relato de uma civil que não esteve nos campos de batalha, não era judia, não foi perseguida nem presa em campos de concentração. Vivendo em um país que conseguiu se manter à margem da guerra, ela ainda assim registra, com intensidade, a angústia, o medo e a inquietação que atravessavam o cotidiano. Esses sentimentos permeiam os diários e revelam que, mesmo fora das frentes de combate, ninguém permaneceu ileso.



Astrid Lindgren nasceu em Vimmerby, Suécia, em 1907 e faleceu em Estocolmo em 2002. Foi uma autora de livros infantis traduzidos em 85 idiomas em mais de 100 países. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

LIVRO: INVERNO DE PRAGA - Uma história pessoal de recordação e guerra, 1937 - 1948 - MADELEINE ALBRIGHT



Albright, Madeleine. 1ª ed. Objetiva, 2014
479 páginas
Tradução: Ivo Korytowski
Título original: Prague Winter: a personal Story of remembrance and war, 1937-1948

"ÀQUELES QUE NÃO SOBREVIVERAM, MAS NOS ENSINARAM COMO VIVER E POR QUÊ."

Madeleine Albright foi Secretária de Estado dos EUA e neste livro ela nos relata a história de sua família durante a Segunda Guerra Mundial, mas muito mais, ela nos conta a história da Tchecoslováquia e do Leste Europeu durante a guerra e também sobre o que ocorreu na Europa.

Albright era uma criança quando a guerra começou e somente muitos anos depois, quando seus pais já não viviam, ela tomou conhecimento do seu lado judaico e do destino de muitos de seus familiares. O livro é um relato sobre a guerra baseado numa extensa pesquisa, mas é também o relato pessoal de Madeleine e de sua família.

Achei interessantíssimo, pois temos muitas informações sobre os países da Europa Ocidental, mas pouco sobre o que ocorreu no Leste Europeu em países como Hungria, Romênia, República Tcheca, Eslováquia, a antiga Ioguslávia entre outros.

O livro inicia com um relato sobre a história da Tchecoslováquia, de sua formação inicial, Boemia, Morávia, Eslavos, ainda sob o Império Austro-Húngaro. Conta as lendas e costumes, os principais heróis. Algo que eu pessoalmente desconhecia e me enriqueceu muito, me levando a assistir o filme "A Avó" que já postei aqui no Blog. São muitas informações interessantes e que enriquecem.

O relato inclui toda a diplomacia que não surtiu nenhum efeito sobre Hitler, nos ensina a ser mais perceptivos, a ter mais cuidado. Tanto Hitler como Stálin mentiam, enganavam, não cumpriam com sua palavra, mas os outros países também visavam seus interesses e neste jogo não perceberam diante do que estavam e o que poderia vir a ocorrer.

A família de Madeleine consegue se exilar na Inglaterra, mas muitos de seus familiares ficaram e depois morreram de fome, doenças ou nas câmaras de gás. Ela relata o bombardeio de Londres, e a luta para voltar à democracia e liberdade. Acompanha principalmente Benes no exílio e suas tentativas para manter a Tchecoslováquia como um país e livre após a guerra, o que infelizmente não ocorreu. Este país que havia atingido sua independência e se formado logo após o fim da Primeira Guerra teve curta duração.

Após o fim da Segunda Guerra o Leste Europeu passou a ser um satélite da Rússia, estavam atrás da Cortina de Ferro, e apesar de toda a luta a Tchecoslováquia também ficou ali. Neste momento a família de Madeleine que havia retornado à Praga e depois ido para Belgrado, numa Iugoslávia já sob a ditadura de Tito, acabou pedindo exílio aos Estados Unidos.

Um livro que trata da história, mas também de pessoas, de todas que arriscaram suas vidas, das que morreram, das que sobreviveram, que nos traz as decisões terríveis que tiveram que tomar, onde o contexto não permite decisões morais, e sim de sobrevivência. Não há como julgar, pois somos incapazes de responder o que faríamos na mesma situação. A guerra trouxe a tona o que há de pior no ser humano, mas também o que há de melhor.

Recomendo a leitura, um livro belíssimo, sobre uma vida , sobre várias vidas e sobre um momento trágico da história do mundo.

Madeleine Albright nasceu em 1937 em Smíchov, República Tcheca foi a 64ª Secretária de Estado dos Estados Unidos, tendo sido a primeira mulher no cargo. 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

LIVRO: HITLER A TIRANIA E A PSICANÁLISE - Ensaio sobre a destruição da civilização - JEAN-GÉRARD BURSZTEIN



Bursztein, Jean-Gérard. Companhia de Freud, 1998
96 páginas
Tradução: Dulce Duque Estrada
Título Original: Hitler, la tyrannie et la psychanalyse - Essai sur la destruction de la civilisation

Um livro muito interessante com a análise sobre o nazismo e Hitler pelo viés da psicanálise nos oferecendo uma resposta ao Por que? por que o povo alemão aderiu à Hitler? por que Hitler conseguiu fazer o que fez?

Bursztein parte do laço social, o que nos une aos outros, agrupando-nos através da cultura numa civilização. Pelo viés da psicanálise somos introduzidos na Lei pelo pai que interfere na relação fusional entre mãe e filho levando-o a se separar e desistir de seu desejo pela mãe voltando-se para o mundo, para outros, e fazendo desta falta seu desejo de se mover. É a aceitação inconsciente da diferença homem e mulher e da interdição do incesto. Recalcamos então o ódio ao pai, este que impõe a lei e o transformamos no pai simbólico, o que nos rege em nossos valores, princípios e moral.

Os judeus são um povo que não se referem à um país ou uma língua, mas sim à lei, a Torá, e por isto mesmo representam este pai. A Alemanha no pós Primeira Guerra estava deprimida, e Hitler encarna o ideal de eu que o povo busca, utiliza-se do mito nacional, do povo ariano, da cultura germânica resolvendo para todos o problema que enfrentavam, nada como um pai que vem socorrer e acaba com os outros que são a ameaça.

Quando se rompe o laço social, ou seja, a lei que une os seres humanos, instala-se o que Bursztein chama de psicose social. As pessoas passam a não se importar mais com o outro, e buscam um bode expiatório para ser o responsável por todos seus problemas.

Por outro lado, Hitler é um psicótico, delira, tem visões, megalomaníaco. Ele hipnotiza o povo, fala e eles aderem, e como a psicose social elimina toda e qualquer moral, não irão contra ele. Hitler está acima da lei, está foracluído, só faz o que quer, e tudo gira em torno dele. Não há mais a lei, a civilização, apenas ele e o povo alemão.

Obviamente não foram todos os alemães que aderiram, mas a grande maioria sim, o que permitiu o que aconteceu, por que Hitler sozinho não teria conseguido fazer o que fez. Só foi possível com o apoio do povo em seu ódio ao judeu.

O racismo é sempre um ódio ao diferente. Porém o judeu é um semelhante, ele é assimilado, integrado, e no caso da Alemanha, se consideravam alemães. O que faz a diferença aqui é o significante judeu, e o que ele diz, transformando então os judeus em diferentes.

O que ocorreu com o nazismo é que temos o mito como referência delirante ( o mito do povo ariano, puro, belo e perfeito), a cultura é reduzida à mitologia e o direito é uma ideologia delirante (Hitler acima da lei, fora da lei), e eis que o laço social se rompe. A civilização se reduz à mestria e emerge um tirano. Não há mais espírito crítico, identificação simbólica.

Ao contrário de uma civilização com laço social, onde o mito é uma referência nacional e possui significantes de referência simbólica, a cultura é um discurso (na realidade vários discursos), o direito é uma autoridade legítima e a civilização anda.

Um livro que vale a pena ser lido para melhor compreensão não só do nazismo, mas de todas as tiranias, e das perversões também.


Jean-Gérard Bursztein é um psicanalista francês e doutor em filosofia. 

sábado, 24 de maio de 2014

LIVRO: TU CARREGAS MEU NOME - A herança dos filhos de nazistas notórios - NORBERT & STEPHAM LEBERT


Lebert, Norbert & Stephan. Record, 2004
206 páginas
Tradução: Kristina Michahelles


Um tema tabu, pouco estudado e revelado, e também pouco pensado. Costumamos pensar nas vítimas, na herança psíquica de seus descendentes, os traumas, mas não pensamos no que aconteceu com os filhos dos nazistas, principalmente dos líderes que foram julgados e condenados à morte ou a prisão perpétua ou por muitos anos. O que aconteceu com eles? quais os traumas que carregam, qual o peso deste fardo?

Norbert Lebert, pai de Stephan, um jornalista, em 1959 entrevistou filhos e filhas de nazistas como Rudolf Hess, condenado à prisão perpétua, Martin Bormann, desaparecido, Hermann Göring, condenado à morte e que se suicidou antes, Heinrich Himmler, que se suicidou quando foi capturado, Baldur von Schirach, condenado a 20 anos de prisão e Hans Frank, condenado à morte.

O que era ser portador deste sobrenome? o nome de seu pai que se tornou ou uma vergonha para alguns ou um símbolo de uma glória perdida para outros?

Quarenta anos depois, seu filho, Stephan retomou seu trabalho para saber o que havia acontecido com eles, o que haviam feito de suas vidas e como lidavam com esta herança. Quais as consequências de ser portador deste nome? como isto havia afetado a vida deles, seja para melhor ou para pior.

Não devemos ignorar que estes criminosos eram seus pais, e que se por um lado foram cruéis, sádicos, perversos, autoritários, e levaram a morte milhões de pessoas, por outro, eram bons maridos, bons pais de família, amorosos com seus filhos. Como separar este pai amoroso do pai acusado de crimes tão hediondos? O grande erro é pensar que seres assim são maus com todos, não, eles também tem um lado bom, amoroso, gentil, educado. Isto assusta, pois nos revela que qualquer um pode se transformar num monstro assassino, e realmente é assim. Quantas vezes não ouvimos relatos sobre um psicopata de como ele era um bom vizinho, não incomodava ninguém, era educado? Sim, todos nós carregamos em si mesmo o mau e o bom, depende de vários fatores, como contexto, entorno, situações que surgem para que o gatilho seja ativado ou não.

A Alemanha foi imersa numa ideologia fascista, estava traumatizada com a Primeira Guerra, derrotada, humilhada, e eis que surge um líder, um bom pai, que vem para resolver tudo isto e devolver ao país seu lugar e orgulho. Os comícios, a juventude hitlerista, a mídia, a propaganda, e a ameaça àqueles que não aderiam. Então, o que dizer dos filhos? que eram pequenos na época da guerra, alguns com 03 anos de idade, como poderiam ter consciência do que acontecia? como podem ser responsabilizados pelos atos dos pais? que culpa eles tem? Mas eles são símbolos, são o nome do pai.

Mas a questão é mais profunda. Como lidar com este pai? com este nome? como viver com isto? O filho se identifica com os pais, são seus modelos. Como fazer desaparecer um passado, a infância e a família?

O livro busca algumas respostas. Stephan volta a entrevistar alguns deles e nos traz o relato de 1959 e o atual. O que cada um deles fez.

Wolf-Rüdiger Hess, filho de Rudolf Hess; Martin Bormann filho e Martin Bormann pai, Niklas e Norman Frank, filhos de Hans Frank; Gudrun Himmler, filha de Himmler, Edda Göring, filha de Hermann Göring, os irmãos Von Schirach filhos de Baldur Von Schirach e Karl-Otto Saur filho e pai.

Vários escreveram livros sobre seus pais. Alguns tentam resgatar o nome, outro quer destruir o pai, ainda há o que procura a religião. A negação do que ocorreu, se negar a enxergar para alguns e para outros a maturidade suficiente de enfrentar a realidade. A sacralização do pai ou sua destruição. Alguns se fecham em seu mundo negando tudo, não conseguindo enxergar o que houve, outros procuram formas possíveis de viver, constroem um mundo para poder viver.

"Podemos dizer que os descendentes dos nazistas se situam numa zona fronteiriça entre criminosos e vítimas"

(...) o criminoso se realiza através do seu ato, enquanto a vítima é interrompida em tudo aquilo que ainda quer realizar."

E o que ficou no meio? no liminar? Nenhum deles é culpado ou responsável pelo o que fez seu pai, e todos amavam o pai, mas alguns admitem o horror que o pai fez, provocou, outros não conseguem ver.



Wolf-Rüdiger Hess 









 Martin Bormann filho

Gudrun Himmler

Edda Göring e o pai

karl-Otto Saur filho


quinta-feira, 22 de maio de 2014

LIVRO: OS JULGAMENTOS DE NUREMBERG - Os nazistas e seus crimes contra a humanidade - PAUL ROLAND



Roland, Paul. M. Books do Brasil. 2013
Tradução: Marisa Rocha Motta
208 páginas

Roland inicia seu livro nos falando do porque de escrever novamente sobre algo que já foi muito estudado, divulgado através de livros e filmes, mas concordo plenamente com ele, é preciso estar sempre relembrando o que foi todo este horror uma vez que ainda nos dias atuais temos pessoas que acreditam nesta ideologia e inclusive negam o holocausto como se fosse uma mentira dos aliados. E temos os neonazistas que continuam com o antissemitismo e considerando Hitler um herói. Os líderes do nazismo "assumiram um status quase mítico nas mentes daqueles que não passaram pela experiência da guerra ou os horrores dos campos de concentração. Existe um perigo real que nas próximas gerações, eles seja reduzidos a vilões bidimensionais, não mais reais do que as sinistras caricaturas da SS nos filmes de Indiana Jones" escreve Roland.

O livro reconta os julgamentos dos principais líderes que foram apanhados, seu comportamento, sua defesa, as acusações e os veredictos. Dr. Gilbert que foi o psicólogo que atendeu aos prisioneiros fala sobre suas impressões e da atitude e reação dos acusados. Há relatos de testemunhas, e uma das coisas mais chocantes que eu vi até o momento, e já vi muitas fotos e relatos sobre o assunto, mas isto eu ainda não sabia, que é o uso de uma cabeça humana de um assassinado no campo como peso de papel na mesa de Ilse Koch, mulher do primeiro comandante de Buchenwald.

Há também os relatos sobre o trabalho forçado, escravo utilizado na época da Segunda Guerra por grandes empresas, feito por prisioneiros capturados em países sob ocupação e pelos judeus. As condições destes escravos não era melhor do que a dos judeus, exceto que ao invés de ir para uma câmara de gás, morriam de exaustão, fome, doenças.

O livro ainda trás um breve relato dos outros julgamentos, como os dos médicos, juízes e colaboradores menores na hierarquia. Hitler, Goebbels e Himmler se suicidaram, mas Göring foi capturado, julgado e condenado à morte. É inacreditável o que faz uma ideologia levando-os a acreditar piamente que estavam corretos e com isto não sentir culpa ou arrependimento.

A indignação dos líderes condenados a morte foi unicamente pelo fato de ser por enforcamento, o que foi considerado desonroso. Se consideravam mártires.

É realmente preocupante, pois ali foram julgados seres humanos, que também tinham seu lado bom, era bons pais, bons maridos e amavam sua pátria, e mesmo assim, houve toda esta crueldade, bestialidade e frieza nestes mesmos seres que não se incomodavam com a dor e o sofrimento dos que consideravam não humanos, uma raça inferior, desprezíveis. Há depoimentos onde se diz que o que fizeram era necessário, precisavam fazer isto para limpar a Alemanha e a Europa ocupada.

Os julgamentos de Nuremberg começaram em 20 de novembro de 1945 e terminaram em 13 de abril de 1949.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

LIVRO: A DAMA DOURADA -A extraordinária história da obra-prima de Gustav Klimt, Retrato de Adele Bloch-Bauer - ANNE-MARIE O'CONNOR



O'Connor, Anne-Marie. 1ª ed. José Olympio Editora. 2013
Tradução: Mario Pontes
474 páginas.
Título original: The lady in gold: the extraordinary tale of Gustav Klimt's masterpiece, Portrait of Adele Bloch-Bauer .

Viena, final do século XIX, um momento extremamente rico quando Freud criava a psicanálise, Wittengestein e seu pensamento, as artes com seus pintores e músicos, mas que condenava as mulheres que desejassem ir para a Universidade ou votar. Adele Bloch-Bauer casada com Ferdinand Bloch-Bauer irá ignorar estas convenções e posar para Gustav Klimt que era considerado um sedutor, dizia-se que tinha casos com todas suas modelos.

Com a Segunda Guerra Mundial e a ascensão do nazismo a família de Adele, que era judia, terá que fugir, ir para o exílio, e para isto muitas vezes eram forçados a vender suas obras de arte ou doá-las para pagar a taxa para sair do país. Tudo que ficou para trás foi roubado pelos nazistas ou até mesmo por aqueles que eram antissemitas e colaboracionistas e ficaram no país. Adele já havia falecido, aos 44 anos de uma meningite, antes da guerra, e havia deixado em testamento ao seu marido seu desejo de que as telas fossem doadas ao Belvedere em Viena, um museu de arte. Com sua morte as telas passaram ao marido que com a guerra teve que fugir e perdeu tudo.

O livro nos relata a história de Adele e sua família, a guerra, e o pós-guerra. Maria Altmann filha da irmã de Adele é uma das herdeiras, e irá lutar para recuperar as telas no pós-guerra levando 50 anos para conseguir. Assim que a guerra terminou tudo que foi roubado não foi devolvido e isto foi criando processos de restituição aos seus legítimos donos, uma vez que eles foram forçados a vender ou a doar.

Normalmente numa guerra estes roubos são considerados butim de guerra, mas a questão do nazismo e do extermínio dos judeus, por terem sido forçados a fugir e entregar seus bens, pela apropriação inclusive dos imóveis por pessoas que não eram soldados, o que ocorreu em quase todos os locais onde haviam judeus que foram deportados ou fugiram, os sobreviventes iniciaram processos para recuperar pelo menos uma parte de seus bens. A Áustria se posicionava como vítima do nazismo, porém a situação real não era bem esta, eles festejaram quando foram anexados à Alemanha e receberam com aplausos os nazistas que acreditavam lhes devolveriam o esplendor de antes da Primeira Guerra. O país se negou a devolver as obras alegando que pertenciam a cultura local, e que no caso do quadro de Adele ele fora doado por ela ao museu.

A questão era, Adele o doaria se tivesse vivido o suficiente para ver o que aconteceu? o que houve com sua família? Legalmente o quadro pertencia ao seu marido, e este não o doou. O quadro foi considerado arte degenerada, porém ele exercia um fascínio tão grande que lhe foi roubado a identidade também, passando a ser identificado como A dama dourada, e não mais como um retrato de Adele, que era judia.

Um livro interessante, que além da história da família Bloch-Bauer, de um retrato da segunda guerra na Áustria, no fala principalmente do saque das obras de arte efetuada pelos nazistas para atender ao desejo de Hitler de ter um museu do führer e à ganância de outros.

Uma pequena ressalva, há momentos no livro que se divaga um pouco, trazendo informações muito superficiais sobre Freud, por exemplo, que seriam dispensáveis, uma vez que não fazem muita conexão ao assunto e ficam como que perdidas no relato. É como uma demonstração excessiva de cultura que é desnecessária dentro do relato que por si só já é rico o suficiente e interessante.

ANNE-MARIE O'CONNOR - correspondente de guerra, repórter cultural que se interessa pela criação e destino das obras de arte. 

GUSTAV KLIMT 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

LIVRO: HANNS & RUDOLF - O judeu-alemão e a caçada ao Kommandant de Auschwitz - THOMAS HARDING


Harding, Thomas. Rocco, 2014
Tradução: Ângela Lobo
302 páginas
Título Original: Hanns and Rudolf - the german jew and the hunt for the kommandant of Auschwitz

Thomas Harding comparece ao velório de seu tio-avô Hanns e durante a leitura do elogio fúnebre, uma retrospectiva da vida do falecido, ouve pela primeira vez que Hanns foi o responsável pela busca e prisão de Rudolf Hoss, o Kommandant de Auschwitz. Surpreendido pela revelação decide empreender a busca  desta história, documentos, relatos, para poder reconstruir esta fato da história de sua família.

O livro começa nos falando da infância de Hanns que tinha um irmão gêmeo Paul em Berlim e de sua predileção por pregar peças nos outros nos termos de um Pimentinha ou Max und Moritz. Viviam uma vida feliz, uma família judia que respeitava sua religião mas também eram seculares. O pai Alfred era médico e tinha uma excelente posição na sociedade. Já a infância de Rudolf foi triste e solitária, sua mãe vivia ocupada com seus afazeres e o pai era fanático e intolerante em termos religiosos. Ele não tinha com quem brincar, uma vez foi sequestrado por ciganos, mas graças a um fazendeiro que o reconheceu foi salvo. Após ter se confessado a um padre que contou o segredo confessional ao seu pai e sendo castigado por isto perdeu a vontade de seguir a vocação de ser padre.

A juventude deles é relatada, sendo que Hanns teve que fugir para Londres com sua família, uma vez que o nacional-socialismo estava crescendo na Alemanha e quando o nome de seu pai apareceu na lista dos próximos a serem presos a decisão foi tomada. Alfred que estava em Londres neste momento não mais retornou, e todos foram uma após outro conseguindo chegar à Inglaterra. Já Rudolf se alistará e participará da Primeira Guerra Mundial. Ao retornar encontrou tudo mudado, sua mãe havia falecido, seu tio e tutor havia enviado suas irmãs para um convento e vendido a casa da família e dado fim a todos os pertences pessoais de Rudolf. Ele então se juntou ao Freikorps que eram unidade paramilitares independentes do controle do governo de homens armados que seguiam doutrinas de nacionalismo e disciplina. Foi neste grupo que ele teve um contato real com a violência e brutalidade, muito maior do que durante a guerra, e onde se jurava lealdade incondicional a uma causa e principalmente a um líder. Quando Martin Bormann assassinou um considerado traidor Rudolf assumiu a autoria para proteger seu amigo e ao contrário de sua expectativa acabou preso e ficou 04 anos na cadeia. Quando saiu ele quis voltar para o campo, seguir seu sonho, cuidar de terras e animais. Através da Liga dos Artamanen foi para a Pomerânia trabalhar numa fazenda onde conheceu Hedwig e com quem se casou. Seu supervisor sugeriu a SS que mantivessem um estábulo para cavalos na Pomerânia, e Rudolf amava os cavalos e poderia cuidar disto, só que teria que se filiar à SS e assim foi. Começa seu caminho que irá trilhar dentro do nazismo até chegar a comandante do campo de Auschwitz.

O que chama a atenção no livro, além do relato biográfico de Hanns e Rudolf que nos conta paralelamente a história de tudo que ocorreu naqueles anos, são duas coisas: a primeira é a versão de um líder nazista que foi responsável pela morte de mais de três milhões de pessoas, de como ele não tinha emoções em relação à isto, era uma ordem e tinha que ser cumprida da melhor forma, com eficácia, este era seu papel. A ideia de que o responsável é apenas aquele que dá a ordem, no caso Himmler. A necessidade de agradar ao líder, de obedecer, de não discutir uma ordem. Percebe-se que a maioria dos que se envolveram nisto tudo seguia este padrão, a obediência cega. E sequer era por medo de represálias ou ser morto, eles eram cegos, literalmente, tinham que obedecer por que era assim. E ao mesmo tempo vemos um pai carinhoso, que ama seus filhos, que se preocupa com seus filhos, que tem um coração, é humano. Um psicólogo e um psiquiatra avaliram Rudolf após sua prisão, e ambos chegaram ao quadro de apático.

De outro lado, a segunda questão relevante do livro que raramente é falada é sobre o legado dos descendentes destes criminosos, seus filhos, netos. Eles precisaram apagar tudo que houve antes de durante a guerra, desaparecer literalmente, não podiam falar de sua infância, de seus pais, de nada. Uma das filhas de Rudolf mudou até o nome, seus filhos nada sabem de seu passado. Seu neto decidiu ir atrás da história, e ficou horrorizado, chegando a dizer que se soubesse onde estava enterrado iria até o túmulo do avô para urinar em cima. Os que sobreviveram carregam um fardo pesado e precisaram aprender a se calar, esquecer o que foram, de onde vêm e isto é algo terrível também. Que culpa pode ter uma criança que vivia com seus pais numa villa ao lado de Auschwitz? Ter que negar seu nome, o nome do pai.

A questão da obediência cega, imposta muitas vezes desde a infância aos filhos, não permitir que questionem algo, ou exponham seu desejo. A hiper valorização da disciplina e lealdada ao líder. O livro nos leva muito além da guerra e do holocausto, levanta questões psicológicas e atuais. A negação, a falta de remorso, a crença absoluta de ter feito o correto, de ser necessário tudo aquilo. E admitir apenas que o erro foi admitir a morte nos campos, que isto atraiu o ódio do mundo para a Alemanha.

Não se pode esquecer tudo isto, não apenas o horror que foi, mas principalmente é necessário compreender o lado psico-social que leva à isto, somente assim será possível evitar que isto continue se repetindo, como ocorre.
E uma coisa que chama muito a atenção é o fato de que a maioria deles precisava de um pai, e Hitler ou o chefe ao qual respondiam ocupava este lugar.


Rudolf Hoss nasceu em 1900 em Baden-Baden, na Alemanha e faleceu em 1947 em Birkenau-Auschwitz, na Polônia por enforcamento após ser julgado por seus crimes de guerra.

Alexander Howard Harvey, mais conhecido como Hanns nasceu em 1917 em Berlim e faleceu em 2006 em Londres.

Thomas Harding nasceu em 1968 e estudou Antropologia e Ciência Política na Westminster School.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

LIVRO: O ENIGMA DE ESPINOSA - IRVIN D. YALOM



Yalom, Irvin D. 1ª ed. Agir, 2013
Tradução: Maria Helena Rouanet
400 páginas
Título original: The Spinoza problen

A história do filósofo judeu que influenciou uma das maiores mentes nazistas.

Yalom é um terapeuta e psiquiatra que escreveu vários livros, entre eles alguns se utilizam dos filósofos como Niestzsche e Schopenhauer e agora Espinosa para nos ajudar a compreender a mente e o psiquismo do ser humano, além de proporcionar através de uma leitura gostosa uma introdução a estes que são considerados grandes filósofos e para muitos difíceis de compreender ao se ler os livros que eles mesmos escreveram.

Neste aqui é Espinosa, o filósofo judeu holandês que é mais conhecido pela sua excomunhão do que pela sua filosofia, até porque ler A Ética não é tarefa fácil. Yalom desejava escrever sobre ele mas não encontrava a maneira de fazê-lo até que foi à Holanda e visitou o museu do filósofo, com a esperança de encontrar lá algo que pudesse lhe permitir escrever sobre ele, mas foi ao ouvir seus acompanhantes falarem sobre o problema de Espinosa e sobre o nazismo que ele acabou encontrando seu material para a escrita.

Soube nesta ocasião que a ERR, a força tarefa nazista que se incumbiu de saquear as obras de arte para o Reich havia ido lá especialmente para pegar os livros de Espinosa. Yalom então recria esta história misturando história e ficção, e tentando imaginar porque Alfred Rosenberg, que chefiava a ERR poderia querer estes livros e qual era o problema.

Trabalhando com dois tempos, o de Espinosa no ano de 1656 e com Alfred no tempo antes e durante a Segunda Guerra Mundial ele traça um panorama da história dos judeus e também do racismo e antissemitismo, além da filosofia de Espinosa que neste livro se torna acessível.

Yalom vai além pois é um psiquiatra, e tenta desvendar a mente e o psiquismo destas duas figuras históricas, e para isto cria dois personagens fictícios, Franco no caso de Espinosa e Friedrich Pfister para Alfred.

Um livro que recomendo a leitura.

Irving D. Yalom nasceu em 1931 em Washington D.C. Filho de imigrantes russos formou-se em psiquiatria há 47 anos em Stanford. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

LIVRO: EM BUSCA DE SENTIDO - VIKTOR FRANKL



Frankl, Viktor. Editora Vozes, 2009
Publicação: 1946
Tradução: Walter Schlupp e Carlos Aveline
186 páginas
Título Original: Ein Psycholog erlebt das kozentrationslager

Neste livro o psiquiatra Viktor Frankl fala que aquele que passou por uma experiência traumática sabe compreendê-la de uma forma que aquele que não passou não consegue, apesar de não possuir o distanciamento exigido pela ciência e de que ocorrem distorções.

Em função de sua experiência e vivência em campos de concentração na segunda guerra ele questiona o que mantém o ser humano vivo, o que o faz viver? e costuma perguntar a seus pacientes que passam por sofrimentos difíceis por que ele não opta pelo suicídio?

O livro descreve o método psicoterapeuta de Frankl para encontrar uma razão para viver. Na primeira parte ele fala de suas experiências no campo de concentração e na segunda introduz a logoterapia.

Ele vai desviar de Freud e a sexualidade, apesar de sua admiração por ele, e penso que o faça pois viveu algo onde a sexualidade quase que desaparece, não havia nada sexual nos campos como acontece nos quartéis, com soldados em guerra, ou qualquer outra situação de reclusão ou aglomeração. Talvez seja o único lugar onde o sexo não pode diminuir a morte. Não há onde colocar uma libido. Mas há porém uma pulsão de vida que ainda prevalece nos que conseguem sobreviver a tudo que enfrentam.

Quando vivemos momentos que nos colocam diante da morte o sexo e a comida são formas de lidar com isto, mas nos campos justamente nem uma coisa nem outra, então eles sonhavam com comida e ao acordar enfrentavam o horror da realidade. Então Frankl questiona isto, o que mantém o ser humano vivo, sem a pulsão sexual e agressiva, onde ele busca forças? Quando a fome devora o próprio corpo transformando-o num esqueleto, quando o frio congela os dedos que caem ou são retirados com uma pinça? quantos aguentaram e como? por que? O que salvou os sobreviventes? Podiam se suicidar nas cercas elétricas como  muitos fizeram.

São estas perguntas e respostas que Frankl busca, o sentido para viver, o por que viver?

Mas eu me pergunto até que ponto isto é possível? sobreviver sim, continuar vivo sim, e realmente deve haver algo muito poderoso que permite isto em face a tamanhas atrocidades e dores, fome, frio e doenças, mas será que o psiquismo consegue elaborar todos estes traumas? como ficou o psiquismo dos que sobreviveram? Muitos se suicidaram depois, outros escrevem para tentar exorcizar.

Muitos não aguentaram não serem ouvidos, ninguém queria saber de tudo isto, principalmente depois da guerra, queriam comemorar, viver, foi uma época de gozo da vida. Quantos sobreviventes não se sentiram párias? um excluído? Muitos se casaram entre si, logo após a libertação e seguiram com a vida, mas a herança psíquica está nos filhos e quantas gerações serão necessárias para que isto desapareça?

No campo de concentração todos estavam na mesma situação, mas depois da libertação, enfrentar o olhar de nojo, pena do outro? ao invés de ser visto como um herói, que conseguiu sobreviver?

O que Viktor Frankl nos mostra é como buscar um sentido para a vida quando se passa pelo extremo da dor e da humilhação. Não penso que todos sejam capazes, mas para aqueles que conseguiram achar um sentido, aqueles que se dedicaram também ao outro no meio de tudo isto dando um sentido a si próprio no meio de tudo, é possível. O que te faz viver? um filho? um desejo que você acredita realizar? um sonho? as recordações que te sustentam?

Não é fácil quando se vive o que viveram os presos de campos de concentração, mas vários conseguiram não morrer ali. E não foi apenas a sorte, de não ser escolhido na seleção para a morte, muitos nem foram para as câmaras de gás, morreram antes ou se mataram.

Viktor transformou o maior sofrimento de sua vida, inimaginável para quem não o viveu, na logoterapia, transformou o trauma em algo que pode ajudar muitas pessoas, e isto sim, eu acredito seja uma forma de curar um trauma, transformá-lo em algo.


Viktor Frankl nasceu em 1905 em Viena, Áustria e faleceu em em 1997 com 92 anos na mesma cidade. Fundador da logoterapia que explora o sentido existencial do ser humano. Ficou preso nos campos de concentração por 13 anos, perdeu seus pais, seu irmão e sua esposa grávida mortos pelos nazistas.

Assista a entrevista com Viktor Frankl para saber mais: