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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A guerra vista por uma mulher

 

O MUNDO QUE ENLOUQUECEU

OS DIÁRIOS DA GUERRA 1939 – 1945

ASTRID LINDGREN

MADRAS EDITORA – 1ª ED. 2020

368 páginas 


Astrid Lindgren é uma escritora de livros infantojuvenis reconhecida internacionalmente, sobretudo por sua série “Pippi Meialonga”. Durante a Segunda Guerra Mundial, ela manteve diários pessoais, e são justamente os registros desse período que nos são apresentados nesta publicação.  

Estamos acostumados a pensar a Segunda Guerra como a invasão nazista de territórios alheios, em busca do que Hitler denominava o “espaço vital” da Alemanha. Há inúmeras publicações sobre o tema; no entanto, elas geralmente se concentram na Inglaterra, França, Itália, Áustria, Polônia, Bélgica, no Holocausto e, ainda, nos Estados Unidos, no ataque a Hiroshima e Nagasaki e no efeito letal da bomba atômica. Publicações históricas, relatos pessoais e diários não faltam – o que falta, muitas vezes, é o olhar sobre outros países.  

A Segunda Guerra Mundial faz jus ao seu nome: de fato, atingiu muitos países diretamente e outros tantos de forma indireta. Neste livro, encontramos o relato de uma escritora sueca sobre o que aconteceu nos países nórdicos: Suécia, Finlândia e Noruega.

No primeiro momento da Guerra, Stálin firmou um pacto com Hitler e também passou a invadir países, entre eles a Finlândia. Somente quando Hitler rompeu o pacto e invadiu a Rússia ocorreu a reviravolta, levando Stálin a se unir aos aliados.

Costumamos pensar que, à exceção dos países do chamado Eixo – Itália, Alemanha e Japão –, todos estariam automaticamente contra Hitler. É justamente aí que este diário nos surpreende. Com a invasão da Finlândia pelos russos, o maior medo dos suecos era que o exército vermelho avançasse também sobre a Suécia, o que levou parte da população a preferir, paradoxalmente, uma invasão alemã. Não se tratava de adesão ao nazismo, mas de uma escolha pautada pela sobrevivência nacional. A Suécia foi, afinal, o único país da região que conseguiu se manter oficialmente neutro e não ser invadido por nenhuma potência durante a guerra.

O diário relata o cotidiano dos suecos durante o conflito. Por terem permanecido neutros, em comparação com outros países europeus, encontravam-se em uma situação relativamente privilegiada. Ainda assim, Lindgren demonstra uma percepção aguçada sobre o conflito mundial e sobre o que estava ocorrendo em outras partes da Europa. Ela lia jornais, recortava artigos e os guardava, compondo uma espécie de arquivo íntimo da guerra.

 Ao mesmo tempo, emergem as preocupações de uma mãe, esposa e amiga em tempos de conflito, quando ainda era uma dona de casa – não a escritora consagrada que viria a se tornar.  Trata-se do relato de uma civil que não esteve nos campos de batalha, não era judia, não foi perseguida nem presa em campos de concentração. Vivendo em um país que conseguiu se manter à margem da guerra, ela ainda assim registra, com intensidade, a angústia, o medo e a inquietação que atravessavam o cotidiano. Esses sentimentos permeiam os diários e revelam que, mesmo fora das frentes de combate, ninguém permaneceu ileso.



Astrid Lindgren nasceu em Vimmerby, Suécia, em 1907 e faleceu em Estocolmo em 2002. Foi uma autora de livros infantis traduzidos em 85 idiomas em mais de 100 países. 

1947


 

1947
Elisabeth Asbrink
Editora Âyiné - 2023

280 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS: SUÉCIA 

1947 é um livro que nos apresenta os acontecimentos desse ano no mundo. Normalmente focamos em 1945, o imediato pós-Segunda Guerra Mundial, e 1947 acaba ficando como um ano meio esquecido — e, no entanto, de importância vital.

Mês a mês, Asbrink relata os principais eventos que ocorreram ao longo de 1947, intercalando a questão da Palestina, a situação dos judeus na Europa após o fim da guerra, a posição dos árabes palestinos e as reuniões de um grupo de países neutros que avaliaram o conflito para apresentar uma solução para a questão judaico-sionista. Ao mesmo tempo, ela nos mostra o que aconteceu com os nazistas após o término do conflito.

É um erro de percepção pensar que, com a morte de Hitler, houve o fim do nazismo. O suicídio do líder não encerrou as ideias defendidas pelos nazistas, que se espalharam pelo mundo em fuga e que, até hoje, continuam atuando. Muitos nazistas presos foram libertados devido à falta de estrutura e às condições financeiras precárias da Europa para mantê-los encarcerados. Logo após o fim da guerra, já se reuniam em grupos, mantinham um jornal e se pronunciavam em vários lugares, principalmente na América Latina, para onde muitos migraram.

No meio disso tudo, a autora insere Simone de Beauvoir, que viaja para os Estados Unidos, onde conhece Nelson Algren, seu grande amor. É também o momento em que ela começa a escrever O Segundo Sexo. No entanto, o livro deixa explícita uma Beauvoir que vive em seu próprio universo, sem uma visão mais ampla do mundo e de tudo o que estava acontecendo. Ela reclama que os suecos são tediosos, mas que possuem um bom whisky  e, portanto, está tudo bem. Beauvoir se dizia engajada, mas esse engajamento parece ter se limitado à Argélia e a situações que ocorriam na França.

Asbrink demonstra, ao longo do livro, que a nossa época atual começa em 1947, quando os Estados Unidos passam a assumir uma postura imperial e a se colocar como guardiões do mundo ocidental. A extrema-direita, hoje novamente presente, começa a se reestruturar nesse período. Também se delineiam a criação do Estado de Israel e a questão palestina, que repercutem de forma dramática até os dias atuais, assim como o surgimento de movimentos que mais tarde desembocariam na formação do Estado Islâmico.

Ao mesmo tempo, temos Simone de Beauvoir escrevendo seu livro mais famoso, que ainda hoje repercute entre feministas. Christian Dior lança suas coleções, transformando a feminilidade, poder-se-ia dizer, em uma forma de tortura com suas cinturas finíssimas, em contraposição a Chanel, que buscava conforto e liberdade para o vestuário feminino. Giacometti, por sua vez, deseja destruir todas as suas obras por sentir que ainda não havia alcançado o que buscava artisticamente. Talvez não por acaso, George Orwell está em uma ilha isolada escrevendo “1984”.

Entrelaçando essas histórias públicas, Asbrink insere também a história pessoal de sua família, mostrando como as grandes transformações históricas atravessam existências privadas e subjetividades individuais.

Talvez a maior força de 1947 esteja justamente em nos obrigar a abandonar a ilusão de que a história se organiza por rupturas claras. O fim da guerra não significou o fim das ideologias que a sustentaram, assim como o nascimento de novas ordens políticas não trouxe estabilidade, mas sim novas tensões que ainda atravessam o presente. Ao reconstruir esse período de reorganização global, Asbrink demonstra que a história não é feita apenas por tratados, fronteiras e líderes políticos, mas também por continuidades silenciosas, disputas simbólicas e escolhas que moldam o mundo de forma profunda e duradoura.

Ler 1947 é compreender que o nosso tempo não surgiu de forma repentina. Ele foi lentamente gestado e talvez ainda estejamos vivendo as consequências de decisões tomadas naquele momento histórico, sem que tenhamos, de fato, conseguido superá-las.



Elisabeth Asbrink nasceu Gotemburgo, Suécia, em 1965. É jornalista e escritora. 


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: HANNA E SUAS FILHAS - MARIANNE FREDRIKSSON




Objetiva, 1998
Tradução: Myriam Campello
312 páginas



O livro fala sobre três gerações fictícias de mulheres que viveram na Suécia entre o final do Séc.XIX até o final do Séc. XX. São elas: Hanna, a avó, Johanna, a mãe e Anna, a filha e que é quem nos conta a história.

A mãe de Anna está com Alzheimer, e ela encontra na casa dos pais uma foto de sua avó Hanna, vindo a se interessar pela história desta mulher, quem foi ela?

O livro nos mostra a história destas três mulheres, em suas épocas, e como se parecem com as nossas, no mundo de hoje. Os amores, filhos, o trabalho, a luta, a profissão, a família. Levanta a questão de ser mulher e de como isto muitas vezes pode ser difícil, doloroso, mas também prazeroso. Fala das relações entre as mulheres - avó, mãe, filha, neta, mas também mostra a força que é esta teia de ancestrais.

Ao mesmo tempo relata os acontecimentos de cada época, a política, a vida, os costumes, nos mostrando também o caminho percorrido pela mulher em sua busca por liberdade e poder viver de acordo com o que deseja.

Marianne Fredriksson é uma escritora sueca nascida em 1927 em Gotemburgo e que faleceu em 2007 na cidade de Estocolmo. Foi jornalista e somente em 1980 devido uma crise pessoal iniciou sua bem sucedida carreira de escritora.