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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

FILME: A PELE DE VÊNUS - 2013



Direção: Roman Polanski - 2013
Duração: 96 min
Título Original: La Vênus a la fourrure
Roteiro: Roman Polanski e David Ives
País: França - Polônia


Baseado no romance do século XIX do austríaco Leopold Sacher-Masoch publicado em 1870 que acabou originando o termo masoquismo, baseado em seu nome.

"E o todo poderoso o golpeia e o coloca nas mãos de uma mulher."

"Amar e ser amado é como ser encantado. Entretanto, mais forte e mais lindo. E esse tormento que me consome. A cópula com essa mulher para a qual sou um brinquedo, um escravo miserável, servil, o chão onde ela pisa, minha deusa, minha ditadura, minha vênus coberta por peles."

Thomas ( Mathieu Amalric) é um dramaturgo que pretende encenar no teatro uma livre adaptação do livro de Sacher-Masoch. Ele está a procura de uma atriz e tem dificuldades em encontrá-la. Mas eis que surge Vanda ( Emmanuelle Seigner), atrasada, toda atrapalhada, quase que implorando uma chance para fazer o teste do papel de Vanda, pois o personagem tem o mesmo nome.



Se no início Vanda parece despreparada além de criticar a peça aos poucos ela adentra o personagem de forma impressionante e conduz Thomas a desempenhar o papel de Severin. De repente já não sabemos o que é encenação e o que é realidade, os papéis se invertem, há momentos que Vanda o chama de Thomas e outros de Severin, levando-o a confessar que há muito de sua vida pessoal na peça.

Quando Vanda lhe passa (à Severin) a sua "pele" (no filme um cachecol de lã), suas mãos tremem. Vanda lhe pergunta o porque e indaga se em sua infância não houve algo ao que Severin responde: " nós todos somos explicáveis e permanecemos inextricáveis. A vida nos faz ser o que somos num instante, imprevisível." É quando ele lhe conta sobre sua tia que usava uma pele. Ele foi uma criança terrível que perturbava a vida dos criados e do gato, e também não se portava bem com sua tia, até o dia que ela resolve se vingar e lhe dar uma lição. Ela entra em seu quarto junto com duas criadas munida de uma vara, ele tenta fugir, mas as criadas o seguram, é jogado sobre a pele, e elas cavalgam sobre ele enquanto de calças arriadas a tia lhe dá uma surra, o chamam de menina. A tia ainda o obriga a agradecer de joelhos e a beijar seu pé. A partir deste dia uma pele nunca mais foi uma simples pele e uma vara uma simples vara. "Em um instante ela fez de mim este que sou agora."

Até os dias atuais ela retorna em seus sonhos, e Severin diz à Vanda que ela lhe ensinou a coisa mais preciosa do mundo, que nada é mais sensual que a dor, nem nada mais excitante que a degradação. Ela se tornou meu ideal diz ele. Desde então eu procuro sua réplica e quando encontrar essa mulher me casarei com ela.

Há muito de psicanálise nisto. Quando nos apaixonamos geralmente o fazemos por nós mesmos,ou seja, vemos no outro nosso ideal. Aqui no filme talvez Séverin diz meu ideal como o ideal de mulher para ele, ou seja, alguém que o faça sofrer. Mas ao nos apaixonarmos também vemos um traço, que geralmente é de nossos amores objetais primários, ou seja, normalmente a nossa mãe. Porém em casos de abusos na infância, de algo que marca muito forte, que causa um trauma, esta marca pode mudar e permanecer se não for analisada e desvendada, para poder ser superada. Há a introjeção do agressor ou a posição de objeto deste agressor. De cruel ele passa a ser o objeto da crueldade de outro, de um sádico. Por que sua tia bem o é, uma vez que não seria necessário isto para educar o garoto.

O filme pode ser visto também sob o viés da questão do poder. No amor como na política, só um pode ter o poder, diz Severin. Vênus só pode reinar em um mundo de escravos. No início Vanda parece frágil, está à mercê do poder do diretor da peça do teatro, mas aos poucos isto muda, e na medida em que ambos vão ensaiando a peça, eles encarnam seus personagens, trocam de lugar, e ao final temos Vanda no lugar do mais forte, do que subjuga o outro.



Mas se pensarmos no que aconteceu na infância de Severin, e o diretor Thomas não nega que há muito de sua vida e de si mesmo na peça, vamos ver alguém que tem o desejo da dor como prazer, e que irá em busca de alguém que seja o sádico. Porém Vanda questiona isto, não aceita o desejo de dominar pois compreende que ele ao lhe pedir que o domine a está submetendo ao desejo dele e com isto a domina. É aqui o ponto da liberdade de Vanda que não entra neste "jogo" nem de poder, nem do sadomasoquismo.

Temos uma cena num divã onde Vanda nos parece assumir o lugar de um psicanalista. Thomas está no divã e ela lhe fala de sua noiva e da relação dos dois. Fala sobre o desejo dele.

Um filme que fala do amor, do patológico, de desejos, de poder. Do querer ser um objeto para preencher um espaço vazio que se vê no outro.



Roman Polanski nasceu em 1933 em Paris, França. Emmanuelle Seigner, protagonista deste filme é sua esposa. 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

FILME: NARCISO NEGRO - 1947


Direção: Michael Powell e Emeric Pressburger
Duração: 104 min
Título Original: Black Narcissus
Roteiro: Michael Powell e Emeric Pressburger 
País: Reino Unido

Baseado no Romance homônimo de Rumer Godden 

Um grupo de freiras lideradas pela jovem Irmã Clodagh (Deborah Kerr) é enviado para um antigo palácio no Alto do Himalaia para estabelecer um convento. Elas serão recebidas por Mr. Dean (David Farrar) um estrangeiro que vive há tempos por ali. O povo local é cheio de crenças e medos, mas estimulados por um pagamento que recebem do líder local eles vão ao Convento onde as freiras oferecem atendimento médico e dão aulas. 




Porém, a presença de Mr. Dean afeta as freiras com sua presença, principalmente Irmã Rose (Kathleen Byron) que já era vista com pouca vocação. A atenção que ele dá à Irmã Clodagh despertará nela os piores sentimentos humanos, o ciúme, a inveja e raiva. Por outro lado a superiora também será afetada pela presença deste homem, lutando contra isto. O desejo que é recalcado pela missão religiosa aparece e pode levar a atos inimagináveis antes. Irmão Rose é quem mais sofrerá e seu desejo por Mr. Dean a levará a insanidade. 



A solidão no alto da montanha, o efeito da natureza como o vento que sopra constantemente, o abismo que as rodeia, tudo isto as afetara psicologicamente.O local acaba provocando em todas elas lembranças do antes de se tornarem freiras. Antes de ser transformado em convento o lugar era uma casa de mulheres, um harém, e possui em suas paredes pinturas eróticas. 



Apesar de ser um filme antigo as paisagens são muito bonitas, assim como a cultura local  é interessante. De uma feita ao tentarem ajudar uma criança que estava à morte e lhe dar um remédio serão acusadas de feitiçaria após a morte da criança. São mundos opostos, e a presença cristã ali não é assimilada. 




Um filme que nos fala do lugar do psiquismo diante de lugares e culturas diferentes capazes de afetar o inconsciente trazendo a tona o recalque, seja de uma vida passada que a opção pelos votos obriga a deixar para trás tentando apagar todos os traços de uma vida anterior, seja despertando novamente o desejo.

Michel Powell nasceu em 1905 em Bekesbourne, Reino Unido e faleceu em 1990 em Avening, Reino Unido e Emeric Pressburger nasceu em 1902 em Miskolc, Hungria e faleceu em 1988. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

FILME: A HISTÓRIA DA ETERNIDADE - 2014


Direção: Camilo Cavalcante - 2014
Duração: 120 min
Roteiro: Camilo Cavalcante
País: Brasil

Nosso sertão tantas vezes filmados está novamente neste filme, porém não vem para nos contar a dura vida do povo que o habita, ou falar das secas ou das injustiças, mesmo que a seca esteja presente no filme, o que este filme traz é a história de três mulheres e seus desejos. 



Logo no começo do filme vemos passar um enterro naquela vastidão com uma única árvore onde se abriga um sanfoneiro cego e um menino. É o enterro de uma criança e a mãe Querência (Marcelia Cartaxo) o segue com dor, apoiada por Das Dores (Zezita Matos). Em seguida vemos Alfonsina (Débora Ingrid) ouvindo uma música num rádio a pilha e sonhando com o mar até que seu pai (Claudio Jaborandy) e irmãos chegam e ela precisa servir a janta. Ela nunca senta à mesa com o homens.Em seguida ela pede permissão para fazer o prato de seu tio Joãozinho (Ihandhir Santos) e o leva até sua casa, este irmão desprezado por seu pai por ser um artista, se dedicar à arte e representações, e por isto considerado um vagabundo que nada faz, além de louco, porque ele tem epilepsia. 


Estas três mulheres que desejam, tem pulsões, amam, sonham e vivem neste pequeno vilarejo no meio do sertão limitadas pela região, pela seca, pela pobreza, pelas dificuldades e pelos homens, que são rudes, mas também doces como o sanfoneiro e Joãozinho, todos em tão pequeno espaço, mas que são como todos, como o ser humano, capazes de sonhar, de criar, de desejar, mas também de matar ao outro. 

Alfonsina a mais jovem, vai completar 15 anos e seu maior desejo é ver o mar. Ela pede ao seu pai que a leve, mas ele diz que ela ficou doida, mas que vai fazer um forró e matar quatro bodes para a festança. A jovem fica triste. Seu tio então lhe diz que tem uma surpresa e que tem a ver com o mar, mas que lhe dirá o que é no seu aniversário, o que será uma das mais belas cenas do filme, quando a arte e a imaginação é capaz de vencer todos os limites e trazer o mar para o sertão. A jovem está na fase das descobertas sexuais, e quem mais do que seu tio com sua sensibilidade poderia atraí-la? Ele resiste, mas ela não desiste. 



Querência logo no começo tem um homem que vai embora. O sanfoneiro esperava por isto há muito tempo, mas ela está triste, de luto. Ele então lhe diz que vai ficar ali fora tocando até ela abrir a porta e deixar seu amor entrar. 



Das Dores é viúva e quem cuida da igreja, tem um oratório em casa e sempre reza. Sua filha liga e avisa que o neto está indo para lá. O jovem chega, mas ele não foi para lá para visitar sua avó, está fugindo, fez coisas ruins e está sendo procurado, querem matá-lo. Das Dores sente atração pelo garoto. Ela abre sua mochila, pega uma cueca, depois encontra uma revista pornográfica que fica olhando. Seu corpo clama, arde. Ela o observa dormir. 



Joãozinho prepara uma apresentação. Coloca seu toca discos do lado de fora, ele teceu uma rede como de pescaria com vários objetos pendurados, usa como se fosse um xale e dança com a música "Fala" dos Secos e Molhados. 



Neste aparentemente pequeno mundo vemos um panorama do ser humano com seus desejos e dores, e a história da eternidade que se repete, onde o trágico acompanha sempre o humano. Também fiquei pensando no nome Alfonsina que deseja ver o mar e Alfonsina del mar.

Se Guimarães Rosa dizia que o sertão é o mundo, Cavalcante faz um filme onde mostra isto. 

Belíssimo filme. 

Camilo Cavalcante nasceu em 1974 em Recife, Pernambuco

segunda-feira, 6 de julho de 2015

FILME: STARTING OUT IN THE EVENING - 2007


Direção: Andrew Wagner - 2007
Duração: 111 min
País: Estados Unidos

Adaptação do livro homônimo de Brian Morton

Leonard Schiller (Frank Langella) é um velho escritor que tenta escrever um último romance. Ele já fez muito sucesso, mas foi esquecido. Uma jovem acadêmica, Heather (Lauren Ambrose), deseja escrever uma tese sobre ele e o procura. Inicialmente ele resiste pois não tem muito tempo e quer continuar escrevendo, mas ela é insistente e ele acaba aceitando responder suas perguntas. 



Heather lhe diz que deseja reintroduzi-lo no mundo literário e para isto sua tese é importante, mas precisa poder adentrar em seus pensamentos e na maneira como ele escreve seus romances o que leva Leonard a recordar seu passado, mas há coisas que ele prefere não falar e a implacável jovem não se intimida, seu único objetivo é sua tese e para isto usa de formas abusadas, chegando mesmo a tentar seduzi-lo, o que obviamente mexe com este homem, que apesar de idoso, está vivo. Ela irá descobrir coisas de sua vida e lhe dirá cruamente. Ela leva em conta apenas seus primeiros romances que a agradaram porque a ajudaram em um momento de sua vida, e quer compreender porque ele mudou seu estilo, o que ela não aceita, e em sua soberba juvenil não percebe que as coisas mudam e que estes outros romances podem agradar a outras pessoas, como de fato agradam. 

Ariel (Lili Taylor) é a filha de Leonard que mora sozinha e que ligeiramente desconfia desta jovem impetuosa, mas ela está envolvida também em suas questões amorosas e no desejo de ser mãe e ter uma família. Ela termina seu romance com Vitor quando ele decide pedi-la em casamento, pois o que deseja é ter um filho sozinha e não se casar com ele, mas é justamente neste momento que retorna a cidade após 05 anos seu antigo namorado Casey Davis (Adrian Lester) por quem ela ainda é apaixonada. 

Aos poucos todos eles irão se confrontar com suas questões e ter que tomar decisões sobre ceder ou não às demandas do outro, ao desejo do outro ao invés de ao seu próprio. 

Será após sofrer um AVC que Leonard irá repensar sua vida e ter uma atitude para com Heather que aplaudi. 

O filme faz um retrato também do que é ser um escritor independente, que não se dobra à mídia ou ao que as editoras compram, como vemos num momento do filme em que um amigo de Leonard lhe diz que o respeita muito para enganá-lo, que sua editora só se interessa por livros de auto-ajuda e outros assim. Infelizmente percebemos no mundo atual o desaparecimento de grandes escritores que não são mais editados, que encontramos apenas nos sebos, mas alguns novos ainda conseguem se manter sem cair neste mercado de consumo. 

Heather no fundo não está interessada no sucesso de Leonard, ela quer se projetar como crítica, mas sem levar nada em consideração, nem o ser humano que está diante dela, e nem mesmo o gosto dos outros, pois quer moldar a escrita dele de acordo com o que ela deseja ler e lhe agrada, e no fundo me pergunto se muitos críticos não fazem isto, desapreciando excelentes livros porque não lhes interessam. A questão é que cada leitor tem um mundo próprio e costuma se projetar no livro. Independente das normas técnicas, para mim a grande literatura é aquele que consegue ser um espelho do mundo, refletir o que se passa na alma do ser humano, e não posso desconsiderar neste caso livros que refletem vidas que eu não gostaria de ter ou não conheço. 

Heather quer saborear o sucesso de relançar um escritor de acordo com o que ela acha que ele deve escrever, e para isto não se abstém de feri-lo, magoá-lo, cutucá-lo, acreditando que com isto ele voltaria a ser o escritor que foi quando jovem, aquele que ela quer. 


Andrew Wagner é um diretor de cinema americano

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

FILME: METEORA - 2012


Direção: Spiros Stathoulopoulos - 2012
Duração: 82 min
País: Grécia 

Metéora é um dos maiores complexos de mosteiros do Cristianismo Oriental. Foram construídos sobre rochas de arenito na Grécia Central. Os monges eremitas fugindo dos otomanos encontraram nas cavernas dos rochedos de Metéora um lugar ideal para se refugiarem. Foram construídos em torno de 20 mosteiros dos quais restam atualmente apenas seis, sendo que cinco são masculinos e um feminino. É neste local que o filme se passa.

Theodoros (Theo Alexander) vive em um destes mosteiros. É um monge do cristianismo ortodoxo. Em frente ao seu mosteiro, separados por um abismo e uma rocha onde há uma árvore vive Urania (Tamila Koulieva), uma freira. Os dois se apaixonam e se vêem frente uma escolha entre a fé e o desejo.



O filme é repleto de simbolismos. O que mais me tocou foi o labirinto que é representado através de desenhos animados lembrando a arte bizantina. O labirinto é extremamente simbólico, como um retorno ao centro para enfim alcançar a liberdade, e no filme quando o Theo animado entra nele levando um bola de lã, numa referência ao fio de Ariadne, alcança o centro ele encontra Cristo na Cruz, e então ele lhe prega as mãos na cruz provocando um mar de sangue que o leva de volta para onde está Urania. Para alguns pode simbolizar o inferno, mas o sangue também é a vida.

O desespero é considero o maior pecado, o único que não tem perdão. Mas também pode levar à liberdade e ao amor. No início do filme vemos um retábulo onde Theo e Urania estão separados por uma imagem dos dois mosteiros e Deus acima. Ao final do filme voltamos a este retábulo, mas já com mudanças.



Os mosteiros parecem estar no céu, muito acima do mundo, da vida que corre abaixo dele. E os dois se encontram neste plano inferior. Quando retornam tentam expiar o pecado, ele com orações e ela queimando sua mão, mas o desejo fala, e há uma bela cena de Urania tocando seu corpo se masturbando. Ela tenta não ver os sinais que Theo lhe envia usando espelhos para que o sol brilhe do outro lado, mas finalmente numa lembrança à Rapunzel ela irá estender seus cabelos que crescerão e irão até o outro lado.

O cenário é belíssimo, e podemos ver detalhes dos costumes do povo e também rituais dos monges. De minha parte apenas não gostei do abate de um cabrito para servir de almoço para Urania, feito por Theo. A cena é muito triste, o animal grita desesperado, também desesperado. O filme nos traz em muitos momentos a questão da natureza com a civilização, da razão com a fé, mas principalmente do desejo, e este, será da natureza ou da cultura? Será o urso que come o figo ou o homem? como vemos na animação?


Veja o trailer:


Spiros Stathoulopoulos  nasceu em 1978 na Grécia. Mudou-se com sua família para a Colômbia.

Assista imagens de Metéora na Grécia

segunda-feira, 19 de maio de 2014

FILME: UM HOMEM SÉRIO - 2009



Direção: Joel Coen e Ethan Coen - 2009
Duração: 105 min
Título Original: A serious man 
Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen
País: Estados Unidos 

Excelente filme. Larry (Michael Stuhlberg) é um professor de física na Universidade e leva uma vida metódica até que sua esposa, Judith (Sari Lennick)  resolve trocá-lo por Sy Ableman (Fred Melamed). Paralelamente ele sofre ameaças na Universidade por causa de notas de um aluno, seu irmão mora em sua casa e dorme no sofá, seu filho é problemático e rebelde e sua filha surrupia dinheiro em sua carteira para fazer uma cirurgia plástica. Sem saber o que fazer ele procura a ajuda de três rabinos. Parece Jó com tudo lhe caindo na cabeça, desmoronando, vai perdendo tudo e não faz nada.



Não sei se fico com raiva dele ou das pessoas que estão em sua volta. Ele não reage, fazem o que querem com ele. Por achar que não consegue ou não pode, ele não age e fica sem saber o que fazer. Os outros parecem tão seguros de si, parecem que sabem tudo e estão certos, mas são egocêntricos, devoradores, aproveitadores, e claro, temos a tampa e a caçarola. Por que os outros só agem assim porque ele o permite, não reage, deseja ser amado, ser correto, e acaba permitindo que os outros façam dele o que querem e assim alimentem também suas neuroses.

Estão sempre a lhe dizer: não aja como criança, seja adulto. Mas quem será que é infantil no filme? serão tão adultos assim? E lhe dizem: desta vez você foi adulto. E ele acaba repetindo o que os outros lhe falam.

Um filme que recomendo, pois quantas vezes nos vemos enrodilhados em tramas assim? Desejando ser aceitos e amados acabamos fazendo o que não desejamos, ou não fazendo nada, se deixando levar e ainda se sentindo péssimo. E vem a pergunta: o que fiz para merecer isto? ou será que é: o que será que não fiz para merecer isto?

Os irmãos Coen. Ethan nasceu em 1957 e Joel em 1954.

Trilha sonora de Carter Burwell

Carter Burwell nasceu em 1954 em New York, EUA. É um compositor. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

FILME: O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR - 2004



Direção: Charles Dance - 2004 
Duração: 113 min 
Título original: Ladies in Lavender 
Roteiro: Charles Dance 
País: Reino Unido 

Um filme belo sobre o desejo e o amor. 1936 - em uma pequena vila de Cornwell norte da Inglaterra duas irmãs que vivem juntas Ursula (Judi Dench) e Janet (Maggie Smith) ao passearem pela praia após uma tempestade encontram um jovem desfalecido. Elas o levam para casa e cuidam dele.

Esta relação de cuidado irá despertar coisas adormecidas, o amor e o desejo, e ambas começam a rivalizar para conquistar o amor do jovem Andrea (Daniel Brühl) . Há cenas hilárias como a da torta de sardinhas e os comentários sarcásticos da outra irmã apenas para desfavorecer a outra perante o jovem.

O jovem que inicialmente havia perdido a memória aos poucos se lembra que é um violinista em busca de sucesso. Conhece uma jovem (Natascha McElhone) que passa uma temporada na região e que quer promovê-lo. Ele fica em dúvida se deve permanecer ali ou seguir sua carreira. Acaba optando pela carreira.

Aos poucos as irmãs terão que retomar sua vida rotineira e feliz de antes, mas este episódio ficará em suas lembranças como um doce momento e uma vivência de que o amor e o desejo não tem idade.


Charles Dance nasceu em 1946 em Redditch, Worcestershire, Inglaterra. 



Trilha sonora de Joshua Bell

Joshua Bell nasceu em 1967 em Bloomington, Indiana, EUA. É um violinista. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

FILME: DESEJO E REPARAÇÃO - 2007


Direção: Joe Wright - 2007
Duração: 123 min. 
Título original: Atonement 
Roteiro: Christopher Hampton
País: Reino Unido

Venceu o Oscar de melhor trilha sonora e Ganhou o Globo de Ouro de melhor filme dramático e de melhor trilha sonora. 

Baseado no livro Reparação de Ian McEwan 

Briony Talles (Romola Garai) tinha 13 anos quando viu algo que não compreendeu da forma correta e isto irá desencadear mudanças radicais na vida de várias pessoas, e principalmente de sua irmã mais velha Cecilia (Keira Knightley) e de seu amante Robbie Turner (James McAvoy). Ela acusará Robbie de um crime que ele não cometeu.

Robbie era filho do caseiro onde moravam as irmãs e tinha muito carinho por Briony que era uma criança solitária, imaginativa e que escrevia. Ao ver de sua janela uma cena na fonte com sua irmã e Robbie ela vai interpretá-la como uma violência, mas também veremos a cena pelo olhar dos dois onde há um flerte, um jogo de sedução. Para a criança, pois nos anos 40 ter 13 anos é ainda ser bem infantil, a sexualidade lhe surge aos olhos como uma agressão, ao contrário do que ocorre com sua irmã.

Podemos deduzir que Briony tem uma paixão infantil por Robbie ou até mesmo ciúmes de sua irmã ou dele. Ela também os surpreendera em uma relação sexual o que a chocará profundamente, além de uma carta infeliz com palavras mais vulgares que Robbie escreve sobre o que sente por Cecilia. Tudo isto se somará para ter o desfecho que teve quando uma das convidadas da casa é estuprada e não quer dizer quem foi. Talvez Briony deseje realmente defender sua irmã, mas pode ser também sua vingança, e ela contará para sua mãe tudo o que imagina ter visto o que resultara na prisão de Robbie acusado de estupro.

Inicia-se a Segunda Guerra mundial, Robbie terá que lutar e morrerá e sua irmã após deixar a casa dos pais busca refúgio em um túnel para se esconder das bombas e também morrerá ali. Mas também veremos o casal Robbie e Cecília vivendo juntos e quando Briony já adulta, uma enfermeira vai visitá-los terá que enfrentar o ódio dele e será expulsa dali.

Muitos anos depois Briony é uma mulher idosa (Vanessa Redgrave) , escritora, e esta segunda versão faz parte de um livro que ela escreveu onde procura reparar o mal que causou fazendo com que os dois vivam juntos e ela seja tratada como pensa merecer devido sua culpa. Na realidade os dois morreram.

Não foi Robbie que estuprou a convidada e ele pagou por isto por causa do que Briony contou à sua mãe, assim como sua irmã.

Claro que escrever uma nova versão para os dois não os traz de volta nem muda o que lhes aconteceu, mas para ela é uma forma de lidar com isto. Ela cometeu um erro, enxergou algo de acordo com o que lhe era possível ou desejado ver naquele momento, e quantas vezes não fazemos isto? eu diria que quase diariamente vemos cenas na rua, em casa, no trabalho e pensamos algo a respeito que nada garante ser a realidade que está ocorrendo ali. O erro foi falar sobre isto causando com isto a prisão de alguém. Mas como julgar uma menina de 13 anos que se vê no meio de um tumulto, com policiais, diante de uma violência, de um suposto crime de estupro? E se ela não falasse e ele realmente fosse tudo aquilo que ela pensou dele? Mas, quando fazemos uma escolha temos que assumir a responsabilidade por ela.

A escrita é uma forma que temos de lidar com os fantasmas e também de se redimir de algo, reparar algo, de dizer que não havíamos feito antes. Quantos relatos temos de sobreviventes, de traumatizados? que justamente buscam desta forma dar um destino e um lugar para o que carregam dentro de si? E esta foi a forma que Briony encontrou de reparar o que ocorreu antes antes e de amenizar a culpa que carregou por toda sua vida. Porém, há um detalhe, quem poderia ter evitado tudo isto, a suposta vítima de estupro, se calou.

Joe Wright nasceu em 1972 em Londres, Inglaterra.

Trilha Sonora de Dario Marianelli 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

FILME: TRISTANA - UMA PAIXÃO MÓRBIDA - 1970


Direção: Luis Buñuel - 1970 
Duração: 95 min 
Título original: Tristana una pasion morbosa 
Roteiro: Luis Buñuel e Julio Alejandro
País: Espanha 

Baseado em romance homônimo de Benito Pérez Galdós

Trist(Ana) - triste Ana, um filme que pode ser olhado pelo viés do desejo e do abuso.

Tristana (Catherine Deneuve)  é uma orfã que é entregue aos cuidados de Dom Lope (Fernando Rey). Dom Lope é como um pai, mas é também um homem que não nega seus desejos e acaba tornando sua pupila sua amante.

Um sociedade hipócrita, moralista, católica onde um beijo na rua é um atentado ao pudor. Lope mantém Tristana em casa onde ela sufoca, vai à missa para poder respirar. Sai escondida e um dia conhece um pintor italiano Horácio (Franco Nero) com quem irá fugir, mas retorna dois anos depois doente. É levada a seu pedido para a casa de Lope. Tem sua perna amputada e está amarga e rancorosa, com ódio. Dom Lope dizia que a mulher correta era a que ficava em casa com a perna quebrada.

Tristana acusa Horácio de tê-la levado para lá, que um homem que amasse sua mulher não a levaria para outro. Ele disse que aguardaria até ela se curar, mas ele partiu após sua amputação. Ela se casa com Dom Lope, o padre estava certo, era uma forma de aplacar sua culpa e ser olhada de outra forma pela sociedade. Só que isto não acabou com seu rancor.

Tristana não conseguiu lidar com seu desejo inconsciente, ela desejou Dom Lope, mas não aceitava isto. No início do filme o sonho que se dá com os meninos, o despertar da sexualidade, ela meio que se defendendo, porque tem que ser assim, mas não efetivamente, o jogo da adolescência, do deixar tocar e afastar, eles sobem uma escada nesta brincadeira e quando chegam em cima Tristana vê a cabeça de Dom Lope no badalo do sino. Assustada acorda.

Por outro lado Dom Lope ocupa o lugar de pai, há um incesto aí pois ocupa simbolicamente este lugar apesar de não ser seu pai. Ela se deixa levar por ele, não resiste, entre o asco e o desejo, ela o quer mas não suporta isto.

Este ódio que se volta contra si mesma por ter permitido algo que não se suporta mas se deseja ao mesmo tempo ou contra quem o provoca.  Se ele tivesse se comportado como um pai ela poderia tê-lo amado. Na psicanálise desejamos o pai, mas ele castra a filha levando-a a desejar um outro homem, mas continua a amá-la com carinho paternal, ele não pode ser o objeto de desejo dela que é transferido para outro, e Tristana não o transferiu, apesar de tentar com Horácio, mas ela tem que ficar doente para retornar e ter sua perna amputada para não poder ir embora. Só matando ela vai se livrar disto, vai aplacar seu desejo, simbolicamente ou de fato. Ela não o mata, mas o deixa morrer fingindo ter solicitado socorro médico.


Luis Buñuel nasceu em 1900 em Calanda, Espanha e faleceu em 1983 na Cidade do México, México. Trabalhou com Salvador Dalí . Estudou com os Jesuítas em Saragoça e em 1917 foi para Madri onde conheceu Federico Garcia Lorca e Dalí, depois formou-se em Filosofia e Letras em 1924. Seu filme "Um cão Andaluz" é um marco do cinema surrealista. Com a Guerra Civil na Espanha mudou-se para os Estados Unidos e depois foi para o México naturalizando-se em 1949. Morreu aos 83 anos vítima de câncer. 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

FILME: FRANÇOISE DOLTO, PELO AMOR DAS CRIANÇAS - 2008


Direção: Serge Le Péron - 2008
Duração: 98 min 
Título original: Françoise Dolto, le désir de vivre 
País: França 

Assisti o filme em francês, seu título é Françoise Dolto, le désir de vivre , o desejo de viver.

Belíssima homenagem e biografia desta mulher que revolucionou a psicanálise infantil.

Através de dois casos de crianças traumatizadas pela guerra, o filme retrata seu trabalho. É a época do começo, ainda no hospital onde o diretor instigado por uma enfermeira fica irritado com seu trabalho até que percebe uma cura. Anos mais tarde já é a Dolto (Josiane Balasko)  que conhecemos.
Uma das crianças traumatizadas retorna já adulto para falar o com ela e agradecer sua cura e então ela diz: o que te curou foi o teu desejo, é preciso desejar viver.



É este desejo que ela tenta devolver às crianças e o fez até sua morte.

Há uma cena terrível que me tocou muito. Uma criança entra no quarto onde a irmã está morta, quer vê-la e a mãe a impede alegando que foi por sua culpa que a irmã está morta, pois ela não rezou como devia, o quanto seria necessário, pois Deus a teria ouvido se o fizesse corretamente, e por isto sua irmã morreu.
Pensem na carga de culpa que esta criança acaba de receber e o que isto trará para sua vida. As vezes os pais dizem coisas que são terríveis.

Um dos meninos, o que ela curou, ouviu quanto tinha em torno de 2 a 3 anos as pessoas chamarem sua mãe de puta e rirem e denegri-la. O outro culpa o pai por ter obrigado sua mãe a levar no carrinho de bebê, embaixo dele, armas para a resistência. Ela acaba presa e morreu num campo de concentração. Ele sonha com isto, com o rosto da mãe enquanto os homens colocavam as armas e diz que eles não se importavam com ele, o bebê.



Por outro lado, há uma cena onde seu filho, de Dolto, reclama sua atenção e ela lhe diz: marque uma sessão! o pai, seu marido, faz de tudo para deixá-la trabalhar em paz afastando as crianças. O preço que se paga pela dedicação a algo? ou seria possível não ser assim?


Françoise Dolto médica e psicanalista francesa


Serge Le Péron nasceu em 1948 em Paris 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

FILME: UMA CRUZ A BEIRA DO ABISMO - 1959



Direção: Fred Zinnemann - 1959 
Duração: 149 min 
Título original: The nun's story 
País: Estados Unidos 

Adaptação do livro homônimo de Kathryn Hulme de 1956. 

Em francês o filme se chama: Au risque de se perdre. - Sob o risco de se perder.

O personagem é real, trata-se de Gabrielle Van Der Mal -Marie Louise Habets(Audrey Hepburn) , filha de um cirurgião belga, que mora em Bruges. Ela se identifica com o pai, e seu maior desejo é poder trabalhar como voluntária e enfermeira no Congo, África. A única forma de poder fazer isto na época é entrando para um convento e se tornando uma missionária.


Seu pai tenta alertá-la sobre a vida religiosa, mas ela não o ouve, e então entra para a vida religiosa.
O filme retrata muito bem os ritos de passagens e de desidentificação pelo qual ela vai passar. É um apagar de si. Primeiro os objetos, ela tem que entregar tudo que leva consigo. Depois as roupas, o hábito que vai mudando a cada passagem, sinalizando os graus. O corte dos cabelos, e o silêncio. Ajoelhar-se, esconder as mãos, só o rosto é visível mas os olhos devem olhar para baixo, prostar-se no chão. Até receber outro nome. Sem passado, sem história, sem lembranças, sem memória. É possível? Censurar-se constantemente, penitências, sacrifício.



Seu desejo é mais forte, é orgulhosa e tem iniciativa. Ela vai para o Congo, mas adoece. O médico lhe dirá que isto é uma somatização.
Quando estoura a segunda guerra e ela fica sabendo que seu pai foi morto, ela abandona o hábito e entra para a resistência.

Por isto gosto do título em francês. Ela não se perdeu, não aceitou se apagar, não consegue e entra em conflito que culmina na doença. Lacan nos diz que toda doença é algo que não se consegue falar, são palavras não ditas.

Marie Louise Habets nasceu em 1905 em Egem, Flandres - Bélgica. Em 1926 entrou para as Irmãs de Caridade de Jesus e Maria onde depois tomou o nome de Irmã Xaverine. Quando seu pai foi morto pelos nazistas deixou a ordem e se envolveu com a resistência belga. Após o fim da guerra foi enviada para a Alemanha para cuidar dos belgas que estiveram nos campos de concentração. Ela conheceu Hulme que a encontrou durante uma depressão por se sentir um fracasso em relação aos seus votos.



Você encontra este filme no Assistir filmes Online Toca dos Cinéfilos:
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Fred Zinnemann nasceu em 1907 em Rzeszów na Polônia e faleceu em 1997 em Londres, Inglaterra. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

FILME: ELSA E FRED Um amor de paixão - 2005


Direção: Marcos Carnevale - 2005
Duração: 108 min
Título original: Elsa Y Fred 
Roteiro: Marcos Carnevale, Marcela Guerty e Lily Ann Martin 
País: Argentina - Espanha 

Condor de Prata de melhor atriz para China Zorilla 

Dois octogenários. Fred (Manuel Alexandre)  viúvo há 7 meses, sempre teve uma vida muito organizada, trabalhou 40 anos na Telefônica, tudo sempre muito certinho e correto. Elsa (China Zorilla) , bom não é possível saber ao certo, ela tem uma imaginação febril, conta histórias, inventa. Ao final se descobre que tudo que contou é ao contrário.
Os filhos querem cuidar dos pais, mas são como Elsa chama o filho: a policia! controladores.



Nossa cultura ocidental vê os idosos como seres incapazes, que voltaram a ser crianças, que precisam ficar quietos, vendo TV, tricotando etc, ao contrário da oriental que respeita os idosos por sua sabedoria e experiência. Os idosos no ocidente não sabem mais nada, não desejam mais, e não podem andar por si mesmos. Ou então, pior, são totalmente abandonados para não terem que zelar, não disse cuidar, disse zelar, amor, carinho, deles. A relação saudável inexiste, ou são controlados ou abandonados.



Na realidade Elsa tem pouco tempo de vida, faz hemodiálise. Tem um sonho, ir a Roma e viver a cena do filme La Dolce Vita. Fred acha que não consegue fazer mais nada, acha que está doente e velho. Ela se apaixona por ele que aos poucos é conquistado, e ambos começam a se divertir e muito.

Os filhos? ficam pasmos! como? Quando Elsa apresenta Fred como seu namorado, sua nora nitidamente a reprova, como se isto fosse um total absurdo.

Elsa cria seu mundo, ela quer fugir do controle, do organizado, do previsível da vida. É divertida, seu carro é vermelho, ela ouve música enquanto dirige, seu celular é pink, dá calotes, fala muito. Talvez uma forma de lidar com a desilusão da vida. Ele que vivia na tristeza é capaz de se abrir novamente, ou talvez, pela primeira vez, à vida.

Ao final, contrariando os planos de seu genro que precisava de dinheiro para abrir mais um negócio que ele estava idealizando, Fred leva Elsa à Roma e realiza seu sonho.



Um belo filme sobre como nunca envelhecemos no espírito, no inconsciente, mas apenas no corpo, e que a qualquer tempo podemos viver e fazer coisas, realizar desejos, e desejar.



Recomendo.

Assista ao trailer:





Marcos Carnevale nasceu em 1963 em Córdoba, Argentina

Trilha sonora de Lito Vitale

Lito Vitale nasceu em 1961 em Villa Adelina, Argentina. É um músico, arranjador e pianista