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domingo, 31 de maio de 2015

FILME: A ILHA - OSTROV - 2006


Direção: Pavel Lungin - 2006
Duração: 112 min
Título Original: Ostrov 
País de origem: Rússia 

1942, Segunda Guerra Mundial uma embarcação soviética que carrega carvão é capturada pelos nazistas. Um jovem marinheiro em pânico acaba atirando em seu amigo por ordem do inimigo, a seguir a embarcação explode, mas não sem antes o jovem marinheiro comemorar por estar vivo. 
Em seguida vemos monges que socorrem um jovem numa pequena praia, é o marinheiro. 

1976 - uma ilha no Mar Branco da antiga União Soviética, um monastério de monges ortodoxos. Várias pessoas aguardam, desejam falar com um velho monge, Anatoly (Pyotr Nikolayevich Mamonov), conhecido por seu poder de cura e visões. É um velho estranho, ele vive afastado dos outros numa cabana onde se aquece com fogo abastecido de carvão que ele vai buscar diariamente, enquanto os outros vivem em outras cabanas com aquecimento. São pequenas ilhas ligadas por pontes de madeira. Se chamam de irmãos e são chamados por pai. O pai Filaret (Viktor Sukhorukov) é o abade. Ele se dedica a pintar a iconografia ortodoxa. 

Anatoly nunca cumpre as regras do monastério o que deixa o pai Iov (Dmitri Dyushev) indignado, mas não há o que ele possa fazer, pois até mesmo o abade aceita Anatoly como é. Agora porque este velho monge é assim tão estranho? Pela culpa que carrega, pelo remorso, por não conseguir esquecer sequer um dia o que fez por medo em sua juventude, atirar em Tikhon (Yuri Kuznetsov). Ele buscou refúgio no monastério e com Deus para tentar aplacar sua culpa, mas não conseguiu. Talvez apenas um milagre posso fazer isto e ele possa então morrer em paz. 

É um filme sobre a culpa e o peso de carregar isto por toda uma vida, por não conseguir se libertar de seu passado. 




Pavel Lungin nasceu em 1949 em Moscou, Rússia.

segunda-feira, 9 de março de 2015

FILME: FORÇA MAIOR - 2014


Direção: Ruben Östlund - 2014
Duração: 119 min
Título Original: Force Majeure
País: Suécia 

Venceu o prêmio de melhor filme da mostra Un certain regard do Festival de Cannes de 2014

Um casal Tomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli) e seus dois filhos vão passar 05 dias numa estação de esqui para que ele possa descansar, uma vez que segundo sua esposa ele trabalha muito. Logo no início do filme temos a tradicional foto da família na neve em roupas de esqui. Uma família aparentemente feliz. 

O que ninguém pode prever são as contingências que as vezes revelam facetas nossas que não conhecíamos e não poderíamos prever. No segundo dia eles almoçam num restaurante com uma vista para as montanhas de neve. Desde que chegaram Tomas havia tranquilizado Ebba que se incomodava com os estouros que ouvia, que seriam as equipes do lugar que sob controle fazem a neve descer a montanha justamente para manter a segurança dos esquiadores. Durante o almoço de repente vemos uma avalanche vindo em direção ao restaurante. Tomas diz que ele está sob controle e que não há risco nenhum, mas de repente ela se aproxima demais, e todos começam a gritar e a correr. Ebba segura seus filhos e grita por Tomas para ajudá-la, mas eis que Tomas saiu correndo e deixou sua família para trás.


A avalanche não atinge o restaurante, ela para antes, mas há uma névoa forte causada pela neve em movimento que por um momento deixa tudo envolto no branco. Em seguida o céu fica azul novamente e Tomas está de volta, senta e recomeça o almoço como se nada tivesse acontecido, porém esta família não será mais a mesma. 

Tomas teve uma reação de sobrevivência e tentou se salvar e com isto deixou sua família para trás, mas ele não toca no assunto. Ebba fica com isto engasgado, mas também não fala nada para ele, pelo contrário, vai contar aos outros colocando Tomas numa situação constrangedora e ele acaba negando que tenha feito isto. Eis então que se revela também a questão de um casamento que já não andava muito bem. As crianças ao perceberem que algo vai mal começam a ter crises de choro e a se tornarem mal criadas como forma de chamar a atenção, até que o menor deles diz que não quer que eles se divorciem. 

É impossível não nos colocar a questão. O que será que faríamos no lugar deles? Dizer que uma mãe nunca abandona seus filhos, mas que o homem pensa somente em se salvar? Mas, quantos relatos já vimos de pais que também arriscam tudo para salvar um filho? Não, não acredito que seja por aí a resposta. A questão é que todos nós temos um sentido de sobrevivência, há uma pulsão de vida em nós e a prova disto é que qualquer motorista sempre tenta tirar seu lado num acidente e o faz automaticamente e sem consciência. Tomas foi surpreendido por esta reação que ele teve, mas depois se viu cobrado pelo o que se espera dele, o que a sociedade espera, a mulher, os outros esperam de um homem, de um pai, de um marido. 

Um casal de amigos que ouve a história ao estarem sós depois a mulher também lhe diz que ele poderia agir assim e isto o deixa também mexido. O que a cultura impõe ao homem, a mulher, ao ser humano. 

Tomas se sente cobrado por todos, mas como responder a isto? dizer que sentiu medo, pavor e correu? Sua esposa o despreza cada vez mais, ele não corresponde as suas expectativas como homem, como pai. Até o dia que o diálogo acontece e Tomás confessa todos seus erros inclusive ter sido infiel, e que não quer ser esta pessoa. Ebba vai exigir dele uma prova que não é covarde e que pode agir para protegê-la e a seus filhos o que fará no dia seguinte na pista de esqui. 

Não leia abaixo caso não queira saber o final do filme. 


No caminho de volta, no ônibus que desce a montanha por uma estrada na beira dos penhascos, o motorista começa a demonstrar que não sabe bem dirigir o ônibus e começa a se criar uma situação tensa. Novamente é Ebba quem toma a frente e o manda abrir a porta, neste momento o amigo do casal diz: sem pânico, primeiro as mulheres e crianças. Todos descem e o motorista vai embora com o ônibus os deixando ali. É um final um tanto estranho, mas pode se refletir a respeito, pois todos ali estavam com medo e cada um teve uma reação o que mostra claramente que o ser humano é complexo e pode reagir a situações drásticas de formas diferentes. Inclusive neste momento é Ebba a primeira a descer deixando os filhos no ônibus. Todos nós temos um ponto onde reagimos de uma maneira a nos salvar sem pensar em mais nada. Entre o medo de ser soterrado por uma avalanche e o medo de cair no vazio de um penhasco, qual medo é o mais forte? depende da pessoa.


Ruben Östlund nasceu em 1974 em Styrsö, Gotemburgo, Suécia. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

FILME: BIUTIFUL - 2010





Direção: Alejandro González Inárritu - 2010 
Duração: 147 min 
Roteiro: Alejandro Gonzáles Inárritu , Nicolás Giacobone e Armando Bo 
País: Espanha e México 

Prêmio de melhor ator para Javier Bardem no Festival de Cannes 2010 


É um filme que mostra a cidade do outro lado do espelho reluzente que todos adoram ver, principalmente Barcelona. O lado considerado negro por alguns e criminoso, marginal por outros, mas alto lá, o que o filme mostra é a realidade, a vida de milhares de pessoas é assim em muitas cidades. Para os que não se atrevem a chegar perto deste lado de uma cidade, é pavoroso, é crime e haverá muitas críticas. Imigrantes, o que vieram fazer aqui? Esquecem que no país deles há fome, guerra, falta de trabalho, e que são seres humanos e a terra lhes pertence tanto quanto. 

Ao saber que vai morrer, Uxbal ( Javier Bardem)  parece que continua com sua vida sem que isto se faça presente. Pode-se dizer que é o véu que temos para a morte. Só quando caímos e o corpo não reage mais a morte se faz presente para si mesmo. Enquanto ainda podemos comer, caminhar, falar...

Ele vive no meio da miséria, onde todos lutam para sobreviver, imigrados presos num porão, que trabalham por uma miséria explorados por outros de seu país. O filme é escuro, não há alegria, festas cheias de droga e sexo, bebida. A mulher dele Marambra (Maricel Álvarez)  é doente, e no final é internada novamente. Prostituição, corrupção.
Que vazio de palavras, de ouvir, de procurar ver o lado do outro, mas ao mesmo tempo ele tenta ajudar os outros, dentro do sistema em que vivem. Pode-se dizer que ele também explora, mas se arrisca junto, apesar de que ganha mais. Ali todos sabem o risco que correm ao vender produtos de contrabando. Não são bandidos, são seres humanos lutando para sobreviver, num mundo onde não conseguem um bom trabalho, um bom lugar para morar. Somente uma vez aparece a catedral de Barcelona em meio às brumas. Ela não pertence a este mundo. Temos uma Barcelona feia, triste, suja, com sofrimento. Tão diferente daquela que se vende ao mundo, aos turistas e aos que podem morar e viver nela em outros locais.

Mas temos Ige, acho que é assim seu nome, que ao final volta, poderia ter ido embora, e volta, vem cuidar dos filhos dele. Ela tinha dinheiro e poderia ter seguido seu caminho, mas como lidar com a culpa deste dinheiro. Seria suficiente a raiva que ela sentia dele, por culpá-lo de seu marido ter sido preso? Mas ele avisou, mas eles tinham alternativa, era só lá que vendia?

 A mãe deixa o filho de castigo. Este castigo é para o filho ou para ele? Que não foi e não disse por que. Que não lhe contou que estava morrendo de câncer? que não confiou nela. Que voltou para ela quando precisava dela, mas não moveu um dedo para reatar com ela. Ele queria ficar em paz para ter com quem deixar as crianças. Ninguém dá muita atenção a este menino, logo no começo ele fala ao pai que nem o ouve, sobre a roupa do astronauta. A filha tem que assumir um lugar que não é o dela. O anel que lhe passa ao dedo.

 E a morte. Ele sabe que vai morrer, será que tenta então melhorar algumas coisas para os outros para se sentir melhor? E compra aqueles aquecedores que quando vi entrando naquele porão adivinhei na hora o que iria ocorrer. Ele escolheu os mais baratos, para ficar com dinheiro, para deixar aos filhos. E seus filhos teriam ficado sem nada se Ige não volta. Iriam ficar sozinhos, a mãe internada, o pai morto. Igual a ele? que também perdeu o pai e a mãe? Pede a filha que nunca esqueça seu rosto. O rosto que ele precisou ver na exumação do corpo do pai. Um pai que não tinha rosto e passa a ter.

 O filme é a vida, o que ela é, sem enfeites, sem colorido, não há final feliz. O final é a morte. Sim, poderia haver uma certa alegria ali, mesmo com todas as dificuldades, mas só quem vive nesta situação sabe o quanto é difícil ser alegre e contente vivendo assim. Só tem duas cenas de alegria: Ana, sua filha, sorrindo para um bebê. O primeiro morre asfixiado, o segundo, é o filho de Ige. Não há prazer, pois até a viagem que era para ser algo alegre, prazeroso, perde seu encanto, quando ele não vai e a mãe deixa o filho. Não é mais a Disneylandia que a mãe desejava. Um mundo de sonho.   
Vidas onde não há o desejo, onde não há a paixão e o amor, nem mesmo na declaração de amor que ele fez a ela, quando conta aos filhos, e diz que ele enfiou o dedo no nariz dela. O desejo existe, mas não se realiza. E é a vida da maioria das pessoas.
O filme começa e termina no pós morte. O pai jovem, que o encontra, vai buscá-lo quando ele morre. Nem mesmo aí temos o paraíso. Mas temos uma coruja que expele uma bola de pelos, aquela, que nós carregamos dentro de nós a vida toda. E então ele pergunta: o que temos lá? precisamos morrer para saber.

Ele que passou a vida com medo do fundo, do escuro, da morte, e falava com os mortos, se encontra com ela, como todos nós, pois a morte está na vida e a vida na morte. Viver é beautiful, mas a vida não é beautiful, é no máximo, biautiful, uma aproximação, uma tentativa, de acertar. 

Trailer do filme:


Alejandro González Inárritu nasceu em 1963 na Cidade do México, México.

Música de Gustavo Santaolalla

Gustavo Santaolalla nasceu em 1951 em El Palomar, Argentina. É músico e compositor.