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segunda-feira, 8 de junho de 2015

FILME: MANGE, CECI EST MON CORPS - 2007



Direção: Michelange Quay - 2007
Duração: 99 min

País de origem: Haïti 

Um filme diferente que irá agradar a poucos. É um filme que representa um transe, fora da compreensão e do racional. É uma experiência cinematográfica, que nos leva ao mais profundo do sofrimento espiritual e material do Haïti. 

Vou falar sobre o que senti. Logo no início do filme vemos uma senhora branca num leito (Catherine Samie) que fala palavras ditas por Jesus, mas ela completa dizendo que ela é a abundância incompreendida por eles (haitianos) que cospem nela em sua ignorância. Ela alimenta este mundo canibal, coma, este é meu corpo. Ela diz perdoe-os, eles não sabem o que fazem. Mas ela mesma se alimenta deles, ao ponto de se ver neles e diz que eles pegam, mas não retribuem. 

Alguns meninos se dirigem em fila para a casa colonial. São lavados, vestidos de terno, sapatos, para o ritual da refeição. Uma mesa posta, tigelas e colheres. Surge Madame (Sylvie Testud), ela se senta com os meninos à mesa, mas não há comida, o que não desobriga o obrigado!, repetido à exaustão. Ela sugere que eles devem fechar os olhos e imaginar que estão comendo. Mas quando eles finalmente tem um bolo para dividir, eles se empanturram, e fazem guerra com o bolo. 

O filme retrata o branco comendo o negro. É um jogo de espelhos, o negro se olha no espelho, ele espia a mulher branca. Uma busca de identidade. A mulher branca acaba tomando consciência do outro, mas para isto sua mãe tem que morrer. 

É como um mergulho no inconsciente, poucas palavras, imagens, vemos as duas senhoras brancas, que representam a colonização. Vemos os negros habitantes e originários dali. Um se olha no outro, e por mais que o branco tente se manter afastado ele acaba assimilando também. Então já temos dois lados diferentes. Além disto há uma crítica a colonização, a situação da casa colonial diante do restante do povo. O branco acredita que ele está levando algo de bom para eles e os haitianos não agradecem, e porque teriam que agradecer? Eles é quem estão sendo explorados pelo branco. Então ao contrário do que diz a senhora no começo do filme, é ela quem se alimenta deles e não o contrário. 

Um filme que possibilita muitas interpretações. 

O filme foi realizado antes do terremoto de 2010 que arrasou o país que até hoje não se recuperou. 





Michelange Quay é haitiano

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

FILME: LOURDES - 2009


Direção: Jessica Hausner - 2009
Duração: 96min 

Lourdes é um santuário na França nos Pireneus onde a Nossa Senhora apareceu para Bernadete na gruta. As peregrinações ao local são constantes em busca de uma cura milagrosa e também de conforto espiritual.

Christine (Sylvie Testud) é jovem e  sofre de uma doença degenerativa e participa de viagens organizadas pelos obreiros da Cruz de Malta e voluntários. Desta vez ela vai para Lourdes. Não consegue se mover, utiliza uma cadeira de rodas e depende dos outros para tudo, comer, beber, se locomover, vestir. Ela não consegue nem mover as mãos. Nesta viagem ela reencontra um rapaz da Cruz de Malta (Bruno Todeschini) que conheceu em outra viagem, para Roma. Christine está sob os cuidados de uma voluntária, Maria (Léa Seydoux) que também se interessa pelo mesmo rapaz da Cruz de Malta.




Acompanhamos o olhar de Christine por Lourdes, ela fala muito pouco e não é devota, apenas participa de tudo. Ela gostaria de ter uma vida "normal" e olha para os que podem andar, comer sozinhos com uma certa inveja. Sempre que a olham ou falam com ela dá um pequeno sorriso. Ela também será ajudada por Madame Hartl (Gilette Barbier) que não está ali em busca de uma cura, mas para preencher o vazio de sua vida, a solidão e por isto deseja ser útil e passa a cuidar de Christine e a rezar por sua cura.

O grupo com o qual Christine viaja é liderado por Cécile (Elina Lowensohn) que é metódica e séria. Ela diz que ali não se cura o corpo, mas sim a alma.

Em um dado momento Christine conseguirá mover suas mãos e os braços até levantar-se e andar. Esta cura surtirá inveja dos que não foram curados e questões sobre porque ela e não um outro. Ela terá que ser avaliada por uma junta médica que lhe dirá que esta recuperação pode não ser permanente, que pode ocorrer em sua doença. Mas Christine está feliz, ela pode então acompanhar o grupo ao passeio externo do qual estava excluída por ser cadeirante, e passa a ter uma esperança com o jovem da Cruz de Malta, com o qual dançará na festa de despedida. Mas ali ela cairá, e apesar de se levantar e ficar parada um pouco, assim que o jovem se vai, ela se senta novamente na cadeira de rodas e se deixa levar por Madame  Hartl.

O filme nos mostra o que é Lourdes ou qualquer outro santuário onde as pessoas movidas pelo desespero, pela doença, pela solidão vão em busca de um milagre. Mas Deus escolhe os que cura, e seus desígnios são insondáveis. Por que justamente Christine que nem devota é? A esperança de todos ali é encontrar a felicidade, mas esquecem que ela é efêmera e vai e volta. Buscam algo que na verdade está dentro de cada um, a liberdade, mas a maioria fica presa a uma cadeira de rodas ou a uma muleta.

Vemos as pessoas no filme que falam em Deus, rezam, esperam, mas também estão invejando, comentando, falando do outro, criticando, competindo. Sentem raiva e ciúmes. Então temos o palco do ser humano diante dos olhos. Eles não crêem com a fé, eles perguntam o que devem fazer para obter um milagre, para ter sucesso. Então acreditam que aquele que mais rezou, mais pediu é que deveria ser beneficiado com o milagre, como a menina na cadeira de rodas cuja mãe vai todos os anos à Lourdes em busca da cura, e não compreendem que Christine que foi ali para poder sair de casa, viajar é quem recebe a cura. Por outro lado Christine sabe que esta cura pode não durar.

Pessoalmente ainda vou um pouco mais longe, saindo da questão religiosa e da fé, Christine que fala tão pouco durante o filme vai á confissão e diz ao padre que sente raiva, diz o que deseja, e a palavra também tem o poder da cura. Além disto há o desejo e o amor, ela gostaria de poder estar ao lado do rapaz, de ser "normal" acreditando que assim poderia conquistá-lo, como vê Maria fazendo. Esta por sua vez ao perceber o interesse dos dois se afasta de Christine, não lhe dando mais a atenção devida, na hora de se alimentar ou a deixando parada num local na cadeira e indo embora.

Christine traz a força de dentro de si mesma para se levantar, do divino que tem em si, ela não espera uma cura de fora, e talvez esta seja a diferença.

Jessica Hausner nasceu em 1962 em Viena - Áustria 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

FILME: SAGAN - 2008



Direção: Diane Kurys - 2008
Duração: 180 min 
País: França 

Uma cineobiografia da escritora francesa Françoise Sagan desde o lançamento do seu primeiro livro Bonjour Tristesse aos 18 anos até sua morte aos 69 anos.

Françoise Sagan (Sylvie Testud) escreve um livro em 07 semanas que lhe dá o sucesso e fama, é o seu primeiro livro - Bonjour Tristésse - Bom dia Tristeza.



Era uma jovem mimada, fazia sempre o que queria. Ganhou muito dinheiro e perdeu tudo. Não dava nenhum valor ao dinheiro. Dois casamentos, um filho, algumas relações homossexuais, álcool, drogas - cocaína. Devia muito dinheiro ao fisco sendo condenada a um ano de prisão, quando um amigo escreveu: "ela deve ao Estado, mas a França lhe deve muito mais."


Sagan viveu a primeira parte de sua vida no entre-guerras e depois do fim da Segunda Guerra o que se buscava em um certo clima de euforia era a liberdade, onde tudo era permitido, drogas, sexo, relações livres, álcool. Ela não é diferente da maior parte de sua geração, mas sabia escrever. Uma época onde o importante era negar aqueles anos de guerra, e não ter castração depois de tantas privações, tudo era permitido. O que eu me pergunto é se somos capazes de suportar tal liberdade ou ela acaba nos destruindo?


Ela dizia que escrever era uma pulsão sexual e que não havia idade para aprender a viver. Morreu sozinha, sem dinheiro e não quis ver seu filho no leito de morte. Dizia que não foram feitos um para o outro.

Sagan foi uma mulher do seu tempo, solitária apesar de rodeada de pessoas. Muitos a bajularam e se aproveitaram para curtir a vida com o dinheiro dela e depois desapareceram. E ela reconhecia que quando se está mal as pessoas desaparecem, que a dor afasta as pessoas.


FRANÇOISE SAGAN nasceu em 1935 em Cajarc, França e faleceu em 2004 em Honfleur, França


Diane Kurys nasceu em 1948 em Lyon, França 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

FILME: PIAF - UM HINO AO AMOR - LA MÔME - 2007



Direção: Olivier Dahan - 2007
Duração: 140 min 
Título Original: La Môme 
País: França 

Venceu o Oscar e o Globo de Ouro de melhor atriz.

Cinebiografia da cantora Piaf de seu nascimento à sua morte.

A vida de Piaf (Marion Cotillard) não foi fácil. Foi abandonada pela mãe e criada pela avó num bordel na Normandie. Ficou cega durante um período na infância e depois seu pai alcoólatra  vai buscá-la para cantar nas ruas. Abandona seu pai e continua cantando nas ruas de Paris junto com sua amiga Mômone (Sylvie Testud)  Descoberta por Louis Leplée (Gérard Depardieu) fica famosa. Seu grande amor o pugilista Marcel Cerdan (Jean-Pierre Martins) morreu num acidente de avião.



Morreu jovem, aos 47 anos. Teve uma vida desregrada, álcool e drogas. Mesmo famosa nunca deixou de ser quem era, amiga fiel, simples e malcriada. Não ligava para os outros, só queria cantar. Era devota de Saint Thérese de Lizieux.


Amava viver e fazer o que desejava. Foi destruída quando seu grande amor morreu, começa sua derrocada, continuou viva enquanto pode cantar, cantar era viver para ela, se não pudesse cantar morreria. E foi assim.

Piaf canta a vida, Paris, seus becos, a miséria humana e o amor. Piaf de pássaro, canta como um pássaro.



Cantava e tricotava, Piaf, maravilhosa!


A última canção


Olivier Dahan nasceu em 1967 em La Ciotat, França.

Trilha Sonora de Christopher Gunning

Christopher Gunning nasceu em 1944 em Cheltenham, Gloucestershire, Inglaterra.