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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE

 


LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE

ZIAUDDIN YOUSAFZAI E LOUISE CARPENTER

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2019

168 páginas

Muitos já leram “Eu sou Malala”, o relato da jovem paquistanesa que levou um tiro do Talibã por estudar e sobreviveu.  Menos conhecida é a versão de seu pai, Ziauddin Yousafzai, apresentada neste livro escrito em colaboração com Louise Carpenter

A obra acompanha a trajetória de Ziauddin, sua infância no Paquistão e sua formação pessoal, ao mesmo tempo em que narra sua atuação como pai de Malala e seu compromisso com a educação das meninas. Sua história é um contraponto à imagem frequentemente simplificada de sociedades marcadas por estruturas patriarcais, ao apresentar a figura de um homem que se opõe ativamente às restrições impostas às mulheres, inclusive dentro de sua própria família.

Ziauddin defende desde cedo que as meninas e sua filha devem ter os mesmos direitos à educação e às mesmas oportunidades que são oferecidos aos meninos, o que o coloca em conflito com normas sociais e políticas locais, principalmente no contexto de ascensão do Talibã no Paquistão.

A compreensão de Ziauddin sobre a igualdade de gênero foi se construindo ao longo do tempo. Ele demorou para compreender o quanto essa opressão sobre as mulheres podia ser maléfica na própria família. Em suas palavras: “Quando apliquei o princípio básico da igualdade de gêneros à minha própria família, minha vida mudou. A vida da minha esposa mudou. A vida da minha filha mudou. A vida de meus filhos mudou”.

Se Malala falou muito do pai em seu livro, aqui podemos ouvir a narrativa do próprio Ziauddin em suas palavras. A escritora e jornalista Louise Carpenter organiza esse testemunho em forma de narrativa biográfica, articulando memória pessoal e contexto histórico.  

Ao invés de cortar as asas de sua filha e esposa, este pai fez o contrário, ele permitiu que elas mantivessem suas asas e voassem, mesmo dentro de uma sociedade que tolheu as mulheres e as trata como seres inferiores.

 

Ziauddin Yousafzai nasceu em Shangla, Paquistão, em 1969. É um empresário e ativista educacional, mais conhecido como sendo o pai de Malala Yousafzai.

Louise Carpenter nasceu em Duns, Escócia, Reino Unido em 1970. É uma escritora e jornalista escocesa. 




quinta-feira, 7 de maio de 2026

ENTRE A LUCIDEZ HISTÓRICA E OS LIMITES DO MARXISMO

 

ERIC HOBSBAWM: UMA VIDA NA HISTÓRIA

RICHARD J. EVANS

CRÍTICA – 1ª ED. – 2021

728 páginas


Em primeiro lugar, lamento os erros de revisão do livro: são pequenos erros de grafia e ausência de algumas palavras, que não comprometem a leitura, mas são perceptíveis. 

O livro trata da vida do historiador marxista Eric Hobsbawn, autor de várias obras conhecidas, como a trilogia das Eras e "Era dos Extremos". A narrativa percorre sua infância, adolescência, todo o período da Segunda Guerra Mundial, sua vida acadêmica e seu percurso intelectual. O que considerei mais interessante e importante nesta leitura foi:

- Informações curtas, mas relevantes, sobre o Congo Belga, a invasão de Praga e da Hungria e alguns governos do Reino Unido. Sua visão inicial sobre a América Latina mostra-se um pouco ilusória, algo que ele corrige posteriormente. Como muitos intelectuais de esquerda de sua época, também nutriu certa ilusão em relação à União Soviética, mas Eric percebeu rapidamente suas contradições. Foi sempre comunista, embora nunca ortodoxo. 

- Sobre a vida acadêmica: os preconceitos, as competições, os debates e as críticas. Eric foi durante muito tempo um outsider na academia britânica, e o reconhecimento por seu trabalho e pesquisas veio tardiamente. Nunca conseguiu ocupar uma cátedra em Cambridge ou Oxford. 

- É curioso como um homem considerado feio - algo dito inclusive por sua irmã no livro - atraia tantas mulheres. 

- Hobsbawm teve o mérito de incluir as mulheres em "A Era dos Impérios"; no entanto, mostrou-se incapaz de reconhecer plenamente a participação feminina na história. Mesmo sendo amigo de Michelle Perrot e conhecendo Joan Scott, ele afirmava que o feminismo não era compatível com o marxismo e não enxergava nas mulheres um papel relevante na história dos trabalhadores. É preciso considerar que, naquele momento, os estudos sobre mulheres ainda estavam em consolidação, e talvez hoje ele revisasse algumas dessas posições. De fato, parte do feminismo inglês de sua época possuía um viés burguês e a luta das mulheres trabalhadoras nem sempre estava contemplado nesse movimento. 

No fundo, Hobsbawm parecia um burguês em seu estilo de vida, mas dotado de uma visão histórica perspicaz. 



Richard J. Evans nasceu em Woodford, Reino Unido em 1947. É um historiador com foco na história da Alemanha. 


sábado, 11 de abril de 2026

PENSAR A PARTIR DA COMPLEXIDADE

 


MEUS DEMÔNIOS

EDGAR MORIN

BERTRAND BRASIL  – 5ª ED. – 1995

276 páginas


Em Meus demônios, Edgar Morin realiza um exercício raro de autobiografia intelectual que não busca a celebração de si, mas a exposição das contradições que atravessam uma vida dedicada ao pensamento. O livro não é uma confissão no sentido clássico, tampouco um memorial pacificado; trata-se de um confronto direto com as forças internas — afetivas, políticas, ideológicas e existenciais — que moldaram sua trajetória.

Morin escreve a partir da recusa da linearidade. Sua vida aparece marcada por rupturas, ambiguidades e revisões constantes: o engajamento político, a experiência da Resistência, a militância comunista e o posterior afastamento do dogmatismo ideológico compõem um percurso que jamais se resolve em certezas definitivas. Os “demônios” a que o título se refere não são apenas conflitos íntimos, mas também as tentações do pensamento simplificador, da ortodoxia e da fidelidade cega a sistemas fechados.

Ao revisitar sua história, Morin explicita a inseparabilidade entre vida e pensamento. A teoria não nasce em abstração, mas no atrito com a experiência, com o erro, com o sofrimento e com o fracasso. Nesse sentido, Meus demônios antecipa e ilumina aquilo que se tornaria central em sua obra posterior: a defesa do pensamento complexo como resistência à mutilação do real, à redução da vida a esquemas binários e à separação artificial entre razão e emoção.

O livro também é atravessado por uma reflexão profunda sobre o século XX. Guerras, totalitarismos, desencantos políticos e crises civilizatórias não aparecem como pano de fundo, mas como forças que atravessam subjetivamente o autor. Morin reconhece sua própria vulnerabilidade diante das grandes narrativas de salvação histórica, mostrando como mesmo o pensamento crítico pode ser capturado por ilusões redentoras.

Há, em Meus demônios, uma ética da lucidez que se constrói a partir da aceitação da incompletude. Morin não se apresenta como alguém que venceu seus conflitos, mas como quem aprendeu a conviver com eles sem negá-los. Pensar, aqui, é um exercício permanente de vigilância contra o fechamento, contra a tentação da pureza ideológica e contra o conforto das respostas fáceis.

O livro permanece atual justamente por essa recusa da pacificação. Em tempos de polarização, certezas identitárias rígidas e discursos totalizantes, Meus demônios lembra que a complexidade não é fraqueza, mas condição ética do pensamento. Ler Morin é aceitar que a lucidez nasce do enfrentamento dos próprios abismos — e que pensar é, sempre, arriscar-se.

Edgar Morin nasceu em Paris, em 1921. É um antropólogo, sociólogo e filósofo francês. 




UMA VIDA CONTADA COM A MESMA IRREVERÊNCIA DE SUAS MÚSICAS


 

RITA LEE: UMA AUTOBIOGRAFIA

RITA LEE

GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2016

296 páginas


Adorei ler esta autobiografia. Rita Lee fez parte da minha adolescência e cheguei a assistir um show dela - O Fruto Proibido.

No livro, ela conta sua vida sem rodeios ou subterfúgios. Fala abertamente de sua dependência alcóolica, de sua rebeldia, de sua forte ligação com a família, de seu período durante a ditadura e da censura que atingiu suas músicas.

Também aparece com força seu amor pelos animais e sua personalidade irreverente, que marcou sua trajetória artística e pessoal.


Rita Lee nasceu em São Paulo, em 1947 e faleceu na mesma localidade em 2023. Foi uma cantora, compositora, escritora e ativista brasileira. 


quarta-feira, 1 de abril de 2026

MERKEL: PODER, PRUDÊNCIA E ANTECIPAÇÃO POLÍTICA

 


ANGELA MERKEL: A CHANCELER E SEU MUNDO

STEFAN KORNELIUS

EDITORA nVERSOS – 1ª ED. 2015

288 páginas

Stefan Kornelius no traz uma biografia política de Angela Merkel. No início do livro são apresentados alguns fatos de sua infância e de sua vida durante 35 anos na RDA, a Alemanha oriental, e os efeitos que essa experiência teve sobre sua formação, principalmente no que se refere à questão da liberdade.  

Merkel era filha de um pastor protestante que, junto com sua esposa e mãe de Angela, soube preservar na intimidade de sua casa, a portas fechadas uma liberdade de pensamento. Porém, do outro lado da porta, era preciso se fazer de inocente e saber dissimular para não se tornar alvo de perseguição política.

No início de sua carreira política no Ocidente, após a queda do muro de Berlim, Angela encontra dificuldades para compreender o pensamento ocidental. Aos poucos, contudo, vai se entrosando, embora sempre guarde para si o valor máximo da liberdade.

O livro trata dos dois primeiros períodos de seu governo, tendo sido publicado antes do terceiro. Nele aparecem questões centrais da política internacional, como a guerra do Iraque, a invasão da Líbia e, sobretudo, a crise do euro. Kornelius mostra também o estilo de governo de Merkel: sempre cauteloso, passo a passo, sem lances intuitivos ou emocionais, marcado por uma postura extremamente analítica e racional.

São descritos ainda seus encontros e negociações com os governos da Rússia, da China e dos Estados Unidos, bem como sua aliança com a França durante a crise do euro, parceria que posteriormente se enfraqueceu com a mudança de presidente francês.

Somos apresentados, assim, a uma mulher que foi considerada a mais poderosa do mundo e, se não do mundo, certamente da Europa. Embora não se apoie na intuição, Merkel possui um senso de análise que a leva a antecipar crises futuras, inclusive aquelas que hoje se desenham nas tensões entre Rússia, Estados Unidos e China.


Stefan Kornelius nasceu em 1965. É um jornalista alemão. 


domingo, 29 de março de 2026

ESCREVER COMO RESISTÊNCIA

 

DIÁRIOS DE RAQQA

A história real do estudante que desafiou o Estado Islâmico, foi jurado de morte e conseguiu fugir de uma cidade sitiada

SAMER

GLOBO CLUBE - 1ª ED. – 2017

112 páginas

É um livro bem curto, mas de uma densidade imensa. Comecei a ler e não larguei até terminar.

 Um jovem de 24 anos que vive em Raqqa, na Síria, de repente vê o Daesh - mais conhecido por Estado Islâmico - invadir sua cidade. A partir desse momento, o que já não estava bom, em função da guerra civil síria contra o ditador Assad, torna-se mil vezes pior. o Daesh impõe a sharia - ou aquilo que eles consideram ser a sharia - e executam todos os que não lhes obedecem.

Além disso, exploram um povo já empobrecido ao extremo, literalmente roubando o pouco que lhes restava por meio de taxas e multas que eles próprios inventam.

Samer, pseudônimo do autor, relata o dia a dia dessa vida sob terror. Recorda também os bons momentos de antes, enquanto vive permanentemente no medo e na insegurança.

Como se não bastasse, os russos bombardeiam a cidade. É em um desses ataques que ele perde o pai, quando sua casa é atingida. A mãe passa a viver desesperada com o que possa acontecer ao filho, sobretudo porque ele, quando estudante na universidade, participou dos movimentos rebeldes.

Quando Samer descobre que foi jurado de morte pelo Estado Islâmico, finalmente reúne coragem para deixar tudo e todos para trás e consegue fugir.

Mas enquanto esteve lá, arriscou-se ao máximo. Queria que o Ocidente e outros países soubessem o que estava acontecendo em Raqqa, na esperança de uma ajuda que nunca veio. Ele conseguiu transmitir seu diário para fora do país, e o material chegou à BBC. Se fosse descoberto, teria sido imediatamente morto.

São esses relatos que compõem este livro.


Samer é um pseudônimo de um jovem que conseguiu escapar de Raqqa. Atualmente ele vive em um campo de refugiados.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

BOAS BRUXAS E SABERES FEMININOS

 

MULHERES DE MINHA ALMA

ISABEL ALLENDE

BERTRAND BRASIL – 1ª ED. - 2020

238 páginas

Em Mulheres de Minha Alma, Isabel Allende fala de sua própria vida a partir de um viés assumidamente feminista, mas também profundamente feminino. O livro não se organiza como um manifesto teórico, e sim como um relato atravessado por memória, afeto e experiência, no qual o feminismo surge como prática cotidiana antes mesmo de ganhar nome. Allende relata como, desde muito jovem, recusou a submissão das mulheres ao seu redor, especialmente a vivida por sua mãe, que, após a anulação do casamento, em um período em que o divórcio ainda não era permitido, permaneceu dependente do pai e dos irmãos, e posteriormente de um segundo marido.

A autora constrói uma crítica direta ao patriarcado, ao catolicismo conservador e ao machismo estrutural, refletindo sobre como essas forças moldaram não apenas sua trajetória pessoal, mas a vida de gerações de mulheres. Ao mesmo tempo, Allende insiste na ideia de transformação gradual: mudanças são possíveis, desde que não se abandone a luta. Há aqui uma clara aproximação com as gerações mais jovens, convocadas a dar continuidade a esse processo, especialmente diante do risco constante de perda de direitos já conquistados.

O livro também é atravessado pelas mulheres que marcaram sua vida — amigas, ancestrais, companheiras de caminhada — e pela presença simbólica das chamadas “boas bruxas”, figuras femininas associadas ao cuidado, à intuição, à liberdade e à transmissão de saberes. O amor, em suas múltiplas formas, aparece como força vital, não romântica no sentido ingênuo, mas como energia de vínculo, resistência e criação.

Mulheres de Minha Alma é, assim, um livro de afirmação e de alerta. Afirma a potência das mulheres e de suas histórias, e alerta para a fragilidade das conquistas quando a vigilância cede lugar ao conformismo. Um texto íntimo e político, no qual Isabel Allende transforma sua experiência pessoal em convite à escuta, à continuidade e à ação.


Isabel Allende nasceu em Lima, Peru, em 1942. É uma escritora chilena. 


domingo, 22 de fevereiro de 2026

O QUE É LIBERDADE? ENTRE SOCIALISMO, DEMOCRACIA E CAPITALISMO

 

LIVRE: VIRANDO ADULTA NO FIM DA HISTÓRIA

LEA YPI

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

304 páginas


PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - ALBÂNIA 

Em Livre: Virando Adulta no Fim da História, Lea Ypi constrói uma autobiografia profundamente atravessada pela história política da Albânia, acompanhando sua infância sob o regime socialista, a queda desse sistema, a guerra civil que se seguiu e, por fim, sua partida definitiva do país. Trata-se de um livro especialmente instigante também por seu cenário: a Albânia é um ponto quase cego da história europeia, apesar de ter sido apresentada, durante certo período, como modelo exemplar do socialismo/comunismo, o que torna a narrativa ainda mais potente ao deslocar o leitor de referências já cristalizadas.

Ypi relata uma infância aparentemente harmoniosa, marcada pela vida familiar, pela escola e pela rotina cotidiana. Para a criança que foi, tudo parecia funcionar de modo coerente e seguro, sem grandes motivos para questionamento. As fissuras surgiam apenas nas conversas entre adultos, fragmentos de falas que ela não conseguia compreender, mas que anunciavam algo silenciado. Somente após a queda do regime ela descobre a história real de sua família e compreende o silêncio que a cercava; um silêncio construído como forma de proteção, tanto dela quanto da própria família.

A partir dessa experiência, o livro avança para uma reflexão mais ampla sobre a ideia de liberdade. Ypi questiona se ela realmente existe nas democracias liberais, no capitalismo e no sistema neoliberal, mostrando como a coerção nem sempre é visível e como a liberdade pode operar como uma ilusão eficaz justamente por ser naturalizada e internalizada. Não se trata apenas de regimes políticos distintos, mas de formas diferentes de produzir obediência, adesão e consentimento.

A leitura provoca inevitáveis deslocamentos e ressonâncias com o contexto brasileiro. É impossível não pensar no silêncio que recai sobre a escravização e sobre a ditadura militar, silêncios que produzem a ignorância política que atravessa o presente. Assim como Lea, também crescemos acreditando no que nos foi ensinado na escola e na família, sem acesso às camadas ocultas da história e às violências que estruturaram o país.

O livro também conduz a uma reflexão sobre o eurocentrismo que nos legou uma ideologia branca, racista e patriarcal, ainda profundamente operante. Muitos continuam a pensar os povos indígenas como seres do passado, indolentes ou preguiçosos, e os negros como inferiores ou, pior, como inimigos sociais — imagens que seguem legitimando violências cotidianas amplamente visíveis no noticiário. A permanência dessas hierarquias revela o quanto a chamada liberdade democrática convive com formas profundas de exclusão e desumanização.

Por fim, o livro nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda: qual é, afinal, a diferença? No Brasil, a palavra “comunismo” ainda provoca pânico, enquanto as formas de manipulação e coerção do sistema vigente passam quase despercebidas. Livre nos convida a percorrer o caminho inverso: se o capitalismo se apresenta como o oposto do comunismo, em que medida eles também se aproximam? Sabemos bem no que diferem, mas raramente nos perguntamos no que são semelhantes. É nesse espaço de reflexão, entre memória, silenciamento e ideologia, que o livro se inscreve com força.

Lea Ypi nasceu em 1979, em Tirana na Albânia. É escritora e professora de teoria política e filosofia. 



LINGUAGEM, MEMÓRIA E ESCRITA

 

CADERNOS DA GUERRA E OUTROS TEXTOS

MARGUERITE DURAS

ESTAÇÃO LIBERDADE – 1ª ED. – 2009

384 páginas

Cadernos da Guerra e Outros Textos, de Marguerite Duras, reúne escritos que refletem sobre a experiência da guerra, da ocupação e da resistência, abordando os efeitos do conflito na vida individual e coletiva. A obra é marcada pelo estilo conciso, fragmentário e intimista de Duras, que combina memórias, testemunhos e reflexões filosóficas, revelando a dimensão humana da violência e da opressão.

O livro nos conduz pelo olhar sensível da autora sobre o cotidiano da guerra, os dilemas morais e éticos enfrentados por quem resiste, e a forma como a memória da violência molda a subjetividade. Duras explora temas como medo, perda, coragem e solidariedade, mostrando a tensão entre o ordinário e o extraordinário, a vida comum e o momento histórico extremo.

Além do contexto histórico, a obra provoca reflexões sobre linguagem, escrita e memória, revelando como os relatos literários podem capturar experiências traumáticas e oferecer compreensão sobre a condição humana. Cadernos da Guerra e Outros Textos é uma leitura intensa, que combina história, literatura e introspecção, convidando o leitor a refletir sobre os efeitos duradouros da guerra na vida pessoal e coletiva.


Marguerite Duras pseudônimo de Marguerite Donnadieu, nasceu em Saigon (atual Cidade de Ho Chi Minh) em 1914 e faleceu em Paris em 1996. Foi uma romancista, novelista, roteirista, diretora de cinema e dramaturga francesa


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

EUFRÁSIA: PIONEIRA NA BOLSA DE VALORES

 

#QUERO SER EUFRÁSIA

MARIANA RIBEIRO

EBOOK - 2019

72 páginas

#Quero Ser Eufrásia, de Mariana Ribeiro, apresenta a extraordinária trajetória de Eufrásia Teixeira Leite, uma das primeiras mulheres brasileiras a operar na Bolsa de Valores, no século XIX. Nascida em Vassouras, no Rio de Janeiro, Eufrásia desafiou convenções de uma época em que a educação feminina se restringia a português, matemática rudimentar, história, línguas e tarefas domésticas. Graças ao incentivo do pai, ela recebeu conhecimentos financeiros que se mostrariam fundamentais para gerir a herança da família.

Após a morte dos pais e o acidente de sua irmã, que a impedia de se casar, Eufrásia mudou-se para Paris, onde iniciou sua carreira de investimentos. Atuou nas principais bolsas de valores, incluindo Paris, Brasil, Nova York e Londres, negociando em diversas moedas, alcançando grande sucesso e tornando-se milionária.

Eufrásia foi noiva de Joaquim Nabuco, mas o relacionamento terminou devido à diferença de leis entre Brasil e França: no Brasil, a herança da mulher passava automaticamente à gerência do marido, enquanto na França isso não ocorria, e Nabuco recusou-se a casar fora do país. Eufrásia jamais se casou, mantendo sua independência financeira e pessoal.

Sua vida extraordinária comprova que mulheres são igualmente capazes de gerir finanças e atuar na bolsa de valores, desafiando preconceitos históricos e mostrando que competência e ousadia não têm gênero.


UMA MULHER INTENSAMENTE VIVA

 


LOU ANDREAS-SALOMÉ

DORIAN ASTOR

L&PM – 1ª ED. – 2016

320 páginas

Dorian Astor nos apresenta um retrato amplo e sensível de Lou Andreas-Salomé, acompanhando sua trajetória da infância até a morte, bem como suas relações intelectuais e afetivas com figuras centrais do pensamento europeu, como Paul Rée, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke, Andreas — seu marido — e Sigmund Freud, além de muitas outras amizades que marcaram sua vida intelectual. Mais do que uma biografia factual, o livro constrói a imagem de uma mulher profundamente à frente de seu tempo, talvez até do nosso, que prezava a liberdade, a autonomia intelectual e uma relação afirmativa com a vida.

Lou aparece como uma pensadora que via, inclusive na dor e na tristeza, uma possibilidade de crescimento e de superação daquilo que paralisa. Nesse sentido, sua postura se opunha à noção freudiana de pulsão de morte: para ela, mesmo no sofrimento, é sempre a vida que pulsa, jamais a inércia ou a morte. Essa confiança radical na vitalidade atravessa tanto sua obra quanto suas escolhas pessoais.

Infelizmente, por decisão própria, Lou preservou rigorosamente sua vida privada. Grande parte de sua correspondência foi destruída por ela mesma e por seus interlocutores, a seu pedido, o que nos priva de um acesso mais amplo ao desenvolvimento de seu pensamento. Permanecem lacunas, ainda que seus romances e ensaios permitam traçar esse percurso de forma indireta, revelando muito de suas inquietações e elaborações interiores.

Lou Andreas-Salomé é mais uma entre tantas grandes mulheres pensadoras lembradas sobretudo por suas relações com homens consagrados, e não por sua própria produção intelectual. O mérito do livro de Dorian Astor está justamente em combater essa redução, mostrando que Lou jamais foi uma sombra ao lado desses homens, ao contrário, foi presença ativa, interlocutora respeitada e pensamento autônomo. Muito difamada, especialmente pela irmã de Nietzsche, talvez tenha sido essa experiência que a levou a valorizar tanto o silêncio e a privacidade, optando por não comentar publicamente sua amizade com o filósofo, exceto pelo que escreveu sobre sua obra e sua filosofia.

O autor também aborda a relação ambígua de Lou com o feminismo. Apesar de sua independência, liberdade de pensamento e vida pouco convencional, ela nunca se declarou feminista. Embora tivesse amigas engajadas nessas lutas, Lou acreditava que a verdadeira liberdade era essencialmente interna. Questões como o direito ao voto ou o trabalho feminino lhe pareciam externas, insuficientes para tocar o núcleo da emancipação individual.

O retrato que emerge é o de uma mulher vibrante, intensamente viva, brilhante em seus pensamentos, admirada e amada por muitos homens, mas que jamais abriu mão de sua independência. Uma figura que continua a desafiar categorias fáceis e a exigir leituras que não a reduzam, nem a expliquem apenas por suas relações.

Dorian Astor nasceu em Béziers, França, em 1973. É um filósofo e germanista francês especialista em Nietzsche. 



A MEMÓRIA VIVA DE UMA INFÂNCIA AFRICANA


 

AMKOULLEL, O MENINO FULA

AMADOU HAMPÂTÉ BÂ

PALAS ATHENA – 3ª ED. - 2003

376 páginas

Amadou Hampâté Bâ foi um griot, isto é, um contador de histórias e guardião das tradições africanas. Ser griot é uma função social, uma profissão, parte constitutiva das culturas africanas. Hampâté Bâ foi um grande intelectual da oralidade, aquilo que ele próprio definia como uma “biblioteca viva”.

Neste livro, ele narra sua vida da infância à adolescência no Mali, onde nasceu em 1900. Viveu principalmente em Bandiagara, entre os fulas, povo de pastores. A narrativa é extremamente rica em detalhes e experiências: o universo da infância, a passagem para a juventude, o lugar da mulher, especialmente da mãe, o impacto do colonialismo francês, bem como o sincretismo entre as tradições africanas, suas crenças e o Islã.

Desde criança, Hampâté Bâ foi treinado para a oralidade, para a escuta atenta, a memorização e a transmissão das histórias. Mais tarde, ele próprio se dedicará a coletar esses relatos, compondo um amplo panorama da história e das tradições de seu povo.

Ao ler Amkoullel, o menino fula, mergulhamos profundamente no universo de Hampâté Bâ. E confesso: quando cheguei ao final, queria mais, muito mais.


Amadou Hampâté Bâ nasceu em Bandiagara, Mali, em 1901 e faleceu em Abidjã, Costa do Marfim, em 1991. Foi um griot e escritor malinês. 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

PENSAR DE LONGE PARA COMPREENDER DE PERTO


 

DE PERTO E DE LONGE

CLAUDE LÉVI-STRAUSS E DIDIER ERIBON

COSAC & NAIFY – 1ª ED. 2005

272 páginas

Em De Perto e de Longe, Didier Eribon entrevista Claude Lévi-Strauss. O livro é particularmente instigante para quem deseja conhecer não apenas a obra, mas o percurso de vida e de pensamento desse que foi um dos grandes mestres da antropologia do século XX. Não se trata de uma entrevista protocolar, mas de uma travessia biográfica e intelectual, marcada por deslocamentos, hesitações e escolhas que ajudam a compreender a formação de um pensamento singular.

O relato de Lévi-Strauss é fascinante justamente porque não constrói uma narrativa heroica de si. Ao contrário, ele revisita sua trajetória com distanciamento, quase com pudor. Seu percurso entre filosofia, antropologia, exílio, trabalho de campo e reflexão estrutural — aparece como algo que se fez aos poucos, muitas vezes contra expectativas iniciais. Para quem, como eu, estuda filosofia, mas sente que o desejo maior aponta para a antropologia, esse livro funciona também como espelho e estímulo.

Um dos momentos mais interessantes da entrevista é quando Lévi-Strauss retoma sua aproximação entre antropologia e psicanálise. Foi ele quem comparou o xamã ao analista, ressaltando tanto as semelhanças quanto as diferenças entre esses dois modos de escuta e intervenção simbólica. No entanto, é também o mesmo Lévi-Strauss que, em A Oleira Ciumenta, formula uma crítica rigorosa à psicanálise. Essa ambivalência não é contradição, mas método: aproxima-se para compreender, afasta-se para pensar.

Talvez um dos aspectos mais intrigantes do livro seja a recorrente afirmação de Lévi-Strauss de que não se lembra de nada, de que esquece tudo. Essa confissão, vinda de alguém cuja obra é atravessada por mitos, estruturas e sistemas de memória coletiva, produz um efeito quase paradoxal. Mas é justamente aí que o livro se abre para uma reflexão mais profunda: talvez lembrar exija esquecer. Talvez o pensamento só se organize quando o excesso de memória cede lugar à estrutura.

Nesse sentido, De Perto e de Longe não é apenas um livro sobre Lévi-Strauss, mas sobre o próprio ato de pensar. Um pensamento que não se ancora na autobiografia como confissão, mas no distanciamento; que não acumula lembranças, mas as reorganiza; que só pode ver de perto porque aprendeu, antes, a olhar de longe.


Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1908 e faleceu em Paris, França, em 2009. Foi um antropólogo.

Didier Eribon nasceu em Reims, França, em 1953. É um escritor e filósofo francês. 


 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

O DESFECHO TRÁGICO: FEMINICÍDIO PREMEDITADO


 

PIMENTA NEVES: UMA REPORTAGEM

LUIZ OCTAVIO DE LIMA

INDEPENDENTLY PUBLISHED – 2013

295 páginas

Pimenta Neves: Uma Reportagem, de Luiz Octavio de Lima, relata o caso do assassinato da jornalista Sandra Gomide por Pimenta Neves, buscando compreender as motivações e circunstâncias que levaram a esse crime. O autor traça a trajetória de ambos desde a infância, passando pelas carreiras e pelo encontro que culminou na relação entre os dois.

O livro evidencia que Pimenta Neves apresentava problemas emocionais e psíquicos, refletidos em suas relações amorosas e profissionais, incluindo casos de estupro, assédio moral e sexual, e uma postura de onipotência sobre funcionários e colaboradores. Seu comportamento abusivo evoluía gradualmente, aumentando a gravidade das situações. Por outro lado, Sandra, em alguns momentos, assumia uma postura de autoridade nos ambientes de trabalho, aproveitando-se da proteção e influência que Pimenta exercia, mas isso jamais justifica o desfecho trágico.

Quando Sandra decide se afastar, Neves reage de maneira extrema, entrando em desespero, enquanto aqueles ao redor percebem sinais claros de perigo. Apesar de algumas tentativas isoladas de intervenção, medidas mais efetivas que poderiam ter evitado o assassinato não foram tomadas. Ele a mata com dois tiros, um nas costas e outro na cabeça.

O livro também analisa o processo judicial, os recursos que possibilitaram sua liberdade provisória e os impactos sobre a família da vítima. Mais uma vez, o feminicídio não recebeu a devida justiça, especialmente considerando o prestígio e a condição financeira do acusado. O assassinato não foi um ato passional impulsivo: foi premeditado, planejado e executado, ainda que se reconheça seu estado emocional instável.

A obra expõe a gravidade do feminicídio e a falha das instituições em proteger mulheres, oferecendo reflexão crítica sobre poder, violência e impunidade.


Luiz Octavio de Lima era um jornalista brasileiro que faleceu em São Paulo, em 2020. 


QUEBRANDO O ESTEREÓTIPO DE SHERAZADE

 

EU MATEI SHERAZADE: CONFISSÕES DE UMA ÁRABE ENFURECIDA

JOUMANA HADDAD

RECORD – 1ª ED. - 2011

144 páginas

Eu Matei Sherazade, de Joumana Haddad, aborda questões de gênero, liberdade e representação da mulher na sociedade árabe. O livro combina memórias pessoais com reflexões políticas e sociais, e o título simboliza a ruptura com o estereótipo da mulher submissa e silenciosa presente na cultura árabe. Haddad escreve com paixão e honestidade sobre sua própria trajetória, revelando os desafios que enfrentou como mulher e escritora em uma sociedade patriarcal. A obra é inspiradora e instiga a reflexão sobre gênero, autonomia e liberdade de expressão, oferecendo uma perspectiva única e corajosa sobre as tensões entre tradição e emancipação feminina.


Joumana Haddad nasceu em Beirute, Líbano, em 1970. É uma escritora, palestrante, ativista de direitos humanos e jornalista libanesa. 


A FILOSOFIA DAS MULHERES NOS ESCRITOS DE SI


 

HISTÓRIA DA MINHA VIDA

GEORGE SAND . Compilado por Magali Oliveira Fernandes

EDITORA UNESP – 1ª ED. 2017

650 páginas

Neste livro, George Sand narra a própria vida desde a infância até a idade adulta, relatando experiências, desafios, afetos e escolhas que marcaram sua trajetória pessoal e intelectual.

A narrativa se inicia com a infância passada na propriedade rural da família, onde viveu até a adolescência. Sand descreve com riqueza de detalhes a paisagem e a atmosfera do campo, bem como sua paixão precoce pela leitura e pela escrita, já apontando para uma sensibilidade atenta ao mundo e às palavras.

À medida que o relato avança para a juventude, a narrativa ganha densidade. Surgem os primeiros amores e o casamento arranjado com o barão Casimir Dudevant, que se revela uma união infeliz. George Sand relata então a decisão corajosa de abandonar o marido e mudar-se para Paris, gesto radical para uma mulher de seu tempo. É nesse contexto que se envolve plenamente com a literatura e se consolida como uma escritora reconhecida.

Ao longo do livro, Sand fala de suas amizades com figuras centrais da vida literária francesa, como Gustave Flaubert, Victor Hugo e Alfred de Musset, além de abordar sua luta pelos direitos das mulheres e sua participação nos acontecimentos da Revolução de 1848.

A leitura de História da minha vida me levou a refletir sobre como a filosofia das mulheres muitas vezes se encontra menos nos sistemas formais e mais nos relatos, diários, memórias e autobiografias. É nesses escritos que emergem reflexões profundas sobre liberdade, amor, injustiça, criação e existência — pensamentos que, por muito tempo, foram desconsiderados como filosofia justamente por terem sido escritos por mulheres.


George Sand, pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin, nasceu em Paris em 1804 e faleceu em Nohant-Vic, França, em 1876. Foi uma romancista e memorialista francesa.