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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

LIVRO: QUANDO ÉRAMOS ÓRFÃOS - KAZUO ISHIGURO


Ishiguro, Kazuo. Companhia das Letras, 2000
Tradução: José Marcos Macedo
393 páginas
Título Original: When we were orphans

A história é narrada por Christopher Banks quando se encontra na Inglaterra pós-guerra em retrospectiva sobre sua vida. Ele é um famoso detetive que desvendou vários casos que ficaram famosos, porém o mais importante para ele,o desaparecimento de seus pais em Xangai antes da Segunda Guerra, ele foi procrastinando até finalmente tomar a decisão de voltar e resolver também este caso.

A maior parte da narrativa é em Xangai, iniciando com as recordações de Christopher sobre sua infância na Colônia Internacional onde vivia e sua amizade com Akira, um garoto japonês que era seu vizinho. Quando seu pai desapareceu misteriosamente ambos brincavam de ser o inspetor Kung, o responsável pela investigação, e resolviam o mistério. O que não se esperava é que sua mãe também desapareceria.

Após o desaparecimento de seus pais Christopher é levado para a Inglaterra e criado por sua tia.

A força dos registros da infância transparecem o tempo todo no livro. Primeiro Christopher escolhe como profissão ser detetive, mas reluta em ir atrás do mais importante para ele até que finalmente o faz. Volta à Xangai e começa a investigar e é neste momento que todo o trauma da perda de seus pais passa a atuar.

Xangai está cercada pelos japoneses, e quando ele encontra um soldado japonês ferido nos escombros do cortiço onde imagina estarem seus pais ele vê nele Akira. O soldado percebendo que seria sua chance de sobreviver e não ser morto pelos chineses entra no jogo e o leva até onde ele quer ir, a casa indicada pelo inspetor Kung como sendo a única que ele não revistou na época do desaparecimento de seus pais, porém ela está destruída também.

Xangai no tempo de sua infância era dominada pelo comércio do ópio, e sua mãe e o chamado Tio Philip, eram contra isto, e faziam campanha para acabar com o tráfico. Agora Christopher quer se encontrar com o Cobra amarela, que supõe saber o paradeiro de seus pais. Ao final ele terá grandes surpresas quando descobrir finalmente o que aconteceu.

Por mais que Christopher fosse um renomado e excelente detetive quando se trata de si próprio a coisa já não é tão simples, lhe falta objetividade e distanciamento, ele é envolvido em suas emoções e memórias que nem sempre são exatas, se fixam no tempo, faltam pedaços e são registradas segundo a ótica de uma criança, o que lhe dificulta enxergar a realidade do que investiga. Ele parece voltar no tempo quando brincava com Akira de detetive, ignora inclusive que o japonês está seriamente ferido, não percebe que não é Akira, uma vez que em sua mente ele teria que resolver o mistério junto com seu amigo, só assim o conseguiria.

Além da questão do ópio e do poder, o livro passa levemente pela questão dos costumes, e do amor patológico, onde um ego ferido é capaz de vingança.

Quando carregamos um trauma de infância, acabamos passando a vida dirigindo nossas energias psíquicas para isto, na tentativa de solucionar revivemos e buscamos a resposta, como os órfãos de pais desaparecidos, um vazio que se cria. Christopher e Jennifer, a criança que perdeu seus pais e ele adota, retribuindo à vida o que sua tia fez por ele,  passam a vida tentando compreender, e ao fim o que buscam é a paz, o viver um pouco e com pequenos prazeres possíveis.

Kazuo Ishiguro nasceu em 1954 em Nagasaki no Japão, mas emigrou com sua família para a Inglaterra quando tinha seis anos.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

LIVRO: DIA DE FINADOS - CEES NOOTEBOOM


Nooteboom, Cees. Companhia das Letras, 2001
Tradução: José Marcos Macedo
345 páginas

Arthur Daane, um cinegrafista holandês, perdeu sua esposa e filho num acidente aéreo. Sua vida após esta perda trágica passa a ser perambular e ocasionalmente fazer algum trabalho para ganhar algum dinheiro, mas sua principal ocupação é filmar fragmentos, pedaços, tudo aquilo que está ali, mas ninguém vê ou percebe, e faz isto por onde anda Espanha, Holanda, Japão, Estônia e principalmente em Berlim onde se encontra por mais tempo no momento.

É o relato de um solitário, que não supera seu luto, que busca em vão compreender o que é impossível. Berlim é uma cidade onde os mortos também permanecem, estão ali nos escombros, no ar, na culpa que também acompanha os alemães como a ele também. O último instante quando ele registra sua mulher e filho na fila no aeroporto. Ele não estava com eles.

Apesar da solidão tem bons amigos, Erna na Holanda e Victor, Arno e Zenóbia em Berlim, além de outros cinegrafistas com os quais divide apartamentos pelo mundo. Conhece uma mulher, Elik, que também carrega em si um trauma, é uma historiadora, e da mesma forma que Arthur, também uma solitária, só que ao invés de perambular pelo mundo ela se enclausura na história e está fazendo seu doutorado sobre uma rainha da idade média, Urraca.

Temos interrupções no decorrer do livro, são os anjos que tudo vêem, ou o coro, como acontece no teatro grego que nos falam de coisas que cabe a cada um, mas que o outro não pode ver, mas eles vêem tudo ao mesmo tempo. Arthur socorre uma senhora e a deixa no metrô, mas jamais saberá que ela morreu.

O que o impressiona é aquela sensação de estar num lugar onde tantos já estiveram antes, passaram também por ali, falaram algo, e o lugar fica, mas onde estão todos estes? As vozes ficam? os movimentos? Um lugar onde já houve guerra e muitos morreram, e agora está calmo, mas é o mesmo lugar. Como filmar isto? Uma cidade é feita de edifícios e vozes, mas se retiramos as vozes o que sobra?

Ele busca vestígios, não pode esquecer, e não compreende que as coisas passem, que tudo muda, se transforma, mesmo que o lugar seja o mesmo, a transitoriedade de tudo.

Diante de uma foto do Dia de Finados onde as mulheres se encontram, limpam os túmulos, levam flores, fazem isto todos os anos ele começa a compreender que é preciso lembrar para esquecer.

Cees Nooteboom, pseudônimo de Cornelis Johannes Jacobus Maria, nasceu em 1993 em Haia, Holanda.