Mostrando postagens com marcador José Saramago. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Saramago. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A LUCIDEZ FEMININA EM UM MUNDO CEGO


 

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

JOSÉ SARAMAGO

COMPANHIA DAS LETRAS – 2020

312 páginas 

Em Ensaio sobre a cegueira, José Saramago constrói uma alegoria radical sobre a incapacidade humana de ver. A cegueira que se espalha no romance não é apenas física: ela revela um colapso ético, social e político. O que se perde não é a visão dos olhos, mas a capacidade de perceber o outro, o mundo e a si mesmo para além do automatismo, da ideologia e das certezas confortáveis.

Saramago parece insistir numa ideia desconfortável: não são os olhos que enxergam, mas algo interior que se comunica com o exterior. Ver implica responsabilidade, atenção, abertura. Quando essa dimensão se rompe, instala-se a barbárie — e ela não precisa de muito tempo para se organizar. O romance mostra como, diante do medo e da escassez, as convenções morais se dissolvem rapidamente.

Todos ficam cegos, exceto uma única pessoa: uma mulher. Essa escolha não é casual. A mulher que vê carrega o peso de testemunhar a degradação humana sem poder intervir plenamente nela. Ver, aqui, não é privilégio; é condenação. A lucidez isola, expõe e fere. Ao mesmo tempo, Saramago não idealiza o feminino: o fato de ser mulher não a torna moralmente superior, nem implica que as mulheres, enquanto grupo, estejam imunes à cegueira. Muitas também não veem — ou escolhem não ver.

A presença dessa mulher funciona como espelho incômodo para o leitor. Se alguém vê, por que os outros não veem? O romance sugere que a cegueira não é falta de capacidade, mas uma recusa — uma acomodação coletiva diante da violência, da desigualdade e da desumanização cotidiana.

Ensaio sobre a cegueira permanece atual justamente porque não oferece redenção fácil. É uma metáfora dura, que nos obriga a deslocar o olhar: não para enxergar melhor, mas para perceber o quanto já aceitamos viver na escuridão. Ler Saramago é, nesse sentido, um exercício desconfortável de lucidez.


José Saramago nasceu em Azinhaga, Portugal, em 1922 e faleceu em Tias, Espanha em 2010. Foi um escritor português premiado com o Nobel de Literatura em 1998.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O CUSTO HUMANO DA SALVAÇÃO

 


O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

JOSÉ SARAMAGO

COMPANHIA DE BOLSO – 2005

376 páginas 


Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago propõe uma reinterpretação radical da figura de Jesus, narrando sua história de modo a desafiar frontalmente as crenças religiosas convencionais. Não se trata de uma negação simples do cristianismo, mas de uma reescrita que desloca seus fundamentos, expondo tensões éticas, políticas e teológicas geralmente silenciadas.

A narrativa se inicia com o nascimento de Jesus em Belém, mas desde as primeiras páginas fica claro que Saramago não está interessado em repetir a versão bíblica consagrada. O autor rapidamente abandona a infância milagrosa e avança para a vida adulta, concentrando-se no momento em que Jesus passa a ser confrontado pelas exigências de sua missão — exigências que não aparecem como redenção, mas como imposição.

O Jesus de Saramago é, antes de tudo, um homem. Um homem atravessado por dúvidas, medos, desejos e tentações. Um homem que sofre, ama, hesita e se interroga. Ao humanizar radicalmente Jesus, Saramago desmonta a imagem de um messias plenamente consciente de seu destino e revela o peso insuportável de uma identidade divina que não foi escolhida, mas imposta. A relação com Deus não é de obediência serena, mas de conflito; a fé não é conforto, mas inquietação.

As relações de Jesus com seus discípulos, com Maria e com outras figuras bíblicas são igualmente deslocadas. Maria deixa de ocupar o lugar idealizado da virgindade intocável para surgir como mulher marcada pela dor, pela culpa e pela perda. A santidade dá lugar à experiência concreta, corporal e histórica. Ao fazê-lo, Saramago questiona não apenas dogmas específicos — como a Trindade ou a virgindade de Maria —, mas a própria lógica que sustenta uma teologia fundada no sacrifício.

Ao longo do romance, a crítica à Igreja Católica e ao seu papel histórico é incisiva. O cristianismo aparece menos como mensagem de amor e mais como projeto de poder, sustentado pela dor e pelo sofrimento humanos. Essa crítica atinge seu ponto mais alto no célebre encontro, em um barco, entre Jesus, Deus e o diabo. O diálogo entre os três é magistral e perturbador: Deus surge como figura sedenta de domínio, disposto a sacrificar o próprio filho para ampliar seu reino; o diabo, paradoxalmente, aparece como aquele que reconhece o horror desse plano; e Jesus, preso entre ambos, percebe que seu destino não é salvar o mundo, mas inaugurá-lo como espaço permanente de culpa e violência.

Nesse sentido, O Evangelho Segundo Jesus Cristo não é apenas um romance religioso, mas uma reflexão profunda sobre poder, obediência e responsabilidade. Saramago nos obriga a perguntar: que tipo de Deus exige o sofrimento como prova de amor? Que tipo de fé se funda no sacrifício de um inocente? Ao devolver a Jesus sua humanidade, o autor desloca o sagrado e expõe o custo humano das grandes narrativas de salvação.

É um livro incômodo — e justamente por isso necessário.


José Saramago nasceu em Azinhaga, Portugal, em 1922 e faleceu em Tias na Espanha em 2010. Foi um escritor português que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

DOCUMENTÁRIO: JOSÉ E PILAR - 2010


Direção: Miguel Gonçalves Mendes - 2010 
Duração: 125 min 
País: Espanha - Portugal - Brasil 

Mendes realizou o filme sobre José Saramago e Pílar Del Rio e o completou com o livro de Conversas Inéditas que também já li e postei aqui no Blog.

O filme me lembra muito Cadernos de Lanzarote escrito por Saramago, são detalhes da intimidade de ambos, seus pensamentos e a rotina de trabalho.



As idéias de Saramago, suas posições frente ao mundo. Um desiludido que sabia que a vida é o que ela é e o ser humano também, demasiado humano. Apesar de melancólico ele tem senso de humor.

Pílar é uma mulher forte, que abre mão de sua carreira de jornalista para assessorar Saramago, mas é uma escolha e o faz com prazer. E ele é dependente dela, a todo instante se ouve Saramago: Pílar! Pílar! Isto lhe dá um lugar que para outros poderia ser sufocante, mas é a beleza do amor que une os dois, um amor maduro entre dois seres que já haviam vivido antes outras experiências em suas vidas.



Havia um Saramago e havia um José, mas Pílar, era única.

Recomendo o documentário seguido do livro. Você encontra o filme completo no Youtube.


Miguel Gonçalves Mendes nasceu em 1978 em Covilhã, Portugal. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

LIVRO: CADERNOS DE LANZAROTE - VOL. I - JOSÉ SARAMAGO


Saramago, José. Companhia das Letras, 1997
672 páginas

Gosto muito de Saramago, e quando aprecio um escritor gosto de saber mais sobre ele, como foi sua vida, onde viveu, qual o contexto histórico e social em que esteve inserido.
Cadernos de Lanzarote são como um diário de Saramago, contam seu dia a dia de trabalho, viagens, encontros e suas opiniões políticas, literárias e culturais. Ele não se aprofunda em sua vida pessoal e íntima, apesar de fazer alguns comentários referentes. 
O interessante é ver como nasce um livro, sua trajetória, e ter a percepção que escrever não é fácil, às vezes leva muito tempo para se colocar no papel ou no computador o que depois lemos em tão pouco tempo. 
A vida cansativa, muitas viagens para divulgar os livros, convites que não param de chegar, e ele já tem certa idade, não tem mais o vigor da juventude. 
Estes cadernos são escrito quando ele já vive em Lanzarote nas Ilhas Canárias, de onde vem o título. Estas ilhas possuem uma beleza árida, vulcânica que mudam dia a dia. Uma grande mágoa de Saramago é ter sido melhor acolhido pela Espanha do que por seu país, Portugal
Li este livro lentamente, quase que no ritmo que ele foi escrito, um pouco a cada dia. 

José Saramago nasceu em 1922 em Azinhaga - Portugal e faleceu em 2010 em Tías - Espanha. 
Recebeu o Nobel de Literatura em 1998 e o Prêmio Camões em 1995. 

domingo, 16 de setembro de 2012

LIVRO: JOSÉ E PILAR - Conversas Inéditas - MIGUEL GONÇALVES MENDES



Mendes, Miguel Gonçalves. Companhia das Letras, 2012
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
224 páginas.

Terminei a leitura do livro "José e Pilar Conversas Inéditas" e o recomendo. O livro traz conversas entre o autor e José Saramago e Pilar del Rio sobre política, amor, religião e Deus, morte. Cada um deles expõe seus pensamentos e a maneira como lida com estes assuntos. Pilar é uma mulher extraordinária, forte, decidida e muito racional, o que muitas vezes me levou a não concordar totalmente com ela, mas é de uma generosidade imensa. Saramago também é objetivo, olha a vida como ela é e ambos não tem medo de falar e expor seus pensamentos, sejam eles apreciados ou não pelos outros. Além disto há o amor entre este homem e esta mulher, que é belíssimo. Ambos são engajados nas grandes questões do mundo, o que hoje em dia nos falta e muito.

Um trecho sobre o que diz Pilar: " Os países privilegiados são países privilegiados e as pessoas que vivem nos países privilegiados não sabem o que têm e se suicidam de puro privilégio, não é? E não tenho pena dos suicidas do privilégio, porque toda a minha compaixão está esgotada com pessoas que neste momento estão cruzando o oceano tentando cavar a vida com um bebê nos braços, mortas de frio, está certo? Minha compaixão está com os que estão trabalhando de sol a sol, por um salário miserável, também em Portugal e também na Espanha, explorados por empresários que vão à missa e batem no peito. Minha compaixão está com todos esses, não com os suicidas do Primeiro Mundo nem com os empresários maravilhosos que tem desgraças pequenas, pessoais, a mulher que lhe põe chifres e todas essas coisas."

Mendes pergunta por que estes se suicidam, os do Primeiro Mundo e a resposta é " Por que não estão gerando os únicos valores que podem reconfortar e que podem satisfazer, que são os valores da solidariedade. E então vão ver os filhos crescer, os filhos se casar, tornar-se engenheiro de telecomunicações ou de não sei o quê, e estamos metidos nas pequenas vidinhas de cada um, sem percebermos que o mundo está mais longe, e no final a vida fica pequena. E há alguns que de tão pequena, se asfixiam e se suicidam. A vida é grande. Se fossêmos todos muito mais generosos, muito mais abertos, muito mais solidários, nos daríamos conta de que temos tanto trabalho pela frente que não teríamos tempo para nos suicidar. De acordo?"

E novamente Mendes lhe pergunta sobre o vazio, de não saber o que fazer... e ela " Como não saber o que fazer? Viver! Encher a terra! Cuidar dela! Deixá-la melhor! Cultivá-la! Aprender! Diferenciar Beethoven de Bach! Há um montão de coisas para fazer. Há um montão de coisas para fazer, ser solidário, adotar crianças, ir aos hospitais, cuidar dos doentes. Temos mundos de coisas. Ler, estudar! Ajudar aos que precisam. Cuidar do meio ambiente. Fazer festas! Beber vinho..

Uma bela crítica ao individualismo, ao sistema, ao higienismo, a falta de solidariedade, do dom da dádiva. Não estamos sozinhos no mundo, e o mundo não é apenas nosso quintal ou jardim.
Sobre o amor, um amor que não se espera do outro o que não tenho, mas que dá, oferece, o que cada um tem ou não tem.
Sobre a morte: faz parte da vida, é garantida, não tem por que se preocupar com ela, e sim com o viver que não é garantido. A morte já está conquistada, diz Pilar, a vida não.

José e Pilar 

Miguel Gonçalves Mendes nasceu em 1978 em Covilhã, Portugal. É um realizador, argumentista e produtos português.