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sexta-feira, 31 de julho de 2015

FILME: VOYAGE EN CHINE - 2015


Direção: Zoltan Mayer - 2015
Duração: 95 min
País: França

Liliane (Yolande Moreau) é casada com Richard (André Wilms), um homem que lhe dá pouca atenção. Em uma noite ela recebe um telefonema que seu filho Christophe faleceu em um acidente na China, onde estava morando. Liliane deseja trazer o corpo do filho para a França, mas se depara com uma burocracia infinita e incompreensível que não lhe esclarece absolutamente nada. Finalmente se decide a ir pessoalmente à China para buscar o corpo, mas irá sozinha, não quer que o pai a acompanhe, uma vez que pouco se importou com o filho durante toda sua vida, não precisa se importar agora. 



Esta viagem de dor e luto irá mudar a vida de Liliane completamente. Ela chega a um país com uma cultura totalmente diferente da sua e sem falar uma palavra de chinês. Sentimos em nós a angústia que isto causa, sem poder compreender ninguém, nem falar com o outro, porém há uma diferença crucial, pois não existe muita diferença entre seu percurso na França em busca de informações de como transladar o corpo do filho, onde todos falam francês, mas não dizem nada e não se compreende nada, e sua situação na China com a língua, mas ali as pessoas a acolhem, se esforçam para compreender e ajudá-la. 




Ela irá para o interior do país, e as paisagens são belas. Conhecerá Danjie (Qu Jing Jing) que foi a namorada de seu filho. Será acolhida pela senhora dona da hospedagem e fará um amigo que a ajudará a conseguir os documentos necessários. É justamente aí que vemos quando o ser humano deseja ajudar o outro ou não. Mesmo sem falar chinês e eles sem falarem francês, ela consegue o que precisa. 



Liliane conhecerá os amigos do filho e saberá algumas coisas sobre sua vida. Ela sente não ter ido antes quando ele ainda estava vivo, e começa a escrever uma espécie de diário onde conversa com ele sobre suas impressões do que está vivendo, como forma de compensar este vazio que sente. Ao descobrir que para o taoismo as pessoas que morrem em acidentes não vão para o céu, ou nirvana, ela resolve com Danjie cumprir os rituais necessários para que sua alma se liberte. E depois opta pela cremação por ser uma forma mais fácil inclusive de levar o filho para a França, realizando também o ritual fúnebre na China. 



Um filme que mostra que a dor muitas vezes é uma porta para uma nova vida, pois nos dá coragem de agir. 


Zoltan Mayer nasceu na França 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

FILME: LIVRE - 2014



Direção: Jean-Marc Vallée - 2014
Duração: 115 Min
Título Original: Wild 

Baseado na autobiografia homônima de Cheryl Strayed

Cheryl (Reese Witherspoon) perdeu sua mãe (Laura Dern) que morreu de câncer aos 45 anos e entra num luto patológico e selvagem, entregando-se ás drogas e a sexo descontrolado. Com isto acaba com seu casamento e se divorciando. Após um aborto, sem nem saber quem era o pai,  ela percebe que se transformou em algo ruim, se tornou autodestrutiva e que precisa fazer algo, pois estava longe de ser a mulher que sua mãe criou para ser. 

Sem saber porque quando ela foi à farmácia comprar um teste de gravidez um livro sobre a trilha Pacific Crest Trail, um percurso na costa do Oceano Pacífico, atraiu seu olhar, fazendo com que ela retornasse para comprá-lo. Ela decide então que é preciso mudar e resolve fazer o percurso, uma trilha de 1770 quilômetros, partindo do deserto de Mojave na Califórnia.  

O filme retrata esta caminhada ao mesmo tempo que traz as lembranças de Cheryl e de tudo que ela passou. Aos poucos ela vai se reencontrando, superando seus traumas. Enfrenta vários obstáculos e dificuldades como a falta de água, ter que comer comida fria, o medo, a solidão, os animais selvagens, e também vai encontrando várias pessoas diferentes pelo caminho, muitos que a acolhem. Ao terminar a trilha ela terá apenas vinte centavos e terá que recomeçar sua vida, o que me lembra o que sua mãe sempre lhe dizia, que eram ricos, eram ricos em amor, quando não tinham boas condições financeiras. 

Comprei o livro, mas apenas iniciei sua leitura. No livro sua mãe está casada novamente e ela também tem uma irmã, o que não aparece no filme. O que penso que faltou dizer no filme foi o que ela frisou no livro, que sua decisão de fazer esta caminhada havia sido tomada inconscientemente no dia que sua mãe foi diagnosticada com câncer e lhe foi dado um ano de vida. Um mês e pouco depois ela havia morrido.

É uma caminhada que é a metáfora de um percurso de crescimento enfrentando sozinha os obstáculos, sem sua mãe, é uma caminhada de libertação, de passagem para a vida adulta, de rompimento do cordão umbilical, sem o uso de muletas como a droga ou o sexo. Uma caminhada que também é o enfrentamento da dor, do luto, sentir esta dor, aceitar e continuar. 

Alguns falam da semelhança de sua busca com o filme Na Natureza Selvagem. Ela também troca seu sobrenome, para Strayed, que tem vários significados como não ter pai ou mãe, se desviar da rota certa, perder-se. É uma caminhada longa, mas diferente de Na Natureza Selvagem ela não se afasta tanto da civilização, apesar de grandes trechos solitários onde não cruza com ninguém, e das dificuldades que enfrenta, mas sempre surge alguém ou um saída. Ela também não se alimenta da natureza, não caça, ela está bem munida do que precisa, e mesmo para a água ela possui filtro e purificador para poder usar a água que encontra na natureza. De tempos em tempos ela faz uma parada, descansa, se alimenta e retoma a caminhada. Recebe os pacotes com a reposição do que precisa nestas paradas. Se no filme Natureza Selvagem há uma contestação dos valores dos pais e da sociedade, em Livre é a dor da perda da mãe, a dificuldade de viver sem ela, e a incapacidade de estar a altura do que lhe ensinou a mãe que a faz percorrer a trilha. Em ambos é necessário crescer, se desprender, mas felizmente Cheryl sai renovada desta caminhada para poder retomar sua vida, o que não ocorre com Christopher McCandless que ao tentar regressar já não o consegue e acaba morrendo. 

Jean-Marc Vallée 

sábado, 29 de novembro de 2014

FILME: UMA NOVA CHANCE PARA AMAR - 2013


Direção: Arie Posin - 2013 
Duração: 92 min 
Título Original: The face of love 

O Luto patológico 

Durante uma viagem de férias ao México Nikki (Annette Bening) perde seu marido Garret  (Ed Harris) que morre afogado. Sua única filha sai de casa na mesma época para viver com o namorado. A vida de Nikki perde todo o sentido e exceto pela companhia de Roger (Robin Williams) em sua última participação no cinema antes de sua morte neste ano, que também é viúvo e vai nadar na piscina de Nikki e costumam fazer algumas refeições juntos, ela vive das lembranças de seu marido. 

Até que um dia ela resolve voltar a visitar um museu, local onde ia muito com Garret que gostava de arte, e lá vê um homem extremamente parecido com seu falecido marido. Nikki passa a segui-lo até que consegue se aproximar e eles iniciam um relacionamento. A questão é que Nikki não esqueceu Garret, e não consegue abrir espaços para novos relacionamentos, e vê em Tom o marido que morreu e não a pessoa que está diante de si. Ela o leva aos mesmos lugares onde costumava ir, numa tentativa de manter o marido vivo. 

Quando perdemos alguém muito próximo a sensação é de que algo nosso foi junto, e por isto é necessário o luto para que ocorra a separação, para que o desejo se desligue deste objeto e possa se voltar para outros. Nikki não se separou de Garret, seu desejo continuou ligado à ele, ela não está disponível para amar Tom. É a Garret que ela vê e ama. Ela permanece fixada no passado, o psiquismo se cristaliza e idealiza a pessoa que partiu, e acaba introjetando este objeto ao invés de se separar dele e com isto poder continuar a viver e ter possibilidades de novos objetos amorosos ou outros atrativos na vida. 

Ela não aceitou a morte dele, não a enfrenta. Guarda tudo que era dele em caixas e mantém uma foto dos três, ela, o marido e a filha. Normalmente quando alguém morre guardamos algumas lembranças, mas nos desfazemos da maior parte das coisas, doando, vendendo, dando de presente aos outros. 

Nikki é melancólica, ela busca o passado, quer se livrar da dor e manter a ilusão de que nada disto tudo aconteceu. Há uma cena na praia com Tom onde ela lhe fala como se fosse Garret dando a compreender que nada daquilo aconteceu, que graças a Deus ele está vivo. E no entanto, é Tom quem está ali. 

Ela não consegue pintar e Tom lhe diz que pintar e seu olhar, olhar para algo, a percepção do que se vê, e então isto se expressa na tela. Nikki não consegue olhar para fora, está presa dentro de si, até que após conseguir se libertar ela pode novamente olhar e se expressar. 

Gostei muito do quadro de Tom que ele nomeia - A face do amor. Interessante porque ele olhar pela janela para Nikki na piscina, mas ao mesmo tempo há o seu reflexo no vidro. A face do amor é sempre o que buscamos no outro, aquilo que nos completa, que nos falta, o que não deixa de ser uma ilusão também, mas que possibilita muitas vezes criar, como fez Tom, e como fará Nikki depois. 

Um belo filme sobre o luto, a melancolia, e do quanto é necessário viver este momento com toda sua dor para depois se separar e continuar a viver, sem nunca esquecer ou deixar de amar quem partiu, mas podendo abrir espaço em seu desejo e em sua vida para outras coisas.

Infelizmente o filme deixa a desejar quanto à recuperação de Nikki, em qual momento ela rompe com seu passado e consegue finalmente seguir sua vida? A última cena antes é ela dizendo a Tom que o ama, e depois passa um ano e a vemos sendo capaz de seguir sua vida. 

Arie Posin nasceu em Israel 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

FILME: EM BUSCA DE UM CAMINHO - THE WAY - 2010



Direção: Emilio Estevez - 2010
Duração: 116 Min
Título Original: The Way 

O filme é uma homenagem ao avô do diretor. Ele é o filho mais velho de Martin Sheen.

Tom (Martin Sheen) é um oftalmologista que não tem uma boa relação com seu filho que está viajando. Ele recebe um telefonema avisando sobre a morte de Daniel (Emilio Estevez) na França no primeiro dia de sua peregrinação pelo Caminho de Santiago de Compostela num acidente por causa de uma tempestade nos Pirineus. Tom então parte para buscar o corpo de seu filho.

Chegando lá Tom começa a se recordar do filho e de quando o levou para o embarque, sobre ele dizendo que devia viajar mais, ao que seu pai responde que foi a vida que ele escolheu. Daniel então lhe diz: a vida não se escolhe, a vida se vive.

Algum motivo leva Tom a mudar de ideia de levar o corpo e pede para que seja cremado e parte para fazer o caminho interrompido pela morte. Ao longo da caminhada vai deixando punhados de cinzas de seu filho e pensa em deixar o restante aos pés de São Thiago. Durante o trajeto ele vai conhecendo pessoas diferentes e ao fim fazem o percurso em quatro, cada um deles de um lugar com uma história diferente, três homens e uma mulher. Durante o percurso Tom irá vivenciando o outro, cada um com sua questão e sua busca, o que leva cada pessoa a fazer este caminho, um fuga? um reencontro? uma busca de resposta para algo? um bloqueio? , mas também perceberá que a amizade existe e que o outro também pode fazer muito por ele.

Tom sempre vê o filho, ele está indo junto, mas isto precisa terminar. E por ocasião do roubo de sua mochila onde estavam as cinzas por um garoto cigano, ele pensa em voltar imediatamente para casa, mas o pai do garoto chega e faz o menino devolver a mochila. Dali segue que este homem lhe dirá que ele deve ir além de Santiago e jogar as cinzas no mar, não por uma questão religiosa, mas para o bem dos dois. E assim Tom fará.

Pode-se pensar em vários motivos para Tom ter tomado esta decisão de levar o filho nesta caminhada, ele pode ter desejado compreender porque seu filho tinha esta sede de conhecer o mundo, ele pode estar querendo homenagear o filho, pode estar atendendo ao desejo de seu filho, mas independente disto, este percurso mudará Tom, que irá ver o que é viver e compreenderá talvez o que o cigano lhe disse: filhos são o nosso pior e o nosso melhor.

Tom está vivenciando o luto pela perda do filho e o faz de uma maneira que o aproxime dele, uma tentativa de recuperar o que se perdeu em vida. O luto é sempre uma separação, é em prol de quem está vivo e continua para poder lidar com isto. O final do filme nos confirma que o que o pai tanto reprovava no filho estava nele mesmo e fazer o caminho de Santiago o levou a descobrir isto.




Além disto podemos acompanhar o caminho com suas paisagens, as pousadas, as igrejas, as trilhas.


Emilio Estevez com seu pai Martin Sheen, nasceu em 1962 em Staten Island, New York , EUA



segunda-feira, 28 de abril de 2014

FILME: TARA ROAD - APRENDENDO A VIVER - 2005


Direção: Gillies Mackinnon - 2005
Duração: 107 min 
País: Irlanda 

Baseado no livro Tara Road de Maeve Binchy. 

Marilyn (Andie MacDowell) é uma americana que perdeu seu filho e não consegue lidar com esta perda. Ria (Olivia Williams) é uma irlandesa que vê seu casamento acabar de repente ao descobrir que o marido tinha uma amante. Ambas decidem mudar de ares por uns tempos e fazem uma troca de casas.

A perda de um filho é algo extremamente doloroso e difícil e a traição atinge o narcisismo da pessoa de uma forma destruidora além da perda da confiança e da desvalorização que se impõe à pessoa traída. São questões que muitos tem que enfrentar. Mas ambas decidem fazer algo, tentam se dar uma segunda chance para continuar a vida.

Elas irão se defrontar com as questões da outra, irão ter que aprender a viver em um país diferente com outros costumes, descobrirão que os problemas existem e que todos passam por eles e irão aprender a se conhecer melhor, pois é sempre no outro que podemos encontrar a nós mesmos.


Gillies Mackinnon nasceu em 1948 em Glasgow, Escócia 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

FILME: A PARTIDA - 2008



Direção: Yojiro Takita - 2008 
Duração: 130 min 
Título Original: Okuribito
Roteiro: Kundo Koyama
País: Japão  

Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009 

Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) adora tocar violoncelo e sonha em tocar como profissão. Para participar de uma pequena orquestra ele precisa do instrumento e o adquire se endividando, porém a orquestra acaba por falta de público. Ele tem que devolver o instrumento e parte com sua esposa Mika (Ryoko Hirosue) para sua terra natal onde consegue um emprego numa "agência de viagens" que é bem remunerado, mas ele descobre que é uma funerária. Ele terá que ajudar a banhar, vestir e maquiar os mortos para a cerimônia fúnebre.



Algo que antigamente era feito pelos familiares e hoje se contrata um profissional para fazê-lo. É um trabalho que é visto com preconceito pela sociedade moderna que renega a morte e quer se manter o mais distante dela possível. No início ele esconde onde trabalha até de sua esposa.



 Mas Daigo descobre que este ritual é uma arte e requer cuidados e delicadeza. Cada morto é um e tem sua história, mas este preparo é na verdade para os que ficaram, os vivos, para não se confrontarem com a morte no real, e sim com um corpo com uma feição serena e dentro do possível, bonita.



A metáfora da agência de viagens é interessante porque é uma passagem, a do vivo para a morte e sua viagem para o além, a última viagem, sua partida.

Mas lidar com a morte diariamente é algo que (re) significa a vida, e a forma mais evidente de a enfrentar é buscar esta vida muito bem representado no filme com a busca do sexo e da comida. Aos poucos ele vai refletir sobre a vida e a morte, sua existência.



A morte é tratada com sensibilidade e pertencendo à vida, que é o nascer e o morrer.

Yojiro Takita nasceu em 1955 em Fukuoka, Japão. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

FILME: O QUARTO DO FILHO - 2001



Direção: Nanni Moretti - 2001 
Duração: 99 min
Título Original: La stanza del figlio 
País: Itália 

Ganhador do Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2001 

Giovanni (Nanni Moretti) é um psicanalista, seu filho Andrea (Giuseppe Sanfelice) morre num acidente.

No dia do acidente ao invés dele ir correr com o filho foi atender ao chamado de um paciente em sua casa que estava mal. Era domingo. Ele irá se culpar, acreditar que se tivesse ido correr poderia ter contido a vida, impedido a morte do filho. Começa a ter problemas com sua profissão, não consegue mais ouvir os pacientes, e sente raiva daquele que o chamou.



O quarto do filho onde ele era ele, Giovanni tenta recuperar o filho pelas coisas que ele gostava, fazia, tem uma imensa dificuldade em lidar com o luto e aceitar a morte. Deixa de ser analista. Não procura ajuda com outro profissional, o paciente de quem sente raiva deixa ele mesmo a análise, pois ele não tem coragem de dizer o que sente e assumir que não podia mais ouvi-lo.



Um filme sobre a dificuldade de aceitar, de compreender que a vida e a morte são faces da mesma moeda, e que não somos Deus, não podemos evitar o que não pode ser evitado. Não somos onipotentes.



Assista ao trailer: está em inglês


Nanni Moretti


Trilha sonora de Nicola Piovani

Nicola Piovani nasceu em 1946 em Roma, Itália. É compositor