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quarta-feira, 22 de abril de 2015

FILME: O VENTO NOS LEVARÁ - 1999


Direção: Abbas Kiarostami - 1999
Duração: 118 min
Título Original: Bad ma ra khahad bord

Um homem conhecido como o engenheiro (Behzad Dorani) chega a uma vila no interior do Irã - Curdistão. Na verdade ele não está lá como engenheiro e sim para filmar os rituais locais de velório e tem que aguardar que uma senhora centenária, Sra. Malek, morra. O problema é que isto não ocorre tão rapidamente como eles pensavam. 

Enquanto esperam vemos o engenheiro andar pela cidade acompanhado de um garoto, e vamos percebendo o dia a dia de todos, seus problemas, suas brigas, e ao mesmo tempo acompanhamos todas as idas do engenheiro até o cemitério da cidade que é o local mais alto e único onde o celular funciona para atender a secretária de seu chefe. 

O filme é este cotidiano, o dia a dia, as paisagens, a espera, uma fatia do tempo onde o tempo não parece passar, mas por outro lado senti uma sensação de cansaço a cada vez que ele tinha que atender ao celular, e para isto ele corria, descia escadas, pegava o carro e subia o morro e voltava. Sempre este mesmo percurso inúmeras vezes. Muitos personagens não são vistos, apenas ouvimos suas vozes, outros aparecem mas não não falam.



A questão do filme é moral é ética. O engenheiro e sua equipe estão ali apenas para filmar os rituais de morte e para isto torcem para que ela morra logo para que possam fazer seu trabalho e ir embora. Por outro lado vemos todos os moradores que os tratam muito bem, sentindo-se honrados em poder servi-los. A mãe do engenheiro também está muito doente, mas por esta ele torce para que viva, enquanto que pela outra torce para que morra, tudo de acordo com sua conveniência e necessidade.



O filme fica entre a vida e a morte e isto é notório em vários símbolos, como o osso de fêmur que é retirado da cova e que ele guarda no painel do carro, até que ele conhece um médico com o qual anda de moto e este lhe fala da vida. Ao final ele joga o osso num rio reencontrando-se com a vida e volta para Teerã. 




Abbas Kiarostami nasceu em 1940 em Teerã, Irã

segunda-feira, 13 de abril de 2015

FILME: GABBEH - 1995


Direção: Mohsen Makhmalbaf - 1995
Duração: 76 min

Que filme lindo! pura arte.

Um casal de idosos (Rogheih e Hossein Moharami) lavam seu gabbeh, um tapete tecido pelas mulheres que registra os acontecimentos de uma vida. Uma jovem surge, ela se chama Gabbeh (Shaghayeh Djodat) e os três contam a história que está escrita no gabbeh. É a história do casal de idosos e do quanto foi complicado eles poderem ficar juntos, pois sempre tinham que esperar. Primeiro pelo pai que havia viajado, depois o casamento do tio (Abbas Sayah), e mais uma vez tem que esperar pelo parto da mãe, e depois é o luto e assim vai. Gabbeh é ao mesmo tempo o espírito do tapete e a que o teceu contando nele sua vida, seus sonhos, desejos, dores e suas fantasias.



O diretor viajou até as remotas estepes do sudeste do Irã para documentar a vida de uma tribo nômade, os ghashghai. São eles que tecem este tipo de tapete que é tanto uma forma de arte como um registro autobiográfico. O diretor então quis fazer um filme sobre as tecelãs dos gabbeh. Ele além de viajar pela região também estudou vários documentos sobre o gabbeh. Os motivos e as cores destes tapetes são inspirados pelos acontecimentos. Há um momento no filme que o Tio fala para as crianças sobre as cores, e encantei-me quando ele diz: o azul do céu mais o amarelo do sol resulta no verde das plantas. E sim, misturando azul e amarelo, teremos verde. Então é assim que as tecelãs escolhem suas cores, como na hora da morte é o negro, o deserto é o amarelo, o azul para o rio.



A poesia também está presente. Quando a mãe dá a luz as pessoas cantam e gritam: Vida é cor! Amor é cor! Também na morte quando o Tio grita: Vida é cor! Morte é.. e mostram a lã negra.

É interessante porque no Irã a mulher não tem voz, mas me lembrando as Arpilleras do Chile, elas encontram uma forma de se expressar. 

Tecer é entrelaçar os fios uns nos outros, como na vida entrelaçamos as relações, o passado, o presente e o futuro. Vamos construindo nossa história. O tapete não conta apenas a história do casal de idosos, mas também a do tio, a vida da tribo, tudo isto formando a trama do tapete.


Mohsen Makhmalbaf nasceu em 1957 em Teerã, Irã

domingo, 11 de janeiro de 2015

FILME: E BUDA DESABOU DE VERGONHA - 2007



Direção: Hana Makhmalbaf - 2007
Duração: 76 min
Título Original: Buda as sharm foru rikht

País: Afeganistão - Neste caso coloco o filme para este país apesar da diretora ser Iraniana porque o filme se passa se neste país e trata da cultura deste povo. 

Um filme que me tocou muito, não sei nem dizer tudo a que este filme me remete. O filme se passa no vale de Bamyan no Afeganistão, exatamente onde o Taliban destruiu as imensas estátuas de Buda em 2001, e vemos então os nichos onde eles ficavam. É a este fato que o título do filme se remete, que eles não teriam sido destruídos, mas que desabaram de vergonha.



Apesar das dificuldades e da miséria, assim mesmo vemos um povo pacífico, que luta para viver. Bakhtai é uma menina de 06 anos da etnia hazara, ela vive nas cavernas como a maioria da população. Seu vizinho, um menino Abbas, lê em voz alta e isto lhe chama a atenção, ela não sabe ler e como ele a desafia a ler e ela não sabe, apesar de tentar fingir que sabe, decide então que deseja ir para a escola para aprender a ler, mas mais que isto, como Abbas lê um trecho para ela de seu caderno, ela quer ir a escola aprender histórias divertidas. O problema é que ela não tem um caderno nem um lápis. E eis que começa a odisseia de Bakhtai para conseguir estes dois objetos tão desejados e finalmente poder ir a escola, porque ela não tem dinheiro e não consegue encontrar sua mãe para pedir. 

Abbas sugere que ela venda ovos no mercado, e lá vai ela com seus quatro ovos. Finalmente ela consegue pelo menos o caderno, mas não o lápis, então ela pega o batom de sua mãe para escrever e vai para a escola.



Até aqui vemos toda inocência de uma criança, seu olhar meigo, seu desejo, suas peripécias para conseguir o que quer. Porém ela vive num país marcado por anos de opressão do Taliban, machista, que segrega as mulheres dos homens, ela mesma com 06 anos já cobre a cabeça, e no caminho para a escola ela encontra um grupo de meninos que brincam de guerra, os talibans contra os americanos, eles a prendem porque batom é algo que não pode, eles dizem que vão apedrejá-la, rasgam seu tão precioso caderno para fazer aviões de papel, colocam um saco de papel em sua cabeça deixando apenas buracos para os olhos, nariz e boca e a levam até uma caverna onde estão outras meninas pequenas.

Me comove ver esta pequena menina não ter medo. Para ela que ainda não tem consciência do que se passou em seu país, os meninos estão apenas brincando. Ela vai embora da caverna, enquanto as outras com medo lhe pedem para buscar a polícia. Os meninos refletem a história de seu país, mas ao mesmo tempo eu não pude deixar de pensar que as crianças ocidentais também faziam isto brincando de Forte Apache combatendo os índios. Estes mesmos meninos depois irão reaparecer, desta vez no papel de americanos prendendo os do Taliban.


Bakhtai após conseguir sair da caverna continua sua caminhada para a escola. Finalmente ela vai encontrar um lugar onde meninas estudam. Ali ao descobrirem o batom as meninas começam a  brincar, se pintar, como toda criança faz, mas quando a professora vê isto, ela é expulsa dali.

Voltando para casa é que reencontra os meninos, e Abbas também, que na brincadeira se finge de morto, ela não, ela corre e eles atrás dela. Abbas grita: morre! morre que você se liberta! Ela ainda resiste. Só a morte liberta grita seu amigo, e ela finalmente se joga no chão fingindo de morta.


Através de brincadeiras de crianças o filme nos mostra uma sociedade que limita a liberdade da mulher, o que Bakhtai ainda vai descobrir, mas no filme esta pequena menina simboliza a resistência, ela não tem medo, como as outras, e isto me comoveu e me remete ao fato de que o medo gera violência, é o medo que leva as pessoas a desejarem o poder. Os meninos reproduzem sua cultura e sua história, porém, diferente do Forte Apache, que aqui no Ocidente foi mudando a situação e apesar de ainda não se respeitar o índio, pelos menos já temos quem os defendam e livremente, sem falar que eles mesmos o fazem, no Afeganistão esta pequena menina terá que se render à sua cultura que continua se propagando já nas brincadeiras infantis, ela terá que se jogar ao chão, e isto tudo difere muito do budismo.
  
Hana Makhmalbaf nasceu em 1988 em Teerã, Irã 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

FILME: O PASSADO - 2013


Direção:Asghar Fharadi - 2013
Duração: 130 min

Título original: Le passé
País: França - Irã 

Indicado para o Festival de Cannes 2013 como longa-metragem

Ahmad (Ali Mosaffa) , um iraniano, retorna à França após 04 anos a pedido de sua ex-mulher Marie (Bérénice Bejo) para oficializar o divórcio e rever as duas filhas dela de um relacionamento anterior. Logo ao chegar ele vê um menino na casa de Marie e descobre que ela vive com alguém, Samir (Tahar Rahim), um árabe cuja esposa está em coma num hospital devido a uma tentativa de suicídio.

Lucie (Pauline Burlet) a filha mais velha de Marie não aceita esta relação e vive fora de casa chegando muito tarde todas as noites. Marie pede à Ahmad que converse com ela. Aos poucos vamos vendo o drama familiar se desenrolando.

Cada um vê a história pelo seu ponto de vista, mas há muitas suposições na história na busca pela verdade que é sempre fugidia. O passado se impõe no presente e ameaça o futuro.

Marie está estressada, de certa forma deseja se vingar de Ahmad por tê-la deixado. Samir vive entre Marie e sua mulher em coma. Os filhos sofrem as consequências de tudo isto. Ahmad parece um mediador de tudo isto, mas porque aceita este papel? porque não vai embora? Mas é Ahmad que aos poucos vai desvendando e desvelando a cada um, menos a si mesmo, ficamos sem saber muito dele.

Marie não reservou um hotel para Ahmad e ele fica na casa dela. Aos poucos vão retornando coisas mal resolvidas entre os dois e ao mesmo tempo ela o envolve na situação atual. A filha Lucie no início se parece como uma filha adolescente que não aceita que sua mãe se relacione com outro homem que não aquele que ela gostaria, mas não é tão simples, depois a vemos acusar a mãe de ser culpada pela tentativa de suicídio da mãe de Fouad, e finalmente descobrimos que ela carrega um segredo e muita culpa. Fouad o filho de Samir sofre por sua mãe haver tentado o suicídio e parecer uma morta agora, e ao mesmo tempo ele está deslocado mas buscando carinho e amor o que encontra em Lea, a outra filha de Marie, já que não tem muita atenção de Marie envolta em suas questões e sem paciência e seu pai, com a chegada de Ahmad está incomodado.

Um filme que mostra a humanidade de cada um dos personagens, suas dores, raivas, ciúmes, dúvidas, vinganças. Estamos sempre pensando no outro dentro da nossa visão, e muitas vezes a verdade para o outro é muito diferente da nossa.



Asghar Farhadi nasceu em 1972 em Khomeini-Shahar, Irã. 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

FILME: O DIA EM QUE ME TORNEI MULHER - 2000


Direção: Marzieh Makhmalbaf - 2000
Duração: 78 min 
Título original: Roozi ke zan shodam
Roteiro: Mohsen Makhmalbaf 
País: Irã 


Irã - Apesar das restrições religiosas e culturais, o filme abrange mais, ao tratar do feminino e da mulher.

Há algo que diz que a mulher é sempre o segundo sexo, como dizia Beauvoir. E novamente se vê a falta da união entre as mulheres. São três mulheres, uma criança que completa 10 anos, uma jovem casada, e uma velha.
A criança Hava, é o dia do seu aniversário de 10 anos, pela tradição a partir deste dia ela é mulher. Não tem nada a ver com corpo, menstruação, ou psiquismo, é pela cultura. E portanto não pode mais brincar com os meninos, nem sair de casa e tem que usar o véu. Dilacera o coração ver seu amiguinho pedir para ela ir brincar com ele, tomar sorvete, e a menina não ousando confrontar a mãe e a avó, implorando para ir. Para nós, ela ainda é uma criança. Tudo bem, criança tem sexo também, mas a constituição do ser mulher ainda não se fez, está em construção. É uma menina. A avó se recorda de seu nascimento, ela nasceu ao meio-dia, então pode brincar até o meio dia. Ensinam-a a ver a hora com um pauzinho enfiado na terra, e a sombra. E lá vai ela. Colocando a vareta a todo instante, e olhando a sombra diminuir, diminuir, diminuir. Até que sua infância termina. Agora, é uma mulher. E terá que ficar em casa até que lhe arrumem um marido. Ou seja, a mulher não tem liberdade nenhuma, está ali a espera do marido. Mas será que um marido a deixará ser mulher?



- A jovem, casada, ela ama andar de bicicleta. E lá vão elas, várias, todas de preto, usando o véu. Não estou brincando, mas parece um enterro de bicicleta. Não há alegria, a bagunça que as mulheres costumam fazer juntas, pelo menos no Ocidente. Rir e falar muito. Vão quietas, pedalando, e olhando o mar. Surge o marido à cavalo, ele não aceita aquilo. Pergunta para as outras se elas não tem marido. Quer que sua esposa desça da bicicleta e volte para casa. Ela insiste. Ele volta com o mulá.  Ele tenta convence-la, diz que a bicicleta é obra do diabo, que é pecado o que ela está fazendo. Seu rosto, a angústia, ela persiste, e a cada vez que se aproximam ela acelera a bicicleta. O marido então diz que quer o divórcio. Ela aceita. Aí vem o avô, depois o pai, e finalmente os irmãos, que lhe barram o caminho e tomam sua bicicleta a deixando ali. Nem mesmo com o divórcio...




- A velha chega de avião numa cadeira de rodas, recebeu uma herança. Chama os meninos carregadores e vão para o Shopping. Ela quer comprar tudo que nunca pode ter na vida. Seus dedos estão cheios de nós coloridos, de tudo que tem que comprar. Primeiro uma geladeira, ela nunca tece água gelada, ela quer água gelada. E por aí vai, muitas compras. Depois levam tudo para uma praia, para esperar as balsas que levarão tudo até o barco. Duas mulheres de preto chegam, e lhe pedem as coisas. Por que assim elas poderiam casar. A velha diz não, que sempre quis ter tudo aquilo. Ela usa um véu branco, com flores pretas. As mulheres lhe contam da outra que os irmãos barraram na estrada. A mulher criança olha para tudo aquilo, de mão dada com a mãe. A velha fica com um nó no dedo, e não lembra o que é, ninguém consegue ajudar: máquina de costura? Não! o último nó, provavelmente, a liberdade, a liberdade de ser.




Somente a velha quase chega lá. Mas é tarde. A vida se foi. 


As três fases da vida da mulher: infância, adulta e velha retratados de uma forma bela, dentro do contexto político, social e religioso do Irã. 


Marzieh Makhmalbaf nasceu em 1969 em Teerã, Irã.