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domingo, 15 de fevereiro de 2026

NATUREZA, CULTURA E O COLAPSO DAS SEPARAÇÕES MODERNAS

 


ESCUTE AS FERAS

NASTASSJA MARTIN

EDITORA 34 – 1ª ED. – 2021

112 páginas

Este é um livro curto, mas profundamente impressionante. A autora, Nastassja Martin, é uma antropóloga francesa que pesquisa povos da Sibéria. Durante um trabalho de campo, ela é atacada por um urso, que lhe morde o rosto e a perna. Martin consegue ferir o animal, que foge, gesto que lhe salva a vida.

O livro relata o longo e doloroso processo de restabelecimento físico, tudo o que a autora enfrenta entre hospitais na Rússia e na França, as cirurgias, a dor e as limitações impostas ao corpo. No entanto, o aspecto mais potente da obra está em outro plano: o do processo interno, psíquico e existencial desencadeado pelo encontro violento com o animal.

Martin não trata o ataque apenas como um acidente ou um evento a ser superado. Ela o pensa como uma fratura ontológica, um choque entre mundos — o humano e o não humano — que desestabiliza identidades, fronteiras e certezas. A experiência coloca em questão a separação moderna entre natureza e cultura, corpo e espírito, razão e instinto. A antropóloga, acostumada a observar e interpretar o outro, torna-se ela própria atravessada pela alteridade radical da fera.

Escute as feras é, assim, um livro sobre vulnerabilidade, metamorfose e escuta. Um relato em que o corpo ferido obriga o pensamento a se refazer, e onde a experiência extrema abre espaço para outra forma de compreender o humano, o animal e o mundo compartilhado.


Nastassja Martin nasceu em Grenoble, França, em 1986. É antropóloga, especializada nas populações do Extremo Norte. 


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Anna Kariênina — desejo feminino e a crítica silenciosa da aristocracia

 

ANNA KARIÊNINA

LEV TOLSTOI

EDITORA 34 – 1ª ED. 2021

864 páginas 

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS

Anna Kariênina é um romance que permanece mesmo quando a memória falha. O que fica, quase como imagem inaugural, é o suicídio na linha do trem — um gesto extremo, atravessado pelo desespero, que encerra uma trajetória marcada pelo desejo e pela exclusão. Também permanece a lembrança de uma mulher que ama outro homem, fora do casamento, e que por isso é progressivamente empurrada para fora do mundo social.

Lido há muito tempo, Anna Kariênina se fixa inicialmente nessa dimensão trágica: o amor proibido, a paixão avassaladora, a punição final. Anna aparece como mais uma mulher que ousa desejar e que paga caro por isso. Mas Tolstói é um escritor excessivamente rico para se esgotar nessa leitura e talvez seja apenas na maturidade que suas minúcias ganhem pleno sentido.

Por trás da história de Anna, há um retrato minucioso e implacável da aristocracia russa do século XIX. Tolstói observa com precisão quase clínica os rituais sociais, os códigos morais, as hipocrisias e os privilégios de uma classe que se sustenta na aparência de ordem enquanto vive de convenções vazias. O adultério masculino é tolerado; o feminino, condenado. A moral não é ética, é social.

Anna não é punida apenas por amar outro homem, mas por tornar visível aquilo que deveria permanecer oculto. Ela rompe o pacto do silêncio. Ao insistir no amor e na legitimidade de seu desejo, ela expõe a fragilidade das normas que organizam aquele mundo aristocrático. Sua queda é menos moral do que política: ela não cabe mais no jogo social.

A releitura de Anna Kariênina promete justamente isso: revelar as engrenagens que antes passavam despercebidas. Os detalhes, os diálogos aparentemente banais, os gestos repetidos, as descrições longas deixam de ser ornamento e passam a funcionar como crítica. Tolstói desmonta sua classe por dentro, mostrando o vazio que sustenta seus valores.

Reler Anna Kariênina hoje é reencontrar uma personagem trágica, mas também perceber que sua história está entrelaçada a uma crítica profunda à sociedade que a condena. Anna morre nos trilhos, mas o romance deixa claro que o trem já vinha em movimento muito antes — conduzido por uma ordem social que não admite fissuras.


Lev Tolstói nasceu em Iasnaia, Poliana em 1828 e faleceu em Astapovo, Ryazan, Rússia. Foi um escritor russo. 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENTRE O MITO E A EXPLORAÇÃO: A VIDA NAS FAZENDAS DO VALE

 


ÁGUA FUNDA

RUTH GUIMARÃES

EDITORA 34 – 1ª – 2018

200 páginas 

A leitura de Água Funda veio logo após Torto Arado, e a aproximação entre os dois livros é inevitável. Ambos são fundamentais para compreender a vida nas fazendas brasileiras a partir do ponto de vista de quem trabalha a terra — e não dos fazendeiros, de suas famílias ou da narrativa oficial que sempre lhes deu centralidade.

Ruth Guimarães nos conduz ao Vale do Paraíba, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, e ali reconstrói o cotidiano caipira da região, marcado pela herança do café e pela presença de ex-escravizados lançados à própria sorte após a abolição. Não se trata de uma paisagem idílica, mas de um mundo atravessado por precariedade, hierarquias rígidas e permanências coloniais.

Há, nesse romance, uma dimensão de reconhecimento. Para quem viveu ou conviveu com essa região, a linguagem, as crenças, as comidas e o modo de vida do caboclo reaparecem com familiaridade. Ruth Guimarães escreve a partir da escuta: a fala não é caricata nem forçada, mas orgânica, próxima da oralidade que ela própria conheceu.

Muitas leituras classificam Água Funda como literatura fantástica. Essa rotulação, no entanto, empobrece o livro. O que aparece aqui é cultura, folclore e sistema de crenças, aquilo que, como lembra Itamar Vieira Junior, talvez devesse ser chamado simplesmente de religião. O caboclo acredita em assombração, praga, maldição, encantamento. A Mãe de Ouro, a Mãe d’Água, a Iara, a sereia: essas figuras não surgem como exotismo, mas como parte constitutiva da vida cotidiana e da forma como o mundo é interpretado.

O romance se organiza em torno de duas narrativas centrais: a de Sinhá Carolina e a de Joca. Este último é enfeitiçado pela Mãe de Ouro, num encantamento que ecoa o mito das sereias que arrastam os homens para o fundo do mar. No seu caso, o deboche e a irreverência acionam a praga — embora o feitiço já estivesse, de algum modo, em curso. O sobrenatural não rompe a realidade: ele a aprofunda.

Ruth Guimarães não romantiza a pobreza, mas tampouco faz dela espetáculo. Há alegria possível, afetos, pequenas felicidades. Ainda assim, o livro carrega uma denúncia clara: o recrutamento de trabalhadores para o sertão, seduzidos por promessas de ganho maior, que se revelam armadilhas brutais. Ali, são tratados pior do que escravizados. Não é um tema encerrado no passado — basta lembrar que o trabalho análogo à escravidão ainda persiste nas fazendas brasileiras.

Água Funda é também a história do próprio Vale do Paraíba e de suas transformações: das fazendas dos coronéis à chegada das grandes companhias, mudanças que pouco ou nada alteraram a vida dos trabalhadores. A exploração permanece, apenas muda de nome.

Ruth Guimarães nos entrega, assim, um livro belíssimo e necessário sobre esse povo das fazendas e das pequenas cidades do Vale — um retrato atento, sem exotização, que inscreve suas vidas, crenças e sofrimentos no centro da literatura brasileira.



Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista em 1920 e faleceu na mesma localidade em 2014. Foi poetisa, contista, cronista, tradutora e romancista.

sábado, 28 de dezembro de 2013

LIVRO: O SERMÃO SOBRE A QUEDA DE ROMA - JÉRÔME FERRARI



Ferrari, Jérôme. Editora 34, 2013 - 1ª Edição
Tradução: Samuel Titan Jr.
208 páginas

Prêmio Goncourt 2012

POR ONDE ANDA NOSSO DESEJO?

Belo livro sobre quando o destino altera o desejo, não o permite e quando nós mesmos abrimos mão dele.
Por um lado a Guerra. Contingência? Imposição do destino? Escolha de poucos! A guerra, este grande Outro
O livro trata do avô e do neto. O avô que luta pelos seus desejos e a vida os destrói. O neto perde os seus, se instala calmamente num mundo pequeno, restrito, que ele constrói e de onde ele não quer mais sair. Não aceita que nada interfira ou mude isto. Mesmo com as piores ocorrências, seu pai morrendo, seu melhor amigo assassinando outro, ele não se move. 
Descrição belíssima do que acomete o ser humano no seu egoísmo, quando outros o chateiam, odiar ter seu dia, sua agenda alterada por que outro adoeceu, sofreu um acidente, morreu! 
A ausência! não só do outro, a ausência da vida, do realizar, do criar. 
A mediocridade da vida, nascer, viver, morrer. E quantas vezes ter sua vida alterada por outro? Até mesmo um funcionário da aduana que para gozar do poder de autoridade destrói os sonhos de outro. 
Estamos sempre sujeitos ao gozo do Outro? e ao desejo do Outro?

Jérôme Ferrari nasceu em Paris, França,  em 1968. Formado em Filosofia pela Universidade de Paris atualmente é professor em de filosofia em Abu Dabi.