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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ECOLOGIA, MULHERES E RESISTÊNCIA NO QUÊNIA

 


INABALÁVEL

WANGARI MAATHAI

NOVA FRONTEIRA – 1ª ED. 2007.

400 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - QUÊNIA 

Inabalável é a autobiografia de Wangari Maathai e o relato de uma luta que articula ecologia, política e justiça social no Quênia. Ao narrar sua própria trajetória, Maathai expõe os efeitos profundos da imposição colonial: a substituição de culturas tradicionais por monoculturas lucrativas, o desmatamento em larga escala e suas consequências diretas sobre o solo, o meio ambiente, os animais e, sobretudo, sobre a vida humana, marcada pela fome e pelo desemprego.

O livro começa na infância, acompanhando o cotidiano familiar, as dificuldades econômicas e os deslocamentos impostos pela busca de trabalho. Wangari retorna com a mãe e a irmã à região de origem para poder estudar, já que onde o pai trabalhava não havia escolas. Sua formação tem início em um colégio católico, experiência que a colocará em contato direto com a educação colonial e suas contradições.

Seu percurso acadêmico é notável. Impedida de ingressar na Universidade da África Oriental, ela recebe uma bolsa da Fundação Kennedy e parte para os Estados Unidos, onde obtém o bacharelado em biologia. Em seguida, conclui o mestrado na mesma área, passa pela Alemanha, trabalhando com medicina veterinária, e retorna ao Quênia. Em 1971, torna-se a primeira mulher a obter um doutorado pela Universidade de Nairóbi, onde passa a lecionar anatomia veterinária.

A entrada na política marca uma ruptura decisiva em sua vida. Ao candidatar-se ao Parlamento, Wangari perde o cargo na universidade, enfrenta perseguições institucionais e vê seu casamento se desfazer. É um período de grande vulnerabilidade pessoal e material. Ainda assim, o livro deixa claro que a ideia de recuo nunca se impõe como opção real. A inabalabilidade do título não é retórica: é prática cotidiana de resistência.

Ao perceber a relação direta entre desmatamento, empobrecimento do solo, fome e exclusão social — especialmente das mulheres — Wangari funda, em 1977, o Movimento Cinturão Verde, voltado ao plantio de árvores nativas. A iniciativa, simples em aparência, confronta diretamente os interesses do Estado e das elites econômicas. Por isso, ela enfrenta perseguição política, violência e prisão. Ainda assim, persiste.

Inabalável é também um livro sobre mulheres: sobre como são elas as primeiras a sentir os efeitos da degradação ambiental e as últimas a serem ouvidas nas decisões políticas. A luta ecológica, aqui, não é separável da luta feminista, nem da crítica ao colonialismo e às suas permanências.

Em 2004, Wangari Maathai recebe o Prêmio Nobel da Paz. Mais do que um reconhecimento individual, o prêmio simboliza a legitimidade de uma luta que fez diferença concreta na vida de milhares de pessoas no Quênia. Wangari faleceu em 2011, em Nairóbi, vítima de câncer, deixando como legado a prova de que ecologia, política e cuidado com a vida não podem ser pensados separadamente.



Wangari Maathai nasceu em lite, Nieri, Nairóbi,  em 1940 e faleceu em Nairóbi em 2011. Foi uma ativista política do meio ambiente do Quênia. Foi a primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz em 2004. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

LIVRO: A CERIMÔNIA DO ADEUS seguido de Entrevistas com Jean-Paul Sartre (Agosto - Setembro1974) - SIMONE DE BEUAVOIR


Beauvoir, Simone. Nova Fronteira, 1982
578 páginas
Tradução: Rita Braga
Título Original: La Cérémonie des adieux suivi de entrètiens avec Jean-Paul Sartre (Auôt-septembre 1974)

Na primeira parte deste livro Simone de Beauvoir relata os últimos dez anos de sua vida com Sartre antes de sua morte. É um relato pungente e belíssimo, onde corajosamente ela fala sobre o que sentiu, como assistiu ao fim de seu companheiro de mais de 45 anos. É corajoso porque poucos são os que realmente olham de frente a finitude da vida e tudo que isto acarreta, principalmente ao corpo, a degradação deste corpo, mas um corpo que sustenta uma mente lúcida, apesar de que Sartre sofreu de problemas de esquecimentos e delírios em determinados momentos. Sua cegueira que o impedia de ler, ele até escrevia, mas já não podia ler o que escreveu, e obviamente a letra já não era como antes. O cansaço que sentia, as crises. O medo que ela sentia, suas preocupações e ter que finalmente enfrentar o momento onde ele já não estaria ao seu lado como foi durante toda sua vida desde a juventude, pois mesmo não morando juntos, e mantendo amores que eles chamavam de necessários, nunca se largaram. Após a morte de Sartre ela chegou a ser hospitalizada. 

A segunda parte são as entrevistas que Simone fez com Sartre para que ele falasse sobre sua vida, suas idéias, seus livros e seu engajamento político. Simone desejava com isto dar voz a Sartre, inclusive para que mal entendidos se dissolvessem, e também para ter a garantia deste relato, pois há um filme com entrevistas com Sartre já no final de sua vida que já assisti e postei aqui no Blog, mas ela na época não tinha certeza de que o mesmo seria exibido. De minha parte, apesar de ter gostado muito do documentário, prefiro o relato impresso neste livro, é mais íntimo, mais delicado e ao mesmo tempo mais profundo. A inteligência de ambos é notória, e Simone não deixa muito espaço para que Sartre possa se enganar a si mesmo, ou fazer uso da má-fé, ela o interroga, o questiona, e volta a carga. Acompanhamos desta forma como surge o Sartre escritor, filósofo, político e também o homem, e também as mudanças que ocorreram que o fizeram em alguns pontos mudar ou ampliar seus pensamentos. 

Vale a pena ler para quem se interessa pelos dois assim como pela filosofia. Recomendo!

Simone e Sartre 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

LIVRO: GRANDE SERTÃO: VEREDAS - JOÃO GUIMARÃES ROSA



Rosa, João Guimarães. 20ª ed. Nova Fronteira, 1986
568 páginas

O que falar sobre esta grande obra prima que já não foi dito? Como exaltá-la mais? Prefiro falar da minha experiência de leitura deste grande livro, deste clássico da literatura brasileira.

Normalmente considerada uma leitura difícil, com muitos regionalismos, que para quem não é da terra, das Minas Gerais, do sertão, se torna muitas vezes um desafio. Sabendo disto optei por me lançar na leitura de corpo e alma, e acabei vivendo uma experiência nova para mim. Eu escutei o livro! Li o livro com os ouvidos, se é que isto é possível.

Talvez por ter passado por uma análise psicanalítica isto se tornou possível, não sei, mas o fato é que fiz isto de alguma maneira. Ouvi Riobaldo, atravessei com ele este Grande Sertão e suas veredas. 

Riobaldo elege um interlocutor, alguém a quem falar, para rememorar sua vida recontando sua história de jagunço nos sertões, e com isto reescrevê-la, dar-lhe outro significado, reconstruir sua história, fazendo a travessia de seus fantasmas. E qual o maior deles? o que rege sua vida? O pai. Filho bastardo, busca encontrar a lei, o pai que se reflete em Zé Bebelo, Joca Ramiro, o interlocutor, Medeiro Vaz, seu padrinho, no diabo. Busca de uma identificação capaz de lhe dizer quem é, busca inútil, mas que todos fazemos. 

Interessante o amor dele por Diadorim, que é uma mulher, mas ninguém o sabe. Melhor retrato de que sabemos e não queremos saber? O Olhar, outro traço que rege sua vida, onde ele reencontra o olhar de sua mãe. 

Li o livro com o ouvido, ouvindo este relato, esta construção de uma vida, seus medos, seus amores, suas dúvidas, o ódio, a alegria, ouvindo: Viver é perigoso! Travessia. 

João Guimarães Rosa nasceu em 1908 em Cordisburgo, Minas Gerais e faleceu em 1967 no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

LIVRO: PRAZERES ILIMITADOS - FERNANDO MUNIZ



Muniz, Fernando. 1ª ed. Nova Fronteira, 2015 
191 páginas

Um livro muito interessante sobre o que seria o prazer. Ele faz um percurso histórico pela filosofia desde os gregos até os dias atuais sobre a forma como o prazer era visto. A visão grega, a visão do cristianismo, da modernidade até os dias atuais. 

O que o autor alega é que não sabemos mais o que é prazer. Tornou-se algo que supostamente é óbvio, sem que nos questionemos sobre do que realmente se trata, e acabamos chamando de prazer a compulsividade e a voracidade. 

Os gregos viam no prazer algo ético, algo que transformava a vida em algo belo e bom. Com o Cristianismo o prazer passa a ser algo a ser excluído e no lugar entra a dor. A dor é que purifica e transforma o homem em bom. Já na modernidade temos uma busca do prazer através dos psicodélicos, das drogas até chegarmos ao mundo atual com sua compulsão e falta de consciência levados como uma manada movida pela mídia, pela propaganda, e ao contrário do que acreditamos não fazemos escolhas, elas já estão feitas, apenas nos iludimos que temos livre arbítrio. Ele levanta a questão da submissão voluntária como uma das principais questões do mundo atual. 

Há uma comparação entre uma igreja gótica e um shopping center que é muito interessante. O jogo de luzes, o labirinto, a parada do tempo e limitação do espaço, e como tudo isto funciona em nosso inconsciente

Apenas uma ressalva, quando ele fala da psicanálise e se baseia apenas em um momento de Freud com o uso da cocaína que depois ele abandonou. Primeiro que isto foi uma fase, e a outra crítica que faço  é que ele generaliza a psicanálise para Freud. Isto seria o mesmo que generalizar a filosofia para Platão. E a visão que a psicanálise tem sobre a questão do prazer é muito mais ampla do que sugere o livro. 

Fernando Muniz é professor de Filosofia da Universidade Federal Fluminense, mestre e doutor em Filosofia pela UFRJ, com pós-doutorado pela Universidade Brown nos Estados Unidos.