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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

PALAVRA PERDIDA

 

PALAVRA PERDIDA

AUTOR – OYA BAYDAR

ORIGEM – TURCA

EDITORA – SÁ EDITORA -  2011

464 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS: TURQUIA 

Palavra Perdida, de Oya Baydar, é menos um romance sobre um escritor em crise do que uma investigação sobre as condições históricas, políticas e afetivas que tornam a palavra impossível. A perda da palavra não aparece como um bloqueio individual ou psicológico, mas como efeito de um mundo em que a linguagem foi capturada: pelo mercado editorial, pelo nacionalismo, pela violência de Estado e pelas expectativas normativas que atravessam a família.

O escritor protagonista perde sua palavra quando passa a escrever aquilo que se espera dele. A literatura deixa de ser espaço de escuta da própria voz e se transforma em produto. A pergunta que atravessa o romance — se a palavra morre quando a voz interior se cala ou quando o sentido desaparece — desloca a crise da escrita para uma dimensão ética e política: escrever torna-se impossível quando já não se pode dizer a verdade do mundo que se habita.

Essa crise atravessa também a família. A esposa, cientista reconhecida, carrega o ressentimento de uma modernidade sempre suspeita aos olhos do Ocidente: mesmo premiada, precisa reiteradamente provar que a Turquia pode produzir ciência “avançada”. O filho, por sua vez, é esmagado pelo imperativo do sucesso. Incapaz de corresponder às expectativas parentais, ele se lança à guerra como fotógrafo, expondo o corpo e o olhar à violência extrema. Aqui, o romance sugere que a falha na transmissão da palavra entre gerações abre espaço para outras formas de inscrição no mundo — frequentemente autodestrutivas.

Ao deslocar a narrativa para o leste da Turquia, Baydar torna explícito aquilo que já estava latente: a palavra perdida é inseparável da violência política. A questão curda não aparece como pano de fundo, mas como núcleo ético do romance. Onde a palavra é proibida, silenciada ou criminalizada, resta o grito — “Mataram a criança!” — que atravessa a narrativa como um chamado irrecusável. A criança morta funciona como figura limite: quando o futuro é destruído, a linguagem entra em colapso.

O exílio final, na Noruega, não oferece uma solução redentora. A tentativa de escapar da violência revela seus limites: não há refúgio absoluto enquanto o mundo continuar organizado pela guerra, pela exclusão e pela negação da alteridade. O romance recusa tanto a reconciliação fácil quanto a nostalgia. O que resta é uma pergunta insistente sobre a possibilidade de recuperar a palavra sem negar o real que a destruiu.

Nesse sentido, Palavra Perdida é um romance profundamente contemporâneo. Fala da Turquia, mas também do mundo globalizado, onde modernidade e tradição coexistem em tensão permanente, e onde a palavra — literária, política, afetiva — está sempre ameaçada de esvaziamento. Baydar escreve contra o silêncio, não para oferecer respostas, mas para expor o custo humano de um mundo que prefere calar a escutar.



Oya Baydar é uma socióloga e escritora turca. Nasceu em Istambul em 1940. 

sábado, 1 de março de 2014

LIVRO: AS PRECES SÃO IMUTÁVEIS - TUNA KIREMITÇI



Kiremitçi, Tuna. Sá Editora, 2010
Tradução: Marco Syarayama de Pinto
182 páginas
Título original: Dualar Kalicidir

Rosella é uma senhora com oitenta e oito anos que está doente e vive só com sua gata Charlote e Zelda que cuida da casa e dela. Faz sessenta anos que vive numa cidade européia, mas após a morte de seu marido Aldo ela sente vontade de falar turco com alguém e para isto coloca um anúncio num jornal procurando alguém para conversar em turco. Pelin vê o anúncio e se apresenta.

Rosella lhe diz que tem medo de esquecer a língua turca, pois a maior parte de suas lembranças estão nesta língua e ela teme que ao esquecer a língua ela também perca suas recordações. No início é algo meio formal, mas aos poucos as duas vão se soltando e conversam sobre suas vidas.

Rosella tem a percepção de que a velhice a leva a viver no mundo dos outros, todos os que se conheceu na juventude já morreram, e ela conclui que viver numa época estranha é muito pior do que viver numa cidade estranha, e por isto se vive muito mais nitidamente as lembranças, mesmo que as criando e colorindo, elas são mais fortes que o presente, por que não há mais futuro e a saudade é muito forte e só se pode sentir esta privação com o coração, não com o intelecto.

Ambas tem suas dores e dificuldades, Rosella teve uma vida intensa, refugiou-se em Istambul fugindo da Segunda Guerra com sua filha Tânia deixando seu marido na Europa, ele não conseguiu mais partir. Pelin sofre por sua mãe ter deixado a ela e ao seu pai para partir com outro homem. Ambas sofreram por amor e aos poucos o relato de Rosella vai desvendando o que fica desapercebido muitas vezes para quem é mais jovem e ainda não tem a vivência e sabedoria dos mais velhos, mas o relato de Pelin traz vida novamente para a velha senhora, ensinando novas palavras, e ao final a constatação de que muda o tempo, muda os lugares mas os dramas são iguais e por isto mesmo mudam os deuses mas as preces são imutáveis.

Tuna Kiremitçi nasceu em 1973 em Eskisehir. É um escritor, músico e cineasta turco.