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segunda-feira, 9 de março de 2015

FILME: FORÇA MAIOR - 2014


Direção: Ruben Östlund - 2014
Duração: 119 min
Título Original: Force Majeure
País: Suécia 

Venceu o prêmio de melhor filme da mostra Un certain regard do Festival de Cannes de 2014

Um casal Tomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli) e seus dois filhos vão passar 05 dias numa estação de esqui para que ele possa descansar, uma vez que segundo sua esposa ele trabalha muito. Logo no início do filme temos a tradicional foto da família na neve em roupas de esqui. Uma família aparentemente feliz. 

O que ninguém pode prever são as contingências que as vezes revelam facetas nossas que não conhecíamos e não poderíamos prever. No segundo dia eles almoçam num restaurante com uma vista para as montanhas de neve. Desde que chegaram Tomas havia tranquilizado Ebba que se incomodava com os estouros que ouvia, que seriam as equipes do lugar que sob controle fazem a neve descer a montanha justamente para manter a segurança dos esquiadores. Durante o almoço de repente vemos uma avalanche vindo em direção ao restaurante. Tomas diz que ele está sob controle e que não há risco nenhum, mas de repente ela se aproxima demais, e todos começam a gritar e a correr. Ebba segura seus filhos e grita por Tomas para ajudá-la, mas eis que Tomas saiu correndo e deixou sua família para trás.


A avalanche não atinge o restaurante, ela para antes, mas há uma névoa forte causada pela neve em movimento que por um momento deixa tudo envolto no branco. Em seguida o céu fica azul novamente e Tomas está de volta, senta e recomeça o almoço como se nada tivesse acontecido, porém esta família não será mais a mesma. 

Tomas teve uma reação de sobrevivência e tentou se salvar e com isto deixou sua família para trás, mas ele não toca no assunto. Ebba fica com isto engasgado, mas também não fala nada para ele, pelo contrário, vai contar aos outros colocando Tomas numa situação constrangedora e ele acaba negando que tenha feito isto. Eis então que se revela também a questão de um casamento que já não andava muito bem. As crianças ao perceberem que algo vai mal começam a ter crises de choro e a se tornarem mal criadas como forma de chamar a atenção, até que o menor deles diz que não quer que eles se divorciem. 

É impossível não nos colocar a questão. O que será que faríamos no lugar deles? Dizer que uma mãe nunca abandona seus filhos, mas que o homem pensa somente em se salvar? Mas, quantos relatos já vimos de pais que também arriscam tudo para salvar um filho? Não, não acredito que seja por aí a resposta. A questão é que todos nós temos um sentido de sobrevivência, há uma pulsão de vida em nós e a prova disto é que qualquer motorista sempre tenta tirar seu lado num acidente e o faz automaticamente e sem consciência. Tomas foi surpreendido por esta reação que ele teve, mas depois se viu cobrado pelo o que se espera dele, o que a sociedade espera, a mulher, os outros esperam de um homem, de um pai, de um marido. 

Um casal de amigos que ouve a história ao estarem sós depois a mulher também lhe diz que ele poderia agir assim e isto o deixa também mexido. O que a cultura impõe ao homem, a mulher, ao ser humano. 

Tomas se sente cobrado por todos, mas como responder a isto? dizer que sentiu medo, pavor e correu? Sua esposa o despreza cada vez mais, ele não corresponde as suas expectativas como homem, como pai. Até o dia que o diálogo acontece e Tomás confessa todos seus erros inclusive ter sido infiel, e que não quer ser esta pessoa. Ebba vai exigir dele uma prova que não é covarde e que pode agir para protegê-la e a seus filhos o que fará no dia seguinte na pista de esqui. 

Não leia abaixo caso não queira saber o final do filme. 


No caminho de volta, no ônibus que desce a montanha por uma estrada na beira dos penhascos, o motorista começa a demonstrar que não sabe bem dirigir o ônibus e começa a se criar uma situação tensa. Novamente é Ebba quem toma a frente e o manda abrir a porta, neste momento o amigo do casal diz: sem pânico, primeiro as mulheres e crianças. Todos descem e o motorista vai embora com o ônibus os deixando ali. É um final um tanto estranho, mas pode se refletir a respeito, pois todos ali estavam com medo e cada um teve uma reação o que mostra claramente que o ser humano é complexo e pode reagir a situações drásticas de formas diferentes. Inclusive neste momento é Ebba a primeira a descer deixando os filhos no ônibus. Todos nós temos um ponto onde reagimos de uma maneira a nos salvar sem pensar em mais nada. Entre o medo de ser soterrado por uma avalanche e o medo de cair no vazio de um penhasco, qual medo é o mais forte? depende da pessoa.


Ruben Östlund nasceu em 1974 em Styrsö, Gotemburgo, Suécia. 

sábado, 3 de janeiro de 2015

FILME: IDA - 2013


Direção: Pawel Pawlikowski - 2013
Duração: 82 min

Polônia - 1962. Anna (Agata Trzebuchowska) é uma jovem noviça que em breve vai fazer os votos para se tornar freira no convento onde vive desde pequena, porém a Madre obriga-a a conhecer seu único parente vivo antes disto, sua tia Wanda (Agata Kulesza). Anna não sabe nada de sua história e origem e sua primeira descoberta é que se chama Ida e é judia.



Wanda é uma mulher amargurada, uma promotora e membro do partido comunista. Ambas partem então em busca do passado e terão que enfrentar seus fantasmas e suas origens. 

A católica Anna terá que aceitar a Ida que ela conscientemente desconhecia, e para fazer isto ela irá se identificar com a tia imitando-a em determinado momento do filme, a identificação com sua família, sua história, ao lado da que construiu no convento que fez dela a Anna, ela terá que fazer uma escolha, mas somente após experienciar seu outro lado, como um ser dividido que é.




O filme recupera um momento triste da história da Polônia e da Segunda Guerra, especialmente na Polônia onde houve um antissemitismo forte por parte dos poloneses aos judeus, o que vemos retratado no filme na história dos pais de Anna e da posse da casa deles por um casal polonês que agora teme que as duas Tia e sobrinha queiram tomar posse novamente do que é delas. Isto ocorreu muito quando judeus sobreviventes retornaram e encontraram suas casas com novos moradores que nem os recebiam, ou fechavam a porta em suas caras. 

Tanto Anna quanto Wanda terão que se ver com o passado que até o momento estava oculto e arcar com isto. Tudo que fica reprimido acaba voltando e com mais força. E o filme talvez traga esta mensagem, que é necessário trazer a tona e colocar em palavras aquilo que muitos tentam esquecer. 


Pawel Pawlikowski nasceu em 1957 em Varsóvia, Polônia

domingo, 7 de dezembro de 2014

FILME: A CAÇA - 2012




Direção: Thomas Vinterberg - 2012
Duração: 115 min
Título Original: Jagten

Um filme que nos coloca numa posição de termos que imaginar a situação sem estarmos cientes de que Lucas não fez nada, que nos provoca a capacidade de termos empatia.Nunca devemos julgar baseados em nossos preconceitos, mas antes, dar ao outro a possibilidade de falar e se defender. 

Quem não assistiu seria melhor não ler, uma vez que vou falar do filme na íntegra. 

Lucas (Mads Mikkelsen) está passando por um momento difícil com sua ex-esposa que não lhe dá muito acesso ao filho Marcus, mas por outro lado está reconstruindo sua vida. Conseguiu um lugar de professor em uma creche e se interessou por uma mulher com quem começa um relacionamento. Tem seus amigos do grupo de caçadores. Vive numa pequena cidade pacata próximo a natureza.

Ele é o único homem na creche e as crianças gostam dele, costumam se esconder para lhe pregar sustos quando ele está chegando e ele adere à brincadeira. Como professor lhe cabe também levar as crianças ao banheiro, limpá-las e por isto muitas vezes ele fica sozinho com elas, como as professoras mulheres. 

Tudo está se encaminhando, ele está conseguindo o que deseja, que seu filho Marcus venha passar uns tempos com ele, até o dia que Klara, a filha de seu melhor amigo Theo (Thomas Bo Larsen) aparece, ela está sozinha, meio perdida. Lucas então a acompanha até em casa. Ela tem uma mania, andar pelas listras que vê na calçada. Klara é uma linda menininha, mas que não recebe muita atenção de seus pais, aparece sempre sozinha, e ela tem um irmão adolescente que lhe mostra num tablet um homem com o pênis ereto. Ela fica meio sem compreender direito isto, mas de alguma maneira isto a marca. 

Ela se afeiçoa à Lucas e gosta muito da cachorra dele, Fanny, e faz um coração para lhe dar de presente e no meio de uma brincadeira na creche ela se lança sobre ele e lhe dá um beijinho nos lábios. Lucas lhe diz que estes beijinhos são só para papai e mamãe e quando ele recebe o presente o devolve à Klara dizendo que ela poderia dá-lo à outra pessoa. Lucas agiu corretamente, mas Klara se ressentiu, se sentiu novamente rejeitada, e em sua tristeza no final do dia quando a diretora da creche Grethe (Susse Wold) a vê no escuro ela acaba lhe dizendo que não ama Lucas, que ele tem um pipi. A diretora ri e lhe diz, sim como seu pai e irmão e todos os homens, mas Klara responde, mas o dele é duro... como um pau. O que seu irmão havia dito no dia que lhe mostrou a cena no tablet. 

A partir disto a diretora ficará inquieta, o que é absolutamente correto. Ela fala para Lucas que uma das crianças o acusou de abuso, mas não diz quem, não o que foi, não lhe dando nenhuma oportunidade de compreender, se explicar e se defender. Ela o manda para casa enquanto procedem as investigações. Grethe então chama em auxílio um homem, que me parece ser um psicólogo, e aí ocorre o erro, porque ao falar com Klara e não obter respostas, as que ele queria ouvir, ele coloca palavras na boca da criança fazendo perguntas que induziram a criança a responder. Isto ao meu ver não é o melhor procedimento. 

Os adultos acreditam que a criança não mente, e aí temos uma ilusão pois crianças mentem sim. Ver a criança como a inocência pura, ignorando a sexualidade que ela possui, e que ela não é cruel é o desejo do adulto que se esquece, que recalca sua própria infância. Klara ao se sentir rejeitada usou de algo que ela sabia de alguma forma que era errado, mas ao mesmo tempo sem saber exatamente o que era. É como a criança que ouve um palavrão e o repete e é repreendida pelos pais que o falaram, dizendo que ela não pode falar. Por outro lado, quando uma criança diz algo assim é óbvio que o adulto vai ficar extremamente preocupado e terá que fazer algo. Em quem acreditar? o que faríamos no lugar de Grethe? da mãe de Klara? do pai de Klara? 

Quando Klara diz que Lucas não fez nada ninguém a escuta, acreditam que ela recalcou, que esqueceu e que se trata de uma reação da criança ao ocorrido, o que realmente pode acontecer. 

A partir do veredicto do psicólogo Grethe chama os pais de Klara, conta para sua mãe o que aconteceu e depois alerta a todos os pais para ficarem atentos aos sintomas do abuso sexual em seus filhos. A paranoia se instala e apesar do filme não mostrar podemos imaginar os pais pressionando os filhos por respostas, o que as leva a dizer coisas que eles acreditam ser sintomas do abuso. Não sabemos se elas repetem o que os pais pensam, o que seus amiguinhos dizem ou o que, mas apesar da evidência da mentira quando a polícia vai à casa de Lucas e descobre que não há nenhum porão que todas as crianças descreveram como o local do abuso, ninguém muda seu discernimento sobre tudo. 

A vida de Lucas é destruída, ele é agredido por todos, seu filho também, matam seu cachorro, a namorada fica em dúvida e ele a manda embora. Até a véspera do natal quando Lucas vai à missa na igreja e na frente de todos diz ao pai de Klara para olhar em seus olhos e ver o que está ali. 

Após um ano, meio que sem explicações de como ocorreu a reaceitação de Lucas na sociedade local, todos aparecem felizes para o dia que Marcus fará a passagem da fase de garoto para homem, ou seja, o dia que ele recebe sua licença para caçar e ganha do pai uma espingarda. No dia seguinte eles vão caçar e Lucas escapa por pouco de um tiro que foi para ele, ou ele supõe que foi para ele, uma vez que ao olhar novamente não há ninguém. Ele é a caça, e não o caçador, o que demonstra que nada ficará bem como se supõe quando todos se abraçam e estão felizes. Há certas coisas pelas quais passamos na vida que não se apagam tão facilmente. 

Por outro lado uma comunidade que valoriza a morte, matar animais, caçar, e considera isto o ritual de passagem para a fase adulta para o homem, tem que ser uma sociedade agressiva, portanto as agressões que Lucas sofreu no decorrer do filme dos moradores não são algo estranho  para eles.

Olhando mais ainda para o filme percebemos que a pedofilia e o incesto movem o inconsciente das pessoas, e isto provoca uma reação exagerada, violenta, uma vez que é uma reação à uma tentação que todos carregam de seu édipo. A pequena Klara reage a rejeição de sua demanda de amor com ódio, o que a leva à vingança. Muitos dirão que crianças não fazem isto, mas fazem, não são tão inocentes como a sociedade gostaria de crer. A comunidade se vira contra ele, vemos uma histeria coletiva onde ninguém em momento algum pergunta à Lucas sua versão dos fatos. Nem adiantaria, não iriam acreditar nele. 

Thomas Vinterberg nasceu em 1969 em Copenhagen, Dinamarca 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

FILME: PRAGA - 2006



Direção: Ole Christian Madsen - 2006 
Duração: 92 min
Título Original: Prag 

Christoffer (Mads Mikkelsen) e sua mulher Maja (Stine Stengade) viajam para Praga para buscar o corpo do pai de Christoffer para ser enterrado na Dinamarca onde eles vivem e está o túmulo da família, para que ele fique junto de sua mãe da qual se separação há muitos anos atrás e após isto nunca mais reviu o filho. 

O casamento dos dois está em ruínas, há um distanciamento enorme entre eles, e Maja tem um amante. Mas ele também não é inocente, como aliás sempre ocorre numa relação. A maior parte do filme são diálogos, ou quase monólogos, pois um não consegue mais compreender o outro, sobre esta relação. Paralelamente Christoffer vai descobrir coisas sobre seu pai que ele não sabia e terá que lidar com aspectos culturais sobre o ritual de morte. 

Christoffer parece gozar em se auto-torturar, nenhum dos dois consegue se separar e também não conseguem expressar o que desejam, o que pensam, a raiva fica contida, a dor fica contida. Ele parece transferir para sua infância de filho abandonado todo o abandono que parece sentir no momento, mas não dá um passo para modificar tudo isto, nem aceita compreender seu pai. Ela ainda ama o marido, mas não consegue mais se aproximar dele. Há um momento de explosão de raiva e dor, em uma cena em público, onde também não ocorre um resgate para os dois. 

Aos poucos todos os segredos vem a tona, e cada vez mais se vê a desestruturação do casamento, os cacos que já havia se quebram ainda mais. 

Um filme sobre o quanto duas pessoas que vivem juntas há 14 anos podem se afastar, se desconhecer, mesmo se amando e as consequências disto. 

Ole Christian Madsen nasceu em 1966 na Dinamarca 

domingo, 3 de agosto de 2014

FILME: A FESTA DE BABETTE - 1987


Direção: Gabriel Axel - 1987
Duração: 102 min
Título Original: Babette's gaestebud 

Adaptação do conto de Isak Dinesen pseudônimo de  Karen Blixen do livro A festa de Babette e outras anedotas do destino. 

1871 - Em uma península da Dinamarca  vivem duas irmãs, Filippa (Bodil Kjer) e Martine (Birgitte Federspiel)  cujo pai falecido foi um rigoroso pastor luterano, aparece uma mulher chamada Babette (Stéphane Audran) , refugiada da França, cujo marido e filho foram assassinados durante e a Comuna de Paris, pedindo asilo e abrigo. Ela bate a porta das duas irmãs que após lerem uma carta que ela traz consigo a recebem em sua casa. Esta história começa muitos anos antes.



É uma comunidade luterana, e aqui vale lembrar como nos mostrou  Max Weber em seu brilhante "A ética protestante e o espírito do capitalismo" que se trata de uma religião que abole o intermediário com Deus, não há como se confessar a um padre que perdoa e lhe dá uma penitência, absolvendo-o dos seus pecados podendo reiniciar tudo, não, aqui Deus vê tudo e a melhor forma de garantir sua salvação é o trabalho e o ascetismo. Não há lugar para o prazer, para a vida mundana.



Os luteranos não se afastam totalmente da sexualidade, porém esta se limita ao casamento e á procriação. O pastor tem duas filhas jovens e muito bonitas, vários rapazes a desejam e frequentam os cultos somente para vê-las, mas não é desejo do pai vê-las casadas, são como ele diz: sua mão direita e esquerda. A vida de ambas é regida pela retidão do espírito por se separar do corpo. A comida é apenas uma forma de se manter vivo, não um prazer, é insípida, é por ser necessária.

Loewenhielm se apaixona por Martine, mas apesar dela sentir seu corpo reagindo ela o recusa. Ele é o mundo mundano, vaidoso e cheio de ilusões. É como uma interpenetração de dois mundos, que se tocam, mexem, mas recuam. Ele havia ido para a aldeia para pensar sobre si mesmo. Achille Papin um tenor chega a aldeia e se apaixona por Filippa e sua bela voz. Torna-se seu professor de canto, mas a música os aproxima demais, aproxima os corpos, e ela toma a decisão de não ter mais aulas. Ambas se sacrificam. Elas precisam manter a retidão e escapar ao pecado original, precisam de autocontrole, usam a negação de si mesmas e a austeridade para alcançar isto. Lembremos que não há confissão, não há penitência, então é o sacrifício, o controle que garante a salvação.

Babette virá com a carta de Papin, e assim ela ficará com as irmãs. Vive com elas por 14 anos até que ganha na loteira e recebe 10 mil francos. Na mesma ocasião as irmãs preparam-se para homenagear o pai que completaria 100 anos caso estivesse vivo. É então que Babette pela primeira vez pede algo às irmãs: prepara um jantar francês para este dia. No início elas relutam, mas acabam aceitando.

Neste ínterim percebemos que a comunidade começa a sofrer os conflitos dos humanos, a inveja, o ciúme, cobranças, passar a perna no outro, e tudo isto é pecado.

Quando as irmãs vêem os ingredientes para o jantar chegando elas se assustam e procuram seus irmãos de fé, estão apavoradas, com medo e culpa. Então eles fazem um pacto entre si, não falarão nada sobre a comida e a bebida durante o jantar. É uma recusa aos apelos sensuais, e a língua será usada para louvar, não para sentir os prazeres.

No dia do jantar os convidados chegam e entre eles está o general Loewenhielm que veio visitar sua tia. A mesa está posta com muito requinte e sofisticação. Babette está na cozinha, feliz, finalizando os pratos e instruindo um rapaz que serve à mesa. O cocheiro que levou o general e sua tia também está ali e poderá provar das delícias que ali estão. O jantar é servido, a francesa, um prato atrás do outro, uma bebida atrás da outra de acordo com o prato. Mas ninguém fala nada sobre tudo isto, se recusam a ver, com exceção do general que está encantado com tudo aquilo e reconhece cada bebida, cada prato, inclusive citando uma chef de cozinha num restaurante em Paris que tinha por especialidade codornas no sarcófago e que foi uma criação sua. É ignorado.



Mas aos poucos eles não resistem. Estão diante de uma arte, diante de uma revelação. Vamos notando olhos começando a brilhar, rostos ficando vermelhos, um leve sorriso, e aos poucos eles também começam a deixar de lado suas rusgas e conflitos. Estão se embriagando de corpo e alma. E é isto que o filme nos mostra, que temos apetite físico e espiritual que os dois não são excludentes, pelo contrário, se completam para tornar a vida melhor, sem que com isto estejamos pecando, para usar a linguagem da religião.

O jantar promove a união de todos, os desejos a tanto tempo reprimidos aparecem, eles perdem seu ar carrancudo e austero para sorrir, acolher um ao outro.

A comida é algo que representa a vida, é nascimento, afastando a morte. Levi-Strauss diria que ela é boa para pensar e é feita para ser compartilhada. A cozinha francesa neste filme permite despertar o lado bom, a inteligência, o amor, ao contrário da austera que bloqueia e reprime. Cozinhar é uma arte.





Por outro lado o filme também mostra a natureza na cozinha, quando vemos animais vivos e mortos, sangue, mas que após preparados se transforma em algo civilizado. A passagem da natureza para a civilização. O sonho das irmãs com o inferno e animais mortos e comida, a repressão do desejo que aparece ali.

Babette finalmente diz ás irmãs que ela era uma chef na França, no Café Anglais e que era uma artista.

Gabriel Axel nasceu em 1918 em Aarhus, Dinamarca e faleceu em 2014 em Bagsvaerd, Dinamarca

sábado, 8 de fevereiro de 2014

FILME: MEDEIA - 1988


Direção: Lars Von Trier - 1988
Duração: 76 min 
Título original: Medea 
Roteiro: Lars von Trier - Preben Thomsen 
País: Dinamarca 

Baseado na adaptação de Medea de Carl Theodor Dreyer. 

Medea (Kirsten Olesen) , sua história é conhecida, Eurípedes foi seu autor. Uma mulher traída e a que ponto chega sua vingança, seu ódio, sua dor. Ela mata os filhos por ser a única coisa que poderia atingir Jasão (Udo Kier) , lhe tirar algo também.



Lars Von Trier nos apresenta uma Medea terrível, atormentada. Quando Medea puxa a padiola com seus filhos e atravessa um túnel com seres loucos o que Von Trier nos mostra é a loucura, seu interior, toda a dor e ódio que ela carrega junto ali, e ela sofre para puxar a padiola, como pesa, avança com todo este peso da loucura.

Ela é uma mãe carinhosa, amorosa, lambe a ferida do joelho de seu filho, mas a mulher ferida e traída sobrepõe-se à mãe. Ela mata a rival, o pai dela que havia decidido pelo casamento de Jasão e pelo seu exílio com os filhos, e mata seus filhos partindo em seguida.



Terrível, mas não inacreditável. Quantas vezes vemos isto? pai ou mãe que matam seus filhos?

Assustador, mas não estranho nem impossível.  No final do filme ele diz que há coisas que Deus pode fazer e são inacreditáveis, um tremendo soco no estômago.

Lars Von Trier 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

FILME: ONDAS DO DESTINO - 1996


Direção: Lars Von Trier - 1996
Duração: 159 min 
Título original: Breaking the waves 
Roteiro: Lars von Trier - Peter Asmussen - David Pirie
País: Dinamarca 

Ganhou o César de Melhor filme estrangeiro 

Uma comunidade pesqueira num país nórdico (norte da Escócia) , uma plataforma de petróleo com outsiders.

Bess (Emily Watson) cresceu nesta comunidade extremamente religiosa e onde seu avô é um dos anciões que governam as regras no local. Ela vivia dedicada à Igreja, uma igreja sem sinos, após ter sido internada quando seu irmão morreu. Os anciões são os guardadores da moral e dos costumes, tudo passa por eles. As mulheres não podem assistir aos enterros, somente os homens, e o ancião quando julga o morto um pecador manda para o inferno todos que não vivem segundo suas regras.

Bess se apaixona por Jan ( Stellan Skarsgard) um dinamarquês que trabalha na plataforma de petróleo e se casa com ele. A comunidade não gosta, prefere os casamentos entre si, tem medo do diferente e não o aprovam.

O filme é dividido em partes e no início de cada parte toca uma música alegre que destoa até da vila e tem uma paisagem com tons sempre ocres e verde escuro predominando. A sensação que tive é que há algo que incomoda ali, não é natural e então me pareceu que era um mundo pintado, colorido por nós, cores que nós escolhemos para colocar na vida e no mundo onde sempre sobra um pedaço sem cores e um outro muito ilusório.

No dia do casamento uma demora da chegada do  helicóptero que traz o noivo da plataforma desencadeia uma crise histérica de Bess. O médico dirá que ela quer tudo, mas por outro lado ela é totalmente submissa ao Outro, seja Deus, seja o amor na figura de Jan. Ela fica entre a obediência e o sarcasmo.



Na festa do casamento ela leva Jan para o banheiro e quer ser possuída ali mesmo, nada de romantismo, de lua de mel. E temos depois uma cena linda onde ela descobre o corpo do outro.



Bess fala com Deus, mas ela mesma é Deus, que responde engrossando sua própria voz e usando uma voz infantil para ser ela mesma. Neste delírio Deus atende seus desejos e como ela não suporta a ausência de Jan quando está na plataforma trabalhando ela pede a Deus que o traga para casa, mesmo percebendo seu egoísmo ela não consegue agir de outra forma.



E justo aí é que acontece o acidente na plataforma que o traz para casa. Ela fica feliz, o que importa é que está vivo e vai ficar ali, não o estado dele que não pode mais se movimentar. Para aliviar sua culpa pois acredita que foi ela quem causou tudo isto pois desejou que ele ficasse ali, ela passa a acreditar que o salvaria. Deus o salvaria, aquele Deus que era ela mesma. Acreditou que tinha o poder sobre a vida e a morte.



Jan lhe diz que deve arrumar um amante, que ele não pode mais fazer amor, que isto ficaria entre eles, já que não podiam se divorciar pois a comunidade nunca aceitaria isto. Sua virilidade está em jogo. Ele lhe pede para ter relações sexuais com outro e lhe contar, que seria como eles dois. E o mais perverso é que quando ela inventa ele ao invés de aceitar a desmascara.

Ela atende ao desejo dele se prostituindo, acredita que o está salvando. Quando após sofrer uma violência ela ainda não o curou, resta o sacrifício, resta morrer por ele. E eu me pergunto por quem os sinos dobram no filme.

E ele se recupera. Milagre? por causa do sacrifício? Não! iria se recuperar de qualquer maneira. Ela sentia culpa pelo acidente, mas o amigo não, e se este não tivesse feito uma brincadeira estúpida de se fazer de morto naquele momento, o acidente não teria ocorrido. Mas há culpa? os acidentes acontecem, não temos o poder de detê-los, mesmo que sempre haja uma escolha antes.

Um tribunal. Qual foi o crime? quem é o criminoso? Neurótica? psicótica? o médico diz que ela era boa. Ser bonzinho é ser alienado ao desejo do outro?

Recomendo este filme, o meu preferido de Lars Von Trier.

Lars Von Trier nasceu em 1956 em Kongens Lyngby, Dinamarca.

Trilha sonora de Joachim Holbek 


Joachim Holbek nasceu em 1957 na Dinamarca. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

FILME - MELANCOLIA - 2011


Direção: Lars Von Trier - 2011
Duração: 130 min
Título original: Melancholia 
País: Dinamarca 

Kirsten Dunst ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2011 e o filme ganhou o prêmio de melhor filme Europeu de 2011 nos Prêmios do Cinema Europeu. 

Inspirado num episódio depressivo do diretor Lars Von Trier. 


Comecei a assistir ao filme e me veio a sensação de algo parado, chato, um tédio, e foi quando tive a percepção que eu estava assim devido a força deste filme, ou seja, me sentindo "melancólica". 

Duas irmãs, Justine(Charlotte Gainsbourg) e Claire (Kirsten Dunst) , e de imediato me lembrei da Justine de Sade. O Prelúdio - Tristão e Isolda de Wagner, cenas em câmara lenta, imensamente lento. Começa a primeira parte - Justine. É seu casamento, uma limusine imensa que não consegue fazer as curvas da estrada que leva à mansão onde os convidados esperam para a festa. 
Permito-me o pensamento de que não conseguir fazer curvas numa estrada é como parar na vida que é repleta de curvas, e você fica ali, tentando, vai para frente, vai para trás, tenta virar um pouco, e não sai do lugar. 
Um casamento e uma festa luxuosa, que o cunhado pagou e fica a todo instante relembrando isto ao mesmo tempo que elogia seu campo de golfe. Um chefe que mesmo no dia da festa só pensa em trabalho, um pai que erra seu nome, a chama de Bety como a todas as outras e não a escuta e lhe pergunta; você está feliz? Uma mãe que não aprecia nada ali e tem horror a casamentos e uma irmã que não desgruda, chamando-a, orientando-a, lendo o cerimonial e Justine oscila entre o sorris e o apagar. 
Que teatro! ela escapa a todo instante, volta com um sorriso forçado, mas ninguém repara. Ela chega a ir tomar um banho durante a festa, talvez para tirar tudo isto, esta pele falsa.


O casamento se desfez ali mesmo. Ao chefe ela fala o que pensa dele, talvez o único momento que ela reage, e ele vai embora furioso. Assistimos a entrada na depressão de Justine.
Segunda parte - Claire. Casada com um milionário - John (Kiefer Sutherland)  que se acha um cientista. Tem um filho. Um planeta se aproxima em rota de colisão com a terra e Claire está apavorada, mas seu marido a acalma. Justine piora e vai para a casa da irmã. Sua comida preferida tem gosto de cinzas, ela não quer tomar banho, está sempre cansada, perdeu o gosto pela vida. 
Claire acompanha pela internet os movimentos do planeta, chega a comprar um veneno para suicídio. Justine parece melhorar, mas não readquire o sabor da vida e Melancolia se aproxima. 
Não há mais colorido, imaginação, a vida é má, para que viver diz Justine. Ela se banha na luz de Melancolia. 
Quando o marido nota que o planeta vai colidir ele se mata, Claire se desespera, luta, tenta fugir com o filho, mas percebe que não adianta. Justine aceita e espera, mas é neste momento que ela surpreende, pois é quem tem a imaginação da caverna mágica que constrói junto com o sobrinho onde os três se juntarão de mãos dadas.




Lars Von Trier nasceu em 1956 em Kongens Lyngby na Dinamarca. É um dos principais cineastas atuais, e seus filmes falam da angústia e depressão, do sofrimento humano, do medo da morte. Talvez um dos motivos deste lado depressivo seja pelo fato de sua mãe ter revelado em seu leito de morte que seu pai não era quem ele pensava, mas outro retirando-lhe desta forma suas referências.


Música - Tristan und Isolde - Richard Wagner 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

FILME: EM UM MUNDO MELHOR - 2010



Direção: Sussane Bier - 2010
Duração: 113 min 
Título Original: Haevnen
Roteiro: Sussane Bier e Anders Thomas Jensen
País: Suécia - Dinamarca

Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro e o Golden Globe Award

Um filme excelente que permite várias leituras e sobre vários temas.

Talvez o nome do filme seja significativo sobre se referir à Dinamarca, supostamente um país de primeiro mundo, de bem estar social, superior até, mas que se mostrará que não é quando se trata do humano, pois se há algo que é universal é o ser humano. O contexto pode ser outro, mas ao final os sentimentos, as paixões, o ódio, a raiva, o amor, estão presentes em todos.
O ponto forte do filme é mostrar como respondemos ao mal e suas raízes na infância.
Anton (Mikael Persbrandt) é um médico e está na África no meio dos confrontos e da guerra local, onde a população é aterrorizada por um bando armado que comete vários estupros para se divertir e depois apostam se o filho gerado na violência será menino ou menina, e para ver quem ganhou capturam a vítima e lhe abrem o ventre.Cabe a Anton tentar salvar suas vidas.


Enquanto isto sua família está na Dinamarca e seu filho mais velho Elias (Markus Ryggard) enfrenta uma situação difícil na escola de Bulling. O chamam de cara de rato, sueco que ali é pejorativo devido à história da Dinamarca, Suécia e Noruega, até que chega à cidade um garoto, Christian (William Johnk Nielsen) ,  que acaba de perder a mãe e vai morar na casa da avó. Este irá defender Elias de seus agressores e irão se tornar amigos.



Anton  volta para casa para um tempo de descanso.



Ele e sua esposa são chamados na escola, a mãe tenta defender seu filho e acusa a escola de não tomar providências em relação ao bulling. O pai tenta amenizar as coisas.
Num passeio com os filhos e Christian, Anton é agredido pelo pai de outra criança quando tenta acalmar os ânimos de uma briga de criança. Ele não revida e tenta ensinar aos filhos e ao amigo que cada um pode ter sua escolha, ser violento gera violência e que o mundo pode ser um lugar melhor. Depois ele retorna em busca deste pai, o provoca, mas na esperança que ele peça desculpas, o que este não faz, e novamente ele se vai com os meninos sem ter dado uma resposta ao outro. E aí está a questão. Por mais errado que seja, o pai do outro menino deu uma resposta à violência, e Anton não. Para os meninos, ele foi humilhado. Eles não tem a percepção de Anton, que estaria sendo melhor que o outro, e isto por que a cultura e o social colocam desta forma, é o que se espera. E esta ação de Anton irá ter consequências.



Ele volta para a África e se vê numa situação extremamente complicada. O chefe do bando está ferido, entre a vida e a morte e o levam até ele. E agora? Ele acabará agindo de acordo com a ética médica e salvará a vida do monstro. A população local ficará revoltada.
Quando o chefe se recupera ele vai até a tenda onde Anton está tentando salvar a vida de mais uma jovem, e debocha, ri, então ele reage e o joga para o povo lhe dar o que merece, ele é linchado.
E eu fico com a pergunta: ele não estaria lavando as mãos como Pilatos durante todo o filme? tentando conter uma agressividade que todos nós temos? para dar um exemplo ao filho, por acreditar num mundo melhor, ele acaba sendo de certa forma omisso. Ao ser agredido pelo pai do outro garoto, ele não precisa revidar da mesma maneira, mas uma resposta é necessária, e por que não chamar a polícia como disse Christian? esta seria uma maneira de ensinar a dar uma resposta sem revidar na mesma moeda e teria tranquilizado os garotos.
No caso do bulling, se ele tivesse agido com firmeza, apoiado sua esposa, e exigido da escola uma ação, colocando nela sua parte de responsabilidade?
Christian também tem seus problemas, seu pai está sofrendo a perda da esposa, o menino pensa que poderia ter salvo a mãe, falta diálogo, falta verbalizar o que sentem.
O filme nos mostra que muitas vezes as boas intenções nos levam a omissão, ao calar, e que nem sempre isto leva a um mundo melhor. Que o mundo é feito de coisas boas e de coisas ruins, que o mau existe, e que a agressividade também faz parte de nós, e que mesmo num mundo melhor ainda teremos que lidar com isto e que é necessário uma resposta melhor a estas situações.



Ainda resta muito a se falar sobre este filme, mas não damos conta de tudo, portanto o que escrevo aqui é o que me marcou, o que o filme deixou em mim.

Assista ao trailer




Sussane Bier nasceu em 1960 em Copenhagen, Dinamarca. 

Curiosidade: O título do filme é Haevnen em Dinamarquês, e significa Vingança.