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segunda-feira, 23 de maio de 2016

FILME: XXY - 2007


Direção: Lucia Puenzo - 2007
Duração: 90 min
País de Origem: Argentina - Espanha - França

Um belo filme que nos fala da transexualidade que serve para que as pessoas possam compreender melhor do que se trata e de como uma pessoa que nasce com as duas características sexuais se sente e o preconceito que existe. 

Alex (Inés Efron) filha de Kraken (Ricardo Darin) e de Suli (Valeria Bertuccelli) nasceu com ambas as características sexuais. Seus pais para se afastar dos preconceitos e dos que acreditam que é necessário corrigir a ambiguidade sexual da criança se mudam para um vilarejo no Uruguai onde kraken trabalha como biólogo. 

Alex toma hormônios para se tornar uma menina, mas começa a resistir a isto e para de tomá-los. Nesta época recebem a visita de um casal de amigos com um filho adolescente, Alvaro (Martin Piroyansky), cujo pai é um médico que faz as cirurgias de correção. A mãe de Alex deseja esta cirurgia, porém seu pai não acredita que isto seja a solução, considerando que seria uma violência ao corpo de Alex.

Alex e Alvaro se sentem atraídos, até que tem um encontro sexual revelador para ambos. Os garotos do vilarejo desconfiam que há algo de errado e acabam cercando Alex numa praia e descobrem que ela é uma menina com órgãos genitais duplos. 

O filme é uma lição, pois o pai de Alex compreende o drama de Alex, e a apoia em suas decisões quando opta por não fazer uma cirurgia e ser como é, escolha difícil diante de uma sociedade que não aceita isto. 

O filme é sensível, e vem ao encontro dos preconceitos, da dificuldade que as pessoas tem em aceitar tudo que não seja o considerado normal. Mas o importante é que mostra que sexo biológico, gênero e opção sexual são coisas diferentes, e isto ainda é muito pouco compreendido. 

Lucia Puenzo nasceu em 1976 em Buenos Aires, Argentina

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

FILME: O HOMEM AO LADO - 2009



Direção: Gastón Duprat e Mariano Cohn - 2009
Duração: 110 min
Título Original: El Hombre de al lado
País: Argentina

Leonardo Kachanovsky (Rafael Spregelburg) e sua família moram em Buenos Aires, na única construção projetada pelo arquiteto Le Corbusier na América Latina, o que leva muitas pessoas a ir ver a casa e tirar fotos. Leonardo também é arquiteto, trabalha como designer e professor. Tudo vai muito bem até o momento em que seu vizinho Victor (Daniel Aráoz) resolve abrir um buraco na parede para obter um pouquinho de sol, conforme ele diz, e que Leonardo e sua esposa Ana (Eugenia Alonso) consideram com uma invasão de sua privacidade, pedindo que ele feche o buraco o que o vizinho não faz. 



Até aqui Leonardo está coberto de razão, afinal Victor nem sequer lhe comunicou isto, ou pediu autorização, e legalmente ele não pode fazer isto, o que então justifica a revolta de Leonardo e Ana, mas a questão não é tão objetiva assim, é muito mais profunda.



Comecemos pela casa, que tem sua visitação proibida mas que está sempre rodeada de pessoas que tiram fotos, o que de certa maneira envaidece os donos da casa, apesar de serem grosseiros com alguns turistas que lhe solicitam uma visita, o que não seria necessário. Então aqui temos um pequeno paradoxo, pois quem deseja privacidade e não ser visto não iria morar justamente numa casa que é objeto de culto, admiração e procurada pelos que desejam vê-la. Mas isto também não é suficiente para justificar que o vizinho possa ter o direito de fazer um buraco na parede. 

O que realmente vai se tornando visível é o preconceito e a intolerância. Leonardo na realidade não consegue se impor, nem ao vizinho e menos ainda à sua esposa Ana que é autoritária, intransigente e que quer apenas seus desejos atendidos. Então ao invés de ser direto e objetivo, ele conta histórias, como a de seu sogro ser dono da casa e não querer o buraco, liga para um advogado que ameaça o vizinho, até chegar a sugerir uma modificação que ficaria bom para todos, com uma janela menor o que Victor aceita e faz, mas Ana não. Por outro lado ele exerce poder e autoritarismo com seu alunos onde ele se sente superior e seguro, não se incomodando de considerar os trabalhos apresentados como primários e cheios de erros e é extremamente grosseiro com uma equipe de televisão durante uma entrevista deixando a mostra seu desprezo pelo o que ele considera massificado e não refinado, que não sabe se diferenciar, como ele e sua esposa. 

Ana é professora de Yoga, muito Zen, e isto é hilário, porque justamente é o que ela não é. A filha passa seu tempo ouvindo música através de fones de ouvido e dançando, sem nunca prestar atenção aos pais. Leonardo e sua família consideram o vizinho um sujeito bruto, sem educação, sem cultura e grosseiro, e isto é o que mais o incomoda. E são eles que acabam espionando o vizinho e fazendo comentários pejorativos. 

Victor é mais autêntico, diz o que pensa, enquanto Leonardo tenta manter uma máscara do que ele acredita ser civilidade e boa educação e com isto é falso e não diz o que realmente pensa e deseja, ele acredita que é um grande artista em sua profissão, e despreza uma pequena apresentação que Victor faz com elementos bem simples como bananas, presunto, e dois dedos vestidos com botinhas, sem perceber que nisto também há criatividade, assim como a escultura que Victor lhe oferece e que Ana manda jogar fora. A cena que mais demonstra isto é quando Victor oferece ao seu vizinha uma conserva de javali feita em casa. Leonardo se preocupa em se mostrar satisfeito em ganhar o presente, isto é de bom tom, mas quando tem que provar.... e se vê obrigado a isto, chega a ser cômico. 





Leonardo faz de tudo para tapar aquela janela que funciona como um Outro para ele e justamente por isto o incomoda e muito. 

O final do filme é impactante. Vale a pena assistir. 

A Casa Curutchet em La Plata, Buenos Aires, foi encomendada a Le Corbusier pelo médico argentino Pedro Domingo Curutchet. Em 1992 a casa tornou-se Sede do Colégio de Arquitetos de Buenos Aires e é considerada patrimônio nacional da Argentina. Em 2014 iniciou-se uma reforma e agora a ideia é criar um centro de documentação tanto do edifício como da obra de Le Corbusier, o arquiteto, urbanista, escultor e pintor de origem suíça e naturalizado francês em 1930. 


 Gastón Duprat nasceu em 1969 em Bahía Blanca, Argentina e Mariano Cohn nasceu em 1975 em Villa Ballester, Argentina 

terça-feira, 14 de julho de 2015

FILME: VALENTIN - 2003


Direção: Alejandro Agresti  - 2003
Duração: 79 min
País: Argentina

Um belo filme sobre as questões da infância quando se vive a situação de pais separados. 1960, em Buenos Aires, Valentin (Rodrigo Noya) é um menino de 09 anos que vive com sua avó (Carmen Maura), pois seus pais se separaram e seu pai (Alejandro Agresti) vive sozinho e está sempre muitíssimo ocupado, e sua mãe desapareceu, ele nada sabe sobre ela. 

O sonho de Valentin é se tornar um astronauta. Ele está sempre no sótão da casa inventando roupas de astronautas que depois ele testa.

Ele tem uma boa relação com a avó, apesar dos humores dela, e adora quando ela canta tangos para ele. Mas não é o suficiente, ele deseja mesmo é ter uma mãe, e a cada namorada nova de seu pai ele fica esperançoso, mas acaba se decepcionando com a moça ou então seu pai logo termina o relacionamento. 

Mas quando conhece Letícia (Julieta Cardinali) ele se encanta com ela, e ao desejar que ela seja sua mãe acaba falando demais sobre seu pai o que resulta no rompimento dos dois. Mas Valentin não irá desistir de realizar seu sonho de ter uma família, principalmente depois que sua avó morre e ele fica inclusive sem casa, pois seu pai o coloca na casa de amigos e põe a casa à venda.


O ator Rodrigo Noya é fantástico no papel, seu olhar, suas impressões, é encantador. Um menino que apesar de passar por situações difíceis não se abate, e sempre procura alternativas para ser feliz.  Vale a pena assistir.

Alejandro Agresti nasceu em 1961 em Buenos Aires, Argentina

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

FILME: RELATOS SELVAGENS - 2014


Direção: Damián Szifron - 2014
Duração: 122 min
Título Original: Relatos Salvajes
Produzido por Pedro Almodóvar
País: Argentina - Espanha

Indicado para o Festival de Cannes 2014 como longa-metragem 

Impactante! São seis pequenas histórias curtas sobre um momento que devido a alguma ocorrência seja cotidiana ou de surpresa acaba em descontrole das pessoas. É apenas o momento que o filme retrata, diferente do filme Um dia de fúria. 
O que vem a tona é o que muitas vezes desejamos fazer, é o desejo de vingança, a pulsão agressiva que sai do controle e atua ao invés de falar ou se voltar contra nós mesmos em muitos casos, ou se transformar em algo mais criativo. 

A primeira história se passa num avião onde de repente todos descobrem que conhecem Pasternak, que sem eles saberem reuniu naquele avião todos seus desafetos, todos aqueles que um dia o traíram, não lhe atenderam ao desejo e pior, o disseram e ainda zombaram dele como sua ex-namorada que o traiu com seu amigo e Salgado (Dario Grandinetti), um crítico musical, que lhe disse o que pensava de sua música. É o dia da vingança. 

A segunda - Las Ratas, se passa num restaurante a beira da estrada num dia chuvoso. Um homem entra no local, Moza (Julieta Zylberberg) o reconhece de imediato, é um agiota que emprestou dinheiro a seu pai que não conseguiu pagar e que por isto se suicidou, em seguida o agiota flerta com sua mãe e agora para o cúmulo ele é candidato a um cargo no governo. A cozinheira Cocinera (Rita Cortese) sugere colocar veneno de ratos em sua comida. 

A terceira tem inicio numa estrada vazia com um belo carro, Diego (Leonardo Sbaraglia) o dirige, ouve música. Em seu caminho surge um carro velho, o motorista parece bêbado ou está provocando, pois dança na pista de um lado para outro impedindo a ultrapassagem. Quando Diego consegue ele abre o vidro e o xinga. Mais adiante o pneu do carro de Diego fura e ele será alcançado pelo outro. 

A quarta - La Bombita - traz Simon (Ricardo Darín), um engenheiro especialista em explosivos, que tem seu carro guinchado por supostamente ter estacionado em local errado. Ele está atrasado para o aniversário de sua filha, mas vai retirar o carro, tenta alegar que não havia nenhuma faixa pintada no local, mas é ignorado. Sua esposa se cansa do que ela diz ser seu pouco interesse pela família e se separa dele, no tribunal ele está perdendo a possibilidade de ver a filha, perde o emprego. O dia de um azarão. Mas vemos que ele tem razão, e percebemos a corrupção do sistema de trânsito, o pouco caso. No dia em que ele vai se candidatar a um novo emprego é tratado como se fosse um idiota, e quanto retorna seu carro foi novamente guinchado. Esta armado o cenário para sua total perda de controle, mas ele o fará com calma e estratégia. 

A quinta história - La propuesta nos mostra uma família rica tentando proteger um filho de responder pelo seu crime, seu pai Mauricio (Oscar Martinez) irá tentar comprar a liberdade do filho, e com isto irá despertar a ganância em seu jardineiro, seu advogado e o inspetor da polícia. 

E por fim a sexta história - Hasta que la muerte nos separe - é sobre uma festa de casamento onde a noiva   Romina (Erica Rivas) descobre que seu noivo convidou uma amante que está ali. É o estopim para uma crise onde ela não sabe o que fazer, o desejo de se vingar que a leva a assumir sua raiva e loucura do momento. 

Muito bom! Um humor negro que nos mostra a faceta das pulsões agressivas e vingativas, mas também deixa claro que em duas histórias temos realmente um bom motivo para estar com raiva e desejar fazer algo, e nas outras quatro há um lado infantil que atua. Seja a moça que culpa o agiota pela morte de seu pai e por terem que se mudar, mas se esquece que foi seu pai quem procurou um agiota e não conseguiu pagar. O belo homem rico que debocha do pobre e o xinga o que não justifica a ação do ofendido que também o havia provocado antes. Pasternak que não aceita que lhe digam Não e um pai e mãe que retiram do filho a responsabilidade por seus atos o protegendo, mesmo que ele queira assumir o que fez, e com sua proposta despertando a ganância de todos o que não terá um bom final. 
No caso de Simon é revoltante ver a corrupção e o roubo, e fica visível que não há o que fazer, uma vez que ele tenta, procura os responsáveis, quer fazer uma queixa, quer provar que está certo. Lembrou muito o Brasil também. E a noiva, bom, qualquer um que descubra que foi traído está sujeito a ter reações inesperadas. 

Estamos diante do Humano, demasiadamente humano, como diria Nietzsche. Aqui não há redenção, provações, aprendizado interior. Aqui temos o dia a dia onde algo vem a ocorrer e eis que de dentro de nós mesmos surge este personagem que muitas vezes nem conhecíamos, o vingador! o que deseja descontar no outro o que sofreu, muitas vezes devido suas próprias fraquezas e erros. 

Damián Szifron nasceu em 1975 em Ramos Mejía, Argentina 

domingo, 30 de novembro de 2014

FILME: O SEGREDO DOS SEUS OLHOS - 2010



Direção: Juan José Campanella - 2010
Duração: 129 min
Título Original: El secreto de sus ojos

País de Origem: Argentina

Benjamín Espósito (Ricardo Darín) se aposenta após trabalhar a vida todo no Tribunal Penal em Buenos Aires. Para preencher seu tempo ele começa a escrever um romance sobre um fato verídico que se passou 25 anos antes, quando em 1974 foi encarregado de investigar um violento estupro seguido de assassinato de uma bela mulher, Liliana Calotto (Carla Quevedo) casada há um ano com Ricardo Morales (Pablo Rago). 

O filme se passa entre digressões entre o presente e o passado e aos poucos vamos conhecendo toda a trama do que ocorreu naqueles anos. Somos então apresentados à Irene (Soledad Villamil), que iniciava sua carreira jurídica e à Sandoval (Guillermo Francella), assistente de Espósito que sofre de alcoolismo, mas é brilhante em solucionar casos. Este é o enredo policial do filme. 

Espósito é apaixonado por Irene, mas nunca ousa lhe dizer nada e ao investigar o caso de Liliana se envolve cada vez mais com a vida da vítima, pelo marido apaixonado, que alega não desejar a morte do assassino, mas sim, que ele passe a vida toda preso e tenha que se haver com o nada. Logo no início do filme Espósito anota num papel "Temo", ao acordar. Ao escrever sobre a investigação ele procura Irene para lhe falar sobre isto, sobre tudo que aconteceu naqueles tempos, sobre o que nunca mais falaram. 

A escrita de Espósito é uma história real com fatos, mas nas entrelinhas deste romance há todo o aspecto psicológico dele, de tudo que se passou dentro de ele e que nunca foi expressado. Após solucionarem o caso e prenderem o assassino, a Argentina entra num momento político difícil, e um desafeto de Espósito libertará o assassino e o colocará numa posição dentro do executivo do país, e a justiça nada poderá fazer. Agora todos correm risco de vida. Espósito irá embora e deixará para trás Irene, mas levará consigo um amor represado dentro de si, pelo simples motivo que ele teme amar. E é isto que o fascina em Morales, o amor que ele sente por Liliana e como pode ter vivido 25 anos sozinho, no nada? 

Sandoval irá dizer num momento que há algo que nunca podemos nos livrar, podemos mudar de rosto, de religião, de emprego,de casa, mas a paixão, esta permanece, e é assim que eles chegam ao assassino. Como viver com uma paixão assim? como Morales sem  Liliana, como Espósito sem Irene? Como preencher uma vida e lhe construir um sentido com este imenso vazio dentro de si? 

Tudo o que não se diz o olhar expressa, e é brilhante a atuação dos olhares no filme, que falam mais que qualquer palavras. Ambos sabem do amor que nutrem um pelo outro, mas estão ali, a espera que algo aconteça, um milagre talvez? Também será pelo olhar que Espósito através de fotografias irá descobrir o assassino de Liliana. Dizem que os olhos são o espelho da alma, mas o que eles com certeza fazem é falar, os olhos falam, e deletam nossos segredos. 

Já Ricardo tem um olhar perdido, um olhar de quem não pode mais realizar o que deseja, mas que acalenta a vingança. Ele quer encontrar o assassino que lhe tirou o grande amor de sua vida. Seu olhar de amor é um olhar de puro amor, mas sem objeto palpável, ela já não existe. Ricardo não pode mais amar porque a morte se interpôs, mas Espósito pode, não é a morte que o impede, é o temor, o medo. 

Durante o filme várias vezes há a questão da máquina de escrever que falha na letra "A", justo a letra que falta, a letra que impede Espósito de escrever o seu amor, o Temo em Te A Mo. 

Morales ficará no passado, preenchendo o vazio com o nada, nem mesmo falando, já Espósito consegue encontrar a letra que falta e a falar. 
Juan José Campanella 

sábado, 11 de outubro de 2014

FILME: INEVITÁVEL - 2013


Direção: Jorge Algora - 2013 
Duração: 95 min 
Título original: Inevitable 

Baseado numa peça de teatro de Mario Diament

Nas ruas de Santiago de Compostela uma mulher caminha com lágrimas nos olhos. Na mesma rua caminha um homem e que quando a vê algo nele se anuncia. Ela também, mas ao invés dele lhe oferecer o lenço e ela olhar para ele, nada disto acontece e cada um segue seu caminho, mas aquele momento ficará para sempre na vida dos dois.

Há coisas na vida que são inevitáveis, como o amor, a morte, as crises pelas quais passamos, os encontros e desencontros, os acasos que nunca são por acaso fazendo parecer que o destino trama seus fios, e mesmo que leve anos esses fios se cruzam novamente. E há coisas que sempre retornam, como o verdadeiro amor.

Fábian (Darío Grandinetti) é um executivo de um banco casado com Mariela (Carolina Peleritti) com quem tem uma filha. Logo no início vemos um mundo capitalista onde o presidente do banco diz que ali eles são como um galinheiro, que os que estão mais alto no poleiro sujam os que estão embaixo. Um dos executivos é chamado após a reunião à sala do presidente, ele e Fábian se conhecem há 20 anos, mas nunca foram amigos, antes de ir ele pede para falar com Fábian que lhe diz que depois falariam e sai da sala, neste momento ele sofre um ataque do coração e morre ali mesmo diante de todos.

Fábian é o escolhido para falar no enterro representando o banco, depois ele está sentando num banco no parque e chega um senhor cego (Federico Luppi) que ele reconhece como um escritor famoso e começam a conversar. A partir destes fatos Fábian começa a questionar sua vida, se é feliz, se é o que sonhou ser. Sua vida em casa é fria, todos são distantes, reúnem-se à mesa, mas mal falam uns com os outros e estão sempre apressados.

No consultório Mariela é confrontada por uma paciente (Mabel Rivera) o que a acorda para sua vida também. Então ela propõe ao marido fazerem uma viagem juntos para a Europa.

Fábian não irá, pois ele acaba de conhecer Alícia (Antonella Costa) uma escultora por quem irá se apaixonar perdidamente a ponto de se tornar obcessivo. Já Alícia em momento algum se apaixonou por ele, mas em troca do cheque pelo quadro diz que lhe deu sexo, o que pode ter um preço alto a pagar.

O final é inesperado, mas nada que fuja ao humano quando temos emoções e da loucura que muitas vezes a vida produz em nós. Eu fico me perguntando, independentemente do final, se um momento não pode valer muito mais do que uma vida inteira que é vivida mecanicamente e sob controle, como aquele momento que vemos logo no início do filme. Por outro lado, podemos ficar presos a estes momentos e impossibilitados de seguir em frente e viver intensamente outras coisas, ou será porque nossa vida não é intensa que ficamos presos?



Jorge Algora nasceu em 1963 em Madrid, Espanha

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

FILME: A VIAGEM DE LUCIA -2009


Direção: Stefano Pasetto - 2009
Duração: 93 min
Título Original:  Il Richiamo 

Lea (Francesca Inaudi) trabalha numa fábrica e vive com seu namorado. É alegre, extrovertida, toda atrapalhada como ela mesma diz. Seu desejo é mudar sua vida e sair desta rotina. Lucia (Sandra Ceccarelli) é casada com um médico e trabalha como comissária de bordo. Ela tenta ter um filho, mas sofre de desmaios, e acaba sofrendo um aborto. Seu médico a aconselha a não usar medicação, mas mudar sua vida.

Lucia decide então voltar a dar aulas de piano e desta forma conhece Lea e se tornam amigas próximas se envolvendo amorosamente, até o dia que Lea decide ir para a Patagônia consertar o barco de seu pai para trazê-lo à Buenos Aires, justo no momento em que os médicos resolvem internar Lucia por ela estar com um câncer. Lucia ao ouvir isto segue Lea e vai viver uma nova vida.

Entre os encontros e desencontros das duas, aos poucos ambas terão que se confrontar com suas dificuldades e tomar decisões sobre suas vidas. O filme não se aprofunda nas questões delas e acaba tratando superficialmente a estes aspectos,assim como ao câncer de Lucia. Mas acaba deixando uma mensagem através dos animais marinhos quando Lea diz que os mais fortes muitas vezes sucumbem e os mais frágeis se recuperam. Isto nos faz pensar que muitas vezes o que chamamos de força no outro não passa de uma máscara e o frágil, tão desdenhado na sociedade atual onde temos que ser fortes, buscar o sucesso e sermos felizes está muito mais preparado para enfrentar as adversidades da vida sozinho.

Stefano Passetto nasceu em 1970 em Roma, Itália 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

FILME: AMOROSA SOLEDAD - 2008



Direção: Martin Carranza e Victoria Galardi - 2008
Duração: 82 min

Soledad (Inés Efron) acaba de ser deixada pelo noivo e está sofrendo com isto. Ela toma uma decisão de passar pelo menos três anos sozinha sem se envolver novamente, tem medo de sofrer e diz que precisa deste tempo, mas logo logo ela vai descobrir que viver sozinho e estar sozinho não é a mesma coisa e não é tão simples assim, ainda mais para uma mulher instável, um tanto neurótica e principalmente hipocondríaca, pois ela está sempre sentindo dor no peito, dor no ombro, enjoos, ou seja, remete para seu corpo o que sua alma sente. 

Ela é toda atrapalhada vivendo sozinha, o vaso sanitário entope e ela ao invés de chamar um encanador após tentar desentupi-lo sem sucesso opta por transformar o vaso numa mesinha com um cactus e uma vela em cima. Fecha a porta e esquece a chave dentro, não consegue abrir o fecho do vestido e dorme com ele até poder pedir ajuda ao porteiro no dia seguinte. 

Ela chora a toa em momentos onde não deveria e tenta ser forte na questão da perda de seu noivo. Tem outras manias, como pedir para colocar o tomate do sanduíche separado num saco plástico que tira da bolsa e entrega a garçonete. 

Mas mesmo assim o filme é gostosinho, principalmente se o olharmos por este lado desta mania por doença da Soledad. Ela compra um aparelho de pressão e diz que é bonito (para usar no pulso como se falasse de uma pulseira) e acha o termômetro na vitrine mais bonito que o que ela comprou uma semana antes. Vive indo ao plantão médico por alguma coisa que sente, fica apavorada quando sua mãe vai colocar silicone nos seios em um local que ela acha impróprio e sem estrutura, afinal não tem ambulância nenhuma ali, quando cuida da filha da vizinha inventa um jogo com sintomas de doenças que a menina tem que adivinhar.  E finalmente parece que aprova seu novo namorado por ele morar bem ao lado de um belo hospital. 

Ricardo Darín faz uma aparição relâmpago como o pai de Soledad, nada que se possa incluir seu nome no elenco. 



Martin Carranza e Victoria Galardi 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

FILME: O FILHO DA NOIVA - 2001


Direção: Juan José Campanella - 2001 
Duração: 123 min
Título original: El hijo de la novia

Rafael Belvedere (Ricardo Darín) tem 42 anos e cuida do restaurante que foi de seu pai, vive sozinho, e sempre correndo, totalmente estressado. Tem uma ex-mulher que lhe cobra maior atenção para a filha e sua namorada Naty (Natalia Verbeke) que lhe solicita atenção e companhia. Sua mãe está internada, está perdendo a memória, está com Alzheimer, e ele raramente a visita. Seu pai Nino (Hector Alterio) o visita no restaurante e está com uma idéia que Rafael reluta em aceitar, ele quer realizar o sonho de Norma (Norma Aleandro) de se casar na igreja.

Com toda esta correria ele acaba tendo um enfarte. É o momento para repensar toda sua vida e ele acaba aceitando a ideia do pai sobre o casamento.

O filme nos mostra um Rafael cheio de conflitos e angústias. Ele não consegue se relacionar com as pessoas, tem dificuldade com tudo que seja íntimo, e mergulha no trabalho no restaurante, mas mesmo ali, nem tudo corre tão bem assim. Ele foge da mãe, não vai visitá-la e somente depois de muita insistência de seu pai acaba indo. Se depara com a fragilidade dela, já não é sua mãe da infância, onipotente. A morte, os conflitos não resolvidos emergem.

Vemos um Rafael ainda infantil, que aos poucos vai atravessando a dor do crescimento, da separação, de aceitar que é um ser único, solitário mas que depende dos outros. A cena quando ele pensa em vender o restaurante, e que seu pai lhe diz que foi a vida deles, mas que ele, Rafael, tem que ter a sua vida.

O casamento esbarra em dificuldades, sua mãe tem Alzheimer, não está de posse de suas faculdades mentais, mas Rafael acaba resolvendo isto, e encenam o casamento com a ajuda de um amigo.

Um filme sobre o crescimento, sobre a separação do infantil rumo para a maturidade, sobre a separação que todos nós devemos fazer dos pais simbolicamente, rompendo com o que nos ilude na infância, as fantasias, o Zorro de Rafael.


Juan José Campanella nasceu em 1959 em Buenos Aires, Argentina. 

domingo, 8 de junho de 2014

FILME: O MÉDICO ALEMÃO - 2013


Direção: Lucía Puenzo - 2013 
Duração: 93 min
Título original: Wakolda 

Baseado em fatos reais.

Após a queda do Terceiro Reich muitos nazistas fugiram para a América do Sul. A região de Bariloche era um reduto de fugitivos nazistas.

1960 - A família de Lilith (Florencia Bado) está indo para Bariloche para cuidar da Hospedaria que os pais de sua mãe deixaram. Um médico, Helmut Gregor (Alex Brendemühl), pede para seguir atrás deles em caravana para atravessar o deserto da Patagônia e depois quando chega à Bariloche se torna o primeiro hóspede deles. Aos poucos ele ganha a confiança de Lilith e de sua mãe Eva (Natalia Oeiro).

Ele observa a menina que tem doze anos e um corpo de oito anos, conversa com sua mãe e lhe diz que está no momento certo para um tratamento de crescimento. O pai é contra, e não simpatiza com o hóspede. Lilith entra para uma escola alemã, e começa a sofrer um bullying por ser menor que todos. Os meninos dão zero para seu corpo quando passa para ir à piscina. As meninas a chamam de nanica. Em função do sofrimento da filha a mãe aceita o tratamento, mas não conta ao pai. Ela está grávida, e ele começa a lhe dar vitaminas e depois passa a cuidar dela ao descobrir que ela espera gêmeos.

Para conquistar a confiança do pai Enzo (Diego Peretti) ele irá investir em suas bonecas que ele fazia artesanalmente, transformando-as em bonecas arianas, com olhos azuis e cabelos loiros e produzidas em massa. Lilith começa a sentir dores em seu corpo e ter febre, o médico diz que é normal. Na volta da viagem que fazem para ver a produção das bonecas os gêmeos nasceram e o pai já está furioso pois descobriu que sua filha vinha sendo tratada pelo médico.

A partir daí vemos o verdadeiro Helmut, que é o fugitivo nazista Josef Mengele , conhecido por suas experiências genéticas com prisioneiros em Auschwitz, conhecido como Anjo da Morte. Ele não era um médico que tratava de pessoas, mas um experimentador, louco, que usava os seres humanos para suas experiências, e que gostava muitos de gêmeos, deixando sempre um para controle de sua experiência no outro.

Eva ainda confia nele, o pai não, mas é neste momento que Eichmann é preso em Buenos Aires e Mengele tem que fugir, a fotógrafa Nora, que é uma agente de Israel é quem descobre com quem eles estão lidando. É tarde, Mengele foge, Nora será assassinada dois dias depois e a família de Enzo arcou com as consequências.

Mengele fugiu para o Paraguai e depois veio para o Brasil passando por várias cidades e vindo a falecer em uma praia de Bertioga por afogamento.

É interessante ver um paralelo entre a criação de bonecas de Enzo e as experiências de Mengele, só que Enzo está lidando com um objeto e não vidas humanas. Ele quer que a boneca tenha um coração que bata, e de certa maneira desta forma se tornar única. E esta é uma lição do filme, se aceitar, como somos. Para uma criança/adolescente é difícil enfrentar as gozações dos colegas que são cruéis, chamando de nanica, ou de gorda, ou de dois olhos e assim vai. É neste momento que os pais tem que dar suporte para isto, o que o pai de Lilith fez, mas sua mãe quis mudar o que Lilith era.

Eva vê em Helmut a lembrança de sua infância, do alemão, da escola, de sua família, ela confia nele, e foi seu maior erro. Ele não tem humanidade nenhuma, atende unicamente ao seu desejo de criar um ser puro, perfeito, corrigir defeitos, testar geneticamente possibilidades de mudanças, para criar o super homem, que era o ideal de Hitler.

Os cadernos de Mengele com as anotações sobre a família são perturbadores, causam mal estar, e ele seguiu fazendo suas experiências, nunca foi preso.



Josef Mengele 

Lucía Puenzo nasceu em 1976 em Buenos Aires, Argentina 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

FILME: ELSA E FRED Um amor de paixão - 2005


Direção: Marcos Carnevale - 2005
Duração: 108 min
Título original: Elsa Y Fred 
Roteiro: Marcos Carnevale, Marcela Guerty e Lily Ann Martin 
País: Argentina - Espanha 

Condor de Prata de melhor atriz para China Zorilla 

Dois octogenários. Fred (Manuel Alexandre)  viúvo há 7 meses, sempre teve uma vida muito organizada, trabalhou 40 anos na Telefônica, tudo sempre muito certinho e correto. Elsa (China Zorilla) , bom não é possível saber ao certo, ela tem uma imaginação febril, conta histórias, inventa. Ao final se descobre que tudo que contou é ao contrário.
Os filhos querem cuidar dos pais, mas são como Elsa chama o filho: a policia! controladores.



Nossa cultura ocidental vê os idosos como seres incapazes, que voltaram a ser crianças, que precisam ficar quietos, vendo TV, tricotando etc, ao contrário da oriental que respeita os idosos por sua sabedoria e experiência. Os idosos no ocidente não sabem mais nada, não desejam mais, e não podem andar por si mesmos. Ou então, pior, são totalmente abandonados para não terem que zelar, não disse cuidar, disse zelar, amor, carinho, deles. A relação saudável inexiste, ou são controlados ou abandonados.



Na realidade Elsa tem pouco tempo de vida, faz hemodiálise. Tem um sonho, ir a Roma e viver a cena do filme La Dolce Vita. Fred acha que não consegue fazer mais nada, acha que está doente e velho. Ela se apaixona por ele que aos poucos é conquistado, e ambos começam a se divertir e muito.

Os filhos? ficam pasmos! como? Quando Elsa apresenta Fred como seu namorado, sua nora nitidamente a reprova, como se isto fosse um total absurdo.

Elsa cria seu mundo, ela quer fugir do controle, do organizado, do previsível da vida. É divertida, seu carro é vermelho, ela ouve música enquanto dirige, seu celular é pink, dá calotes, fala muito. Talvez uma forma de lidar com a desilusão da vida. Ele que vivia na tristeza é capaz de se abrir novamente, ou talvez, pela primeira vez, à vida.

Ao final, contrariando os planos de seu genro que precisava de dinheiro para abrir mais um negócio que ele estava idealizando, Fred leva Elsa à Roma e realiza seu sonho.



Um belo filme sobre como nunca envelhecemos no espírito, no inconsciente, mas apenas no corpo, e que a qualquer tempo podemos viver e fazer coisas, realizar desejos, e desejar.



Recomendo.

Assista ao trailer:





Marcos Carnevale nasceu em 1963 em Córdoba, Argentina

Trilha sonora de Lito Vitale

Lito Vitale nasceu em 1961 em Villa Adelina, Argentina. É um músico, arranjador e pianista

FILME: MEDIANERAS: Buenos Aires na era do amor virtual - 2011



Direção: Gustavo Tarreto - 2011
Duração: 95 min 
Roteiro: Gustavo Tarreto
País: Argentina 

O mundo de hoje, onde possuímos de tudo para nos comunicar eficazmente e mais rápido, mas o que temos é uma solidão imensa, principalmente nas grandes cidades, onde tudo colabora para isolar as pessoas, a arquitetura, a tecnologia, as redes sociais que sou tentada a chamar de (des)sociais, pois afastam as pessoas do contato frente a frente, do toque, do olho no olho, do calor humano. As vezes observo as crianças nas férias, elas não sabem o que fazer, e penso no meu tempo, onde férias eram fériaaaassss! que alegria.



Me lembra 1984, mas aqui o grande irmão é a mídia, o consumo, o dinheiro. Uma matrix que foi construída assim e onde vivemos sem questionar por que consumimos tanto, por que estamos sempre tão sós, e por que sentimos este vazio dentro de nós. Perdemos a capacidade de nos comunicar? de falar com o outro? Quantas vezes nos vemos sem ter com quem falar, e ao nosso redor, milhares de pessoas.



No filme temos um homem Martin (Javier Drolas) e uma mulher Mariana (Pilar López de Ayala) , ambos moram próximos, se cruzam constantemente em locais, como locadoras, na rua, mas nunca se notam. Ambos são sós. Para quem já procurou o Wally nos livros, vai ver que ela está procurando Waly, mas não o vê, leva muito tempo para o ver.



A linguagem se reduz, passamos a usar códigos e letras, mais fáceis e rápidos nas mensagens virtuais. O prédios tem medianeras, ou seja, aquele espaço onde não se pode abrir uma janela porque tem outro prédio ali ao lado, e então se usa este espaço para outdoors, estimulando mais consumo. Hoje quase que não precisamos mais de vendedores, são as pessoas que querem muito comprar, para suprir faltas, vazios, e dar impressão de sucesso e felicidade. Se tiver o produto, não precisa de nada para o consumidor o leve. Até o sexo é assim, não é mais um desejo, uma pulsão. Ele deve ocorrer, é o que se espera. Tomar remédios para acabar com esta tristeza, solidão e o que chamam de depressão, mas que não é. Ou então, como no filme, fazer o que o cachorro fez, simplesmente se suicidar. Ou, encontrar Wally na multidão.



Assista ao trailer:



Gustavo Tarreto nasceu em 1965 em Buenos Aires, Argentina.

Trilha Sonora de Gabriel Chwojnik.

Gabriel Chwojnik