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domingo, 26 de julho de 2015

FILME: OS MEUS BONS CONTERRÂNEOS - 1969



Direção: Vojtech Jasny - 1969
Duração: 120 min
Título Original: Vsichni dobrí rodáci
País: República Tcheca

Uma pequena aldeia na Morávia, antiga Tchecoslováquia, em 1948 após o fim da Segunda Guerra Mundial vemos sete amigos cuidando de suas vidas e se encontrando sempre para beber , cantar e tocar música, numa relação boa, de fraternidade. Aos poucos somos apresentados a cada um deles. Tudo estaria perfeito não fosse que agora que os nazistas se foram aparecem os soviéticos e o socialismo que acabará por dividir estes amigos, sendo que alguns ficarão ao lado de Frantiek (Radoslav Brzobohatý) que fará oposição ao regime político.



Um filme sobre a realidade do socialismo muito longe de sua utopia e teoria e de como o ser humano, independentemente do regime político se deixa corromper pelo poder. Mas nada dura para sempre, e as situações se invertem.



Fico pensando que muitos países do norte Europeu sofreram com a Segunda Guerra, mas após seu fim retomaram sua liberdade política, o que não ocorreu no leste e este filme retrata justamente isto, um local pacato, pequeno, que sofre as consequências de outro regime político. Gostei muito do filme e também do fato de trabalhar com os aldeões , alguns já bem idosos, retratando como funciona a vida nestes lugares pequenos e rurais, e por outro  lado mostrando como se obriga uma pessoa a fazer o que não deseja, mesmo com toda lealdade que sentem por Frantiek o medo muitas vezes é maior. O que era uma aldeia pacífica e o que eram amigos unidos pelo afeto se transforma e se perdem os laços entre as pessoas, em função de um regime político.

Assista um trecho:



Votjtech Jasny nasceu em 1925 em Kelc, República Tcheca 

terça-feira, 21 de julho de 2015

FILME: JE VOUS SALUE, MARIE - 1985


Direção: Jean-Luc Godard - 1985
Duração: 102 min
Roteiro: Jean-Luc Godard 
País: França - Suíça

Filme que causou tanta polêmica e escândalo e que eu não havia assistido. No entanto o que encontro neste filme é pura arte. Uma nova maneira de contar a história de Maria e José, mas dentro de um contexto moderno, mesmo que em vários momentos do filme apareça escrito Naquele tempo.. , mas o que justamente o filme nos lembra a da contemporaneidade da história que não se perdeu lá atrás e que é possível trazer este mistério para o mundo atual com um casal jovem que nunca transou e justamente por isto deixa José (Thierry Rode) incrédulo  no começo sobre Maria (Myriem Roussel) ser virgem e estar grávida. 

Paralelamente temos a história de um professor de ciência (Johan Leysen) que estuda a origem da vida e tem um caso com uma de suas alunas, Eva (Anne Gautier), não à toa chamada de Eva, e que come uma maçã. 

José trabalha como taxista e está sempre com seu cachorro e Maria estuda, joga basquete e ajuda seu pai no posto de gasolina. Vemos um avião sobrevoando para aterrissar e depois vemos Gabriel acompanhado de uma menina maliciosa. Gabriel não se pode dizer que seja um primor de delicadeza, nem um pouco angelical digamos, mas é ele, o anjo Gabriel que vem até Maria e que depois irá de maneira um tanto grosseira e bruta abrir os olhos de José para que ele acredite, para que creia, para que confie, o que no final acabará ocorrendo, mas não sem antes ele se debater muito e inclusive se aproximar de Juliette (Juliette Binoche), mas que não conseguirá conquistá-lo. 

Como estamos na modernidade o que Maria enfrentará é o ceticismo, até mesmo do médico que a viu nascer que ao constatar sua virgindade e ao mesmo tempo a gravidez, não consegue conceber que ela não tenha tido algum contato com José. Não há escândalo, há indiferença, ok!, então que assim seja. Ela também irá duvidar do amor de José ao saber de seus encontros com Juliette. 

Finalmente eles se acertam e passam a viver junto, a criança nasce. Mas Maria não é diferente das outras mulheres, ela gosta de se vestir bem, não é uma santa, e a castidade que lhe é imposta pesa, ela tem desejos e tem que lutar contra esta tentação. É um percurso espiritual, onde ela quer que a alma seja corpo. Não se trata de uma Maria passiva, ela tem que alcançar algo, se superar, estar acima dos outros, é este seu percurso e que não é fácil, ela é humana. Com isto ela se encontra na solidão, aquela de todos que são diferentes, mas a dela é maior. 

O professor de ciências não consegue afinal explicar a origem da vida, há um ponto onde ele não consegue mais e tem que admitir que há algo maior. José também quer compreender, quer saber tudo, é cego, não consegue ver além da ciência, do materialismo. Para ele é o corpo que age sobre o espírito e terá que percorrer seu caminho de crescimento também até encontrar o amor. 



No final vemos um casal banal, o filho parte, Maria sabe que tem que ser assim, mas ela volta a ser uma mulher como qualquer outra, perde sua pureza. 

Há algo na mulher que é mistério, mas na modernidade atual isto se perdeu, nem mesmo Maria o mantém, nem mesmo quando o anjo Gabriel a saúda, ele por um momento faz com que ela lembre, vem algo, mas ela retoma a vida cotidiana e banal. 


Jean-Luc Godard nasceu em 1930 em Paris, França 

terça-feira, 21 de abril de 2015

FILME - BAGDA CAFÉ - 1987


Direção: Percy Adlon - 1987
Duração: 108 min
Título Original: Out of Rosenheim - Bagda Café


Perto de Las Vegas no deserto de Mojave, Jasmim (Marianne Sägebrecht) briga com o marido e ele a deixa ali. Empertigada, digna, ela com seus sapatos de salto, uma roupa que não tem nada a ver com o local que está, puxa sua mala e caminha pela beira da estrada. O marido ainda lhe deixa uma garrafa de café que ela ignora. Ele se arrepende, retorna, mas ela se esconde.



Um café a beira da estrada, com um posto de gasolina e um motel, chamado Bagda Café, lá vemos Brenda (CCH Pounder) brigando com seu marido Sal, que é folgado demais, devagar e se esquece de tudo. Ela o manda embora. Brenda é amargurada e briguenta. Está sentada numa cadeira desolada quando vê Jasmim chegando com sua mala. 


A relação inicial das duas mulheres não é das melhores. Brenda desconfia desta alemã perdida ali no meio do nada, e mais ainda quando vai fazer a limpeza do quarto e vê roupas masculinas e itens de higiene masculinos. Ela chama o xerife que nada pode fazer uma vez que os documentos de Jasmim estão em ordem. O caso é que Jasmim pegou a mala do marido na hora da briga, e então ao invés de ter uma crise ela simplesmente aceita aquilo e trata de se virar com isto. 

Hostilizada por Brenda a princípio Jasmim vai se aproximando das pessoas que por ali vivem tocando nos pontos que são mais importantes para cada um, como a música para o filho de Brenda, a pintura para Rudi Coxx (Jack Palance), as roupas para a filha de Brenda. Ela consegue captar o que há de melhor em cada um deles. Jasmim também começa a por ordem em tudo ali, limpar, organizar o que inicialmente deixa Brenda furiosa, mas depois ela reconhece que ficou bem melhor.

Jasmim e Brenda são mulheres que no começo do filme nos parecem um tanto "masculinizadas", mas o trabalho e a convivência irá aproximá-las e transformá-las e as perdas que ambas sofreram lhes dá a oportunidade de fruir de uma nova liberdade e de construir uma vida nova onde o homem se torna uma figura pífia, logo eles que no início do filme nos parecem os responsáveis por todas as dificuldades que ambas enfrentam. 

Brenda é um tanto neurótica, mas se explica através de todas as dificuldades que enfrenta. O filho que tem um bebê e que passa o dia tocando piano, a filha que vive com rapazes para cima e para baixo, toda a responsabilidade é dela, o marido era um inútil que não a ajudava em nada, o funcionário vive dormindo em sua rede.  A desordem de sua vida se reflete no ambiente ao seu redor. É onde justamente Jasmim irá mexer, organizando este caos.

Jasmim apesar de estar passando pelo mesmo problema que Brenda, o marido a deixou, e ela ainda está num país estrangeiro, reage de outra forma, ela lida com os problemas de forma criativa, e isto fica explícito no filme em sua reação ao abrir a mala trocada, ou o que fazer com aquele jogo de mágicas que inicialmente não lhe interessava e que foi justamente uma das formas que ela usou para abrir mais espaço e conquistar as pessoas, com a mágica, que metaforicamente podemos dizer que foi com um toque de mágica, de amor, de compreensão que ela transformou o Bagda Café num lugar alegre, cheio de vida e música.



Mas notamos que Brenda é uma pessoa que precisa do outro para a incentivar, uma vez que quando Jasmim tem que ir embora pois seu visto no país venceu, ela se entrega novamente a desordem, e tudo fica apático novamente. Por outro lado quando Jasmim retorna, tudo se reacende, e todos estão alegres de novo.

Percy Adlon nasceu em 1935 em Munique, Alemanha. 

domingo, 29 de março de 2015

FILME: FREUD ALÉM DA ALMA - 1962


Direção: John Huston - 1962
Duração: 140 min
Título Original: Freud, the secret passion

Filme em preto e branco

O filme faz uma cinebiografia do período inicial da psicanálise e demonstra como Freud (Montgomery Clift) desenvolveu o que veio a se chamar de Édipo na psicanálise. 

O filme reúne fatos verídicos como a ida de Freud para Paris e as aulas de Charcot sobre a histeria, seu casamento com Martha (Susan Kohner), a morte de seu pai, mas também condensa em Cecily ( Susannah York) várias pacientes histéricas, entre as quais a principal foi Anna O. tratada pelo Dr. Breuer (Larry Parks) que criou o talking cure, ou seja, a cura pela palavra.

O filme condensa 15 anos da vida de Freud quando ele desenvolve o Complexo de Édipo e a teoria da sexualidade, onde toda criança deseja inconscientemente a mãe ou pai, dependendo de sua posição masculina ou feminina. Cecily deseja o pai, mas não pode admitir isto conscientemente, é incestuoso e portanto perigoso e proibido. Quando ela se volta para a mãe encontra uma mulher incapaz de lhe dar amor o que a faz se voltar novamente para o pai e passar a persegui-lo tentando se tornar o objeto de desejo dele, levando-a inclusive a ir para um bordel onde Freud a resgata. O boneco que ela ganha do pai representa inconscientemente o filho que desejaria dar ao pai. O filho do general relata sob hipnose que matou o pai porque amava a mãe, o que também choca Freud que manda que ele não se recorde de nada quando acordar. Aqui vemos o efeito da contratransferência, uma vez que Freud também trazia em si mesmo o Édipo e não conseguiu lidar com isto naquele momento.

Freud irá perceber tudo isto se auto-analisando, pensando em si mesmo em relação à sua mãe, de uma lembrança que tem de tê-la visto nua em um trem e depois de seu pai a levando para seu compartimento deixando-o sozinho.

Na época acreditava-se que a histeria era uma farsa que as mulheres encenavam, ou então uma possessão demoníaca, o que Freud demonstra não ser. Ele ouve as mulheres, lhes dá crédito e com isto descobre o que causa a histeria. A histeria era considerada algo da mulher, mas na verdade ela também aparece nos homens, o que no filme fica demonstrado quando seu mentor inicial , Dr. Mayers, assume que o desacreditou perante todos por estar colocando a mostra o que ele sentia o que o desmoralizaria naquela sociedade.

Quando o pai de Freud morre ele tem um sonho que não consegue entrar no cemitério. Será o caminho para que ele descubra que uma das formas do inconsciente aparecer são os sonhos que precisam ser interpretados.

O DVD traz em seguida uma entrevista com o psicanalista Renato Mezan que fala sobre o filme e sobre o impacto destas descobertas e do repúdio que causou tanto no meio médico como diante da sociedade. Toda descoberta que vai contra o aceito, o comum, normalmente sofre este tipo de reação.

Para os que se interessam pela psicanálise é um filme que não pode deixar de ser visto. 
John Huston nasceu em 1906 em Nevada, Missouri, EUA e faleceu em 1987 em Middletown, Rhode Island, EUA. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

FILME: SHIRLEY VALENTINE - 1989


Direção: Lewis Gilbert - 1989
Duração: 104 min 

Há muito tempo desejava assistir, então hoje escolhi este filme.

Shirley (Pauline Collins) é uma dona de casa que passa seus dias cuidando do lar, vai ao mercado, limpa, cozinha, cuida do cachorro da vizinha, está sempre muito só e conversa com a parede, lembrando os tempos em que era Shirley Valentine e tinha muitos sonhos que foram se perdendo na vida. Seu marido Joe (Bernard Hill) também já não é o mesmo, perdeu toda sua alegria e agora é um chato, que chega em casa e quer tudo pronto, sendo que tem um cardápio definido para cada dia e não aceita mudanças. Ele acha Shirley uma tola que conversa com paredes. Seus filhos estão grandes e saíram de casa.

Um dia ela recebe um convite de sua amiga feminista Jane (Alison Steadman) para acompanha-la à Grécia. Shirley sempre sonhou em viajar, desejava ser aeromoça, o que acredita que sua principal inimiga do colégio se tornou. Inicialmente ela diz que não pode ir, mas Jane a incentiva defendendo seu direito à liberdade. Levando em conta alguns acontecimentos como seu marido lhe empurrando o prato de comida em cima dela por não ser o cardápio do dia, e com a volta de sua filha que a trata como a uma empregada e quando ela lhe conta que vai para a Grécia acho isto um total absurdo, ela vai.

Lá ela conhece Costas (Tom Conti) com quem tem um caso amoroso. Sua amiga Jane havia arrumado um namorado no avião e ficou com ele por uns dias, mas acaba de voltar e acha um absurdo o comportamento de Shirley.

Estamos diante de um quadro bem comum,infelizmente, onde uma mulher se transforma na empregada de todos, não tem desejos, não tem vontade própria, não pode sonhar. Tem que fazer exatamente aquilo que esperam que ela faça e não o que ela quer fazer. Mas Shirley aprende que a vida passa, e se não for para usá-la para aquilo que desejamos, então para que serve viver? Viver não é atender ao desejo do outro.

Até mesmo sua amiga Jane, quando se trata dela, tudo bem, ela vai com o namorado, mas assim que volta não aceita que Shirley também tenha arrumado alguém e que vai deixá-la por sua vez sozinha. Todos esperam que ela esteja a disposição deles. Um egoísmo tremendo. Somente seu filho a compreende. E ela pensa: quem vai sentir minha falta? Sentirão sim, na hora de fazer coisas, mas não da pessoa, do ser humano que também ama, sofre, ri, chora, e principalmente, deseja.

O que Shirley sente e se questiona é algo comum a todos nós, mas a coragem de mudar, de viver, de fazer algo é algo que poucos tem, e ela teve.

Além disto o filme vale pelas belas imagens da Grécia, o por do sol maravilho e o azul do mar, além de suas casa brancas.

Lewis Gilbert nasceu em 1920 em Londres, Inglaterra

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

FILME: A VINGANÇA DE MANON - 1986


Direção: Claude Berri - 1986
Duração: 113 min
Título Original: Manon des sources 

2ª Parte - continuação de Jean de Florette 

Baseado na obra de Marcel Pagnol 

Os anos se passaram, Ugolin (Daniel Auteuil) agora é o proprietário da fazenda que foi de Jean, pai de Manon e cuida de seus cravos. César (Yves Montand) deseja que ele se case, pois são os únicos dois que sobraram da família Soubeyran, para ter um herdeiro de tudo que acumularam.

Ugolin vê Manon (Emmanuelle Béart) que agora é uma jovem muito bonita e cuida dos cabritos no campo. Sua mãe voltou para a cidade. Ele se apaixona perdidamente por ela e irá fazer de tudo para conquistá-la, mas o que ele não sabe é que Manon quer vingança pela morte de seu pai.

As revelações finais serão surpreendentes, vale assistir aos dois filmes. Limito-me a falar sobre o filme para não tirar o prazer de assisti-lo.

Claude Berri 

FILME: JEAN DE FLORETTE - 1986



Direção: Claude Berri - 1986
Duração: 120 min

Baseado na obra de Marcel Pagnol 

1ª Parte

Meados de 1920 na região da Provence. Ugolin (Daniel Auteuil) retorna para suas terras onde vive seu padrinho César (Yves Montand) com o sonho de plantar cravos, mas há um problema, a água para regar esta plantação. Seu vizinho tem uma nascente no terreno, mas não se dá bem com os Saubeyran, mas mesmo assim eles o procuram para fazer uma oferta pelo terreno com a nascente. Brigam e o vizinho morre. 

O herdeiro é Jean de Florette (Gérard Depardieu) que é um coletor de impostos. Os Sabeyran pensam que ele vai vender, mas não, Jean resolve tomar posse da propriedade e chega ao local cheio de ideias sonhando com uma vida no campo. Ele chega com sua esposa (Elisabeth Depardieu) e sua filha pequena Manon. Sabendo disto Ugolin e Cesar resolvem bloquear a saída da fonte para forçá-lo a vender. 

Não é possível falar mais do filme sem tirar o prazer de quem quer vê-lo. É um retrato da vida rural da França na Provence em 1920 e de como são os comportamentos numa pequena vila, onde um não se envolve nos negócios do outro, mesmo diante de algo que está errado. Mas os segredos que envolvem estas famílias só virão a tona na segunda parte do filme: A vingança de Manon. 

Claude Berri nasceu em 1934 em Paris, França e faleceu em 2009 na mesma cidade. 

domingo, 3 de agosto de 2014

FILME: A FESTA DE BABETTE - 1987


Direção: Gabriel Axel - 1987
Duração: 102 min
Título Original: Babette's gaestebud 

Adaptação do conto de Isak Dinesen pseudônimo de  Karen Blixen do livro A festa de Babette e outras anedotas do destino. 

1871 - Em uma península da Dinamarca  vivem duas irmãs, Filippa (Bodil Kjer) e Martine (Birgitte Federspiel)  cujo pai falecido foi um rigoroso pastor luterano, aparece uma mulher chamada Babette (Stéphane Audran) , refugiada da França, cujo marido e filho foram assassinados durante e a Comuna de Paris, pedindo asilo e abrigo. Ela bate a porta das duas irmãs que após lerem uma carta que ela traz consigo a recebem em sua casa. Esta história começa muitos anos antes.



É uma comunidade luterana, e aqui vale lembrar como nos mostrou  Max Weber em seu brilhante "A ética protestante e o espírito do capitalismo" que se trata de uma religião que abole o intermediário com Deus, não há como se confessar a um padre que perdoa e lhe dá uma penitência, absolvendo-o dos seus pecados podendo reiniciar tudo, não, aqui Deus vê tudo e a melhor forma de garantir sua salvação é o trabalho e o ascetismo. Não há lugar para o prazer, para a vida mundana.



Os luteranos não se afastam totalmente da sexualidade, porém esta se limita ao casamento e á procriação. O pastor tem duas filhas jovens e muito bonitas, vários rapazes a desejam e frequentam os cultos somente para vê-las, mas não é desejo do pai vê-las casadas, são como ele diz: sua mão direita e esquerda. A vida de ambas é regida pela retidão do espírito por se separar do corpo. A comida é apenas uma forma de se manter vivo, não um prazer, é insípida, é por ser necessária.

Loewenhielm se apaixona por Martine, mas apesar dela sentir seu corpo reagindo ela o recusa. Ele é o mundo mundano, vaidoso e cheio de ilusões. É como uma interpenetração de dois mundos, que se tocam, mexem, mas recuam. Ele havia ido para a aldeia para pensar sobre si mesmo. Achille Papin um tenor chega a aldeia e se apaixona por Filippa e sua bela voz. Torna-se seu professor de canto, mas a música os aproxima demais, aproxima os corpos, e ela toma a decisão de não ter mais aulas. Ambas se sacrificam. Elas precisam manter a retidão e escapar ao pecado original, precisam de autocontrole, usam a negação de si mesmas e a austeridade para alcançar isto. Lembremos que não há confissão, não há penitência, então é o sacrifício, o controle que garante a salvação.

Babette virá com a carta de Papin, e assim ela ficará com as irmãs. Vive com elas por 14 anos até que ganha na loteira e recebe 10 mil francos. Na mesma ocasião as irmãs preparam-se para homenagear o pai que completaria 100 anos caso estivesse vivo. É então que Babette pela primeira vez pede algo às irmãs: prepara um jantar francês para este dia. No início elas relutam, mas acabam aceitando.

Neste ínterim percebemos que a comunidade começa a sofrer os conflitos dos humanos, a inveja, o ciúme, cobranças, passar a perna no outro, e tudo isto é pecado.

Quando as irmãs vêem os ingredientes para o jantar chegando elas se assustam e procuram seus irmãos de fé, estão apavoradas, com medo e culpa. Então eles fazem um pacto entre si, não falarão nada sobre a comida e a bebida durante o jantar. É uma recusa aos apelos sensuais, e a língua será usada para louvar, não para sentir os prazeres.

No dia do jantar os convidados chegam e entre eles está o general Loewenhielm que veio visitar sua tia. A mesa está posta com muito requinte e sofisticação. Babette está na cozinha, feliz, finalizando os pratos e instruindo um rapaz que serve à mesa. O cocheiro que levou o general e sua tia também está ali e poderá provar das delícias que ali estão. O jantar é servido, a francesa, um prato atrás do outro, uma bebida atrás da outra de acordo com o prato. Mas ninguém fala nada sobre tudo isto, se recusam a ver, com exceção do general que está encantado com tudo aquilo e reconhece cada bebida, cada prato, inclusive citando uma chef de cozinha num restaurante em Paris que tinha por especialidade codornas no sarcófago e que foi uma criação sua. É ignorado.



Mas aos poucos eles não resistem. Estão diante de uma arte, diante de uma revelação. Vamos notando olhos começando a brilhar, rostos ficando vermelhos, um leve sorriso, e aos poucos eles também começam a deixar de lado suas rusgas e conflitos. Estão se embriagando de corpo e alma. E é isto que o filme nos mostra, que temos apetite físico e espiritual que os dois não são excludentes, pelo contrário, se completam para tornar a vida melhor, sem que com isto estejamos pecando, para usar a linguagem da religião.

O jantar promove a união de todos, os desejos a tanto tempo reprimidos aparecem, eles perdem seu ar carrancudo e austero para sorrir, acolher um ao outro.

A comida é algo que representa a vida, é nascimento, afastando a morte. Levi-Strauss diria que ela é boa para pensar e é feita para ser compartilhada. A cozinha francesa neste filme permite despertar o lado bom, a inteligência, o amor, ao contrário da austera que bloqueia e reprime. Cozinhar é uma arte.





Por outro lado o filme também mostra a natureza na cozinha, quando vemos animais vivos e mortos, sangue, mas que após preparados se transforma em algo civilizado. A passagem da natureza para a civilização. O sonho das irmãs com o inferno e animais mortos e comida, a repressão do desejo que aparece ali.

Babette finalmente diz ás irmãs que ela era uma chef na França, no Café Anglais e que era uma artista.

Gabriel Axel nasceu em 1918 em Aarhus, Dinamarca e faleceu em 2014 em Bagsvaerd, Dinamarca

terça-feira, 8 de julho de 2014

FILME: A VIDA É BELA - 1997


Direção: Roberto Benigni - 1997
Duração: 116 min
Título original: La vita è bella 

Ganhou três Oscar de melhor ator, melhor filme estrangeiro e melhor trilha sonora

O Filme é dedicado à memória do pai de Roberto Benigni que foi para um campo de concentração e ao relatar sua experiência procurava amenizar as coisas para que os filhos não sentissem o que ele passou.

Anos 30/40, Guido (Roberto Benigni) é um judeu que se muda do campo para a cidade. Apaixona-se por Dora (Nicoletta Braschi)  e se casam tendo um filho chamado Josué Guido. Esta primeira parte do filme é leve, gostosa, cômica. Guido é alegre e brincalhão e diverte a todos. Porém a segunda guerra começa.

Guido e seu filho são capturados e levados para um campo de concentração, a mãe decide ir junto, mas será separada deles. Guido então decide amenizar esta dura realidade para seu filho e lhe diz que é tudo um jogo e que quem fizer 1000 pontos levará para casa um tanque de guerra.

Com isto ele muda a realidade vivenciada para seu filho do horror para a fantasia, da realidade para um jogo. Mas para Guido é o confronto com o Real indizível e que ele leva para a fantasia dentro de um quadro de horror e total desamparo, para que tanto ele quanto seu filho possam ainda de alguma maneira viver, o que ele conseguirá para seu filho.

Fico pensando no que ocorre a um sujeito em uma situação extrema como um campo de concentração, onde tudo que ele tinha antes, onde se sentia seguro, onde havia o familiar, desaparece. Ele não tem mais nenhum poder sobre si mesmo, está totalmente à merce do outro e de sua vontade. A realidade que se transforma num real terrível. Ele perde toda a ilusão que possuía e que dá colorido à vida e se vê diante do total desamparo. Como proteger seu psiquismo disto? a si mesmo e aos que ama?

E Josué? que viveu uma fantasia, onde ao final do filme ele se ilude achando que o tanque dos aliados que libertam o campo é seu prêmio? Mas por outro lado, qual seria o efeito devastador da crueza e o real do campo para uma criança? e quantas passaram por isto.

A questão é que Josué ao crescer irá se defrontar com a história e os relatos dos campos e irá perceber que viveu uma fantasia e pensará em seu pai. Há como escapar apesar de tudo a esta herança psíquica? principalmente quando se viveu ali? Mas ele poderá transformar esta fantasia em uma maneira de dar sentido ao que não tem sentido, ou seja, a vida. Quando se escolhe viver é preciso construir esta vida, é o desejo, e não o por que?.

Podemos tirar uma lição importante do filme, de como tentar sempre construir algo simbólico em torno do real, por pior que seja.

A atriz Marisa Paredes faz o papel de mãe da Dora.

Roberto Benigni nasceu em 1952 em Castiglion, Fiorentino, Itália. 


Trilha sonora de Nicola Piovani 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

FILME: QUANDO FALA O CORAÇÃO - 1945


Direção: Alfred Hitchcock - 1945
Duração: 118 min
Título original: Spellbound 

Filme Preto e branco 

Constance (Ingrid Bergman) é uma psicanalista em uma clínica. Sua vida é toda voltada ao trabalho e aos estudos até que chega o Dr. Edwardes (Gregory Peck) que vem substituir o atual diretor Dr. Alexander Brulov (Michael Chekhov) que sofreu um colapso e apesar de estar bem novamente terá que deixar o cargo.

Todos estranham o fato de Dr. Edwardes ser bem jovem, uma vez que já publicou um livro e é reconhecido com um grande profissional, mas não será apenas isto o estranho, ele tem algo com listras em tecidos brancos e também com tudo que é branco.

Constance se apaixona por ele, mas logo notará que há algo que não vai bem e então larga tudo para se ocupar apenas dele, e tentar curá-lo.

O filme irá tratar da psicanálise pela primeira vez com destaque uma vez que será ela quem possibilitará esclarecer o mistério no filme. E esta também é uma diferença nos filmes de Hitchcock onde sempre se trata de suspense e não de um mistério, e não há fatos ou dados para desvendar o crime, é preciso que o Dr. Edwardes, ou melhor John Ballentyne, se lembre do que ele se recusa a lembrar e bloqueia em seu inconsciente. Não há como descobrir nada antes que ele fale, e isto é a psicanálise. É um quebra-cabeça não de fatos ou pistas variadas encontradas ou observadas durante o filme, e sim das palavras, lembranças, sonhos de Ballentyne.

Há uma frase do analista de Constance que diz: as mulheres são as melhores analistas, até que se apaixonem e então se tornam as melhores pacientes. No livro As mulheres de Freud a autora complementa a frase dizendo que as melhores pacientes é que são as melhores analistas.

E o sonho de Ballentyne tem as imagens oníricas criadas por Salvador Dalí.


Alfred Hitchcock nasceu em 1899 em Leytonstone, Londres, Inglaterra e faleceu em 1980 em Bel Air, Los Angeles, EUA. É considerado o mestre dos filmes de suspense

Trilha sonora de Miklos Rozsa 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

FILME: O PORTEIRO DA NOITE - 1974


Direção: Liliana Cavani - 1974
Duração: 117 min
Título original: Il portieri di notte 

Um filme que pode ser polêmico uma vez que trata de um oficial nazista que se esconde em Viena trabalhando como porteiro de um hotel e uma judia que foi presa no campo de concentração e torturada por ele. Não se trata aqui do bem e do mal, em colocar o nazista como um mostro e que deve pagar pelo o que fez e a judia vítima, mas sim, justamente quando a vítima se identifica ao agressor e o introjeta mantendo com ele uma relação de gozo, mesmo que na dor, e o agressor também participa deste gozo.

Lucia Atherton (Charllote Rampling) é uma sobrevivente de um campo de concentração, casada com um maestro que vai se apresentar em Viena. É o ano de 1957, portanto doze anos após o fim da guerra, e ela o acompanha. Maximilian Theo Aldorfer (Dirk Bogarde)  é o oficial nazista que foi seu torturador e se esconde como porteiro de hotel. Os olhares se cruzam no instante em que ela o vê. Um olhar que diz muito, que marca, que revive, um traço. Aquele olhar que a viu, bem mais jovem, uma garota, nua.

Ela vai se recordando de cenas do que ocorreu no campo. Como ela poderia se negar a fazer o que ele queria? para sobreviver ela tinha que lhe obedecer, mas se a um tempo ele a torturava, a outro ele era gentil, gerando uma relação de amor-ódio. Ele um oficial, mais velho do que ela, com poder de vida e morte sobre ela.

Max também se envolveu nesta relação, ela a chama de "minha garotinha", e saiu de seu lugar de SS onde deveria torturar e matar para gozar esta relação sadomasoquista e "proteger" esta garotinha.

Além do olhar de Max ,ela está nua no campo, seu olhar a desvela, mas ele também a veste, como a uma criança, há os toques, o beijo em seu ferimento, o ato de lhe dar de comer na boca como se fosse uma criança. A vítima do abuso, do agressor sente o prazer que lhe vem dos toques originários, do olhar da mãe, e os confunde com o prazer que poderia ter numa relação normal com outro homem. Ela passa a precisar deste prazer, não de uma forma saudável, não é o desejo, é o gozo. Não se trata aqui de um prazer consentido, é algo que se rememora no corpo.

Ao se reencontrarem passam a reviver tudo isto de uma forma doentia e Lucia deixa o marido para gozar nesta dor que lhe dá prazer. Não poderia terminar bem isto. Na relação atual chega-se ao ponto de ambos serem vítimas, eles se trancam no apartamento de Max para se protegerem do grupo de nazistas que os persegue, acabam como no campo, com fome e sede. Só que bastaria ligar para a polícia, mas ninguém faz isto. Nem ele para salvá-la, nem ela para se salvar. Acabam não aguentando mais, se vestem como antes, ele com seu uniforme da SS e ela com um vestido de garota, como o que ele usou para cobri-la no campo e saem, são seguidos e mortos.

Ao olharmos o filme nos inquietamos, nos questionamos o que leva à isto? por que ela não o entrega? não o acusa? de onde esta impossibilidade? E ele? por que não faz o que o grupo ao qual pertence que elimina as testemunhas vivas costuma fazer: arquivar as testemunhas? ou seja, matá-las?

Liliana Cavani nasceu em 1993 em Carpi, Itália. Cavani realizou este filme para tentar compreender, reprojetar a relação de seus pais, sendo que o pai era facista e a mãe judia. 

sábado, 28 de junho de 2014

FILME: CLÉO DAS 5 ÀS 7 - 1962


Direção: Agnès Varda - 1962
Duração: 90 min
Preto e Branco

Cleo (Corinne Marchand) é uma cantora que está aguardando o resultado de um exame médico, e durante este tempo de espera o filme se desenrola mostrando seus pensamentos, medos, angústias enquanto anda por uma Paris dos anos 60.

O filme inicia com uma sessão de tarô em cores e depois passa para o preto e branco, fazendo uma distinção entre o que é real e imaginário, ilusório. Não apenas na consulta ao tarô, mas há outras superstições, como nunca usar nada novo numa terça-feira, um espelho que se quebra e significa morte, o número do táxi, o que aumenta sua angústia e medo dos resultados pois os sinais confirmam que será algo muito ruim e sério e mortal.

Ela anda por Paris, os cafés, cartazes nas paredes anunciam o filme Um cão Andaluz de Buñuel, vai se encontrar com uma amiga que posa para escultores e depois ao estúdio de seu namorado onde roda o curta  "Os noivos da Ponte MacDonald" com Jean-Luc Godard e Anna Karina, até que conhece Antoine (Antoine Bourseiller)  que está partindo para a Argélia como soldado.

Durante estas duas horas que ela perambula pela cidade algo se transforma nela. Cleo vivia uma vida mimada, por sua assistente, seu amante ausente, mas sempre sendo atendida em seus caprichos, mas o que fazer diante do real, da doença, contra a qual ela nada pode nem ninguém pode protegê-la? Eis sua agonia, mas que ao andar por Paris, observar, ouvir, olhar para o outro, esquecer um pouco dos espelhos e de sua imagem criada, aos poucos ela vai se transformando.

Ela inicia o processo quando deixa a casa tirando sua peruca, se vestindo de preto e indo para a rua. Ela vê a cidade como se fosse a primeira vez, as pessoas, e começa a se relacionar com elas ao invés de se manter ao abrigo, protegida. E ao final ela se sente feliz e capaz de enfrentar a doença que se confirma.

Ela se transforma através da cidade e das pessoas, que por seu lado também estão constantemente mudando no filme, são fragmentos de conversas, são vários locais, são pequenos pedaços que formam a cidade, que a constitui, como vai constituindo também Cleo.

Assista a Cleo cantando

Musicas do filme: Michel Legrand que participa do filme 



Agnès Varda nasceu em 1928 em Bruxelas, Bélgica e está radicada na França. 

MICHEL LEGRAND - MÚSICA - nasceu em 1932 em Paris é um pianista, compositor e arranjador. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

DOCUMENTÁRIO: ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO - 1989


Diretor:  Peter Cohen - 1989
Duração: 119 min 
Narração: Bruno Ganz 
Origem: Suécia 
Título original: Undergangens Arkiketur 

Este documentário é considerado um dos melhores estudos sobre o nazismo feito pelo cinema.

Hitler, um artista frustrado, ele foi recusado pela Academia de Artes de Viena quando jovem, que pintava paisagens em formato de cartão postal, admirava a ópera de Wagner tinha fixações na estética da beleza, na antiguidade, em Wagner. Ele desejava embelezar o mundo, para isto se baseando na estética do belo segundo o seu julgamento. A questão é que o belo elimina o feio segundo seus critérios.

Inicia-se o processo com as exposições de arte nazista e arte degenerada, ou seja, a dos bolchevistas, judeus e toda arte moderna. São feitas exposições paralelas com a apresentação de fotos de pessoas doentes mentais comparadas às pinturas da arte moderna para que as pessoas pudessem ver a analogia que Hitler via ali e desta forma concordar com ele. Coisas que normalmente não teriam associação acabam tendo. É o período da arianização da arte, atendendo sempre a padrões clássicos de beleza. Tinha especial apreço por paisagens de Montanhas e florestas.

Hitler sonhava com um mundo puro e belo, admirava a arte grega, o super homem, e detestava tudo que fosse diferente, novo, moderno. Ele não suportava lidar com o diferente, com as diferenças que o outro tem. E baseava-se unicamente em seus critérios pessoais que impunha a todos. Ele julgava. Tinha planos imensos, megalomaníacos para reconstruir as cidades alemãs. Faz desenhos e incumbe os arquitetos de realizarem seus desejos.

Usa a metáfora da bactéria, da doença, do piolho para apresentar sua teoria de limpeza, higiene e belo. No caso tudo que não fosse de acordo com o que ele desejava era uma bactéria que vinha infectar o mundo e destruir, enfraquecer, sujar e precisava ser eliminada, da mesma maneira que se eliminam os insetos, os ratos, os piolhos. E de fato foi o que ele fez, usando o gás para matar, baseado em como se dedetizava os locais para eliminar as pragas.

Por trás de todo horror perpetuado pelo nazismo contra o outro há toda uma racionalização, e diferente de eliminar o inimigo numa guerra, era uma eliminação do ser humano que era diferente. Era a destruição de tudo que não lhe agradava. Ele poupa Paris porque sempre desejou conhecer a cidade e o faz numa manhã bem cedo após a conquista e então diz que Berlim será muito melhor e portanto fará sombra à Paris, e por isto não é preciso destruí-la.

Também na guerra se utiliza da antiguidade. Conduz o exército alemão como se fosse as Guerras Púnicas, onde a destruição total do inimigo e das cidades diferem dos padrões de guerras modernas, onde o objetivo é vencer a guerra, e os alvos civis são evitados na medida do possível. Ele imita o Delenda Cartago. Seus modelos são Roma, Cartago e Atenas. Como os romanos queria dominar o mundo, ser o terceiro maior império, o Terceiro Reich, após os Romanos e o Império Austro-Húngaro.

A parte mais interessante do documentário é quando se analisa o judeu como sendo o principal inimigo de Hitler justamente por se tratar de um povo puro, que soube se manter unido e não se misturou, não se miscigenou, enfraquecendo seu povo. Aqui temos um ponto de vista onde o judeu é uma imensa ameaça à Hitler, pois somente eliminando o povo puro ele poderia ter os méritos e transformar o povo ariano em puro, por isto, mesmo perdendo a guerra, ele se fixa na solução final.

O judeu é o outro, o estranho familiar. Talvez por ser um povo sem território e que vive na errância isto assuste, se torna sempre estrangeiro, mas de onde?

Hitler nunca havia viajado, não conhece o diferente e é péssimo em fazer julgamentos sobre os outros e suas diferenças, ele se fixa em seus pensamentos. O judeu é o povo da lei simbólica, ou seja, é um significante, não está no imaginário do outro. A coletivização do ódio ao judeu é aceita, uma vez que inconscientemente todos odiamos o pai e queremos matá-lo, mas também o amamos. Então aqui vemos que Hitler no fundo se baseava na pureza que ele via no povo judeu e por isto mesmo tinha que eliminá-lo.

Por outro lado, todo o imaginário de Hitler e seus sonhos megalomaníacos, provenientes da infância, de suas leituras. Ele acreditava que não é necessário sair de onde se está para conhecer o outro, é possível visualizar isto e acertar.Ele fantasiava seu grandioso futuro.

Ele queria ser o grande pai, o Deus que regia a tudo e a todos e transformaria o mundo num lugar belo, limpo onde se pudesse viver bem. Para isto precisa eliminar as pragas, as bactérias que causam doenças. Ele monta toda uma coreografia para que o povo aceite isto levando-o à histeria.

O ideal de beleza como sinônimo de saúde, mas para construir o belo é necessário destruir tudo que não fosse belo segundo seus padrões e julgamentos, levando à destruição que foi.


Peter Cohen nasceu em 1946 em Lünd, Suécia. Seu pai foi um judeu perseguido pelo regime nazista que fugiu de Berlin em 1938. O documentário Arquitetura da Destruição precisou de muitos anos de pesquisa. 

terça-feira, 10 de junho de 2014

FILME: O MARIDO DA CABELEIREIRA - 1990


Direção: Patrice Leconte - 1990 
Duração: 82 min 
Título original: Le mari de la coiffeuse 


Ganhou o César de melhor filme


Qual o traço que nos marca e que iremos procurar sempre ao nos apaixonarmos?

Antoine (Jean Rochefort) quando criança viu uma cabeleireira com os seios a mostra, e isto o marcou, fazendo com que adorasse ir cortar os cabelos, ia mais até do que necessário. Já adulto se apaixona por Mathilde (Anna Galiena), também cabeleireira.

O objeto perdido e o traço do amor, que permanece e aparece em toda busca amorosa. O filme irá falar da descoberta da sexualidade, do erotismo, da velhice e da morte. O que faz uma mulher quando descobre o real, quando se dá conta que o traço que carrega e que faz com que o outro se apaixone nada tem a ver com ela em si mesma? mas que é algo que ficou marcado em algum momento da infância?

Vale a pena assistir.


Patrice Leconte nasceu em 1947 em Paris, França 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

FILME: PAIXÕES QUE ALUCINAM - 1963



Direção: Samuel Fuller - 1963
Duração: 101 min
Título original: Shock Corridor 
Filme Preto e Branco

Johnny Barrett (Peter Breck) é um jornalista que pretende ganhar um prêmio, o Pullitzer,  se conseguir descobrir quem foi o assassino de um crime que ocorreu dentro de um hospício. Para descobrir isto ele resolve se infiltrar no hospício como um doente. Se prepara, tem a ajuda de um psiquiatra.

Sua namorada Cathy (Constance Towers) é contra isto tudo, mas ele insiste e se interna. O psiquiatra que o orienta o fará se apresentar como um caso de alguém que alimenta uma paixão incestuosa por sua irmã, que no caso é Cathy quem representa este papel, indo até uma delegacia e prestando queixa contra seu "irmão". Após isto ele será internado.

No começo tudo parece dar certo, mas a convivência com outros que estão doentes e toda sua ansiedade em resolver o caso irá interferir em seu plano, e quando finalmente ele consegue saber quem foi o assassino já é tarde demais para ele, que alucina e nem consegue se lembrar do nome. Receberá tratamento de Dr. Cristo, o diretor do Hospital, inclusive eletrochoques e mergulhará na insanidade para desespero de Cathy.


Samuel Fuller nasceu em 1912 em Worcester, Massachusetts, EUA e faleceu em 1997 em Los Angeles, EUA. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

FILME: A MONTANHA MÁGICA - 1982



Direção: Hans W. Geissendörfer - 1982 
Duração: 153 min. 
Título original: Der Zauberberg 
País: Alemanha 

Baseado no romance homônimo de Thomas Mann 

Não é tarefa fácil filmar um livro tão denso e repleto de diálogos como A Montanha Mágica. Realmente, apesar do filme conseguir condensar o livro com suas principais passagens, ainda assim a riqueza dos diálogos, do amadurecimento de Hans Castorp não é captado em sua plenitude no filme, o que não faz com que o mesmo tenha menos mérito e deve ser assistido.



Hans Castorp (Christoph Eichhorn) é um jovem que acaba de se formar em engenharia e antes de assumir seu novo posto vai visitar seu primo que está internado em um sanatório em Davos. Joachim (Alexander Ziemben) tem tuberculose e está em tratamento, já em recuperação e não vê o momento de poder voltar para a Alemanha e ser um oficial no exército. Castorp vai para ficar três semanas, mas irá ficar sete anos.



No filme sentimos a falta dos diálogos entre os dois primos, que são muito enriquecedores, seus passeios pela montanha e pela vila. Castorp irá conhecer Settembrini (Flavio Bucci) um humanista e idealista que muito lhe ensinará, mas não será apenas ele, temos também Naphta (Charles Aznavour) um jesuíta revolucionário e Peperkorn (Rod Steiger).

Ele adoecerá, e conhecerá o amor, apaixonando-se por Clawdia Chauchat (Marie France Pisier), a sexualidade, verá a morte de frente, mas ao mesmo tempo ele se isola do mundo ali. Aos poucos ele formará seus próprios pontos de vista e terá uma nova percepção do tempo, de sua passagem, muito diferente do que se estivesse na cidade onde vivia. Afinal o que é o tempo lá em cima? o sentimos passar? ou não?

Os diversos personagens encarnam as várias ideologias do momento, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial e as psicologias do ser humano deste contexto. Por outro lado há um questionamento sobre o que é a doença, sobre o corpo e a somatização. De como muitas vezes desejamos esta doença, o que ela pode nos trazer que não percebemos ou não queremos admitir.

No final estoura a primeira guerra, todos devem deixar o sanatório, exceto os muito doentes.

Para quem já leu o livro é interessante ver o livro no filme, os lugares, os personagens, tudo que imaginamos e criamos na mente durante a leitura. Para quem ainda não leu o livro o melhor é lê-lo para ter acesso a todos os diálogos que são riquíssimos e que no filme seria muito longo e difícil de colocar.



Hans W. Geissendorfer  nasceu em 1941 em Augsburg, é um diretor alemão

quarta-feira, 23 de abril de 2014

FILME: A CASA DOS ESPÍRITOS - 1993



Direção: Bille August - 1993
Duração: 145 min 
Título original: The house of the spirits 
Roteiro: Bille August e Isabel Allende 
País: Estados Unidos - Dinamarca 

Baseado no livro homônimo de Isabel Allende. 

O filme nos conta a história da família Trueba no século XX no Chile. Um dos meus filmes preferidos. Esteban Trueba (Jeremy Irons) é um homem rude, que encontra um lugar onde construir sua fazenda. Em sua solidão ele acaba estuprando uma índia do local , Transito (Maria Conchita Alonso) o que lhe trará consequências no futuro. Sua irmã Férula (Glenn Close) sempre se sentiu rejeitada e ressentida por não ter podido se casar e viver sua vida, tendo que cuidar de sua mãe portadora de uma obesidade mórbida. Esteban ao notar que precisa constituir uma família fica noivo de uma linda jovem que tem uma irmã pequena Clara que sabe no momento em que vê Esteban que ele será seu marido.

Clara tem visões, ela consegue prever o futuro e prevê a morte de sua irmã o que a faz sentir-se culpada depois levando-a a fazer um pacto de silêncio e não falar mais o que deixa seus pais (Vanessa Redgrave como a mãe) e  muito preocupados. Esteban então resolve pedir a mão de Clara que já está crescida (Meryl Streep) o que ela aceita de bom grado, uma vez que já havia previsto isto, e a partir deste momento ela volta a falar. Eles terão uma filha - Blanca (Winona Ryder).

Clara simpatiza com a irmã de Esteban e quando a mães deles morre ela a leva para morar com eles o que não irá agradar a seu marido levando-o a expulsar Férula da propriedade. Clara lentamente irá se afastando do marido até morrer.

A segunda parte do filme nos traz a história do Chile e do golpe militar e as perseguições políticas. Blanca tem um namorado (Antonio Banderas) que é perseguido. Esteban apoiou os militares, mas assim que tomaram o poder ele é relegado ao ostracismo, e começa a envelhecer sozinho em sua mansão. É quando Blanca é presa pelos militares e levada à interrogatório feito pelo então filho do estupro que deseja se vingar. Neste momento seu pai terá que fazer de tudo para salvá-la dos porões da ditadura e apesar de sempre ter sido contra a amizade de infância de sua filha com o homem que hoje é seu namorado ele também o irá ajudar a escapar.

Um filme belíssimo que nos conta uma linda história de amor, mas também nos relata a história do Chile, das ditaduras da América-Latina.

Recomendo

Bille August

Trilha Sonora de Hans Zimmer


Hans Zimmer nasceu em 1957 em Frankfurt, Alemanha. É compositor.

segunda-feira, 10 de março de 2014

FILME: CONDUZINDO MISS DAISY - 1989



Direção: Bruce Beresford - 1989 
Duração: 99 min
Título original: Driving Miss Daisy 
Roteiro: Alfred Uhry
País: Estados Unidos 

Adaptação da peça teatral de Alfred Uhry

Venceu o Oscar de melhor filme, melhor atriz e melhor roteiro. 

Atlanta, 1948, Miss Daisy (Jessica Tandy)  ao tentar dar ré com seu carro, um packard novo, o joga no jardim do vizinho. Seu filho (Dan Aykroyd) exasperado tenta convencê-la que é melhor ter  um motorista, mas ela não quer. Assim mesmo seu filho insiste e contrata um afro-americano, Hoke (Morgan Freeman).



Miss Daisy inicialmente se opõe e o trata friamente, mas aos poucos seus preconceitos e barreiras sociais irão caindo e ambos se tornarão amigos, uma amizade que durará por mais de vinte anos.



Um belo filme sobre as questões raciais, mas também sobre a amizade entre duas pessoas tão diferentes, mas solitárias, que conseguem se respeitar e compreender e fazer companhia um ao outro. Vale muito o tato que Hoke tem com Miss Daisy, mas ele também não abaixará a cabeça, conquistando sua confiança.


Bruce Beresford nasceu em 1940 em Sydney, Austrália. É um diretor de cinema australiano. 

Trilha sonora de Hans Zimmer