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domingo, 16 de fevereiro de 2014

LIVRO: MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES - GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ


Márquez, Gabriel García.17ª ed. Record, 2007
Tradução: Eric Nepomuceno
127 páginas
Título original: Memoria de mis putas tristes.

Ao completar 90 anos um cronista e crítico musical decide comemorar seu aniversário ao lado de uma jovem virgem, e para isto liga para sua conhecida Rosa Cabarcas, dona de um bordel que não via há muitos anos.

Conhecido como sábio e professor, aposentado ainda escreve crônicas dominicais. Vive sozinho na casa que foi de seus pais, dorme na cama que foi de sua mãe, nunca se casou, nunca amou uma mulher, mas sempre as teve, todas sempre pagas para suas noites de amor.

Agora ele irá passar sua noite de aniversário ao lado de uma jovem virgem que ele irá chamar de Delgadina e o inesperado acontece, ele se apaixona pela primeira vez e irá cometer todas as loucuras de amor que temeu sua vida toda. Irá lhe dar presentes, entre estes uma bicicleta que ele não resistirá a experimentar andando com ela e cantando, comprará flores, irá decorar o ninho de amor para que fique mais aconchegante, irá minar sua amada, mas não irá deflorá-la. Se contentará em olhá-la, tocar seu corpo, beijar seu corpo e dormir ao seu lado indo embora sempre antes das cinco horas da manhã.

E viverá pela primeira vez tudo que o amor pode proporcionar, seu pensamento estará constantemente no ser amado, a imaginará ao seu lado, sentirá sua presença, seu cheiro, a tal ponto que teme olhar a realidade e perder a imagem que ama. Terá que se haver com o ciúme, o desespero, a ansiedade da espera, o temor de perdê-la.

Na redação irão lhe fazer uma pequena festa surpresa e ele ganhará um gato, também velho, um ser estranho para ele que sempre viveu sozinho, e tão ranzinza quanto ele, tão solitário quanto ele. Ele que pretendia se demitir continuará escrevendo suas crônicas, mas agora para surpresa de todos, serão crônicas de amor.

Um livro que nos fala de uma vida de solidão, de um homem que nunca conheceu o amor mas irá descobri-lo na velhice quando todos esperariam que isto não acontecesse mais, até mesmo ele. O milagre da vida, do amor, e do desejo de viver. Nunca é tarde para amar, e talvez amar aos 90 anos seja muito mais belo e próximo de um amor verdadeiro do que quando se é mais jovem.


Gabriel García Márquez nasceu em 1927 em Aracataca na Colômbia. Prêmio Nobel em 1982 foi o criador do realismo mágico na literatura latino-americana.
Após eu postar o livro Gabriel García Márquez faleceu em 17 de abril de 2014 na Cidade do México, México.

sábado, 25 de janeiro de 2014

LIVRO: A MÃO DO AMO - TOMÁS ELOY MARTÍNEZ


                                     


Martínez, Tomás Eloy. Companhia das Letras, 2008
Tradução: Sérgio Molina e Lucas Itarambi
160 páginas
Título original: La mano del amo

Arrepiante, a história de Carmona incomoda, tira do lugar. Uma mãe - Mãe, voraz, castradora, que devora tudo e a todos, que visa exclusivamente ao seu desejo. Sua força é tão grande que mesmo depois de morta ela é introjetada pelo filho e é vista nos gatos que deixou de herança. Ela é uma coleira no pescoço do filho.

O livro descreve como somos surrupiados da vida pela força do outro, seja pelo desejo de ser amado, seja pelo medo, seja por desejar ser como este outro. Um redemoinho que nos engole, raízes de uma planta que nos suga para o fundo presos nas suas teias. Não conseguimos romper por medo de morrer, de perder o que nunca tivemos. No fundo o que queremos é atender ao desejo deste outro, desta Mãe. Carmona queria fazê-la feliz.

A história começa com a morte de "Mãe", é assim mesmo, Carmona nunca nomeia ou a chama de a mãe, mamãe, é Mãe, Pai e gêmeas, suas irmãs. Ele inicia um mergulho em si mesmo, contando e recuperando o pouco que pode na primeira pessoa ou na terceira pessoa, como se fosse um outro que fala dentro dele, talvez aquele que ele gostaria de ter sido e não pode.

Mãe, que poderia equivaler a um ditador, e como na política e no social, são poucos os que fazem parte da resistência correndo todos os riscos que isto impõe, inclusive morrer. Outros partem para o exílio, talvez voltem, ou não. Poucos são os que se libertam de Mãe.

Mães que precisam ser derrotadas, castradas, mas raramente o são porque não permitem que quem possa fazê-lo se aproxime. Geralmente Pai é fraco e não tem coragem de enfrentá-la, assim como os filhos. A história de Carmona é a psicose, ele tem delírios, ouve vozes, conversa com os gatos como se fossem humanos e os escuta.

 Ele tem um dom excepcional, uma voz magnífica, que segundo Mãe deve à ela, que chega inclusive a querer se apoderar dela - ele poderia gravar e colocariam no nome dela como a cantora. A única tentativa de se afastar é interrompida porque Mãe apesar de dizer que ele pode fazer o que quer, sofre um ataque do coração e seu primo cancela o recital e lhe diz que tem que voltar, o que ele faz, para encontrar Mãe já recuperada.

O espaço onde se conta a história é pequeno, como é a vida de Carmona, restrita, fechada. Nem mesmo a vala que vai até o mar poderia ser usada, ela está oculta agora, não há mais trilhas que levam até lá. Uma vez no deserto ele pensa em ficar ali, mas morreria. A presença dos gatos, as alucinações, o delírio, o desejo de matá-los, ele bem que tenta, mas não consegue, não consegue matar Mãe, e se verá frente aos seus recalques, a tudo que reprimiu dentro de si. Tenta domá-los e ensaiá-los para uma apresentação, como se estivesse domando Mãe, mas também não consegue. Como poderia? como pode se afastar? ter sua própria vida de acordo com seu desejo, ele não pode desobedecer aos pais, está preso na coleira amarrado à uma árvore, e terá que lamber a mão do amo para sempre.

 Tomás Eloy Martínez nasceu em 1934 em Tucumán, Argentina e faleceu em 2010 em Buenos Aires. Formado em Literatura Espanhola e Latino-americana, foi jornalista e escritor.

sábado, 18 de janeiro de 2014

LIVRO: O CANTOR DE TANGO - TOMÁS ELOY MARTÍNEZ



Martínez, Tomás Eloy. Companhia das Letras, 2004
Tradução: Sérgio Molina
221 páginas
Título original: El cantor de tango

Irei a Buenos Aires este ano e como não conheço a cidade fui em busca de algo sobre ela. Nunca fui de ler guias de turismo, prefiro um romance, uma história que me fale do lugar e não podia ter feito melhor escolha pegando o Cantor de tango que estava na minha Biblioteca já faz um tempo aguardando para ser lido.

Foi um mergulho na Buenos Aires, nos lugares, na vida, na sua história, me senti lá, e ao terminar o livro tenho a sensação de já estar vendo a cidade, não a turística, mas o labirinto que é Buenos Aires, assim como seu povo que é este labirinto, pois " que a forma de um labirinto não está nas linhas de seu traçado e sim nos espaços entre essas linhas." E o que temos neste espaço? as pessoas e sua vida.

Bruno chega em Buenos Aires para tentar encontrar um cantor de tango que dizem ser melhor que Gardel, mas que não é conhecido no meio musical uma vez que nunca gravou nada, para completar sua tese sobre Borges e os tangos que segundo este seriam os que eram cantados antigamente nos bordéis e não os que vieram depois e provocaram o desaparecimento dos verdadeiros.

Mas esta busca não será fácil, pois Julio Martel, nome artístico de Estéfano, não é fácil de ser encontrado uma vez que não canta mais em lugares acordados, mas sim nos mais improváveis, como túneis, prédios antigos, em frente ao mercado, sem nenhum anúncio disto.

Acompanhamos Bruno nesta busca que nos leva por Buenos Aires, por seus lugares e sua história, como se estivéssemos num labirinto seja de ruas, seja de histórias que se sobrepõem. Um mapa que não é o da cidade, mas sim dos locais onde ele cantou e que poderia indicar o próximo, mas para isto é preciso saber porque ele cantou em determinado lugar.

Conheceremos então uma Buenos Aires que se assemelha ao tango, que é cantada no tango, na solidão e no amor, na tragédia, na dor, e na esperança.


 Tomás Eloy Martínez nasceu em 1934 em Tucumán, Argentina e faleceu em 2010 em Buenos Aires. Formado em Literatura Espanhola e Latino-americana, foi jornalista e escritor.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

LIVRO: DEZ MULHERES - MARCELA SERRANO



SERRANO, Marcela. Alfaguara/ Editora Objetiva - 2012
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
267 páginas
Título Original: Diez Mujeres

Primeiro livro da escritora chilena Marcela Serrano que leio, e gostei muito. Natasha, uma terapeuta reúne por um dia nove de suas pacientes para que falem, contem suas histórias. Idades diferentes, classes sociais diferentes, origens diferentes e cada uma com seu drama pessoal, mas que ao ler a sensação que temos é que poderia ser uma história só.
Vamos nos identificando com um aspecto de uma, depois de outra, e ao final não fui capaz de dizer com qual eu me identifico mais, pois em cada uma das histórias encontrei algo que se parece com a minha.
Francisca que fala de sua mãe, Mané sobre a velhice, Juana sobre a dor e o viver para o outro, Simona sobre o prazer da solitude, do viver para si, Layla sobre a violência, o estupro que sofreu e que irá afetar sua vida sem que ela se dê conta, Luisa que nos fala sobre os desaparecidos, Guadalupe nos conta o como é descobrir sua homossexualidade e enfrentar os preconceitos, Andrea que tenta se encontrar no deserto, dar um sentido a sua vida, Ana Rosa que nos fala da morte e da culpa, e do incesto e suas consequências e a história de Natascha contada por uma amiga e colaboradora. Por mais que cada uma foque em algo, na soma de sua história ela nos falou muito mais.

Fiquei imaginando a cena inicial, estas nove mulheres se olhando sem saber o que aconteceu à outra, sem saber as dores, as dificuldades, as alegrias, qual desejo tem cada uma para quando chegam ao final do dia terem descoberto que todas, inclusive aquelas que umas invejam por terem tudo e imaginam que com isto não podem se deprimir, e nem passam por dificuldades, também tem dores e sofrimentos.

Mas, Serrano consegue nos falar de tudo isto de uma forma que me lembram as histórias contadas pelos antigos para ensinar sobre a vida, os contos que ainda não haviam sofrido a manipulação para se tornarem os "felizes para sempre" que tanto nos iludem, por que a vida não é assim, ela é feita de momentos, e entre estes momentos temos o trágico, mas também temos a alegria e o prazer. A cada relato nos refletimos, pensamos, aprendemos e descobrimos que não somos a única a passar por coisas difíceis, e que cada uma tenta a seu modo viver a vida que tem com tudo que isto significa.

No final do livro temos uma frase: " É que a literatura, como a psicanálise, luta com a complexa relação entre o saber e o não saber."

Quando contamos uma história, e principalmente se é a nossa história, nos ouvimos contar, mas também somos escutados por outros, e é nesta interação que surge o que não sabemos e não falamos, mas que o outro ouviu dentro de si. Sempre haverá mais palavras a serem ditas e ouvidas.

O livro é uma colcha de retalhos, retalhos que se costuram para nos aquecer.

Marcela Serrano nasceu em Santiago, no Chile, em 1951. Após o golpe militar de 11 de Setembro de 1973 exilou-se na Itália até 1977. Formou-se em Belas Artes.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: A SOMA DOS DIAS - Memórias - ISABEL ALLENDE




Allende, Isabel. Bertrand Brasil (Grupo Record), 2008
Tradução: Ernani Ssó
378 páginas


Allende fala de sua vida neste livro, uma continuação de "Paula". Fala de suas dúvidas, tristezas, se mostra sem constrangimentos, seu lado super mãe protetora em excesso, fala com humor de suas mazelas e dificuldades, de seu amor por Willie e por toda sua tribo. Um livro gostoso de ler, que nos coloca frente a uma vida rica e generosa.


Isabel Allende nasceu em 1942 em Lima, Peru, mas logo em seguida sua família retornou ao Chile. Atualmente vive nos Estados Unidos. É sobrinha de Salvador Allende