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quarta-feira, 11 de maio de 2016

FILME: EM TRÊS ATOS - 2015



Direção: Lucia Murat - 2015
Duração: 76 min

Este filme se baseia no livro "A Velhice"  e "Uma morte muito suave" de Simone de Beauvoir. 

O filme é poético e através da dança contrapõe uma bailarina de 85 anos (Angel Vianna) e uma jovem no auge de sua carreira (Maria Alice Poppe ) tendo como pano de fundo uma intelectual de 80 anos (Nathália Timberg) que se confronta com as questões da velhice e se recorda de quando tinha 45 anos (Andréa Beltrão) e enfrentou a morte de sua mãe. Os diálogos são inspirados nos livros de Simone de Beauvoir. 

As questões levantadas é como lidar com um corpo que envelhece, que caminha para a morte. A experiência de perde alguém amado e a própria morte que se aproxima. O filme trabalha com o corpo através da dança e com a palavra através dos textos de Beuavoir. 

No livro "Uma morte muito suave" Simone fala da morte de sua mãe. No "A Velhice" é um estudo profundo sobre a situação dos velhos quando ela mesma se defrontou com a questão. 

Lucia Murat nasceu em 1949 no Rio de Janeiro. 

FILME: POESIA - 2010


Direção: Lee Chang-Do - 2010
Duração: 139 min
Título Original: Shi
País de Origem: Coréia do Sul

Um belíssimo filme sobre a velhice, solidão e de como a arte pode ajudar a viver. Mija (Yun Jeong-Hie) vive com seu neto adolescente cuja mãe está distante em outra cidade. Ela trabalha para um senhor de idade como faxineira, além de lhe dar banho uma vez que ele supostamente deve ter sofrido um AVC já que tem dificuldades em falar e se locomover. 

Ao procurar um médico devido uma dor na coluna acaba descobrindo que tem alzheimer o que ela não conta para ninguém, nem mesmo para a filha com quem diz manter contato direto e que contam tudo uma para a outra. Mija resolve aprender a fazer poesia num centro cultural. 

Ela é ativa, dinâmica, mas é notório sua solidão. Passa pelas pessoas em sua rua e tenta falar com elas e não obtém respostas, conversa com a filha de seu patrão e esta mal lhe dá atenção. O neto por sua vez não quer saber de nada, somente de computador e dos amigos, é mal educado, não ajuda em nada, por mais que Mija o chame as suas responsabilidades. O que se nota é que não há protagonismo para os velhos, não são escutados, a médica acha estranho ter que falar para ela do que tem, pergunta se ninguém veio com ela, que preferia falar com outro, como se ela fosse incapaz, quase uma criança. 

O filme começa com um rio, o Han, e um corpo de uma jovem é encontrado. Mija ao ir ao hospital para ver sobre sua dor nas costas verá o desespero da mãe quando chegam com o corpo da jovem. Mal sabe ela o quanto isto irá interferir em sua vida e de seu neto. 

Mija inicia seu curso de como fazer poesia. Ela quer compreender de onde surge a inspiração para conseguir escrever um poema. Seu primeiro momento virá após um encontro com os pais dos meninos envolvidos no estupro de uma jovem na escola que se suicidou no qual seu neto está envolvido. Estes pais querem pagar à mãe da menina que é uma pobre camponesa para que não denuncie os garotos, ato com o qual a escola também é conivente. Mija ouve tudo aquilo com angústia, e sai do local, do lado de fora há uma flor vermelha, uma flor vermelha como sangue, algo sangra nela, é uma metáfora. 

Mija não parece concordar com o que os pais e a escola desejam. Ela está angustiada, ela recorda a mãe da menina, consegue se colocar no lugar dela. O Alzheimer progride lentamente, ela esquece nomes de coisas simples. Mas ela não desiste, e será a poesia seu veículo para falar, dizer o que sente, o ato poético é uma nomeação à algo interno, produzindo diferenças. O suicídio é a falta de palavras, vem dizer algo que não se pode falar. 

A doença não é igual à velhice, e Mija é uma protagonista de sua vida através da poesia. Ela irá tomar duas decisões fortes ao final do filme, e as expressará através de uma poesia, a canção de Agnes, nome da menina que se matou, dando voz a ela e fundindo sua trajetória com a dela. 

O filme é longo e denso, extremamente rico, há muito neste filme para ser dito, mas deixo a cada um que o assista suas possibilidades de interpretação e compreensão. 

Lee Chang-Do nasceu em 1954 em Daegu, Coreia do Sul 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

FILME: STARTING OUT IN THE EVENING - 2007


Direção: Andrew Wagner - 2007
Duração: 111 min
País: Estados Unidos

Adaptação do livro homônimo de Brian Morton

Leonard Schiller (Frank Langella) é um velho escritor que tenta escrever um último romance. Ele já fez muito sucesso, mas foi esquecido. Uma jovem acadêmica, Heather (Lauren Ambrose), deseja escrever uma tese sobre ele e o procura. Inicialmente ele resiste pois não tem muito tempo e quer continuar escrevendo, mas ela é insistente e ele acaba aceitando responder suas perguntas. 



Heather lhe diz que deseja reintroduzi-lo no mundo literário e para isto sua tese é importante, mas precisa poder adentrar em seus pensamentos e na maneira como ele escreve seus romances o que leva Leonard a recordar seu passado, mas há coisas que ele prefere não falar e a implacável jovem não se intimida, seu único objetivo é sua tese e para isto usa de formas abusadas, chegando mesmo a tentar seduzi-lo, o que obviamente mexe com este homem, que apesar de idoso, está vivo. Ela irá descobrir coisas de sua vida e lhe dirá cruamente. Ela leva em conta apenas seus primeiros romances que a agradaram porque a ajudaram em um momento de sua vida, e quer compreender porque ele mudou seu estilo, o que ela não aceita, e em sua soberba juvenil não percebe que as coisas mudam e que estes outros romances podem agradar a outras pessoas, como de fato agradam. 

Ariel (Lili Taylor) é a filha de Leonard que mora sozinha e que ligeiramente desconfia desta jovem impetuosa, mas ela está envolvida também em suas questões amorosas e no desejo de ser mãe e ter uma família. Ela termina seu romance com Vitor quando ele decide pedi-la em casamento, pois o que deseja é ter um filho sozinha e não se casar com ele, mas é justamente neste momento que retorna a cidade após 05 anos seu antigo namorado Casey Davis (Adrian Lester) por quem ela ainda é apaixonada. 

Aos poucos todos eles irão se confrontar com suas questões e ter que tomar decisões sobre ceder ou não às demandas do outro, ao desejo do outro ao invés de ao seu próprio. 

Será após sofrer um AVC que Leonard irá repensar sua vida e ter uma atitude para com Heather que aplaudi. 

O filme faz um retrato também do que é ser um escritor independente, que não se dobra à mídia ou ao que as editoras compram, como vemos num momento do filme em que um amigo de Leonard lhe diz que o respeita muito para enganá-lo, que sua editora só se interessa por livros de auto-ajuda e outros assim. Infelizmente percebemos no mundo atual o desaparecimento de grandes escritores que não são mais editados, que encontramos apenas nos sebos, mas alguns novos ainda conseguem se manter sem cair neste mercado de consumo. 

Heather no fundo não está interessada no sucesso de Leonard, ela quer se projetar como crítica, mas sem levar nada em consideração, nem o ser humano que está diante dela, e nem mesmo o gosto dos outros, pois quer moldar a escrita dele de acordo com o que ela deseja ler e lhe agrada, e no fundo me pergunto se muitos críticos não fazem isto, desapreciando excelentes livros porque não lhes interessam. A questão é que cada leitor tem um mundo próprio e costuma se projetar no livro. Independente das normas técnicas, para mim a grande literatura é aquele que consegue ser um espelho do mundo, refletir o que se passa na alma do ser humano, e não posso desconsiderar neste caso livros que refletem vidas que eu não gostaria de ter ou não conheço. 

Heather quer saborear o sucesso de relançar um escritor de acordo com o que ela acha que ele deve escrever, e para isto não se abstém de feri-lo, magoá-lo, cutucá-lo, acreditando que com isto ele voltaria a ser o escritor que foi quando jovem, aquele que ela quer. 


Andrew Wagner é um diretor de cinema americano

segunda-feira, 29 de junho de 2015

FILME: OS GATOS NÃO TÊM VERTIGENS - 2014


Direção: António-Pedro Vasconcelos - 2014
Duração: 118 min
País: Portugal

Vencedor de nove categorias do Prêmio Sophia 2015

Rosa (Maria do Céu Guerra) é uma senhora de 73 anos que acaba de ficar viúva, mas ela tem imensa dificuldade em aceitar a morte de seu marido Joaquim (Nicolau Breyner). Ela mantém a urna com suas cinzas em casa e guarda seus objetos com muito cuidado. Ela continua a vê-lo e conversa com ele. Rosa mora na Lisboa antiga, e seu genro está de olho em seu apartamento para vendê-lo. 

Paralelamente vamos conhecendo Jó (João Jesus)  um jovem  desencantado com a vida, seus amigos fazem pequenos furtos, sua mãe abandonou a ele a seu pai que é um alcoólatra e violento. Ele está completando 18 anos e justo neste dia seu pai o expulsa de casa, sem encontrar onde se refugiar ele acaba no terraço de Rosa. 

No dia seguinte Rosa descobre seu "hóspede" e o acolhe. Começa uma relação de companheirismo e compreensão que ninguém é capaz de compreender, principalmente a filha de Rosa e o genro, que insistem em que ela vá para uma casa de repouso. 

Um filme sobre a velhice, de como os idosos são tratados, considerados incapazes de decisões, escolhas, de ter sua vida privada como sempre tiveram antes. A história de Rosa e Joaquim é riquíssima, e tudo isto se perde diante da velhice onde ela passa a ser uma pessoa que causa preocupação à filha que não consegue deixá-la viver sua vida adulta e madura. Por outro lado vemos a situação de um jovem que nunca foi amado, que ninguém se interessa por ele, mas que tem um imenso potencial criativo e se não fosse este encontro com Rosa teria sua vida destruída. 

Claro, podemos alegar que é muito difícil estes encontros, mas o que me fica principalmente é acreditar que as pessoas podem mudar, que o que elas trazem em si mesmas, independente do que a vida lhes faz,ainda podem se recuperar e ter outras escolhas. E no mundo atual estamos precisando de filmes assim. 

António-Pedro Vasconcelos nasceu em 1939 em Leiria, Portugal
Música do filme:

Ana Moura - Clandestinos no Amor 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

FILME: LE PROMENEUR D'OISEAUX - 2014


Direção: Philippe Muyl - 2014
Duração: 96 min
Título Original: Ye Ying, le promeneur d'oiseau
País de origem: China 


Outro belo filme que encanta. Este especialmente é recomendado para pais que tenham filhos que são super ligados na tecnologia e são solitários. 

Zhigen é um homem idoso que vive sozinho com seu passarinho. Na casa ele fica solto, mas ele o leva passear também, no parque, onde pendura a gaiola. Percebe-se que trata-se de um costume, pois há outros no local com seus passarinhos. Ele ganhou este pássaro de sua esposa quando teve que partir para Pequim à trabalho. Ela morreu enquanto ele estava lá, mas ele fez uma promessa quando o ganhou, de voltar a sua vila e levar o passarinho de volta para cantar e soltá-lo. 

O filho de Zhigen é um famoso arquiteto que vive em Pequim com sua esposa e filha Renxing. A menina é mimada, e no começo do filme ela chega a ser insuportável, mas seu avô é uma paciência infinita. Na verdade é a reação típica da criança solitária que deseja chamar a atenção e ser amada. No passado Zhigen perdeu de vista a menina no mercado de pássaros e isto causou uma ruptura de relações com seu filho. Mas agora ele vai viajar e sua esposa também, e tinham esquecido que a babá também. Então a saída é deixar Zhigen levar a neta junto em sua viagem de retorno a sua vila, Yangshuo no Guangxi, sul da china. 

Ela não gosta muito no começo, mas depois aos poucos ela vai se divertindo, vendo coisas que nunca viu, ouvindo histórias. Seu avô é dedicado à ela, e isto faz uma diferença enorme pois seus pais estão sempre ocupados com seus trabalhos e não tem tempo para nada. Ela vivia no computador. 

Os imprevistos surgem no caminho, pegam o ônibus errado que depois quebra na estrada, passam uma noite numa fazenda, depois se aventuram por uma floresta e acabam dormindo numa gruta. Um pescador os resgata a beira do rio e os leva para uma cidade. Aos poucos Renxing se aproxima do avô, da vida simples. Ela faz amigas, aprende a brincar na natureza, subir em árvores, nadar na cachoeira. E com isto vai aprender que há outras coisas boas na vida além de uma bela casa e uma conta bancária excelente. 

As paisagens são belíssimas. O filme foi rodado na província de Guangxi, em Yangshuo, Guilin, nas aldeias dos Dong. 






Philippe Muyl nasceu em 1953 em Lille, França

domingo, 31 de maio de 2015

FILME: A ÚLTIMA RONDA DE WALLER - 1989


Direção: Christian Wagner - 1989
Duração: 95 min
Título Original: Wallers Letzter  gang
País de origem: Alemanha 

Waller (Rolf Illig)  passou sua vida trabalhando para a Estrada de ferro fazendo a ronda nos trilhos, e mesmo estando desativada ele continua diariamente percorrendo os trilhos, mas agora ele terá que deixar de fazer isto pois a Ferrovia não quer mais que ele continue. 

Ele parte para sua última ronda e a medida que avança vai se lembrando de sua vida, a cada estação, em certos locais, uma vez que aqueles trilhos são como os trilhos de sua vida, o passado e o presente, sempre os trilhos, mas como ele, a estrada de ferro também foi envelhecendo, sem uso, se no começo ainda está preservada depois ela se enche de capim, pontes estão caídas, até que se chega a um ponto onde não há mais nem os trilhos. 

Suas lembranças aparecem em preto e branco, desde sua infância, quando começou a trabalhar na ferrovia (Herbert Knaup) a morte de seu amigo na guerra, seu amor por Angelika (Crescentia Dünber) com quem teve uma filha, Rosina (Sibylle Canonica), a morte de Angelika no parto, e a dor que ele carregou por toda sua vida por isto. Sua luta para ficar com a filha e criá-la. A medida que caminha as lembranças lhe vem até que chega ao fim dos trilhos. 

Como a vida as coisas também mudam, e se por um lado pode-se se falar em progresso, de outro é a velhice que surge e deixa atrás de si os trilhos percorridos na vida. 

Um filme contemplativo, melancólico, mas que ao mesmo tempo demonstra a riqueza da vida. 




Christian Wagner nasceu em 1959 na Alemanha

sábado, 30 de maio de 2015

FILME: CARTEIROS NAS MONTANHAS - 1999


Direção: Jianqi Huo - 1999
Duração: 88 min 
Título Original: Nashan naren nagou 
País de origem: China 

Baseado no conto homônimo de Peng Jianming. 

Filme belíssimo.

Um homem (Ten Rujun) foi carteiro durante anos nas comunidades rurais nas montanhas da China e chegou o momento de se aposentar. Ele então entrega seu trabalho para o filho (Ye Liu), mas acaba acompanhando-o em sua primeira viagem que seria a última do pai. 

Durante a caminhada ambos vão pensando, o filho no que ele sentia quando criança e seu pai estava sempre ausente, o  pai sobre a saudade que ele sentia. A mais bela cena que toca a alma é quando o filho carrega o pai nas costas para atravessar um rio. É o momento da inversão, onde o filho passa a carregar o pai e se torna homem, enquanto o pai percebe isto e ao mesmo tempo sua velhice. 

As paisagens são lindas. Filmado em Suining County e Dao County, no sudoeste e sul do Hunan e uma parte do filme se passa em uma aldeia do povo Dong, incluindo um festival à noite com uma dança lusheng. 

Além do pai e do filho segue junto o cão fiel da família, um pastor que conhece o caminho e participa da entrega avisando com seus latidos que o correio chegou, pegando no ar uma carta que voou com o vento, chamando com os latidos o rapaz que joga uma corda. 

Aos poucos o filho descobre que o trabalho não se limita a entregar cartas, mas há toda uma relação de afetos entre os aldeões e o carteiro. Ele questiona algumas coisas que o pai mantém e são tradicionais, como por exemplo, porque não pegar o ônibus nos trechos que não tem ninguém, por outro lado o pai também aprende com seu filho. 

Vale a pena assistir.





Jianqi Hou nasceu em 1958 em Pequi, República Popular da China 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FILME: LES PETITS RUISSEAUX - 2010



Direção: Pascal Rabaté - 2010
Duração: 91 min
Título em português: Os pequenos riachos (tradução minha) 
País: França 

Baseado na história em quadrinhos do próprio diretor. 

Émile (Daniel Prévost) vive sozinho e leva uma vida tranquila. Vai pescar com seu amigo Edmond (Philippe Nahon), encontra seus amigos num bar onde cada um conta suas histórias, e cuida de suas plantas. Tudo segue tranquilo, e ele continua cultuando sua esposa morta, vivendo de lembranças. Até o dia em que descobre que seu amigo Edmond ao contrário dele tem encontros com mulheres, e mais ele se dedica à pintura de mulheres nuas, dança, ri, leva a vida de uma forma bem mais animada.


Alguns dias depois ele é surpreendido com a morte de Edmond, e no enterro ele encontra Lucie (Bulle Ogier), a última namorada do amigo morto. A partir daí Émile começa a rever sua vida, seu desejo reacende, e ela começa a ver todas as mulheres nuas, na rua, no mercado, onde ele esteja. Tem alguns encontros com Lucie, mas não consegue ir adiante devido a lembrança de seu amigo. Então ele se decide a recuperar um pouco da vida e parte em seu mini caro - Mini Comtesse - primeiramente ele volta a casa de sua infância para encontrar ali um grupo de jovens adeptos de uma vida simples que estão morando na casa. Fica com eles dois dias, e acaba tendo um encontro amoroso com uma das jovens. Ao voltar para casa, um desses "acasos" da vida, ele sofre um acidente e conhece então Lyse (Hélène Vincent) que foi a causadora do acidente e o visita no hospital. 

A partir deste momento sua vida é retomada.


O filme retrata a vida na velhice onde já não pensa que algo pode acontecer e se acaba levando a vida com conformismo, saudosismo e metodicamente, até que algo venha mudar isto e mostre que mesmo com setenta anos é possível viver, encontrar pessoas, amar, desejar, rir, viajar, dançar entre outras coisas. O filho de Edmond achava seu pai um devasso, queima suas pinturas e Émile consegue salvar dois quadros que ele fazia reproduzindo mulheres da Playboy e usando além da tinta lã, fios para imitar os pelos púbicos. Já o filho de Émile fica muito contente com o fato do pai ter encontrado alguém e ao ver os quadros se diverte. O filme também serve de alerta na forma como os mais jovens enxergar e julgam a velhice, o que acaba levando muitos a seguir estas ditas normas sociais onde o velho tem que ser velho em tudo, e não apenas no corpo que envelhece. 

Pascal Rabaté nasceu em 1961 na França


A mini-comtesse. 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

FILME: TEMPESTADE NA ESTRADA - 2011


Direção: Thom Fitzgerald - 2011
Duração: 93 Min
Titulo Original: Cloudburst

Stella (Olympia Dukakis) e Dot (Brenda Fricker) vivem juntas há 31 anos, na costa do Maine nos Estados Unidos. Dot é doce e serena enquanto que Stella é determinada e fala muitos palavrões, ocupando nesta relação o lugar masculino. Elas vivem bem até o dia em que Dot sofre um acidente doméstico e é internada, já cega, sua neta resolve interná-la num asilo e para isto a ludibria fazendo-a assinar uma procuração dizendo que se trata de uma declaração isentando Stella pelo acidente. Dot ingênua e confiante assina. 

Porém Stella não vai aceitar isto pacificamente e resolve sequestrá-la da casa de repouso e ir para o Canadá onde podem finalmente se casar e com isto tirar da neta a possibilidade de gerenciar a vida da avó. No caminho elas dão carona para um jovem bailarino, Prentice (Ryan Doucette), que está indo visitar a mãe doente. 

Os temas centrais do filme são a velhice e a união homossexual. Como sempre vemos uma pessoa mais jovem que quer determinar a vida de um idoso pensando que ele é incapaz de decidir por si mesmo,chegando ao ridículo no filme de não enxergar a relação de amor de Stella e Dot, chamando a primeira de amiga e avisando-a que tem alguns dias para cair fora da casa da avó que agora é dela. O preconceito e os dilemas de idosos como o de Stella que após Dot quase morrer afogada, não fosse a presença de Prentice para ajudar, que se conscientiza que já não consegue cuidar de Dot sozinha. 

Ao final veremos a neta se redimir apesar de todos seus preconceitos.

Thom Fitzgerald nasceu em 1968 em New Rochelle, Nova Iorque, EUA

sábado, 16 de agosto de 2014

FILME: QUARTETO - 2012


Direção: Dustin Hoffman - 2012 
Duração: 98 min 
Título Original: Quartet 

Em uma grande casa no meio de um parque belíssimo vivem vários idosos que são músicos e cantores aposentados. Eles passam o tempo lembrando os bons tempos, mas também continuam tocando e cantando. Todos os anos eles realizam uma festa com apresentações para arrecadar fundos para manter a casa. Cissy (Pauline Collins), Reggie (Tom Courtenay) e Wilfred (Billy Connolly) vivem lá e estão ensaiando para a apresentação. 

É quando chega uma nova moradora que ninguém sabe quem é. Trata-se de Jean (Maggie Smith), ex-esposa de Reggie que de início não fica nada satisfeito em vê-la ali. Mas logo os três pensam em reviver o quarteto que interpretou Rigoletto, porém Jean se recusa. 

O filme toca em temas da velhice, a perda da memória, as doenças, o corpo que já não é o mesmo. Novamente vemos pessoas mais jovens tratando idosos como se fossem débeis, o que não são, mas ali, os moradores tem respostas na ponta da língua. Chega a ser deprimente ver Wil ter que pedir a médica que cuida do local para poder ir jantar fora com os outros três afim de convencer Jean a cantar, ela impõe até horário que só é estendido após uma pequena chantagem feita por Wil. Este tipo de comportamento tão comum em nossa sociedade é algo que precisa mudar, idosos não são dementes, eles tem limitações naturais de sua idade, mas muitos ali são lúcidos e portanto capazes de escolhas. 

O encontro de Reggie e Jean trará a tona também velhas mágoas e será uma oportunidade de mudar isto. No fim ela aceita cantar, principalmente quando vê que sua concorrente na ópera irá cantar, como bom ser humano e como uma prima-dona, ela não irá permitir que ela brilhe mais do que ela. 

Um filme bonito, uma comédia dramática. 

Dustin Hoffman nasceu em 1937 em Los Angeles, Califórnia, EUA. 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

FILME: FILHOS DA NATUREZA - 1991


Direção: Friörik Pór Friöriksson - 1991
Duração: 82 min
Título original: Börn Náttúrunnar

País: Islândia 


Um filme para refletir sobre a velhice, a solidão e a morte.

Thorgeir (Gísli Alldórsson) é um homem idoso, vive sozinho num local isolado da Islândia e logo no início sentimos sua solidão por seus atos. Ele então decide partir e vai ao encontro de sua filha que vive na capital em Reijavic, porém a recepção não é o que podemos chamar de agradável. O marido apesar de o receber bem no primeiro dia depois mal fala com ele, mas o pior é a neta que grita com ele e o despreza.Ele está tão só ali como estava em sua casa.  Sua filha sugere então que ele vá viver em uma casa de idosos.



Lá ele encontra Stella (Sigridur Hagalín), uma velha conhecida da infância que ele vê assim que chega sendo arrastada pelas enfermeiras pois havia tentado fugir. Stella quer voltar ao local da infância e deseja ser enterrada lá.

A vida na casa de idosos não é ruim, mas o que sempre me chama a atenção é como tratam os idosos, como se eles não pudessem mais fazer escolhas, tomar decisões, vivem como se fossem loucos ou doentes, sem liberdade. A velhice não é sinal de demência, então porque não podem sair? ir a um cinema? fazer compras, visitar pessoas? fazer escolhas? São tratados como crianças ou até pior que isto, uma vez que a criança tem o futuro a sua frente, mas o idoso vive seus últimos momentos de uma vida onde ele já teve escolha e cuidou daqueles que hoje são adultos e os tratam assim. Há uma cena onde servem chá e a moça pergunta à filha se era leite ou açúcar para ele, como se ele fosse incapaz de escolher e ter gostos e desejos, incapaz de falar e responder.

Thorgeir percebe que no cemitério tem um portão aberto e vê um carro parado na rua. Resolve então fugir com Stella e voltar ao local da infância.







O filme tem um lado que poderia ser chamado de fantástico, mas estamos na Islândia, a terra dos Elfos. O carro quando é perseguido pela polícia desaparece na neblina, é visto em vários locais do país e reaparece sozinho no mesmo local de onde foi levado. A magia que acompanha a vida daqueles que acreditam que ela pode ser muito mais do que o materialismo e a objetividade que se impõem os adultos.

Bruno Ganz faz uma aparição no filme como um anjo.

Friörik Pór Friöriksson nasceu em 1953 em  Reykjavík, Islândia. 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

FILME: E SE VIVÊSSEMOS TODOS JUNTOS? - 2011


Direção: Stéphane Robelin - 2011
Duração: 96 min
Título original: Et si ont vivait tous ensemble?

Dois casais e um solteiro, todos já entrando na velhice e amigos há mais de 40 anos. Annie (Geraldine Chaplin) é casada com Jean (Guy Bedos), Jeanne (Jane Fonda) com Albert (Pierre Richard) e ambas as mulheres tiveram um caso amoroso com Claude (Claude Rich).

Cada um deles enfrenta questões com a saúde, a sexualidade, a questão de morar sozinho. Jean é quem tem a ideia de todos morarem juntos em sua casa que é grande. Inicialmente os outros são contra, querem preservar sua privacidade e individualidade, mas a medida que cada um deles enfrenta um problema de saúde isto vai mudar. Albert tem um cachorro, Oscar, só que ele é bem grande, e um dia ao levá-lo passear o cachorro que é mais forte que ele o derruba. Sua filha quer se desfazer do cachorro. Claude sofre um problema no coração, e seu filho quer vender seu apartamento e colocá-lo em uma casa de idosos. Jeanne sofre de uma doença incurável, e sabe que Albert que já começa a perder a memória não poderá ficar sozinho. Então entre uma casa de repouso e morarem juntos obviamente optaram pela segunda opção.

Mas estes cinco são unidos, e é Jean e Claude que vão buscar o cachorro de Albert no canil onde sua filha o levou. Todos eles sequestram Claude do hospital e o levam para a casa de Jean e Annie, impedindo seu filho de entrar.

Albert irá contratar um jovem, Dirk, que estuda etnologia, para levar seu cachorro passear. Jeanne o acompanha em seus passeios e ao final, quando Dirk se vê encurralado pela namorada para ir fazer seu trabalho de campo é Jeanne que propôe que ele estude a velhice na Europa e não na Austrália como ele pretendia. Ele então vai viver com os cinco.

Um retrato bem humorado da velhice com todas suas questões que nem sempre são alegres mas que fazem parte da vida. Os filhos que sempre procuram resolver o problema de uma forma que eles se sintam menos culpados e ao mesmo tempo que não lhes tire seu tempo para cuidar de alguém. É interessante como há uma visão errônea que parece acreditar que um velho não pode mais tomar suas próprias decisões, precisa ser cuidado como um bebê. Como diz Claude, eu prefiro apodrecer em meu apto. do que numa casa de idosos. É um direito dele.

Mas por outro lado o filme trata a velhice de uma forma madura, onde cada um deles não se deixa levar pela idade e suas limitações, e mais do que isto, a amizade entre eles é tocante, eles se compreendem e se apoiam mutuamente.

Stéphane Robelin 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

FILME: A GRANDE BELEZA - 2013


Direção: Paolo Sorrentino - 2013
Duração: 142 min
Título Original: La grande bellezza
País: Itália

Indicado no Festival de Cannes 2013 como longa-metragem. Venceu o Globo de Ouro. 

Roma. Jep Gambardella (Toni Servillo) escreveu um único livro "O aparelho humano" e leva uma vida de luxo, em festas, indo sempre dormir quando os outros acordam, mas pouco a pouco ele começa a refletir sobre tudo isto.

Ele está com 65 anos e nunca mais conseguiu escrever outro livro, diz que procurava a grande beleza, mas não a encontrou. Começa a perceber a inutilidade de sua vida, e de todos que estão ao seu redor, pessoas que não fazem nada a não ser se divertir e falar dos outros.



Jep mora em belíssimo apartamento de frente para o Coliseu e passeia pelos locais de Roma e sua arquitetura belíssima, a arte, a música, mas nada disto lhe diz algo que o leve a escrever novamente. Até o dia que ele se recorda de seu primeiro amor.

O filme foca o confronto com a velhice, quando os amigos começam a morrer, a ir embora, e Jep percebe que não tem ninguém, que todos aqueles que o adulam nas festas não são seus amigos.

Quando ele conhece uma irmã com 104 anos que só come raízes, e que com sua presença calma deixa que vários pássaros que estão indo para o oeste permaneçam por um momento de descanso na varanda de Jep, ele começa a ter uma nova percepção do que é belo. A freira lhe diz que só come raízes porque as raízes são o que há de mais importante.



Um retrato trágico da sociedade de Roma com todas suas futilidades e fugas, e como dirá Jep, por baixo deste blá blá blá todo não há nada, está tudo desestruturado. Jep terá que abrir mão de todo este glamour e fama que ilusoriamente lhe pareceu preencher a vida e dar um sentido. Tudo ia bem quando era jovem, mas e agora? A vida ainda não acabou, mas o que fazer dela?



Ele terá então que compreender a nostalgia que sente ele não teve, Elisa não se casou com ele e agora está morta, mas mesmo assim, é na busca destas raízes que ele poderá recomeçar, poderá subir os degraus de uma vida até chegar a morte, como a irmã, mas dando um sentido, construindo um sentido para cada degrau, e eles não são fáceis de subir, é preciso esforço, é preciso desistir da ilusão da grande beleza, da perfeição,  para encontrar a beleza das pequenas coisas do dia a dia.


Paolo Sorrentino nasceu em 1970 em Nápoles, Itália. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

FILME: OS BELOS DIAS - 2013


Direção: Marion Vernoux 
Duração: 94 min 
Título original: Les beaux jours 

Baseado no livro Une jeune fille aux cheveux blancs (Uma jovem mulher de cabelos brancos) de Fanny Chesnel

Dunquerque - França. Caroline (Fanny Ardant) se aposenta aos 60 anos logo após perder uma de suas melhores amigas. Fica meio perdida, não sabe o que fazer de seu tempo. Pensa em várias coisas que desejaria fazer, mas não o faz. Então suas filhas lhe oferecem de presente para participar de um clube - Les Beaux Jours, que se ocupa de pessoas de meia idade com cursos, aulas, palestras, teatro. É lá que ela conhecerá Julien (Laurent Laffite) que é um professor de informática e acabará tendo um caso com ele o que renovará sua vida, dando mais prazer ao seu cotidiano.

Caroline é casada com Philippe (Patrick Chesnais) e apesar de se darem muito bem é um casamento que já enfrenta os anos de convivência. Suas filhas se preocupam com a mãe lhe impondo coisas para fazer através de sugestões e o clube. Porém Julien que tem a idade de suas filhas lhe oferece muito mais neste momento de sua vida.

Não há julgamentos morais, Julien quer uma aventura, Caroline precisa de algo que mude sua vida, e Philippe terá que rever também sua vida e seu relacionamento com a mulher. O filme retrata o desgaste da relação conjugal, a busca de algo novo quando já se passou para uma idade onde muitos desistem e não acreditam mais ser possível uma paixão, uma aventura, fazer coisas novas e diferentes.

É notório a forma como os professores e instrutores do clube, todos jovens, tratam aos que são mais velhos como eles como se falassem com crianças ao invés de se dirigir a um adulto que já viveu muito mais do que eles. Há uma visão da cultura sobre a velhice que precisa ser contestada. Os participantes do clube, homens e mulheres querem encontrar formas de combater a solidão e o tédio, não precisam ser ensinados como se fossem crianças. Caroline o percebe e o diz, mas continua indo lá por causa de Julien, mas não se deixa levar por esta forma de ver o mundo.

Caroline irá demonstrar em seu corpo, no sorriso, sua alegria e felicidade após conhecer Julien. Ela terá outro olhar, outra maneira de olhar o mundo e o que tem pela frente ainda. A vida não se encerra na aposentadoria, e o exemplo vivo disto é quando encontra uma mulher no aeroporto que diz que ela é jovem, e ela retruca dizendo que tem 60 anos, e a outra responde que tem 84 anos, e ainda quer ir para a Islândia.

Pessoalmente me emocionei com a cena onde Caroline está sentada num banco tendo uma filha de cada lado, e ela se destaca ali, é uma bela mulher, cheia de vida, tem muito mais força e presença do que as filhas, que são jovens e sendo que uma delas não aceita muito bem esta mãe sexuada e que buscar algo novo para si.

Vale a pena assistir, um belo filme que nos mostra que a vida sempre tem algo a nos oferecer se estivermos dispostos a arriscar e mudar algo.

Fanny Ardant é viúva do cineasta François Truffaut


Marion Vernoux nasceu em 1966 na França. 

Shopie Hunger - Le vent nous portera 

Trilha sonora de Quentin Sirjacq