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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O CIÚME COMO INCÊNDIO LENTO E A DÚVIDA QUE NUNCA SE APAGA


 

AS BRASAS

SÁNDOR MÁRAI

COMPANHIA DAS LETRAS – 2ª ED. – 2021

176 páginas

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS


As Brasas é um romance que não se organiza pela ação, mas pela espera. Lido há muito tempo, o que permanece não são os acontecimentos em si, mas a atmosfera: o ciúme que se instala silenciosamente, a suspeita que nunca se resolve, a dúvida que atravessa uma vida inteira. É um livro sobre aquilo que não se diz — e sobre o que nunca deixa de arder.

Dois homens, ligados por uma amizade antiga, se reencontram após décadas. Entre eles, uma mulher, um amor, uma traição possível — mas nunca plenamente esclarecida. O romance inteiro se constrói em torno dessa incerteza. Não há prova definitiva, não há confissão que encerre o conflito. O que existe é a memória revisitada, o ressentimento cultivado, a necessidade quase obsessiva de entender o passado.

O ciúme, em As Brasas, não é explosivo. Ele é lento, contido, aristocrático até. Um sentimento que não se manifesta em gestos violentos imediatos, mas em silêncio, distância, afastamento. O personagem masculino que narra ou conduz o confronto carrega esse ciúme como quem carrega uma ferida nunca cicatrizada. A dúvida se torna mais importante do que a verdade.

Márai escreve sobre o tempo — o tempo que não cura tudo, como se costuma dizer, mas que às vezes apenas aprofunda a obsessão. O reencontro não é reconciliação; é tentativa tardia de dar forma a algo que nunca foi elaborado. O passado não passa. Ele se acumula.

Há também uma crítica sutil a um mundo aristocrático em decadência, onde honra, amizade e lealdade são valores proclamados, mas atravessados por silêncios estratégicos e emoções reprimidas. A contenção emocional, longe de evitar a tragédia, a prolonga. O que não é dito não desaparece — fermenta.

As Brasas é um romance sobre a impossibilidade de encerramento. Mesmo quando tudo é dito, algo permanece em suspenso. Talvez porque certas perguntas não tenham resposta. Talvez porque o ciúme, uma vez instalado, nunca se apague completamente — ele apenas se transforma em brasa, escondida sob a cinza, pronta para reacender.

Reler As Brasas hoje é perceber que o livro não fala apenas de traição ou amizade, mas da fragilidade das relações humanas quando se baseiam mais na posse e no orgulho do que na escuta. É um romance que não grita, não acusa — mas que queima lentamente.


Sándor Márai nasceu em Kosice, Eslováquia em 1900, e faleceu em San Diego, Califórnia, EUA, em 1989. Foi um escritor e jornalista de etnia húngara, nascido na Eslováquia. 



domingo, 9 de março de 2014

LIVRO: EU, UM OUTRO - IMRE KERTÉSZ



Kertész, Imre. Editora Planeta do Brasil , 2007
Tradução: Sandra Nagy
173 páginas
Título original: Valaki Más. A változás Krónikája

Eu, um outro é uma reflexão sobre quem sou eu que Kertész desenvolve ao longo destas páginas após terem se passado 40 anos desde que sobreviveu a Auschwitz.

Ele narra seu cotidiano, suas viagens ao mesmo tempo que analisa quem é ele agora, após tudo que viveu e ao que sobreviveu. É um constante perder-se para se reencontrar, mas sempre um outro.

Carregamos um passado que se atualiza, mas também vivemos novas experiências, conhecemos lugares e pessoas, e vamos nos transformando no decorrer da vida. Mesmo as experiências mais amargas, duras, tristes nos transformam em um outro quando depois de vivermos o luto, a passagem, a vida nos acena novamente e nos chama para continuar a viver.

A vida é uma história de mortes, e isto é fato, morrer para algo, mas continuar vivo para outras coisas. A felicidade como idílio não existe, mas os momentos felizes sim. E apesar de toda a dor que Kertész carrega em si mesmo ele também consegue ver a vida pulsando e construir um sentido para si mesmo.


Imre Kertész nasceu em 1929 em Budapeste. Foi deportado para Auschwitz e Buchenwald. Ganhou o prêmio nobel de literatura em 2002.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

LIVRO: LIQUIDAÇÃO - IMRE KERTÉSZ


Kertész, Imre. Companhia das Letras, 2005
Tradução: Paulo Schiller
106 páginas

Um livro pequeno mas que é grande, Liquidação - seria possível mesmo liquidar algo como o holocausto? e tudo que ele deixa de marcas, traços e herança? Existe a superação? ou somente é possível a transformação?

O ponto central do livro é que o homem tem o mal em si e que sem a civilização e a cultura ele mostra do que é capaz. " O homem do tempo das catástrofes não tem destino, não tem qualidades, não tem caráter. (...) Para ele, já não existe retorno a um ponto de equilíbrio do Eu, a uma certeza sólida e incontestável do Eu: portanto, perde-se no sentido mais verdadeiro da palavra. Esse ser sem o Eu é a catástrofe, o verdadeiro mal. "

B. nasceu em Auschwitz e sobreviveu, o que já é algo quase impossível. Judit não conheceu o campo de concentração, nasceu depois, mas traz em si a herança psíquica da família que passou por lá, seu pai, calado, distante. O livro fala do pós-guerra, de quem sobreviveu e de quem nasceu depois e das possibilidades de viver com esta herança. A questão é que vivem numa outra ditadura neste momento, em Budapeste, e em uma entrevista à Folha de São Paulo Kertész dirá que "numa ditadura totalitária só se sobrevive quando se segue a lógica do absurdo." Após a Segunda Guerra muitos países ficaram atrás da Cortina de Ferro em regimes ditatoriais dando continuidade ao caos e violência.


B. que traz em sua coxa a marca do campo uma vez que bebês eram tatuados na coxa porque o ante-braço era curto demais para o número opõe resistência a se livrar disto tudo, é como um gozar na dor, que lhe dá uma certa satisfação.  Judit tenta ultrapassar esta resistência e transformar sua vida.

O livro é sobre uma peça que B. deixa após seus suicídio que é lido pelo editor Amargo que também é o protagonista da peça,  buscando compreender porque ele teria se suicidado. Quais seriam as razões morais e filosóficas deste ato? Seria o momento em que B. se cansa de buscar outras prisões quando acaba a resistência e se abrem outros mundos diante dele. Ele não pode, precisa viver dentro de Auschwitz que está entranhado nele, como quando os médicos provam os venenos para conhecerem seus efeitos. Somente se vencesse isto, se desvendasse o enigma Auschwitz ele poderia se libertar.

Judit por outro lado perceberá que nada foi por acaso, que se casou com B. para viver Auschwitz e tentar compreender. Um dia ela se dá conta que desistiu de resistir, ou seja, que se deu por satisfeita. Ela abre mão do gozo na dor. E o instinto de viver desperta novamente nela.

A diferença é que B. passou pelo campo de concentração e ela não. Ela não tem imagens e seu corpo não registrou isto, como a marca em B. em sua coxa. Visita o local e não consegue compreender, nestas alturas o campo já foi transformado num local "turístico" de visitações onde os batedores de carteira se aproveitam da emoção das pessoas para roubar-lhes a carteira. Onde é impossível fazer uma visita em silêncio e se está ao lado de pessoas que vieram de outros locais e não tem ideia do que se passou ali. Ela não consegue registrar Auschwitz e não compreende mais B.

Para os que viveram isto, como o autor do livro, não é possível deixar de resistir e esquecer o que se passou. Tenta-se viver , é um sobrevivente.

A leitura é difícil, não se sabe quando é a peça, quando é Amargo o protagonista do livro, são pedaços, cacos, e aos poucos me senti sendo sufocada pela leitura, mas é justamente isto o que é brilhante na escrita de Kertész, ele nos prende com arrame farpado.













Imre Kertész nasceu em 1929 em Budapeste - Hungria.
Foi deportado em 1944 para Auschwitz e Buchenwald sendo libertado
em 1945 pelas tropas norte-americanas. Foi o único sobrevivente de
sua família.