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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

FILME: VINCERE - 2009



Direção: Marco Bellocchio - 2009
Duração: 118 min
País de Origem: França - Itália

O filme relata a relação de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) com Benito Mussolini (Filippo Timi) quando este era um jovem militante socialista radical. Ida apaixona-se perdidamente por ele, absolutamente fascinada por este homem, ela se desfaz de tudo que possui para ajudá-lo a fundar o jornal Il Poppolo d'Italia, o início do Partido Fascista. Ela engravida e nasce um menino. 

Durante a 1ª Guerra Mundial, Benito se alista no exército e fica um tempo sem dar notícias. Ela irá reencontrá-lo num hospital onde também encontrará a nova esposa dele, Rachele (Michela Cescon). 

Trata-se de uma história real pouco conhecida. Ida morreu em 1937 num manicômio psiquiátrico, sozinha, devastada, após sua imensa luta para ser reconhecida como esposa  do Duce, antes do casamento com Rachele que permaneceu sua esposa oficial até o fim de sua vida, e ter seu filho reconhecido como primogênito. Ao longo do filme vemos flashes de mulheres internadas em hospícios e trechos de documentários sobre a época e a ascensão de Mussolini ao poder. 

Logo no início do filme, estamos em 1910 e Benito desafia os cristãos dizendo que irá provar a inexistência de Deus: " se Deus não me fulminar em 05 minutos será demonstrado que ele não existe." Ida está fascinada por este homem, como em breve estará o povo italiano, que será, como Ida, traído e subjugado. 

Ida após ter sido abandonada por Benito não consegue ultrapassar isto, irá destruir sua vida na tentativa de ser reconhecida. Era uma mulher independente, bonita, inteligente, com posses, dona de uma casa de moda feminina em Milão. Abre mão de sua vida por ele. As cenas de amor dos dois no começo do filme mostram seu olhar vidrado nele, e o dele distante, em outro lugar. Há uma falta de limites dela em relação à ele, lhe entrega tudo, corpo, alma, posses. Apesar de dar tudo como ela mesma diz com alegria, como se isto fosse uma felicidade para ela de poder ajudar, no fundo o que ela deseja é ser única para ele, é ser A mulher. 

Ela se fixará nisto por toda sua vida, neste lugar que deseja acima de tudo, sendo incapaz de aceitar o fato que ele a deixou e trocou por outra mulher. Abrirá mão de qualquer possibilidade de reinício de uma vida com seu filho (Filippo Timi), com isto levando a ambos para o trágico. Lembra Antígona, uma vez que também vai contra o Estado e sua lei. Sua obstinação em afirmar que era a esposa e que o filho foi reconhecido, o que nunca foi comprovado oficialmente. 

Ida não é louca, ela sabe onde está, quem é, mas se fixa na loucura deste amor, me lembrando Camille Claudel com Rodin, que também se fixa nele. Acaba sendo internada após gritar para todos ouvirem que já escreveu ao papa, ao primeiro-ministro, ao presidente do tribunal de Milão para que ele vá preso. Depois vai viver com sua irmã e seu cunhado tem a guarda de seu filho. O indício da erotomania, ela diz que só ela o compreende e que está convencida que ele também a ama. É um certeza delirante e que a impede de fazer algo diferente com sua vida. Acabara sendo subjugada pela polícia fascista, seu filho será afastado dela e entregue para outra pessoa criá-lo o que trará um grande sofrimento para ele. E ela dirá que ele está fazendo isto para testá-la, que quer ter certeza de que pode sacrificar tudo por ele, e que quando ele tiver esta certeza irá buscá-la e a apresentará à Itália como sua legítima esposa. 

Ela não pode dar uma outra vida a seu filho, uma nova família. Ele acabou internado em um manicômio e morreu aos 26 anos abandonado. 

Marco Bellocchio nasceu em 1939 em Bobbio, Itália.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

FILME: AS SUFRAGISTAS - 2015



Direção: Sarah Gavron - 2015
Duração: 106 min
Título Original: Suffragette
País de Origem: Reino Unido

1912 - Reino Unido, após 50 anos de luta pacífica para obter o direito de voto para as mulheres um grupo de militantes conhecidas como sufragistas decidem partir para a ação com atos mais violentos como quebrar vidraças de vitrines, explodir caixas de correio para chamarem a atenção sobre suas reivindicações. A líder do movimento é Emmeline Pankhurst (Meryl Streep), mas quem realmente luta são mulheres pobres, trabalhadoras, vítimas da opressão masculina e algumas mulheres que possuem educação como Edith Ellyn (Helena Bonham Carter) que tem o apoio de seu marido. 

Vemos um retrato da vida das mulheres na época. Destinadas ao casamento não tinham nenhum direito exceto o de trabalhar e ganhar menos que os homens, cuidar da casa, do marido e dos filhos. Além disto sofriam assédio sexual e não tinham como se defender disto. 

Maud Watts (Carey Mulligan) é uma destas mulheres, casada com Sonny (Ben Whishaw) tem um filho, Georgie, e trabalha numa lavanderia, no mesmo local onde seu marido trabalha, porém os homens tem trabalhos externos enquanto elas sofrem problemas respiratórios e de pulmão, além de ganhar bem menos. Maud não fazia parte das sufragistas até se aperceber do movimento, aos poucos ela começa a participar e pagará um preço alto por isto. Seu marido a expulsará de casa por se sentir desmoralizado, envergonhado com os atos dela, e depois ele irá dar o filho em adoção alegando que não tem como cuidar dele. Mas ao invés de com isto fazer Maud desistir, ela se dá conta do quanto não pode se defender nem ao seu filho, ou seja, que não tem direitos. É a partir deste momento que ela passa a se considerar uma sufragista e irá lutar junto as outras mulheres. 

Há cenas de violência contra as mulheres pela polícia e elas são presas, várias vezes. O inspetor Arthur Steed (Brendan Gleeson) é o responsável por contê-las o que ele tenta de todas as formas, mas apesar de tudo elas são persistentes e ousadas, e chegam ao ponto de chamar a atenção de todos através de um ato de Violet Miller (Anne-Marie Duff) diante do rei, o que acaba lhe causando a morte. Mas foi neste momento que a comoção foi geral e o passo maior está dado, mas o direito ao voto elas só obterão em 1918. 

A grande questão deste filme é que se ele se passa em 1912 ele trata de um assunto que é absolutamente atual. As mulheres conseguiram muitos avanços e conquistaram muitos direitos, mas mesmo nos países ocidentais até hoje elas ganham menos. Isto para não falar dos países onde ainda nem conseguiram o direito ao voto. Na Arábia Saudita somente no ano passado, em 2015, as mulheres votaram pela primeira vez. 

Sarah Gavron nasceu em 1970 no Reino Unido.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DOCUMENTÁRIO: A HISTÓRIA SOVIÉTICA - 2008


Direção: Edvins Snore - 2008
Duração:86 min
Título Original: The Soviet Story
País: Letônia

O documentário é perceptivelmente de direita o que, porém, não lhe tira  mérito. Obviamente que as posições são contra o comunismo, mas o que realmente é válido neste documentário é trazer a tona os crimes do regime de Stálin. 

O filme traz um argumento onde teria havido uma estreita conexão filosófica, política e organizacional entre o Nazismo e o Regime Soviético, sendo que Max teria falado sobre o extermínio, o que eu pessoalmente desconheço. O que eu trago em mente é que todo regime ditatorial, totalitário sempre irá eliminar os que são contra seu regime, isto ocorreu em outros lugares também. O que choca no documentário, principalmente para os que desconhecem os crimes do Stalinismo é o que ocorreu na Ucrânia e que é conhecido como Genocídio do Holodomor, entre 1931 e 1933 e o massacre de Katyn na Polônia em 1940 e que até hoje não é considerado crime de guerra ou genocídio, apesar de ter sido um crime bárbaro.

Sobre a colaboração entre a NKVD - polícia secreta soviética e a Gestapo o documentário é bem interessante e finaliza com o que é mais conhecido, quando Stálin acaba fechando com os aliados para obter a vantagem da repartição da Europa e ficar com boa parte para a União Soviética e que depois transformou a vida destes povos em horror com as deportações para os Gulags. 



Holodor significa "deixar morrer de fome", ou seja, pela inanição. O que ocorreu na Ucrânia é monstruoso, com o confisco de toda alimentação que era baseada em cereais e que era vendida para o Ocidente. A Ucrânia ofereceu resistência com sua autonomia cultural e forte identidade nacional o que era intolerável para os soviéticos e por se insurgirem contra as medidas de coletivização forçada e requisição compulsória de cereais, Stálin tomou as medidas que levaram a esta atrocidade. 



Na Polônia, durante a Segunda Guerra ocorreu o massacre da Floresta de Katyn, uma execução em massa de poloneses prisioneiros de guerra e cidadãos comuns acusados de espionagem e subversão.



É importante que isto seja conhecido, pois existe uma tendência a focar no Holocausto perpetuado pela Alemanha de Hitler, mas Stálin matou muito mais, e era seu próprio povo. 




Edvins Snore nasceu em 1974 em Saulkrasti, Letônia

terça-feira, 14 de julho de 2015

DOCUMENTÁRIO: VERSAILLES, O SONHO DE UM REI - 2008


Direção: Thierry Binisti -  2008
Duração: 90 min
Título Original: Versailles, le rêve d'un roi
País: França

Este documentário narra através de um filme a história da construção do Palácio de Versailles pelo rei Luís XIV, o Rei Sol conhecido por sua frase: O Estado sou eu!

Em sua infância Luís XIV teve que fugir para não ser morto, e isto ficou marcado. Ele jurou que nunca mais se repetiria, e para isto ele tinha que ter o domínio total sobre seus súditos. Para tanto ele constrói Versailles como símbolo de seu poder, mas também para levar a corte e os nobres para lá, para ficarem sob seus olhos. Ao contrário do que se pode imaginar, este rei tinha um lado muito democrático ao dar liberdade aos seus súditos de lhe falarem, e quando a Galeria dos Espelhos ficou pronta ele mandou que fosse aberta ao público, ela foi feita para os outros, não para ele. Ele queria que todos admirassem seu poder. Por outro lado era impiedoso com quem o ameaçasse, e não poupou nada nem ninguém para a construção do palácio. O que vemos é o que normalmente acontece em grandes construções, mesmo nas atuais como a construção de hidrelétricas, onde morrem muitas pessoas, e a exploração da mão de obra é sempre uma realidade. 





Luís XIV (Samuel Theis) fez da residência de caça de seu pai o mais sumptuoso palácio real da Europa e para isto gastou somas imensas o que deixava Colbert (Jérôme Pouly) seu ministro das finanças, angustiado. Em volta do palácio o que havia eram pântanos que foram transformados nos famosos jardins de Versailles. Faltava água para tantas fontes e cada vez se gastava mais para trazer a água. O palácio levou 30 anos para ser construído. 





O Rei Sol também tinha um enorme gosto pelas artes e tinha a seus serviços os maiores talentos da época como La Fontaine (Eric Franquelin), Racine (Laurent Vernick), Molière (Thierry  Garet), Charles Perrault (Stéphane Roux). 




O filme retrata toda a época e a corte de Luís XIV, seu casamento, suas amantes. No final ele está só no palácio que se transformou num túmulo, a corte pouco a pouco retornou para Paris, e os problemas econômicos gerados pela construção e pelas guerras culminou com a Revolução de 1789.



Foi filmado nos locais documentados. 


Thierry Binisti nasceu em 1964 em Créteil, França 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

FILME: A DAMA DOURADA - 2015



Direção: Simon Curtis - 2015
Duração: 109 min
Título Original: Woman in Gold
País: Reino Unido e Estados Unidos

Adaptação do livro homônimo de Anne-Marie O'Connor 

Li o livro há um tempo e está postado aqui no Blog. Trata-se da história da obra-prima de Gustav Klimt, o retrato de Adele Bloch-Bauer, da história de sua família na Segunda Guerra quando os nazistas entraram na Áustria, e do roubo de obras de arte. 


O filme foca mais na história do quadro, trazendo apenas através das lembranças de Maria Altmann (Helen Mirren), sobrinha de Adéle e legítima herdeira do quadro, algumas passagens do que ocorreu na Áustria, o suficiente para a compreensão do roubo e de como sua família foi atingida, para que possamos acompanhar a luta pela recuperação do quadro. Para uma história mais completa recomendo a leitura do livro. 



O filme inicia nos Estados Unidos quando Maria decide tentar recuperar o quadro, após encontrar uma foto dele nas coisas de sua falecida irmã. Para isto ela pede ajuda ao filho de uma amiga, um jovem advogado , Randol (Ryan Reynolds), inexperiente ainda mas que após ir à Áustria será tocado pela história de sua família que também eram judeus e viviam lá, e com isto ele abraçará a causa de outra forma do que apenas por dinheiro. 



Será uma luta árdua nos tribunais, uma vez que a Áustria não está disposta a abrir mão do que considera sua "Monalisa" e menos ainda de ter que admitir o que realmente fizeram e de como receberam os nazistas de braços abertos. Mas atualmente há pessoas no país que já não aceitam isto e se envergonham, e para tanto desejam se redimir e limpar a memória de seus antepassados. Maria e Randol terão a ajuda de Hubertus (Daniel Brühl). 

A primeira tentativa na Áustria não surtirá efeitos. Eles iniciaram um processe de restituição de obras de arte roubadas, mas não destas grandes, isto eles não querem fazer. Alegam que Adéle doou em testamento o quadro ao museu, o que porém não é verdade, uma vez que o proprietário do quadro era seu marido que fugiu durante o nazismo e deixou seus bens para suas sobrinhas. E Adéle jamais teria expressado este desejo, porque era isto que era o suposto testamento, se tivesse vivido o suficiente para ver o que aconteceria em seu país. 

Será preciso que surja a brecha para poder entrar com o processo nos Estados Unidos, uma vez que levar aos tribunais na Áustria é impossível pelo valor do custo. É a partir deste momento que as coisas começam a mudar. 

Há filmes e livros sobre o roubo das obras de arte pelos nazistas, mas este livro e filme se diferenciam porque contam a história do quadro e da família. 


Simon Curtis nasceu em 1960 em Londres, Reino Unido

sábado, 29 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: A HISTÓRIA DO MUNDO EM DUAS HORAS - 2011


Produção: History Channel - 2011 
Duração: 88 min
Título Original: History of the world in two hours 
País de origem: EUA 

Este documentário faz um tour geral pela história de nosso planeta e do surgimento do ser humano e das civilizações, partindo do Big Bam há 14 bilhões de anos atrás, nos mostrando como se formaram as estrelas, galáxias e finalmente o planeta terra. 
O início da vida no planeta e de como se desenvolveu até chegar ao mundo de hoje. De onde vieram todas as possibilidades tecnológicas e também o surgimento do fogo. As invenções que tornaram possíveis a civilização que conhecemos hoje. 

Há um foco científico principalmente sobre as questões de energia e da tecnologia, desde a mais antiga até o mundo atual. 

Uma maneira rápida e interessante de recordar nossa história com um apanhado geral, mas acho que o documentário é bem vindo no sentido de nos trazer mais humildade e principalmente maior respeito por este planeta que é vivo e por tudo que há nele, desde os minerais, as plantas, animais até o ser humano. Quando acompanhamos todo este processo não há como não parar para pensar em quantas vezes o planeta sofreu mudanças radicais, e que várias formas de vidas foram extintas, e então, o que nos garante que não somos a próxima? 

A força, a energia que existe no universo se por um lado nos proporcionou a possibilidade de estar aqui também não deixa de ser algo que pode literalmente nos destruir. Não estamos zelando por nosso planeta o suficiente, e quando cooperamos por destruir camadas de ozônio, quando poluímos o ar com inúmeros componentes químicos, não estamos pensando nos efeitos disto. 

Por outro lado é muito bom ver de onde viemos, de simples bactérias, isto nos traz um pouco de humildade. Quando os nossos ancestrais viviam eles não imaginavam o viria a ser a terra no futuro ou o ser humano, e todas as possibilidades que ele teria, mas da mesma forma que os dinossauros também viviam dominando a terra, podemos acabar como eles. 

Claro, isto pode levar milhões de anos, mas não é impossível. Por mais tecnologia que temos não somos capazes de deter a natureza, e muitas vezes não somos capazes sequer de prever a tempo catástrofes como um tsunami ou até mesmo uma simples chuva de granizo. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: POR DENTRO DA MENTE MEDIEVAL - Conhecimento - 2008


Documentário da BBC 
Título original: Inside the Medieval MInd - Knowledge - 2008 

Sinopse da série: o especialista em Idade Média, Prof. Robert Bartlett, apresenta uma série que analisa a forma que o homem pensava durante a época medieval. Para os nossos ancestrais, o mundo parecia ser misterioso, até encantado, ver homens verdes, com cabeça de cães e seres estranhos era algo comum. O próprio mundo era um livro escrito por Deus. Mas à medida que a Idade Média aproximava-se do seu fim, ele se tornou um lugar para ser dominado e explorado. Série em 04 episódios.

São quatro episódios que no link abaixo estão juntos falando sobre o conhecimento na mente medieval.

No período que conhecemos como Idade Média, e não precisamos lembrar que se trata de uma divisão para facilitar os estudos, as ideias no Ocidente eram sufocadas pela religião, porém assim mesmo havia exploração, ciência, não condizendo com as trevas que alguns atribuem a este período.

O importante é compreender como era a visão de mundo das pessoas naquela época, muito diferente da atual. Eles tinham muitas visões de seres estranho, mas isto não é folclore, para eles era fato, verídico.

Na Catedral de Hereford existe um mapa mundi de 1300 feito sobre o couro de um bezerro onde o que vemos não é exatamente um mapa como o compreendemos hoje que nos indicaria os lugares e como fazer para ir de um lugar a outro, não era isto, este mapa mostra como eles imaginavam a terra. Jerusalém é simbolicamente o centro deste mapa, temos então 03 continentes, o oriente na parte de cima e a Europa e África na parte de baixo. Os locais são simbolizados por gravuras, como por exemplo a Rússia por um urso. Também temos neste mapa o tempo e o espaço, com imagens de Adão e Eva, da crucificação de Jesus, e também do futuro com o juízo final. O que se nota é que o natural e o sobrenatural coexistiam pacificamente.



Eles se utilizavam da lógica e da observação para ver a forma como as coisas encontram seu lugar num mundo inteiramente religioso. Para a mente medieval um fato podia ser ao mesmo tempo natural e sobrenatural, eles não faziam esta divisão. Um eclipse era ao mesmo tempo um fenômeno natural e um sinal divino.

Os bestiários é outra coisa maravilhosa daquela época. São livros escritos à mão com desenhos magníficos descrevendo a natureza, mas não como nós faríamos, pois a natureza não é vista de forma independente, e o que os seres representam é uma mensagem para o homem moral e espiritual.

Porém tem início o desencantamento do mundo. Surgem as primeiras Universidades que é talvez o maior legado da Idade Média para o conhecimento. Neste momento também temos as guerras cristãs e eles invadem Toledo na Espanha onde estavam os muçulmanos retomando-a. Toledo era um centro de artes e ciências com bibliotecas maravilhosas. Os europeus irão descobrir então Aristóteles que lhes era desconhecido e isto irá causar uma revolução intelectual, uma vez que os gregos buscam explicações para o universo que não incluem um Deus cristão que criou o mundo em sete dias. Para os gregos não houve a criação, e eles acreditam que o Universo sempre existiu e sempre vai existir. Obviamente que isto suscita uma reação cristã e é proibido ler Aristóteles sob pena de excomunhão. 

Será preciso São Tomás de Aquino para reunir tudo isto fazendo uso da razão dos gregos para explicar a revelação divina. Assim surge a Escolástica. 

Este encontro com o mundo muçulmano também trará outras informações e descobertas na ciência, na química, álgebra e principalmente os números arábicos, pois fazer somas com os números romanos não é algo fácil. 

Aos poucos se vai passando da contemplação maravilhada à consciência do domínio. O tempo que antes era medido por fatos irregulares diários, refeições, missas, marés altas e baixas, passará a ser medido de forma precisa através dos relógios mecânicos. 

Mas ainda há mais por vir. Quando entram em contato com os mongóis e a China e todo o conhecimento que este povo possuía. Marcos Polo um italiano escreverá sobre as maravilhas que viu, apesar de poucos acreditarem nele na época. E depois virá outro italiano, Cristóvão Colombo que descobrirá a América e pensará que chegou ao éden, ao paraíso. 

O interessante é notar que as indagações medievais como por exemplo sobre os anjos ocuparem um mesmo espaço ou não são as mesmas que a física quântica faz hoje. 

Sempre fui fascinada pela Idade Média, por seu imaginário, sua visão de mundo, suas construções, os livros manuscritos e os desenhos. Este documentário é muito bom e nos mostra um pouco de tudo isto. 




Robert Bartlett nasceu em 1954. É um historiador e medievalista inglês. Atualmente ocupa o cargo de Professor de História Medieval na Universidade de St. Andrews. É especialista em colonialismo medieval, culto dos santos e sobre a Inglaterra entre o século XI e XIV.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

DOCUMENTÁRIO: O PODER DO MITO PARTE TRÊS - 1988



São dois DVDs com as entrevistas de Joseph Campbell com Bill Moyers
Duração:354 min

Joseph Campbell é um consagrado estudioso de mitos. Nestas entrevistas ele fala sobre mitos, história, religião, filosofia, psicologia, arte e cinema. As entrevistas aconteceram no Rancho Skywalker e no Brasil foram exibidas pela TV Cultura.

É notório a paixão e o prazer que Campbell sente ao falar destes assuntos, ele se encanta, ele vibra, ele nos transmite lições para a vida e sobre como viver.


PARTE 3 - OS PRIMEIROS CONTADORES DE HISTÓRIAS

Esta parte do documentário é realmente fabuloso. Fala dos mitos, dos ritos de passagem e do que isto significa em nossas vidas e modo de viver e olhar o mundo. Infelizmente atualmente os ritos estão diminuindo, ou estão perdendo seu sentido e com isto seu efeito, e com isto temos este mundo violento, onde não se respeita mais o outro, onde não se respeita a natureza e os animais.

Campbell segue o difusionismo e também Jung com o inconsciente coletivo, mas isto não entra em conflito com minha visão da psicanálise e do estruturalismo. Para Campbell temos os registros do pré-histórico no inconsciente e na mente e por isto ao vermos os traços disto o sentimos. Como quando vemos uma pintura rupestre por exemplo, ou quando vivenciamos algo que nos remete a estes tempos. Eu acredito que recebemos através da cultura, do social e da palavra todo este conhecimento e que está em nosso inconsciente.
O mitos servem como guias para a vida espiritual, para colocar a mente e o corpo em acordo. Os rituais são a representação do mito e eles nos ajudam nas passagens da vida até a morte. E talvez seja a falta deles ou a não-crença neles que transforma o mundo no que vemos hoje.

Campbell nos diz que o problema das crianças serem educadas em um mundo de disciplina, obediência e dependência de outros é que ela precisa transcender isso ao chegar a maturidade. Na Índia se muda de roupa e de nome quando se passa de um estágio para outro. Os povos ditos primitivos tem seus rituais de iniciação, quando o menino passa a ser homem. As meninas é diferente, pois seu corpo é a vida, e com a primeira menstruação ela se torna mulher. O menino precisa receber isto do social.

Quando nos aposentamos precisamos criar uma nova forma de vida, de pensar sobre a vida. Deixar para trás as realizações e entrar no mundo do prazer e da apreciação e do relaxamento por meio de tantas maravilhas. Esta visão de Campbell é perfeita, me reconheço nela neste momento da minha vida. Ele diz que o problema não é a morte, mas sim a meia idade onde se chega ao auge do corpo que então começa a decair, então é chegado o momento da consciência.

Os ritos de passagem da infância para a adolescência, depois para o adulto e então para a velhice. Eles nos estruturam.

Campbell também fala dos tempos em que matar um animal necessitava de um ritual, pois matar o animal perturbava, e era necessário agradecer, apaziguar. Fala também do totemismo. E algo que ele diz no documentário é muito importante: " Um ego que vê um "vós" não é o mesmo que vê um "isso". Na guerra transformam as pessoas em "isso" para que não sejam "vós". Infelizmente no atual os egos estão mais para o isso do que para o vós.

O ritual serve para elevar, para tirar para fora, não para aconchegá-lo de volta ao lugar onde você sempre esteve. Os mitos mudam segundo os tempos, mas a estrutura permanece a mesma.

Finalmente ele nos fala do xamã que é uma pessoa que no final da infância ou início da adolescência seja homem ou mulher, teve uma experiência psicológica fortíssima que a deixou inteiramente voltada para si mesma. Seu inconsciente se abriu por inteiro e a pessoa caiu lá dentro. A experiência do xamã é um tipo de ruptura esquizofrênica. Morte e ressureição, estar no limiar e voltar, pessoas que tem sonhos muito profundos. O sonho é uma grande fonte do espírito, encontros místicos.

Vale a pena assistir.

https://www.youtube.com/watch?v=yHF8gRsdOXc


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: O PODER DO MITO Joseph Campbell com Bill Moyers - 1988




São dois DVDs com as entrevistas de Joseph Campbell com Bill Moyers
Duração:354 min

Joseph Campbell é um consagrado estudioso de mitos. Nestas entrevistas ele fala sobre mitos, história, religião, filosofia, psicologia, arte e cinema. As entrevistas aconteceram no Rancho Skywalker e no Brasil foram exibidas pela TV Cultura.

É notório a paixão e o prazer que Campbell sente ao falar destes assuntos, ele se encanta, ele vibra, ele nos transmite lições para a vida e sobre como viver.

1ª  Parte - A SAGA DO HERÓI 

Nesta primeira parte Campbell nos desafia a ver uma jornada heroica em nossas vidas. Não o herói inalcançável para nós, mas o herói que todos nós somos. Ele também escreveu o livro "O herói de mil faces" sobre este tema.
Quando ele nos fala dos dragões e dos cavaleiros medievais que os matavam ele traz este dragão para um dragão interior, que são os obstáculos, nossos medos, aquilo que nos impede de fazer algo, portanto todos nós temos dragões para matar. Além disto ele diferencia o dragão ocidental da idade média do dragão oriental que tem outro significado. Nesta primeira parte ele nos mostra como os mitos e as histórias nos ensinam a enfrentar os dragões.
Ele também fala da arquitetura, e isto me chamou a atenção. Antes a catedral era o edifício mais alto de uma cidade, depois passou a ser o edifício político, como o parlamento e finalmente hoje são os prédios imensos onde estão os escritórios das grandes empresas, bancos, mostrando como a arquitetura acompanha este processo de valores numa sociedade.
Irá falar também do sagrado, do que é o sagrado independentemente de uma religião. Do quanto o mito relata as passagens na vida, iniciação, separação e retorno. Precisamos nos tornar independentes e os mitos nos ajudam nisto.

Você pode assistir a esta parte no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=C_wuZnoP6NY


2ª Parte - A MENSAGEM DO MITO 

Nesta parte ele fala do que é o Mito, para que serve, e de como todas as histórias se parecem. Ele começa com o Gênesis e depois nos relata outras que também falam da criação do mundo. O mito é utilizado quando não temos palavras para falar do mistério, do que nos transcende. E sempre levando em conta a época que o mito foi criado nos explica que a cada época precisamos de novos mitos que nos orientem e que atualmente está faltando um mito e que muitas vezes as pessoas se apegam a mitos que não lhes servem para nada.

Para Campbell não se trata do sentido da vida, mas do viver, da experiência de viver. Ele considera o eterno o aqui e agora, e não algo lá na frente. Faz algumas comparações entre as religiões ocidentais e as orientais onde não existe o pecado original e sobre a serpente assim como a mulher que simbolizam a vida e por isto são os culpados de tudo. A vida é sofrer, e há uma tendência sempre em colocar a culpa no outro.

Também disponível no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Bwm0N89EyO8


domingo, 15 de junho de 2014

DOCUMENTÁRIO: HITLER ET SES DÉMONS - HITLER E SEUS DEMÔNIOS - 2013



Editor: E.P.I. Difusion - 2013 
Duração: 120 min

Este documentário que assisti em francês trata da parte referente ao ocultismo que envolveu o nazismo. Hitler se acredita o escolhido pelos mestres antigos que vivem no interior da terra para desenvolver o novo mundo, muito melhor, belo e forte do que os que haviam.

É um mergulho nos fantasmas, delírios e visões de Hitler, seu lado psicótico, mas também na sua loucura, nos incestos, em todo o pesadelo que foi a mente deste homem que infelizmente alcançou o poder e deixou atrás de si um rastro de morte e destruição. Um trauma que a civilização levará ainda muitos anos para superar.

A crença num povo antigo, seus mitos e histórias, o retorno. Himmler criará a SS baseado nisto, para criar o novo povo alemão como um super homem.

A maioria dos principais líderes nazistas tinham problemas psíquicos. Goering saiu de um hospital psiquiátrico quando foi reintegrado por Hitler, Speer tinha sonhos megalomaníacos para a arquitetura. Hitler parecia muitas vezes estar em transe durante seus discursos que inflamavam a população, que segundo Goebbels se ele mandasse que saltitassem sobre as cadeiras eles o fariam.

Os grupos que foram enviados atrás do Santo Graal, a busca pelas supostas entradas para a terra oca onde devem viver estes mestres antigos na fronteira com o Nepal e o Tibete. Uma visita à Amazônia em busca de rituais, plantas alucinógenas. Todo um lado de misticismo e ocultismo que envolveu os líderes do nazismo.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

DOCUMENTÁRIO: ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO - 1989


Diretor:  Peter Cohen - 1989
Duração: 119 min 
Narração: Bruno Ganz 
Origem: Suécia 
Título original: Undergangens Arkiketur 

Este documentário é considerado um dos melhores estudos sobre o nazismo feito pelo cinema.

Hitler, um artista frustrado, ele foi recusado pela Academia de Artes de Viena quando jovem, que pintava paisagens em formato de cartão postal, admirava a ópera de Wagner tinha fixações na estética da beleza, na antiguidade, em Wagner. Ele desejava embelezar o mundo, para isto se baseando na estética do belo segundo o seu julgamento. A questão é que o belo elimina o feio segundo seus critérios.

Inicia-se o processo com as exposições de arte nazista e arte degenerada, ou seja, a dos bolchevistas, judeus e toda arte moderna. São feitas exposições paralelas com a apresentação de fotos de pessoas doentes mentais comparadas às pinturas da arte moderna para que as pessoas pudessem ver a analogia que Hitler via ali e desta forma concordar com ele. Coisas que normalmente não teriam associação acabam tendo. É o período da arianização da arte, atendendo sempre a padrões clássicos de beleza. Tinha especial apreço por paisagens de Montanhas e florestas.

Hitler sonhava com um mundo puro e belo, admirava a arte grega, o super homem, e detestava tudo que fosse diferente, novo, moderno. Ele não suportava lidar com o diferente, com as diferenças que o outro tem. E baseava-se unicamente em seus critérios pessoais que impunha a todos. Ele julgava. Tinha planos imensos, megalomaníacos para reconstruir as cidades alemãs. Faz desenhos e incumbe os arquitetos de realizarem seus desejos.

Usa a metáfora da bactéria, da doença, do piolho para apresentar sua teoria de limpeza, higiene e belo. No caso tudo que não fosse de acordo com o que ele desejava era uma bactéria que vinha infectar o mundo e destruir, enfraquecer, sujar e precisava ser eliminada, da mesma maneira que se eliminam os insetos, os ratos, os piolhos. E de fato foi o que ele fez, usando o gás para matar, baseado em como se dedetizava os locais para eliminar as pragas.

Por trás de todo horror perpetuado pelo nazismo contra o outro há toda uma racionalização, e diferente de eliminar o inimigo numa guerra, era uma eliminação do ser humano que era diferente. Era a destruição de tudo que não lhe agradava. Ele poupa Paris porque sempre desejou conhecer a cidade e o faz numa manhã bem cedo após a conquista e então diz que Berlim será muito melhor e portanto fará sombra à Paris, e por isto não é preciso destruí-la.

Também na guerra se utiliza da antiguidade. Conduz o exército alemão como se fosse as Guerras Púnicas, onde a destruição total do inimigo e das cidades diferem dos padrões de guerras modernas, onde o objetivo é vencer a guerra, e os alvos civis são evitados na medida do possível. Ele imita o Delenda Cartago. Seus modelos são Roma, Cartago e Atenas. Como os romanos queria dominar o mundo, ser o terceiro maior império, o Terceiro Reich, após os Romanos e o Império Austro-Húngaro.

A parte mais interessante do documentário é quando se analisa o judeu como sendo o principal inimigo de Hitler justamente por se tratar de um povo puro, que soube se manter unido e não se misturou, não se miscigenou, enfraquecendo seu povo. Aqui temos um ponto de vista onde o judeu é uma imensa ameaça à Hitler, pois somente eliminando o povo puro ele poderia ter os méritos e transformar o povo ariano em puro, por isto, mesmo perdendo a guerra, ele se fixa na solução final.

O judeu é o outro, o estranho familiar. Talvez por ser um povo sem território e que vive na errância isto assuste, se torna sempre estrangeiro, mas de onde?

Hitler nunca havia viajado, não conhece o diferente e é péssimo em fazer julgamentos sobre os outros e suas diferenças, ele se fixa em seus pensamentos. O judeu é o povo da lei simbólica, ou seja, é um significante, não está no imaginário do outro. A coletivização do ódio ao judeu é aceita, uma vez que inconscientemente todos odiamos o pai e queremos matá-lo, mas também o amamos. Então aqui vemos que Hitler no fundo se baseava na pureza que ele via no povo judeu e por isto mesmo tinha que eliminá-lo.

Por outro lado, todo o imaginário de Hitler e seus sonhos megalomaníacos, provenientes da infância, de suas leituras. Ele acreditava que não é necessário sair de onde se está para conhecer o outro, é possível visualizar isto e acertar.Ele fantasiava seu grandioso futuro.

Ele queria ser o grande pai, o Deus que regia a tudo e a todos e transformaria o mundo num lugar belo, limpo onde se pudesse viver bem. Para isto precisa eliminar as pragas, as bactérias que causam doenças. Ele monta toda uma coreografia para que o povo aceite isto levando-o à histeria.

O ideal de beleza como sinônimo de saúde, mas para construir o belo é necessário destruir tudo que não fosse belo segundo seus padrões e julgamentos, levando à destruição que foi.


Peter Cohen nasceu em 1946 em Lünd, Suécia. Seu pai foi um judeu perseguido pelo regime nazista que fugiu de Berlin em 1938. O documentário Arquitetura da Destruição precisou de muitos anos de pesquisa. 

domingo, 1 de junho de 2014

DOCUMENTÁRIO: A ESTRELA OCULTA DO SERTÃO - 2005



Direção: Elaine Eiger e Luize Valente - 2005 
Duração: 85 min 

O documentário conta com a participação da historiadora da USP Anita Novinsky especialista em inquisição no Brasil, de Paulo Valadares, genealogista e de Nathan Wachtel, antropólogo do Collège de France.

A ideia de realizar o documentário surgiu quando as diretoras leram um artigo no jornal sobre um rabino americano que estivera numa vila chamada Venha Ver que tem menos de 800 habitantes e se situa no extremo oeste do Rio Grande do Norte. O rabino constatou que a população local mantinha costumes que não eram cristãos, mas que eram notadamente judaicos, apesar de já terem caído em desuso no judaísmo. Esta constatação revelou que ali moravam descendentes de cristãos-novos conhecidos como marranos.

Durante a perseguição pela inquisição inicialmente na Espanha promovida pelos reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão e depois com a instituição do santo ofício em Portugal, muitos judeus foram forçados a se converterem ao cristianismo. Em Portugal no tempo de Dom Manuel sequestravam seus filhos para serem criados por cristãos, o que obrigava aos judeus a se converterem. Isto foi antes da conquista do Brasil.

Quando ocorreu a conquista do Brasil pelos portugueses muitos cristãos novos vieram para cá, e mais tarde com a invasão holandesa também, uma vez que muitos judeus convertidos fugiram depois para os países baixos. Há documentação sobre isto até o fim da inquisição, depois mais nada. Eles se dispersaram pelo país, mas o maior núcleo é no Nordeste.

O documentário nos mostra Luciano Oliveira, um médico da Paraíba que busca suas origens, e também João Medeiros, um engenheiro aposentado de Natal e Odmar Braga um policial negro de Pernambuco. O que aproxima estes três é o fato de serem descendentes de cristãos novos. Os três nasceram de famílias nordestinas no sertão que são cristãs, mas tem costumes e práticas judaicas.

Venha Ver é uma pequena vila onde praticamente todos são parentes. Os casamentos ocorrem entre primos e tios e sobrinhas, caracterizando a endogamia. Uma visita ao cemitério é um encontro com todos os parentes mortos, ali é a avó, lá a tia, aqui o primo, mais adiante o avô. Quando alguém morre lava-se o corpo, cortam-se as unhas a noite, e o corpo é envolvido na mortalha costurada ali mesmo com pontos largos e soltos. Usam o caixão para transportar o morto até o túmulo, mas são enterrados diretamente na terra. É necessário jogar fora as águas da casa quando alguém falece.

A maneira de varrer uma casa, não comer carne de porco, a maneira que se sacrifica o animal para comer, como é feito o corte do pescoço da galinha e o sangue que tem que ser tirado, uma vez que o sangue representa a vida e não se come a vida. Colocar pedras nas cruzes em túmulos, todos costumes judaicos.

Mas e Dona Cabocla que tem um altar com 26 santos? uma cruz na porta, mas também mantém todos estes costumes? E o padre de Seridó extremamente católico mas que se apresenta como um judeu da diáspora?

Nenhum deles tem lembrança de uma ancestralidade judaica, só sabem o que fazem. A herança psíquica, o que se faz inconscientemente sem saber por que o faz. Minha mãe fazia, minha avó fazia, isto vai se perpetuando. O Oratório, algo cristão mas que tem um símbolo judaico. Rezar para os santos, mas também para a lua nova. Por que ninguém se questiona por que faz aquilo? por que está enraizado, está no inconsciente, e se faz e nem se percebe que se faz. E em uma comunidade onde todos são parentes e agem igual, não há como perceber também estas diferenças, de como um cristão enterra um morto da forma como eles o fazem. Eles se espelham entre si.

Aos poucos, pessoas como Luciano passam a se questionar, e ir em busca destas raízes, querem ser reconhecidos como judeus, uma questão de identidade, já para outros são questões históricas e para Dona Cabocla é algo inconsciente.

Luciano vai em busca e se confronta com o judaísmo ortodoxo e percebe que não basta ser descendente. Primeiro, a descendência se dá pelo lado materno. Depois a questão dos judeus convertidos é delicada, os judeus não aceitam o retorno, muitos dizem que tem que morrer judeu. É preciso se converter para ser judeu, não apenas retornar. Na época quando ocorreu a perseguição na Península Ibérica não se aceitava que os judeus se convertessem ao cristianismo, mesmo que isto significasse sua vida ou de sua família, era considerado uma traição pelos judeus.
A questão é sobre ter que se converter, mas a conversão é para quem não é judeu se tornar um. O que Luciano busca é o retorno, é o reconhecimento de suas raízes. A conversão para ele seria como negar todo o passado, ser considerado como um judeu convertido, que inicia neste momento sua história judaica.

Novamente vemos aí questões de fé, preconceito, tolerância, aceitação. Para Luciano é importante o reconhecimento do outro, para Dona Cabocla basta ser o que ela é.

Uma ressalva para a belíssima canção cantada por Fabiane Araujo - Hatikvah no final do documentário.

Um documentário importante que revela sobre o Brasil, sua formação e sua constituição, trazendo a tona as origens de muitas práticas que são inconscientes.


Hatikvah - Esperança - Hino Nacional de Israel.

Elaine Eiger nasceu em São Paulo
Luize Valente nasceu no Rio de Janeiro 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

FILME: ARCA RUSSA - 2002


Direção: Aleksandr Sokurov - 2002 
Duração: 99 min 
Título original: Russian Ark
País: Rússia 

Um cineasta russo atual acompanhado de um diplomata do séc. XIX no ano de 1700 percorrem o museu Hermitage em São Petersburgo na Rússia. Percorrendo 35 salas do museu sem cortes eles atravessam 300 anos da história russa do séc. XVIII até o séc. XXI.



O cineasta é russo e defende seu povo, sua arte e criação, o europeu procura compreender, por que tantas obras europeias ali. Eles não sabem como foram parar ali, simplesmente caminham pelas salas e através dos acontecimentos da história. Há os grandes personagens como Nicolau I, Pedro o Grande, Catarina II, Alexandra, e as belas obras de arte que o museu possui. Termina com o último baile no palácio de inverno em 1913, depois do que tudo mudará com a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa e a Segunda Guerra. É como a arca de Noé que guarda, protege e salva do futuro todo esta passado histórico.



Um grande fantasia, mas que nos permite um vislumbre da história deste país.

O filme foi rodado em um único dia e foram utilizados mais de 3 mil figurantes.

Aleksandr Sokurov nasceu em 1951 em Oblast de Irkutsk, Rússia. Teve uma infância errante mudando para muitas cidades. Formou-se em História.


Música de Sergey Yevtushenko

Sergey Yevtushenko é um compositor russo, maestro e produtor musical. 

terça-feira, 20 de maio de 2014

FILME: GETÚLIO - 2014


Direção: João Jardim - 2014
Duração: 100 min 
Roteiro: João Jardim
País: Brasil 

Baseado em fatos reais

1954. Getúlio Vargas (Tony Ramos) está no poder pela segunda vez, desta vez eleito democraticamente pelo povo. Seu principal inimigo político é o jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges). O filme retrata a conspiração política-militar que termina com o suicídio de Vargas.



Lacerda sofre um atentado onde quem morre é o Major Vaz da Aeronáutica. Os políticos se aproveitam para fazer uma campanha forte para que ele renuncie. Tudo leva a crer que ele é o mandante do crime uma vez que foi cometido por pessoas de sua guarda pessoal. Vargas nega ter ordenado isto e está disposto a que tudo seja investigado. Ele não irá reagir como era de se esperar de quem já foi um ditador.

São os últimos 19 dias de Vargas entre o atentado e o suicídio em seu quarto sozinho. Ele já está velho, cansado, mas não quer terminar seu governo de uma forma que considera desonrosa, faz tudo para preservar seu nome. Deixa claro que não irá renunciar. Propõe uma licença enquanto os fatos são apurados o que não é aceito. Ele avisa que só levarão seu cadáver do Palácio do Catete se insistirem na renúncia e cercarem o Palácio, e cumpre sua palavra. Era 24 de Agosto. Sua filha Alzira (Drica Moraes) sempre esteve ao lado do pai em todo este processo.



O suicídio reverteu a opinião pública e gerou grande comoção no país e revolta o que obrigou Lacerda e seu grupo a deixarem o país.

Vargas foi um ditador apesar de ser muito lembrado como "pai dos pobres" principalmente por ter criado o salário mínimo, a carteira de trabalho, a Ordem dos Advogados do Brasil, a Petrobrás, estabeleceu pela primeira vez o horário verão, disciplinou o ensino superior dando preferência às Universidades, mas foi também um ditador, "rasgando" a Constituição por duas vezes. as torturas, a deportação de Olga Benário, um namoro com o Eixo para depois passar para o lado dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial.
O filme trata de seus últimos dias, quando se recusa a tomar medidas extremas para conter a tentativa de golpe que ocorria no país com o apoio de alguns militares e instigada por Carlos Lacerda e outros políticos.

João Jardim nasceu em 1964 no Rio de Janeiro. 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

FILME: A QUEDA - AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER - 2004


Direção: Oliver Hirschbiegel - 2004
Duração: 158min. 
Título original: Der Untergang 

Baseado nos livros escritos pelo historiador Joachim Fest, pela secretária pessoal de Hitler - Traudl Junge, e por Gerhardt Boldt, Ernst Günter Schenck e Siegfried Knappe. 

A secretária de Hitler (Bruno Ganz), Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) narra como se tornou secretária do führer e os seus  últimos dez dias no bunker em Berlim antes da rendição da Alemanha em 1945.



O filme retrata tanto a frieza de Hitler como seu lado esquizofrênico, seus ataques histéricos. Se por um lado é capaz de imensa cortesia, por outro toma decisões que ninguém tem coragem de contestar, mas que demonstram sua loucura.



Ele exige fidelidade cega e máxima de todos, e diz que não irá se render, que irá vencer os soviéticos que a estas alturas já estão a 12km do local. No final irá se suicidar junto com Eva Braun (Juliane Köhler). Seus restos mortais serão queimados conforme suas ordens.



Um das cenas mais difíceis é quando Joseph (Ulrich Matthes) e Magda Goebbels (Corinna Harfouch)  envenenam seus seis filhos, e uma delas percebe o que está para ocorrer. Ela quer viver, mas sua mãe não o permitirá. Em seguida os pais também cometerão suicídio.



Olivier Hirschbiegel nasceu em 1957 em Hamburgo, Alemanha. Foi o primeiro cineasta alemão a fazer um filme sobre o nazismo gerando grande polêmica na Alemanha. 



Trilha Sonora de Stephan Zacharias 

Stephan Zacharias nasceu em 1956 em Hamburgo, Alemanha. É compositor