Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo. Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
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sábado, 2 de janeiro de 2016
CINEASTAS: ALEJANDRO GONZÁLEZ IÑÁRRITU
Alejandro González Iñárritu nasceu em 15 de agosto de 1963 na Cidade do México. É um cineasta, produtor, argumentista e roteirista mexicano.
FILMOGRAFIA:
- Amores Brutos - 2000
- 11 de Setembro - 2002
- 21 Gramas - 2003 - postado no blog.
- Babel - 2006 - postado no blog
- Biutiful - 2010 - postado no blog
- Birdman ou a inesperada virtude da ignorância - 2014
- O Regresso - 2015 - postado no blog.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
FILME: O REGRESSO - 2015
Direção: Alejandro González Iñárritu - 2015
Duração: 158 min
Título Original: The Revenant
País de Origem: Estados Unidos
1822 - Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) está com um grupo de homens no oeste americano caçando para ganhar dinheiro vendendo peles. Será atacado por uma ursa que defende seus filhotes que estão na mira de Glass. Fica num estado miserável, praticamente à morte.
Como estão sendo atacados pelos índios constantemente que querem as peles para vender aos franceses, precisam ir embora, os amigos o levam até um trecho quando percebem que não é possível continuar neste passo, o deixam ali com seu filho e mais um jovem e John Fitzgeral (Tom Hardy) que se interessa apenas pelos ganhos financeiros.
Fitzgeral propõe a Glass matá-lo para que possam ir embora e com isto ele salvaria seu filho, o que ele concorda, porém quando está sendo sufocado seu filho chega e briga com Fitzgeral que acaba matando-o. Em seguida diz ao outro jovem que viu os índios e que precisam partir. Glass fica ali, sozinho.
O filme é uma longa jornada de retorno que é nutrida pelo desejo da vingança. São duas horas e meia de filme com Glass avançando pouco a pouco até o reencontro com Fitzgeral onde ocorre uma verdadeira carnificina.
O interessante é que no meio destes homens rudes, quase que sem alma, surge a fala sobre Deus por duas vezes. A primeira é Fitzgeral que fala sobre seu pai de quando ele encontrou Deus e a segunda no final quando Glass se dá conta que a vingança é algo para Deus.
O filme que nos mostra uma cena de horror quando Glass é atacado pela ursa demonstra claramente que o selvagem mesmo é o ser humano, inclusive através de uma placa deixada num índio enforcado com os dizeres: nós também somos selvagens.
Iñárritu sempre trabalha filmes densos e nos mostra o pior do ser humano mesclado com algo de bom. O ser humano diante da morte, do real, do medo, da vingança, do ódio. A tentativa de ser bom por orgulho e vaidade. DiCaprio está brilhante na atuação, ele passa praticamente o filme todo falando através dos olhos e de expressões faciais. O silêncio impera no filme, a natureza e o homem no meio dela.
Alejandro González Iñárritu
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
FILME: BABEL - 2006
Diretor: Alejandro González-Iñárritu - 2006
Duração: 142 min
País: Estados Unidos - México - França
Roteiro: Guillermo Arriaga
Babel é um filme denso e extremamente atual que pode ser visto sob várias perspectivas. Um ônibus com turistas travessa uma região do Marrocos, nele estão Richard (Brad Pitt) e sua esposa Susan (Cate Blanchett), um casal de americanos, e outros europeus. Eles fazem esta viagem numa tentativa de reconciliação. No alto das montanhas estão dois garotos, Ahmed e Youssef que são pastores de cabras. Eles acabam de ganhar um rifle do pai para proteger os animais dos chacais. Eles competem entre si para ser o melhor atirador e duvidam do alcance do tiro da arma, para tirar a dúvida atiram primeiro contra um carro que passa na estrada, não acerta, e depois contra o ônibus. Susan é atingida.
Os filhos de Richard e Susan ficaram nos Estados Unidos aos cuidados de Amélia ( Adriana Barraza) que é a babá dos dois desde pequenos. Ocorre que é o dia do casamento de seu filho e não há ninguém para cuidar das crianças. Richard lhe diz que sente muito, mas que ela não poderá ir. Amélia porém não quer deixar de ir ao casamento que é numa cidade no México, e decide levar as crianças junto. Seu sobrinho Santiago (Gael García Bernal) vem buscá-la de carro.
No Japão um homem tenta superar a morte trágica de sua esposa que se suicidou e ajudar sua filha (Rinko Kinkuchi) que foi a primeira a encontrar a mãe e é surda. Ela é jovem, e vive a adolescência com toda a efervescência da sexualidade.
Partindo deste roteiro estas vidas irão se entrecruzar de alguma maneira, e o tiro dado nas distantes montanhas do Marrocos de alguma maneira afetará a todos. O interessante é que isto nos leva a pensar justamente no fato de vivermos num mundo global, onde algo que ocorre num lugar distante afeta a vários outros lugares e pessoas, mas o paradoxo é que se por uma lado tudo parece ligado e próximo, o isolamento é cada vez maior. Podemos também ver a história em dois planos familiares, dos pais e dos filhos. O casal americano que tenta se reconciliar no Marrocos e seus filhos que estão nos Estados Unidos e que com a babá irão para o México. O japonês que deu a arma a um guia marroquino que é o pai da jovem que é surda, e a família marroquina e seus filhos de onde parte o tiro inicial da trama.
Há também todos os aspectos culturais e do medo do estranho e os preconceitos. Aqui também novamente vemos também a falta de comunicação em função seja de ideias preconcebidas em relação ao outro ou pela própria língua falada, onde quando um marroquino fala a um americano, não há muita diferença da surdez da jovem em Tóquio.
O comportamento dos europeus no Marrocos e do casal americano. Eles sentem medo das pessoas, se sentem em perigo na aldeia marroquina, estranham tudo e querem ir embora. Susan antes de ser atingida tem um gesto com o gelo quando almoçam jogando fora, dizendo que não se sabe de onde vem a água. Já os Marroquinos estão curiosos com o que está acontecendo, é uma vila do interior, algo de diferente está ocorrendo. Eles são prestativos, mas com sua aproximação assustam ao estrangeiro. Porém serão eles que serão solidários com Richard e seu drama, pois os europeus irão embora com o ônibus abandonando-os a sua sorte. O guia marroquino fará de tudo que for possível para ajudar e eles serão acolhidos na casa dele.
Nos Estados Unidos o sobrinho de Amélia não se agrada dela levar as crianças, mas aceita. O menino diz que sua mãe lhe falou que o México é perigoso. Mas apesar do receio inicial, dos sustos, como crianças, acabam brincando com as outras crianças e se divertem muito na festa de casamento. O problema é na volta, quando o sobrinho embriagado cria confusão na alfandega diante da desconfiança do policial que ali está. Aqui vemos nitidamente os dois lados, o policial que desconfia dos mexicanos e os considera de alguma maneira um problema, e o mexicano que por saber que são vistos assim não é nada simpático e inclusive um tanto revoltado. Ele fura a barreira e se dá início uma perseguição que o levará a abandonar a tia e as crianças em pleno deserto. Amélia tenta encontrar ajuda, mas é presa. Apesar disto as crianças são encontradas, mas afastadas do perigo chamado Amélia, que ao ver da polícia é perigosa para elas, justo ela que as criou desde pequenas. O resultado é sua deportação para o México. A lei é fria e não leva em conta nada, as relações humanas que existiam ali, os 16 anos de vida de Amélia nos Estados Unidos, tudo isto é desconsiderado.
Os meninos marroquinos logo no início percebemos a rivalidade dos irmãos e que se acentua quando o pai designa o menor para dar o primeiro tiro o que faz com que o mais velho reaja. Ele pode dar o primeiro tiro, mas erra e isto é comentado. Youssef também observa a irmã se trocando, e depois acaba se masturbando nas montanhas. É esta rivalidade que irá levar ao tiro que dá início ao que ocorre no filme, é o gatilho. Youssef ainda é uma criança, mas que já se interessa por seu corpo e pelo o que sente. Seu irmão que é mais velho se contém, mas provavelmente também desejaria ver a irmã nua, que por sua vez é conivente com o irmão. Isto virá a tona quando o pai descobrir o que eles fizeram e que foram responsáveis pelo tiro, e ao inquiri-los Ahmed falará tudo, inclusive sobre isto, onde percebemos a raiva e a inveja que sentia de seu irmão mais novo e entregando-o se ilude ao acreditar que agora será o bom filho amado.
O tiro irá se transformar num atentado terrorista, principalmente com o incentivo da imprensa. De um acidente, de uma rivalidade entre irmãos que acabam cometendo um grande erro, chegamos ao terrorismo, e a polícia procura os terroristas. Um absurdo neste contexto, mas que demonstra a paranoia que é muito atual em relação ao outro, e principalmente do Ocidente em relação aos muçulmanos confundindo pessoas que tem uma religião com pessoas desta mesma religião, mas que são terroristas.
Enquanto isto a jovem no Japão se defronta com suas questões de sexualidade, ela tem dificuldades em lidar com isto, e acaba apelando para formas simbólicas ou gestuais para sinalizar seu desejo, de uma forma errônea, sem saber como agir. Como isto é recebido ou com risadas ou com rejeição ela se sente cada vez mais só em seu mundo. Ela tenta chamar a atenção, ser desejada, ser amada. Apesar de seu pai tentar ajudá-la há uma distância entre eles, primeiramente a típica de jovens em relação aos pais, mas também há uma frieza, uma falta de afetos, de aproximação maior, até que finalmente diante de algo que talvez desperte em seu pai um medo do suicídio, ele se rende a abraçá-la com amor.
Poderíamos questionar o que leva um pai a dar uma arma a duas crianças? Ali trata-se de um ritual masculinizante, e para proteger o rebanho, matar os chacais que atacam as cabras. Mas a imaturidade dos dois os leva a competir entre si para dar tiros. A jovem no Japão apesar de surda tem um grupo, ela é inserida socialmente, mas lhe falta a mãe e outra mulher mais velha para lhe servir de espelho em sua feminilidade e como atuar com ela. Eles vivem num belíssimo apartamento com conforto, mas este espaço é frio e silencioso.
Há também a questão do enfoque do filme. Em alguns momentos senti que o Marrocos e o México estariam sendo enfocados por um ângulo de muita pobreza, promiscuidade, como por exemplo, alimentos cheio de moscas em cima, mas se pararmos para analisar o filme veremos que o enfoque do europeu e dos americanos nos mostra uma suposta demonstração de superioridade , que estão amedrontados, são preconceituosos, tentando preservar-se longe de tudo que eles consideram uma civilização inferior, mas são tão sozinhos e desamparados quanto os outros. O Japão e sua bela cidade moderna, belos apartamentos, e a solidão, o vazio das vidas. Já o Marrocos com sua aparência de pobreza, não se esquecendo que as vilas de montanhas são assim, nos mostra um povo muito mais caloroso e hospitaleiro. Assim como os mexicanos e toda sua festa em torno do casamento. Como poderia uma mãe mexicana deixar de ir ao casamento de seu filho? A cena que mais me tocou foi quando Richard ao ir embora abre a carteira e retira dinheiro para pagar ao guia, que por sua vez recusa. Há uma incapacidade do americano em ver no outro alguém que foi solidário e que o acolheu em seu momento de dor e dificuldade, é como se ele considerasse que o outro lhe prestava um serviço e que teria que ser pago, e com isto também não há uma dádiva ali, mas ele quitaria sua dívida pagando.
Também me chama a atenção que apesar de Richard não dar queixa de Amélia, em momento algum ele se dispõe a defendê-la perante as autoridades levando em conta que ela estava com eles desde que seus filhos eram pequenos. O que vejo é a repetição do ato com o guia, ela era paga, ele não devia nada à ela. E por um lado não deixa de ser correto, é um trabalho, mas por outro me pergunto se caso fosse uma pessoa americana se ele não agiria de outra forma. De qualquer maneira talvez o fato de não dar queixa já seja uma maneira de demonstrar que ele aprendeu algo com tudo que ocorreu, seja o possível para ele dentro da cultura que vive.
Também me chama a atenção que apesar de Richard não dar queixa de Amélia, em momento algum ele se dispõe a defendê-la perante as autoridades levando em conta que ela estava com eles desde que seus filhos eram pequenos. O que vejo é a repetição do ato com o guia, ela era paga, ele não devia nada à ela. E por um lado não deixa de ser correto, é um trabalho, mas por outro me pergunto se caso fosse uma pessoa americana se ele não agiria de outra forma. De qualquer maneira talvez o fato de não dar queixa já seja uma maneira de demonstrar que ele aprendeu algo com tudo que ocorreu, seja o possível para ele dentro da cultura que vive.
Ao final o que vemos são acontecimentos da vida, não há nenhum terrorismo, nenhum sequestro de crianças, nenhum tráfego de drogas nem de armas, exceto os criados pela mente humana dentro de seus preconceitos, medos, intolerância ao outro, dificuldades em lidar com o diferente, e a arrogância de alguns de se considerarem superiores ao outro e os efeitos que isto provoca. E é muito válida a crítica à imprensa que sempre sensacionaliza tudo, apelando para estes jargões e deduzindo em tudo um ato terrorista.
Alejandro González Iñárritu nasceu em 1963 na Cidade do México, México.
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domingo, 29 de março de 2015
FILME: 21 GRAMAS - 2003
Direção: Alejandro González Inárritu - 2003
Duração: 124 min
Título Original: 21 Grams
O filme é fragmentado de uma forma que passado, presente e futuro se interpõem com uma aparência de intemporal nos deixando um pouco perdidos no começo do filme com vários personagens e pequenos trechos sobre cada um. Vemos Paul (Sean Penn) com Mary sua mulher (Charlotte Gainsbourg) vivendo uma questão de doença terminal dele e o desejo dela de ter um filho, vemos Jack (Benicio Del Toro) tentando converter um jovem que está no caminho da marginalidade com frases sobre Jesus, e vemos a felicidade de Cristina (Naomi Watts) com seu casamento e suas duas filhas pequenas.
Estes três protagonistas - Paul, Jack e Cristina só se aproximarão em função de uma acidente e de três mortes. A partir daí cada um deles se verá diante do amor, da vingança, da dor, e da possibilidade de redenção. O título significa 21 gramas é o peso que uma pessoa perde no momento da morte, e é o peso carregado pelos que sobrevivem.
Tudo converge para o acidente, justamente a única coisa que não aparece no filme, que não temos acesso é o real do filme, como se não fosse possível falar dele, como se ele fosse recalcado no filme, mas não nas pessoas que se viram envolvidas por ele e que a partir disto tem suas vidas alteradas e determinadas por este fato.
O interessante do filme é que ele nos mostra primeiro o desfecho o que nos leva a tentar compreender o que levou à isto. Os fragmentos do filme também não tem sentido quando aparecem dispersos adquirindo somente uma lógica quando juntamos os pedaços, o que me remete ao significante que é uma rede e que sozinho não quer dizer nada, somente após se juntar a outro significante é que começa a linguagem, a lógica do que quer dizer. Aos poucos vamos construindo junto com o filme a história, com os pedaços que surgem, com o desenrolar, juntando então o que vimos como o desfecho com algo que aconteceu muito antes e mesmo já tendo sido mostrado ainda não conseguíamos unir.
Gostei muito do filme, ele possibilita uma bela visualização de como nos constituímos com os fragmentos de nossa história, da história de nossos familiares, com o que nos aconteceu e que esquecemos, e como alguns fatos que pertencem a outro vem se somar a nossa história.
Alejandro González Inárritu
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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
FILME: BIUTIFUL - 2010
Direção: Alejandro González Inárritu - 2010
Duração: 147 min
Roteiro: Alejandro Gonzáles Inárritu , Nicolás Giacobone e Armando Bo
País: Espanha e México
Prêmio de melhor ator para Javier Bardem no Festival de Cannes 2010
É um filme que mostra a cidade do outro lado do espelho
reluzente que todos adoram ver, principalmente Barcelona. O lado considerado
negro por alguns e criminoso, marginal por outros, mas alto lá, o que o filme
mostra é a realidade, a vida de milhares de pessoas é assim em muitas cidades.
Para os que não se atrevem a chegar perto deste lado de uma cidade, é pavoroso,
é crime e haverá muitas críticas. Imigrantes, o que vieram fazer aqui? Esquecem
que no país deles há fome, guerra, falta de trabalho, e que são seres humanos e
a terra lhes pertence tanto quanto.
Ao saber que vai morrer, Uxbal ( Javier Bardem) parece que continua com sua vida sem
que isto se faça presente. Pode-se dizer que é o véu que temos para a morte. Só quando caímos e o corpo não reage mais a morte se faz
presente para si mesmo. Enquanto ainda podemos comer, caminhar, falar...
Ele vive no meio da miséria, onde todos lutam para
sobreviver, imigrados presos num porão, que trabalham por uma miséria explorados
por outros de seu país. O filme é escuro, não há alegria, festas cheias de droga
e sexo, bebida. A mulher dele Marambra (Maricel Álvarez) é doente, e no final é internada novamente.
Prostituição, corrupção.
Que vazio de palavras, de ouvir, de procurar ver o lado
do outro, mas ao mesmo tempo ele tenta ajudar os outros, dentro do sistema em
que vivem. Pode-se dizer que ele também explora, mas se arrisca junto, apesar de
que ganha mais. Ali todos sabem o risco que correm ao vender produtos de
contrabando. Não são bandidos, são seres humanos lutando para sobreviver, num
mundo onde não conseguem um bom trabalho, um bom lugar para morar. Somente uma
vez aparece a catedral de Barcelona em meio às brumas. Ela não pertence a este
mundo. Temos uma Barcelona feia, triste, suja, com sofrimento. Tão diferente
daquela que se vende ao mundo, aos turistas e aos que podem morar e viver nela
em outros locais.
Mas temos Ige, acho que é assim seu nome, que ao final
volta, poderia ter ido embora, e volta, vem cuidar dos filhos dele. Ela tinha
dinheiro e poderia ter seguido seu caminho, mas como lidar com a culpa deste
dinheiro. Seria suficiente a raiva que ela sentia dele, por culpá-lo de seu
marido ter sido preso? Mas ele avisou, mas eles tinham alternativa, era só lá
que vendia?
A mãe deixa o filho de castigo. Este castigo é para o
filho ou para ele? Que não foi e não disse por que. Que não lhe contou que
estava morrendo de câncer? que não confiou nela. Que voltou para ela quando
precisava dela, mas não moveu um dedo para reatar com ela. Ele queria ficar em
paz para ter com quem deixar as crianças. Ninguém dá muita atenção a este
menino, logo no começo ele fala ao pai que nem o ouve, sobre a roupa do
astronauta. A filha tem que assumir um lugar que não é o dela. O anel que lhe
passa ao dedo.
E a morte. Ele sabe que vai morrer, será que tenta então
melhorar algumas coisas para os outros para se sentir melhor? E compra aqueles
aquecedores que quando vi entrando naquele porão adivinhei na hora o que iria
ocorrer. Ele escolheu os mais baratos, para ficar com dinheiro, para deixar aos
filhos. E seus filhos teriam ficado sem nada se Ige não volta. Iriam ficar
sozinhos, a mãe internada, o pai morto. Igual a ele? que também perdeu o pai e a
mãe? Pede a filha que nunca esqueça seu rosto. O rosto que ele precisou ver na
exumação do corpo do pai. Um pai que não tinha rosto e passa a ter.
O filme é a vida, o que ela é, sem enfeites, sem
colorido, não há final feliz. O final é a morte. Sim, poderia haver uma certa
alegria ali, mesmo com todas as dificuldades, mas só quem vive nesta situação
sabe o quanto é difícil ser alegre e contente vivendo assim. Só tem duas cenas
de alegria: Ana, sua filha, sorrindo para um bebê. O primeiro morre asfixiado, o
segundo, é o filho de Ige. Não há prazer, pois até a viagem que era para ser
algo alegre, prazeroso, perde seu encanto, quando ele não vai e a mãe deixa o
filho. Não é mais a Disneylandia que a mãe desejava. Um mundo de sonho.
Vidas onde não há o desejo, onde não há a paixão e o
amor, nem mesmo na declaração de amor que ele fez a ela, quando conta aos
filhos, e diz que ele enfiou o dedo no nariz dela. O desejo existe, mas não se
realiza. E é a vida da maioria das pessoas.
O filme começa e termina no pós morte. O pai jovem, que
o encontra, vai buscá-lo quando ele morre. Nem mesmo aí temos o paraíso. Mas
temos uma coruja que expele uma bola de pelos, aquela, que nós carregamos dentro
de nós a vida toda. E então ele pergunta: o que temos lá? precisamos morrer para
saber.
Ele que passou a vida com medo do fundo, do escuro, da
morte, e falava com os mortos, se encontra com ela, como todos nós, pois a morte
está na vida e a vida na morte. Viver é beautiful, mas a vida não é beautiful, é
no máximo, biautiful, uma aproximação, uma tentativa, de acertar.
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