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segunda-feira, 6 de julho de 2015

FILME: THE SEARCH - 2014


Direção: Michel Hazanavicius - 2014
Duração: 134 min
País: França e Georgia

Indicado ao Festival de Cannes 2014 como longa-metragem

Um filme que nos toca profundamente. 

A Segunda Guerra da Chechênia começou em 1999 após vários ataques terroristas dos rebeldes chechênios à Rússia. A questão é que o novo primeiro-ministro Vladimir Putin que liderou a ofensiva apresentou esta guerra ao mundo como uma represália contra terroristas, mas o que realmente ocorreu foi um massacre da população civil. 

O filme nos mostra por um lado este massacre, a fuga da população, as mortes, destruição de suas casas, o desespero e de outro como a Rússia instigava o ódio em seus jovens soldados para que acabassem se tornando máquinas mortíferas contra o ser humano. Ao final do filme tudo se cruza. 

Iniciamos com alguém filmando uma cidade que havia acabado de ser massacrada. Os soldados russos estão provocando um casal alegando que são terroristas, e acabam matando-os sorrindo para a câmera dizendo que foi uma operação anti-terrorista bem sucedida. A filha mais velha sobrevive, e dentro da casa está Hadji (Abdul-Khalim Mamatsuevi) um garoto de 09 anos que tem nos braços seu irmãozinho, um bebê. O soldado russo ouve o choro e caminha para lá. Inicia-se o filme com ele entrando na casa, mas o garoto se escondeu e ele não matou o bebê. O menino viu pela janela quando seus pais foram mortos. Ao ficar sozinho na casa e na cidade ele pega o bebê e parte. No caminho ele deixará o bebê na frente de uma casa e se esconderá até que ele seja recolhido. Ele não tinha como alimentar ou cuidar de seu irmão. Mais a frente ele será recolhido por um caminhão que leva refugiados e desta forma chegará a uma cidade na fronteira. 



Em outro local bem longe dali um jovem (Maxim Emelianov) com um violão nas costas aguarda seu amigo que está comprando uma coca-cola. A polícia chega, o jovem joga seu baseado no chão, mas eles viram e acabam encontrando fumo em seu bolso. É preso e o delegado prefere enviá-lo para o exército ao invés da cadeia. Começa a odisseia do ódio deste jovem. 


Carole (Bérénice Bejo) trabalha para  a União Europeia para os direitos humanos e está no local para fazer um relatório. Helen (Annette Bening) trabalha no centro de refugiados atendendo principalmente as crianças que perderam sua família e pais. É para onde levam Hadji, mas ao ver os guardas armados ele se apavora e foge. Carol irá encontrá-lo mais tarde e lhe oferecerá algo para comer, ele irá aceitar ir com ela. A criança está traumatizada, não fala. O seu olhar é de uma dor profunda.Aos poucos Carol conseguirá vencer um pouco esta barreira até o dia em que ele contará para ela o que aconteceu. Enquanto isso Raissa, a irmã de Hadji os procura desesperadamente. Ela irá encontrar primeiramente o bebê e depois irá trabalhar com Helen, mas ela não sabe que Hadji está com Carol. 

A tristeza da guerra vista pelo lado da população civil com todas as atrocidades que se comete, e no caso do lado Russo também visto o que fizeram com o jovem preso, de como um jovem que tocava violão acaba se transformando naqueles que cometem as atrocidades contra a população com crueldade e prazer. O interessante do filme é que justamente se mostra os dois lados, de como as coisas acontecem e quais suas consequências. 


Michel Hazanavinicius nasceu em 1967 em Paris, França 

domingo, 14 de junho de 2015

FILME: LA VALLÉE DES LARMES - 2012


Direção: Maryanne Zéhil - 2012
Duração: 95 min
País de Origem: Canadá
Filmado no Canadá e Líbano

Marie Simard (Nathalie Coupal) é uma editora que vive em Québec. Ela passa a receber diariamente envelopes que são deixados embaixo da porta da editora de alguém que conta sua história do que aconteceu no Líbano, os massacres que assistiu inclusive de sua família em dois campos de refugiados palestinos - Sabra e Chatila. Ela logo vai descobrir que quem lhe envia os envelopes é Joseph (Joseph Antaki) , um pintor que trabalha na editora. Ela quer publicar o testemunho, mas algo acontece que a faz ir pessoalmente ao Líbano para poder compreender finalmente esta história. 

Por outro lado Marie também vive um momento difícil, sua mãe está em coma no hospital. Ela tem uma mágoa profunda e não consegue perdoá-la. Quando jovem a mãe a fez abortar o filho de um namorado e ela acabou estéril o que mais tarde destruiu seu casamento com um homem que ela amava por não poder ter filhos. Há um jogo aqui, pois se realmente o marido a amasse não a teria deixado por outra mais jovem que lhe deu filhos, mas é assim que ele a responsabiliza pelo fim do casamento e ela aceita. Marie bebe muito para esquecer. 

Joseph aceita trabalhar com Marie para a publicação de seu testemunho, aos poucos vamos vendo o passado dele, o massacre, a morte de deu pai e irmãos por cristãos vizinhos, a fuga dele, da mãe e uma irmã até se esconderem num convento que os acolheu. Mas há algo que Joseph não pode contar. É o final desta história que irá se produzir a seguir quando Joseph efetua a vingança pedida pela sua mãe e mata os assassinos de sua família que agora também vivem no Canadá. É após isto que Marie parte para o Líbano, para compreender este ato. 

Lá os cristãos mortos por Joseph são considerados mártires. Suas fotos estão nas paredes. Marie vai até o convento onde a freira lhe conta a história do que se passou anos atrás com mais detalhes. Finalmente Marie vai procurar a mãe de Joseph e será dela que ouvirá que se trata de vingança para manter a honra e a dignidade de sua família e de seu povo. 

Ao retornar para Québec há um último envelope de Joseph. Ele então relata seu ato, mas deixa uma mensagem de esperança e perdão. Diz que o fez para que ocorra uma ruptura neste círculo de vinganças, para que seus filhos não precisem matar ninguém e possam ser felizes. Joseph se suicidou. 

A questão que o filme também enfoca, mas de forma infelizmente superficial é a questão da Mãe. A de Marie que lhe impôs um aborto se colocando como responsável por sua fertilidade e feminilidade, a de Joseph o instrumento da vingança que obriga o filho a cumpri-la.  

O filme me lembrou outro - Abril Despedaçado - onde sempre há a vingança e se espera por ela, que ocorre no Nordeste Brasileiro, mas também a mensagem do amor, de encerrar o círculo como neste filme quando Rodrigo Santoro o ator do filme toma um caminho diferente e no filme Incêndios, também  no Líbano, quando a mãe escreve as duas cartas. 

É um belo filme, mas menos profundo e intenso do que estes dois que acabo de citar, mas vale a pena assistir. 

Maryanne Zédhil nasceu em Beirute, Líbano

quarta-feira, 3 de junho de 2015

FILME: REPÓRTERES DE GUERRA - 2010



Direção: Steven Silver - 2010
Duração: 106 min
Título Original: The bang bang club
País de Origem: Canadá e África do Sul 

Baseado no livro The Bang Bang Club escrito por Marinovich e João Silva. 

Um filme que nos mostra a realidade dos repórteres de guerra. Baseado em fatos reais, é a história de um grupo conhecido como Bang Bang Club, formado por Greg Marinovich (Ryan Phillipe), João Silva ( Neels Van Jaarsveld), Kevin Carter (Taylor Kitsch) e Ken Oosterbroek (Frank Rautenbach). 

O grupo se formou na África do Sul, juntos para maior segurança, mas também unidos pela amizade, eles arriscam suas vidas para contar ao mundo toda a violência, brutalidade, fome, horrores que acontecem ao nosso redor. São as primeiras eleições livres da África do Sul após o fim do regime de Apartheid e a violência étnica impera. Greg ganhou um Pulitzer por suas fotos do confronto, mas o preço que pagaram foi muito alto. 

Foto de Greg Marinovich que ganhou o Pulitzer em 1991, um assassinato brutal cometido por apoiadores do Congresso Nacional Africano a um homem que acreditavam ser um espião do Partido da Liberdade Inkatha. 

Estes repórteres são obcecados por tirar suas fotos, mas o preço emocional, psíquico, psicológico que pagam é extremamente alto. Eles tiram fotos, mas não interveem, não fazem nada. 

Greg Marinovich 

A noite eles tentam se divertir, bebem, mulheres, tentam apagar as imagens, mas não é possível. A questão ética se impõe, a consciência cobra seu preço. Eles reagem dizendo que tiram as fotos para que elas sejam divulgadas e desta forma algo aconteça para mudar. Mas não é o que acontece. 

Kevin Carter se drogava para suportar. Ao ser afastado do conflito na África partindo para o Sudão, ele tira uma das fotos mais famosas no mundo, mas que foi o seu fim. Ele suicidou-se um tempo depois por não suportar as perguntas, ele foi cobrado por não ter feito nada pela menina, exceto espantar o abutre. E somado a isto ainda houve a morte de Ken Oosterbroek. 

Foto de Kevin Carter que ganhou o Pulitzer

Ken Oosterbroek foi atingido por um tiro durante as últimas manifestações antes da eleição. Ele morreu no local. Gren também foi atingido, mas sobreviveu. 

Ken Oosterbroek 

João da Silva continuou fotografando, em outubro de 2010 ficou gravemente ferido num acidente com uma mina no sul do Afeganistão e teve suas duas pernas amputadas, mas ele voltou a fotografar.

João da Silva 

Steven Silver 

terça-feira, 26 de maio de 2015

DOCUMENTÁRIO: CONGO RIVER - 2006


Direção: Thierry Michel - 2006
Duração: 116 min

Produção Franco-belga

Seguindo os passos do explorador Stanley o documentário segue da foz do rio à fonte. Percorrendo seus 4.371 km passando pelos lugares que são os testemunhos da história tumultuosa do país, desde a colonização belga até os dias atuais e a guerra civil com o terror dos estupros perpetuados contra as mulheres. Seguindo a margem do rio vamos encontrando este povo e sua história, suas alegrias e sofrimentos, as festas, os rituais, os dramas que fazem parte da vida dos pescadores, comerciantes, viajantes, militares, rebeldes, crianças-soldados, os mai-mai, as mulheres violentadas. Um povo que busca recomeçar e recuperar sua dignidade. 

Este rio é o principal meio de comunicação e locomoção da República Democrática do Congo uma vez que devido as guerras civis a floresta se apossou novamente das estradas e cobriu os trilhos dos trens, herança do tempo da colonização belga. A medida que avançamos pelo rio, inicialmente a bordo de uma barcaça que leva o povo, animais, carga, todos alojados em cima de um pontilhão, cada um armando uma cobertura de plástico, lona, cozinhando ali, dormindo ali, vamos também tendo uma retrospectiva do período da colonização, seja em imagens em preto e branco ou através das ruínas do que ficou ali abandonado, como uma universidade botânica, palácios, barcos. Seguimos pelo rio de Kinshasa até Mbandaka por 1700 km, depois é preciso fazer um trecho por terra pois o rio se torna rápido demais e com pedras e cachoeiras, para então chegar a Kisangani e lugares devastados pelos longos anos de guerras. 

Pessoalmente não tinha muito conhecimento sobre o país exceto pelas notícias de violência contra as mulheres e sobre a colonização belga. É interessante ver a influência da catequização cristã dos colonizadores misturado aos rituais locais, até mesmo uma missa em uma igreja rezada por um bispo onde ele invoca a todos para abandonarem seus antigos rituais, no final o que vemos é uma canção ao som de tambores e o ritmo de dança tipicamente africano. 

Sobre a guerra o herói Mai Mais encontra na bíblia as justificações para tudo que fez, e eles acreditam que estão protegidos pela água para lutar, e citam a bíblia sobre isto, mas são capazes de imensa crueldade, como violentar crianças, mulheres, não por necessidade ou prazer, mas para destruir. 

É sempre interessante e instrutivo conhecer outros povos e sua cultura. Vemos apesar de tudo pelo que este povo passou uma alegria, principalmente eles adoram dançar e cantar. Lembrei-me do livro O Sagrado e o feminino de Cathérine Clément, já postado aqui no blog, sobre a questão das cerimônias religiosas, mesmo cristãs, e que as mulheres entram em transe. No filme vemos isto. Há tristeza também, crianças pequenas trabalhando, a falta de ajuda externa que faz com que este povo ele mesmo tente recuperar seu país da forma mais arcaica, braçal, mas acreditando nisto. 

É a história de um povo e de seu país, para os quais o Rio Congo é de suma importância. 

Thierry Michel nasceu em 1952 em Charleroi, Bélgica. 

domingo, 24 de maio de 2015

FILME: UM HOMEM QUE GRITA - 2010


Direção: Mahamat-Saleh Haroun - 2010
Duração: 90 min
Título Original: Un Homme qui crie

País de origem: Chade

Ganhou o Prêmio do Jurí em Cannes. 

Adam (Youssouf Djaoro) é um ex-campeão de natação e há 30 anos trabalha na piscina de um hotel de luxo na capital do Chade - Djamena, na África. O hotel acaba de ser comprado por chineses e a administração começa a agir de uma maneira diferente, onde antes contava os laços, o tempo, a dedicação, agora é uma questão prática. Primeiro é o cozinheiro que é demitido, ele que sempre cozinhou com amor, e não seguindo cardápios ou receitas sofisticadas. E Adam tem que ceder o lugar ao seu filho Abdel (Diouc Koma) e assumir o lugar de porteiro, uma situação que o fere e incomoda, pois ele considera um declínio social, ele que acreditava que seu lugar de guardião da piscina era um direito divino, principalmente por merecimento pois ele foi campeão de natação e é chamado por todos de campeão. 

O país está passando por uma guerra civil, com rebeldes ameaçando o governo, e a população precisa ajudar o governo, com dinheiro ou enviando seus filhos para lutar pelo país. Adam não tem o dinheiro e passa a viver o dilema de enviar seu filho para a guerra, sendo que é pressionado pelo líder do bairro que acaba lhe dando três dias para decidir. 

Um paralelo entre a vida de Adam e do país, que vai aos poucos perdendo toda sua beleza, tudo aquilo em que se acredita, seus rituais, suas tradições. Adam acaba entregando o filho e passa a sofrer com sua consciência, mas não conta a ninguém o que fez. Ele reassume o lugar na piscina até o dia em que a guerra chega mais perto e todos começam a fugir. A namorada de Abdel havia procurado a família, está grávida. E somente à ela Adam acaba contando o que fez. Ele então parte para buscar o filho. 

Os conflitos de Adam começam no dia que é "expulso" da piscina, seu paraíso. Até ali ele está indiferente à guerra, aos aviões que lhe passam por cima da cabeça. Ao falar com o cozinheiro demitido eles reconhecem que "nosso problema é que colocamos nosso destino na mão de Deus". Começa o desabrochar político de Adam. 

O filme é africano, e portanto não tem um enfoque ocidental. Apesar da questão do destino nas mãos de Deus ser uma referência à catequização imposta, eles não jogam a culpa sobre os colonizadores franceses. Para eles é o homem quem é o responsável por sua vida. 

O Chade vive em guerras civis e pobreza perene, mas segundo o diretor Haroum seu povo sabe que a guerra não é um ato de cima, mas uma criação dos homens.


Mahamat-Saleh Haroun nasceu em Abéché, Chade. Vive na França desde 1982.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

FILME: TANGERINES - 2013



Direção: Zaza Urushadze - 2013
Duração: 87 min
Título Original: Mandariinid

País de Origem: Geórgia

Um filme sensível sobre a guerra onde a humanidade ainda se faz presente através de Ivo (Lembit Ulfsak). É a guerra na Abcásia, 1992, que quer se tornar independente da Geórgia. Os estonianos deixaram a aldeia, mas Ivo e Margus (Elmo Nüganen) ficam. O primeiro por motivos pessoais que iremos compreender no final do filme e Margus para cuidar de sua plantação de tangerinas. Os dois são amigos, e Ivo faz as caixas de madeira para Margus colocar as tangerinas. Estão com um problema pois não encontram ninguém para ajudar na colheita.





Ahmed (Giorgi Nakashidze) aparece na casa de Ivo com seu companheiro, ele é um mercenário que está lutando por dinheiro. Depois de pegar comida vai embora. Logo em seguida vai haver um ataque na porta da casa de Margus e Ahmed está ferido, os outros estão mortos. Ivo o leva para sua casa para tratá-lo e com Margus vão enterrar os outros, porém descobrem que há mais um sobrevivente, Niko (Misha Meskhi), um georgiano, que está gravemente ferido na cabeça. Ivo também o socorre.



A partir daí serão os quatro, sendo que Ahmed jura que vai matar Niko para vingar a morte de seu amigo, mas acaba dando sua palavra de honra que não o fará na casa de Ivo. São quatro pessoas de diferentes nacionalidades, religião, idade, cada um com sua visão de mundo que terão que conviver ali. Aos poucos as questões surgem, por que lutam? que direito eles tem de matar? trazendo a tona o absurdo da guerra onde as pessoas se tornam inimigas, se odeiam, muitas vezes sem motivo algum, e que se não fosse a guerra poderiam inclusive ser bons amigos. É disto que o filme trata.



Zaza Urushadze nasceu em 1965 na Geórgia. 

terça-feira, 24 de março de 2015

TEATRO: INCÊNDIOS



Direção: Aderbal Freire-Filho - 2013
De: Wajdi Mouawad


Recentemente assisti ao filme de Denis Villeneuve e considerei um dos melhores filmes que vi em 2014. Agora tive o privilégio de assistir a peça de teatro sob a direção de Aderbal Freire-Filho com Marieta Severo no papel de Navval.

Incêndios faz parte de uma tetralogia - Sangue das Promessas composta por Litoral, Floresta, Incêndios e Céus. Infelizmente não localizei no Brasil as outras três partes. 

A peça pode ser considerada por três aspectos: pelo viés da história de Navval (Marieta Severo) e sua vida à qual ela tenta dar um sentido , pelo viés dos gêmeos, Simon ( Felipe de Carolis) e Jeanne (Keli Freitas) que partem em busca de sua origem após receberem cada um uma carta de sua mãe para ser entregue ao pai e ao irmão do tabelião Hermile Lebel ( Márcio Vito) , ou ainda pelo viés da história da guerra civil no Líbano, onde teríamos uma história de resistência. 

A peça foca pouco no aspecto do conflito religioso da guerra civil do Líbano se atendo mais a Navval e seus filhos. Um drama, uma tragédia que é universal pois poderia ocorrer em qualquer lugar ou contexto, não necessariamente uma guerra civil, um contexto com violência, mas que não deixa de mostrar o que uma guerra pode provocar. A história seria outra sem o conflito que gerou ódios e mortes. Talvez Navval tivesse podido viver seu grande amor e criar seu filho, e sua vida teria tido um suposto sentido, mas como em toda tragédia, desde os gregos, não é assim que se passa. 

"AQUELE QUE TENTA ENCONTRAR SUAS ORIGENS É COMO O ANDARILHO NO MEIO DO DESERTO QUE ESPERA ENCONTRAR, ATRÁS DE CADA DUNA, UMA CIDADE. MAS CADA DUNA ESCONDE UMA OUTRA E NÃO SE TEM POR ONDE ESCAPAR." Vvajdi Mouavvad

Buscar as origens, buscar quem eu sou? Navval diz várias vezes durante a peça: a infância é uma faca enfiada na garganta." Como tirá-la sem abrir uma ferida que não irá parar de sangrar? 
O silêncio. Navval ficou durante 05 anos em silêncio. Por que? o que a calou? o indizível, o inefável. Ela deixa aos filhos a missão de descobrir o que não pode ser revelado e depois com isto poder ser falado. Mas será? Simon que criticou tanto o silêncio da mãe, se vê silenciado ao final. Está sem palavras. Talvez somente o teatro seja capaz da catarse. 

O passado, o presente e o futuro estão ali no palco, simultâneos, reduzindo tudo ao presente, como um inconsciente atemporal. As cenas se sobrepõem, o passado passa por trás do presente, ou vice-versa. 

O túmulo. Escrever o nome de sua avó no túmulo. Somente ter seu nome no túmulo quando a promessa se cumprisse, quando seus filhos encontrassem o irmão. A morte não encerra uma história, ela continua. 

Voltarei a Incêndios após a leitura do livro.


Veja um trecho da peça:








Aderbal Freire Filho nasceu em 1941 em Fortaleza - Ceará.