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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

À BEIRA DO MITO, À BEIRA DE SI

 


KAFKA À BEIRA-MAR

HARUKI MURAKAMI

ALFAGUARA – 1ª ED. 2008

576 páginas 


Kafka à Beira-Mar é um romance que resiste à resenha tradicional. Murakami constrói uma narrativa deliberadamente aberta, na qual explicações definitivas parecem sempre escapar. O livro não se oferece como enigma a ser resolvido, mas como experiência a ser atravessada. Cada leitura produz sua própria interpretação e talvez seja justamente aí que resida sua força.

Apesar dessa abertura radical, o romance está longe de ser decepcionante ou disperso. Ao contrário: prende o leitor do início ao fim de suas mais de quinhentas páginas, com uma fluidez quase hipnótica. É uma leitura que envolve, conduz e perturba, mesmo quando não se deixa compreender plenamente. Murakami parece apostar menos na clareza narrativa do que na intensidade da atmosfera.

A obra é atravessada por múltiplas referências literárias e filosóficas, com destaque para o mito grego de Édipo, que funciona como uma espécie de eixo subterrâneo da narrativa. Ao mesmo tempo, o romance articula elementos da modernidade ocidental com lendas e imaginários japoneses, criando um espaço híbrido, onde tradição e contemporaneidade coexistem sem hierarquia.

A história se desenrola a partir de dois personagens centrais. Kafka Tamura é um garoto de quinze anos que foge de casa em razão da relação conflituosa com o pai, que o amaldiçoa com uma profecia incestuosa: Kafka estaria destinado a dormir com a mãe e a irmã, ambas desaparecidas desde que ele tinha apenas quatro anos, deixando-o para trás. Essa maldição ecoa o mito de Édipo, mas é deslocada para um registro psicológico, simbólico e contemporâneo.

O segundo personagem é Nakata, um idoso que, ainda criança, passou por uma experiência inexplicável que o incapacitou de ler e escrever, mas lhe concedeu dons extraordinários: falar com gatos e antecipar acontecimentos fora da ordem comum das coisas. À primeira vista, Kafka e Nakata não compartilham nada — idade, história, linguagem, mundo. Ainda assim, suas trajetórias correm em paralelo e acabam se cruzando de maneira enigmática, como se obedecessem a uma lógica que ultrapassa a causalidade linear.

Murakami constrói, assim, um romance sobre solidão, amizade, amadurecimento, culpa e destino. Mas esses temas não aparecem como conceitos fechados; surgem como estados de espírito, como forças que atravessam os personagens sem jamais se estabilizar. O destino, em especial, não é apresentado como fatalidade clara, mas como algo nebuloso, que se cumpre justamente quando tenta ser evitado.

Kafka à Beira-Mar não pede compreensão total. Pede entrega. É um livro que se move no limiar entre o real e o onírico, entre o mito e a vida cotidiana, convidando o leitor a habitar esse espaço de incerteza. Ao final, talvez reste menos a sensação de ter entendido tudo e mais a de ter sido transformado pela travessia.


Haruki Murakami nasceu Fushimi, Quioto no Japão em 1949. É um escritor e tradutor japonês. 


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

LIVRO: O INCOLOR TSUKURU TAZAKI e seus anos de peregrinação - HARUKI MURAKAMI


Murakami, Haruki. 1ªed. Obejtiva, 2014
326 págs.
Tradução: Eunice Suenaga
Título Original: Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi

País: Japão 

Tsukuru morava em Nagoia e fazia parte de uma comunidade de cinco amigos contando com ele. Os outros tinham em seus nomes uma cor, então havia Azul, Vermelho, Branca e Preta. 
Ele eram um jovem tímido, meio bobo, e estes amigos tinham uma importância imensa para ele. Havia um trato tácito entre eles de que não haveria namoros ou interesses sexuais para que desta forma não se formassem casais e com isto afetasse o grupo. Quando terminam o ensino médio todos ficam em Universidades em Nagoia, exceto Tsukuru que desde pequeno sonhava em construir estações de trem, o que aliás já trazia em seu nome Tsukuru quer dizer construir coisas, e então ele segue para Tóquio para cursar engenharia, mas todas as férias ele retorna até que no segundo ano de faculdade ao retornar nenhum de seus amigos quer falar com ele e o excluem do grupo sem dizer nada, sem explicar nada. 

Esta rejeição e exclusão será um choque e traumático para Tsukuru que durante 06 meses passará por uma crise que o modificará, mas ele consegue sobreviver, apesar que sempre carregará este peso em si mesmo, tornando-se uma pessoa que praticamente não terá amigos, e que terá namoros sempre passageiros, até o dia em que conhece Sara que irá fazer com que ele volte a Nagoia em busca de uma explicação. 

O livro nos fala de amizades e de desencontros, mas vai muito além pois nos mostrará que as coisas nem sempre são como pensamos e que vivemos sempre diante da incerteza, pois a vida muda, coisas acontecem, não podemos controlar.

Nesta volta ao passado Tsukuru passará por modificações, irá construir sua identidade fora do grupo e aprenderá a aceitar o desconhecido. Nem sempre temos as respostas para o que nos ocorre. Ele que carregava uma dor no peito aprenderá a ir desmanchando este nódulo e se abrir para a vida e para os outros, mesmo correndo o risco deste outro de repente desaparecer sem dar explicações ou não querer mais saber dele e não dizer porque.

O que Tsukuru aprende é que ele não pode mudar o outro ou fazer com que o outro lhe responda ou atenda ao seu desejo, mas que ele pode sim mudar ele mesmo, e que ao mudar ele muda o entorno, mudando a si mesmo ele pode mudar o outro em relação à ele.

Haruki Murakami nasceu em 1949 em Fushimi, Quioto, Japão. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

LIVRO: QUANDO ÉRAMOS ÓRFÃOS - KAZUO ISHIGURO


Ishiguro, Kazuo. Companhia das Letras, 2000
Tradução: José Marcos Macedo
393 páginas
Título Original: When we were orphans

A história é narrada por Christopher Banks quando se encontra na Inglaterra pós-guerra em retrospectiva sobre sua vida. Ele é um famoso detetive que desvendou vários casos que ficaram famosos, porém o mais importante para ele,o desaparecimento de seus pais em Xangai antes da Segunda Guerra, ele foi procrastinando até finalmente tomar a decisão de voltar e resolver também este caso.

A maior parte da narrativa é em Xangai, iniciando com as recordações de Christopher sobre sua infância na Colônia Internacional onde vivia e sua amizade com Akira, um garoto japonês que era seu vizinho. Quando seu pai desapareceu misteriosamente ambos brincavam de ser o inspetor Kung, o responsável pela investigação, e resolviam o mistério. O que não se esperava é que sua mãe também desapareceria.

Após o desaparecimento de seus pais Christopher é levado para a Inglaterra e criado por sua tia.

A força dos registros da infância transparecem o tempo todo no livro. Primeiro Christopher escolhe como profissão ser detetive, mas reluta em ir atrás do mais importante para ele até que finalmente o faz. Volta à Xangai e começa a investigar e é neste momento que todo o trauma da perda de seus pais passa a atuar.

Xangai está cercada pelos japoneses, e quando ele encontra um soldado japonês ferido nos escombros do cortiço onde imagina estarem seus pais ele vê nele Akira. O soldado percebendo que seria sua chance de sobreviver e não ser morto pelos chineses entra no jogo e o leva até onde ele quer ir, a casa indicada pelo inspetor Kung como sendo a única que ele não revistou na época do desaparecimento de seus pais, porém ela está destruída também.

Xangai no tempo de sua infância era dominada pelo comércio do ópio, e sua mãe e o chamado Tio Philip, eram contra isto, e faziam campanha para acabar com o tráfico. Agora Christopher quer se encontrar com o Cobra amarela, que supõe saber o paradeiro de seus pais. Ao final ele terá grandes surpresas quando descobrir finalmente o que aconteceu.

Por mais que Christopher fosse um renomado e excelente detetive quando se trata de si próprio a coisa já não é tão simples, lhe falta objetividade e distanciamento, ele é envolvido em suas emoções e memórias que nem sempre são exatas, se fixam no tempo, faltam pedaços e são registradas segundo a ótica de uma criança, o que lhe dificulta enxergar a realidade do que investiga. Ele parece voltar no tempo quando brincava com Akira de detetive, ignora inclusive que o japonês está seriamente ferido, não percebe que não é Akira, uma vez que em sua mente ele teria que resolver o mistério junto com seu amigo, só assim o conseguiria.

Além da questão do ópio e do poder, o livro passa levemente pela questão dos costumes, e do amor patológico, onde um ego ferido é capaz de vingança.

Quando carregamos um trauma de infância, acabamos passando a vida dirigindo nossas energias psíquicas para isto, na tentativa de solucionar revivemos e buscamos a resposta, como os órfãos de pais desaparecidos, um vazio que se cria. Christopher e Jennifer, a criança que perdeu seus pais e ele adota, retribuindo à vida o que sua tia fez por ele,  passam a vida tentando compreender, e ao fim o que buscam é a paz, o viver um pouco e com pequenos prazeres possíveis.

Kazuo Ishiguro nasceu em 1954 em Nagasaki no Japão, mas emigrou com sua família para a Inglaterra quando tinha seis anos.