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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FILME: MINHA MÃE - 2015



Direção: Nanni Moretti - 2015
Duração: 107 min
Título Original: Mia Madre
País: Itália - França

Um filme sensível sobre uma mulher, Margherita (Margherita Buy) diante de todos os desafios que uma vida impõe. Diretora de cinema está iniciando as filmagens de um filme que tem como protagonista um astro americano, Barry Hughins (John Turturro). Por outro lado sua vida pessoal não está fácil. Acaba de se separar de seu companheiro, tem uma filha adolescente, e sua mãe (Giulia Lazzarini) está internada no hospital. O contrapeso é seu irmão Giovanni (Nanni Moretti) que está ao seu lado diante de todas estas situações difíceis, principalmente a questão da mãe.

Margherita me parece viver em conflito com o que deseja e o que faz, tem dificuldades em se relacionar com os outros afastando-os, mas ao mesmo tempo se sente só. Ela está tão focada em si mesma que nem toma conhecimento que sua filha esteve perdidamente apaixonada e que sofreu muito com isto, o que acabou interferindo em seus estudos. Quando fica sabendo disto através de sua mãe, ela reage mais preocupada com o fato dela não ter se apercebido do que com o sofrimento que a filha enfrentou. 

Sua mãe é uma doente terminal, ela está morrendo. Margherita não consegue lidar com isto. Através de suas lembranças ela vai se culpando ao mesmo tempo que não consegue aceitar a velhice e a doença de sua mãe. Isto fica nítido na cena onde sua mãe que quer ir ao banheiro e deseja fazê-lo sem a ajuda de enfermeiras ou o uso da cadeira de rodas não ultrapassa os três primeiros passos e é vencida pelo cansaço. Margherita não consegue aceitar isto. O ambíguo é a recordação de uma cena onde sua mãe insiste em dirigir seu carro e ao estacionar acaba esbarrando no da frente levando Margherita a ter uma atitude autoritária, rasgando a carteira de habilitação da mãe, com isto considerando-a inapta para continuar a dirigir. Não lhe passa pela cabeça que sua mãe é um sujeito e que pode arcar com este pequeno incidente. Para encerrar de vez com isto Margherita simplesmente destrói o carro jogando-o várias vezes contra a parede.

O filme é sobre o crescimento desta mulher que confrontada com várias questões difíceis ao mesmo tempo, seja no trabalho onde ela deve lidar com um ator que não se deixa dominar por ela, como sua equipe que acaba sempre abaixando a cabeça, seja com a doença da mãe, seja com seus relacionamentos amorosos, seja com uma filha adolescente. 

Giovanni está ali para que tudo não fique trágico demais, apesar de que ele também sofre com a questão de sua mãe, e tem que fazer escolhas em sua vida, mas ele as faz. Ada,a mãe, é justamente o oposto da filha, sempre soube estar próximas as pessoas e ser amada por elas. Parece-me que a identificação da filha com a mãe é pelo seu oposto, como se ela tentasse ser diferente, mas ao final ela irá perceber o quanto as lições de sua mãe foram fundamentais para que ela possa viver melhor, sem precisar ser igual a sua mãe. 



Nanni Moretti nasceu em 1953 em Brunico, Itália 

sábado, 8 de agosto de 2015

FILME: LA SAPIENZA - 2015


Direção: Eugène Green - 2015
Duração: 104 min
País: França - Itália

O filme atraiu-me por tratar de arte, da bela arquitetura das igrejas na Itália, mas fui surpreendida por outro aspecto. Alexandre (Fabrizio Rongione) é um arquiteto e totalmente racional, sua esposa Aliénor (Christelle Prot) trabalha com o lado humanitário das construções e estudou sociologia e psicanálise. E ambos irão encontrar dois irmãos que são voltados para a espiritualidade. São três formas de ver o mundo que no filme irão se encontrar e oferecer possibilidades diferentes para cada um deles.

Alexandre encontra-se em crise, está em dúvida em relação a tudo que fez e seu casamento não está bem. Ele resolve ir para a Itália e sua esposa o acompanha. Irão primeiro para Stresa, a beira do lago Maggiore,
Será ali que encontrarão os irmãos Goffredo (Ludovico Succio) e Lavínia (Arianna Nastro) num momento onde a jovem se sente mal e Aliénor se prontifica imediatamente a levá-los de táxi para casa.

Alexandre parte para Roma e Aliénor sugere que leve Goffredo com ele, ela deseja ficar para tentar ajudar Lavínia. A viagem se transformará em um aprendizado para ambos e significará a libertação para Alexandre que poderá enfrentar seus fantasmas e a culpa que sente.

As visitas às igrejas e as explicações sobre a arquitetura com a visão de Alexandre e a de Goffredo são extremamente interessantes. Se inicialmente Alexandre estava arredio, aos poucos ele se abre e simpatiza com o jovem e passa a escutá-lo.







Aliénor ao tentar ajudar Lavínia através da psicanálise acabara também compreendendo outras maneiras de ver a vida, por um lado espiritual onde seu conhecimento não pode ajudar muito, apesar do interesse de Lavínia. Há um momento no filme em que o diretor Eugène Green aparece no papel de um imigrante e fala para Aliénor sobre seu destino que leu nas estrelas. 

Um filme interessante que mostra como os saberes podem se mesclar e criar novas possibilidades, o que era impossível enquanto cada um estava em sua própria maneira de ver o mundo e a si mesmo. Um enriquece o outro e abre novas portas, ou como a metáfora do filme, deixa a luz entrar. 

O título do filme deriva de Sant'Ivo alla Sapienza, uma igreja católica que foi construída pelo arquiteto Francesco Borromini, em Roma nos anos 1642-1660, e é considerada uma obra prima do Barroco. 

Francesco Borromini nasceu em 1599 em Bissone, Lago Lugano que hoje pertence à Suíça e faleceu em Roma, Itália em 1667. Foi um arquiteto barroco que competia com o grande mestre Gian Lorenzo Bernini. A morte de Borromini foi algo inesperado, ele queimou todos seus desenhos e se matou com sua própria espada. 

Eugène Green nasceu em 1947 em Nova Yorque, EUA.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

FILME: VOYAGE EN CHINE - 2015


Direção: Zoltan Mayer - 2015
Duração: 95 min
País: França

Liliane (Yolande Moreau) é casada com Richard (André Wilms), um homem que lhe dá pouca atenção. Em uma noite ela recebe um telefonema que seu filho Christophe faleceu em um acidente na China, onde estava morando. Liliane deseja trazer o corpo do filho para a França, mas se depara com uma burocracia infinita e incompreensível que não lhe esclarece absolutamente nada. Finalmente se decide a ir pessoalmente à China para buscar o corpo, mas irá sozinha, não quer que o pai a acompanhe, uma vez que pouco se importou com o filho durante toda sua vida, não precisa se importar agora. 



Esta viagem de dor e luto irá mudar a vida de Liliane completamente. Ela chega a um país com uma cultura totalmente diferente da sua e sem falar uma palavra de chinês. Sentimos em nós a angústia que isto causa, sem poder compreender ninguém, nem falar com o outro, porém há uma diferença crucial, pois não existe muita diferença entre seu percurso na França em busca de informações de como transladar o corpo do filho, onde todos falam francês, mas não dizem nada e não se compreende nada, e sua situação na China com a língua, mas ali as pessoas a acolhem, se esforçam para compreender e ajudá-la. 




Ela irá para o interior do país, e as paisagens são belas. Conhecerá Danjie (Qu Jing Jing) que foi a namorada de seu filho. Será acolhida pela senhora dona da hospedagem e fará um amigo que a ajudará a conseguir os documentos necessários. É justamente aí que vemos quando o ser humano deseja ajudar o outro ou não. Mesmo sem falar chinês e eles sem falarem francês, ela consegue o que precisa. 



Liliane conhecerá os amigos do filho e saberá algumas coisas sobre sua vida. Ela sente não ter ido antes quando ele ainda estava vivo, e começa a escrever uma espécie de diário onde conversa com ele sobre suas impressões do que está vivendo, como forma de compensar este vazio que sente. Ao descobrir que para o taoismo as pessoas que morrem em acidentes não vão para o céu, ou nirvana, ela resolve com Danjie cumprir os rituais necessários para que sua alma se liberte. E depois opta pela cremação por ser uma forma mais fácil inclusive de levar o filho para a França, realizando também o ritual fúnebre na China. 



Um filme que mostra que a dor muitas vezes é uma porta para uma nova vida, pois nos dá coragem de agir. 


Zoltan Mayer nasceu na França 

sábado, 25 de abril de 2015

FILME: LE MUR INVISIBLE - 2014



Direção: Julian Roman Pölsler - 2014
Duração: 108 min
Título Original: The wall

Adaptação do livro homônimo de Marlen Haushofer

Após assistir o filme fiquei chocada e num estado de angústia por um bom tempo. Precisei de alguns dias para conseguir escrever sobre ele. Sim, é uma ode à natureza, mas ele tem uma cena absolutamente chocante, real e cruel, e fiquei me perguntando porque? e analisando o fato do livro ter sido escrito por uma mulher. Retorno a isto no relato abaixo.

Um mulher (Martina Gedeck) vai para os Alpes Austríacos junto com um casal de amigos e seu cachorro. Assim que chegam o casal vai para o vilarejo a pé e o cachorro não os acompanha. No dia seguinte ao acordar ela percebe que eles não voltaram então segue pela estradinha com o cachorro para descobrir o que houve e se depara com um murro invisível, como uma imensa parede de vidro transparente, que ela nota tocando. Retorna e vai até uma casa nas proximidades e lá também o murro está, finalmente ela se dá conta que está presa dentro de um espaço circundado por este murro. 

Não há explicação para isto, nem o saberemos no filme que passa a focar na questão da mulher que precisa se adaptar a viver na natureza, sozinha, somente com o cachorro e depois os gatos e uma vaca que dará a luz a um bezerro. Ela começa a escrever um diário para manter sua sanidade mental. 

Até aí temos um belo filme, as paisagens são belíssimas, os sons da floresta, as mudanças de estação. Ela aprende a caçar apesar de não ser algo que lhe agrade. Um dia um de seus gatos é morto por uma raposa que depois ela terá a chance de matar, mas não o faz, compreendendo que é a lei da natureza, e que matar a raposa não trará o gato de volta e irá tirar da natureza este belo animal. A mulher deve deixar para trás uma vida na dita civilização, com todo seu stress e voltar a se ligar à natureza, ao planeta terra, e ao amor, o amor pelas plantas, pelos animais, pelo vento, pelo frio e pelo calor, a alegria de estar viva. 

A questão do filme que choca é quando aparece um homem e que irá matar seus animais, a cena é horrível e crua. Ela então vai assassiná-lo e jogará seu corpo nas pedras. A partir deste momento ela estará mais só ainda, sem a companhia do cachorro que havia se transformado em seu amigo. 

O filme termina quando acaba o papel e ela não pode mais escrever. 

A questão é do porque desta cena? esta intromissão deste homem surgido não se sabe de onde, dentro do círculo do murro invisível e que comete uma barbárie. Tentei encontrar uma resposta por um lado psicanalítico, mas também pelo lado místico. 

Há dentro de nós um lado masculino e feminino, independentemente do sexo biológico. A natureza apesar de nos parecer muitas vezes violenta e cruel é equilibrada, não há o premeditado ou a maldade e vingança. A raposa mata o gato por instinto. Mas o ser humano mata por prazer, por desespero, por vingança, por fome. Matar o bezerro pode ser por fome, mas o cachorro? porque ele defendeu a sua dona? não sabemos porque isto o filme não mostra. A cena da matança é cruel, não é matar para comer, é despedaçar, é destruir. A vaca Bela é encontrada depois enlouquecida na floresta. Ela mata o homem. Isto pode ser interpretado como ela matando este lado dentro de si mesma, ou eliminando de seu círculo dentro dos murros o que não se harmoniza com a natureza que seria então mais feminina. É o feminino que se liga à terra, aos animais, às plantas, às florestas, isto desde tempos imemoriais. 

Como o livro foi escrito por uma mulher foi o que pude pensar sobre esta cena. O que levaria uma mulher a colocar uma cena tão brutal? Esta intromissão na natureza? É quase que um alerta sobre o que o ser humano faz ao planeta através da destruição. 

Fui mais atingida porque amo os animais e principalmente os cachorros. 

Julian Roman Pölsler e seu cachorro que foi o que estava no filme. Nasceu em 1954 em Estíria, Áustria.