Mostrando postagens com marcador Hannah Arendt. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hannah Arendt. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

UM VÍNCULO MARCADO PELA FILOSOFIA E PELO NAZISMO

 



HANNAH ARENDT E MARTIN HEIDEGGER: História de um amor

ANTONIA GRUNENBERG

PERSPECTIVA – 1ª ED. 2019

416 páginas 

Neste livro, Antonia Grunenberg reconstrói a relação entre Hannah Arendt e Martin Heidegger desde o início até o fim, acompanhando não apenas o vínculo afetivo entre ambos, mas também o contexto intelectual da filosofia alemã do período. O leitor é conduzido a um momento em que Heidegger se tornava uma referência central, atraindo estudantes de várias partes da Europa e estabelecendo diálogos intensos com outros filósofos, entre eles Karl Jaspers — grande amigo de Arendt e, por um tempo, também ligado a Heidegger, até que essa amizade se deteriorasse em razão do envolvimento deste com o nazismo.

O livro deixa claro que, embora Heidegger tenha exercido profunda influência sobre a formação intelectual de Arendt, ela nunca permaneceu à sua sombra. Ao contrário, afasta-se, constrói seu próprio universo conceitual e elabora uma filosofia singular — ainda que recusasse essa denominação, preferindo se definir como cientista política. Em Arendt, pensar nunca foi um exercício abstrato desligado do mundo, mas uma atividade intrinsecamente vinculada à experiência histórica e à vida pública.

Grunenberg permite compreender, ainda que parcialmente, o modo como o pensamento de ambos se desenvolveu e como Heidegger se envolveu com o regime nazista. É possível perceber suas expectativas em relação ao movimento e a frustração subsequente, ao constatar que os nazistas não estavam interessados no pensamento, mas no controle. Ainda assim, Heidegger jamais reconheceu publicamente a gravidade desse erro, o que lhe custou críticas severas e o afastamento de muitos admiradores.

Arendt, por sua vez, desloca-se do pensamento puro para a ação e para a vida. Judia, viveu a perseguição nazista, foi obrigada ao exílio e acabou se estabelecendo nos Estados Unidos com o marido, onde permaneceu até o fim de sua vida. Dotada de um espírito analítico agudo, estava à frente de muitos de seus contemporâneos e continua sendo. Até hoje, Eichmann em Jerusalém provoca incompreensões, ataques e rejeições, tendo lhe rendido críticas duras, desafetos e a perda de amizades. Para Arendt, isso era particularmente doloroso, pois sempre insistiu na distinção entre obra e pessoa: critiquem o pensamento, não o indivíduo em sua esfera pessoal.

Hannah Arendt e Martin Heidegger: História de um amor é uma leitura instigante para quem se interessa por filosofia e política, mas também para quem deseja compreender como afetos, escolhas éticas e contextos históricos atravessam — e por vezes comprometem — o pensamento.


Antonia Grunenberg nasceu em 1944. É uma cientista política alemã, pesquisadora do totalitarismo e especialista no pensamento político de Hannah Arendt. 




sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENTRE O AMOR AO MUNDO E O MAL


 

ARENDT: ENTRE O AMOR E O MAL: UMA BIOGRAFIA

ANN HEBERLEIN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2021

256 páginas 

Talvez por já ter lido a biografia de Hannah Arendt escrita por Laure Adler, este livro de Ann Heberlein soe, em muitos momentos, como uma rememoração mais condensada da vida e do pensamento dessa autora fundamental — que, vale lembrar, nunca se sentiu confortável com o título de filósofa, preferindo se definir como estudiosa das ciências políticas. Ainda assim, a biografia não se reduz a uma repetição: há deslocamentos significativos e escolhas interpretativas que merecem atenção.

O que surge como novidade mais contundente são os trechos dedicados à entrevista concedida por Arendt a Günter Gaus, especialmente quando ela é interrogada sobre Eichmann em Jerusalém — obra que provocou (e ainda provoca) enorme polêmica. Diante das críticas, Arendt sustenta uma posição que lhe foi característica ao longo de toda a vida: a verdade precisa ser dita, independentemente das reações que possa suscitar. Não se trata de provocação, mas de responsabilidade intelectual.

É justamente essa postura que faz de Arendt uma pensadora singular. Sua recusa em partir de posições ideológicas prévias, sua insistência em se ater aos fatos, ao que é visto, estudado e analisado, confere à sua obra uma força rara. Arendt consegue manter uma impressionante imparcialidade mesmo quando pensa acontecimentos que atravessaram diretamente sua própria vida — o exílio, o antissemitismo, o totalitarismo. Essa capacidade de pensar sem concessões, sem alinhamentos automáticos, é talvez uma de suas maiores marcas.

Heberlein apresenta com clareza essa perspicácia arendtiana: a atenção ao detalhe, a recusa da simplificação moral, a coragem de sustentar análises desconfortáveis. O livro percorre os principais eixos da vida da autora — suas relações intelectuais e afetivas com Karl Jaspers e Martin Heidegger, sua condição de judia durante a Segunda Guerra Mundial, o exílio e a reconstrução da vida intelectual nos Estados Unidos — compondo um retrato que articula pensamento, experiência e contexto histórico.

O posfácio de Heloísa Starling, dedicado às distopias e a As Origens do Totalitarismo, amplia ainda mais o alcance da obra, conectando Arendt ao presente e mostrando a atualidade inquietante de suas reflexões. Não se trata apenas de uma leitura retrospectiva, mas de um convite a pensar o nosso próprio tempo.

O grande mérito desta biografia está justamente em sua concisão. Em um número reduzido de páginas, o livro oferece o essencial de Hannah Arendt: sua trajetória, suas ideias centrais, suas relações intelectuais, sua vida pessoal e política. Não substitui leituras mais extensas, mas funciona como uma porta de entrada sólida — ou como um retorno bem articulado para quem já a conhece.

É uma leitura que vale a pena, sobretudo por recolocar em primeiro plano aquilo que talvez mais falte hoje: o compromisso radical com a verdade, mesmo quando ela nos desagrada.



Ann Heberlein nasceu em Malmö, Suécia, em 1970. É escritora e doutora em teologia e ética

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

FILME: HANNAH ARENDT - 2012



Direção: Margarethe von Trotta - 2012
Duração: 113 min
Roteiro: Margarethe von Trotta e Pam Katz 
País: Alemanha - França 

Um filme sobre a filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt

Hannah Arendt (Barbara Sukowa) já está nos Estados Unidos onde vive com seu marido Heinrich (Axel Milberg) por ocasião do Julgamento de Eichmann que ocorrerá em Jerusalém. Ela irá para cobrir o  mesmo pelo The New Yorker.

Sua análise do julgamento repercutiu muito mal, ela sofre ofensas, incompreensões e acusações por três anos. Ainda se estava muito próximo de tudo que aconteceu na Segunda Guerra com os judeus. Mas sua análise se por um lado assombrou o mundo, por outro é extremamente lúcida. A banalidade do mal não é por ser supérfluo, mas é pela mediocridade. Ela foi fria, ficou atenta aos fatos e à lei.



Eichmann cuidava da logística dos trens que levavam os judeus para os campos de concentração, mas ele sabia o que eram aqueles trens e qual o destino para seus ocupantes, e neste sentido o maquinista também é um criminoso.
Quando um líder agrega a massa, ela não pensa, irá agir conforme a massa, fará coisas que jamais faria sozinha, mas seguirá o grupo. Eichmann é um burocrata, obedece e faz seu trabalho bem feito. E a solução final está dentro da lei do Estado Nazista. É complicado isto. Ele não agiu ilegalmente dentro daquele Estado e dentro da lei que vigorava.
Isto não retira o hediondo, o crime de Eichmann, mas mostra como um cidadão comum, pai de família e um bom pai pode fazer o que ele fez. Se não houvesse o nazismo ele teria sido um funcionário exemplar e um bom marido e pai de família, jamais um criminoso. Ele não pensa, não avalia o que está fazendo.



Um dos pontos mais controversos é quando diz: "Toda a verdade é que , se o povo judeu tivesse sido verdadeiramente desorganizado, sem chefes, o caos teria reinado e muita miséria também, mas o número de vítimas não teria podido atingir entre quatro e meio e seis milhões."

O gueto de Varsóvia, os chefes judeus, que se por um lado conseguiam coisas como comida, por outro escolhiam quem ia ser deportado e os convenciam que iam trabalhar. E os outros confiavam neles. Ao final a maioria foi eliminada, mas alguns escaparam e estavam em postos políticos quando Arendt publicou seu livro. Somente quando começaram a surgir os relatos dos sobreviventes isto foi ficando mais claro.

Eichamnn é culpado por ter obedecido sem pensar, o que não lhe traz  culpa no seu entender, ele fez o que tinha que fazer e obedecer é uma virtude, para os alienados é. Porém existe a maldade, está no ser humano. Não se trata como diz Platão que o mal só existe porque não se conhece o bem, não se sabe o bem, e aprendendo o bem se elimina o mal.

A questão é quando se acredita que eliminar os outros é o bem.

Arendt não defendia Eichamnn, ela queria compreender, mas isto não o absolve de seus crimes.

O filme retrata um pouco de sua vida, de sua relação com Heidegger, seu marido, alguns amigos. Era judia, foi para um campo de concentração na França e conseguiu ir para os Estados Unidos. Sua clareza na compreensão de como alguém pode agir da forma mais monstruosa e não acreditar nisto, e ainda acreditar que fez o correto, e também por ter levantado que entre os judeus houve pessoas que colaboraram, lhe valeu a perda de amizades inclusive de pessoas que ela amava muito, além de todas as acusações que sofreu.

Atualmente já se faz outra leitura de sua análise e do seu livro. E ele é válido não apenas para os nazistas, mas para compreender como é possível que o ser humano possa agir de uma forma tão cruel e ser um assassino para uns e para outros ser uma excelente pessoa e continuar acreditando que agiu certo.


Margarethe von Trotta nasceu em 1942, em Berlin, Alemanha. Atualmente mora em Paris.