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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: A MULHER NO CORPO DE XAMÃ

 

A MULHER NO CORPO DE XAMÃ: O feminino na religião e na medicina

BARBARA TEDLOCK

ROCCO – 1ª ED. – 2008

350 páginas

Barbara Tedlock resgata o papel central das mulheres no xamanismo. Ela própria neta de uma parteira e herborista ojibwe e antropóloga, procurou responder algumas perguntas que fazia a si mesma, principalmente: “Existem mulheres xamãs?”.

Iniciada no xamanismo pelos maias K’iche’ do planalto da Guatemala, procura resgatar o papel das mulheres no xamanismo, frequentemente desconsiderado por muitos pesquisadores homens. Durante muito tempo, os estudos sobre o xamanismo foram conduzidos majoritariamente por homens, que associavam essa prática quase exclusivamente ao universo masculino.

Em 1924, em um sítio arqueológico localizado na atual República Tcheca, conhecido como Doní Vestonice, foi encontrado um túmulo que continha o corpo de uma mulher de aproximadamente 40 anos, deitada em posição fetal sobre o lado direito. O corpo fora pintado de vermelho (ocre) e coberto por duas escápulas de mamute. Havia a presença de uma lança de sílex junto à cabeça e o corpo de uma raposa em uma das mãos. Com esses elementos identificou-se indícios claros que se tratava de uma xamã.

Segundo Tedlock, “o registro escrito mais antigo de uma mulher xamã real na América é de Ix Balam K’ab’al Xook, ou lady do Jaguar Shark Lineage. Essa mulher da nobreza maia viveu na antiga cidade de Yaxchilán, onde hoje é Chiapas, no México.”

A autora também demonstra como homens pesquisadores desconsideraram as mulheres como xamãs. Eram vistas como curandeiras ou parteiras, mas jamais como xamãs, o que ela demonstra ser um erro. A maioria dos xamãs foram e são mulheres.

Por fim, a autora propõe uma reflexão sobre a necessidade de a humanidade melhorar sua relação consigo mesma e com o planeta. O Xamanismo não é apenas uma forma de cura, mas um saber que entrelaça história, medicina, espiritualidade e psicologia, convidando o leitor a repensar o papel das mulheres nessas tradições e a própria relação entre ser humano e natureza.


Barbara Tedlock nasceu em Battle Creek, Michigan, EUA, em 1942 e faleceu em Rio Rancho, Novo México, EUA, em 2003. Foi uma antropóloga cultural e onirologista (estudo dos sonhos) estadunidense. 


domingo, 14 de junho de 2026

LIVRO: SOB CUSTÓDIA

 


SOB CUSTÓDIA 

ANITA DESAI

ROCCO – 1ª ED. - 1984

212 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÍNDIA

Deven é um professor universitário que dá aulas em uma universidade particular, onde ensina literatura hindi. Certo dia, Murad, um velho amigo, aparece inesperadamente com uma proposta para entrevistar o grande poeta urdu Nur, que mora em Nova Delhi, para sua revista.

Deven é apaixonado pela poesia urdu e, mesmo alegando mil desculpas, como seu trabalho, sua família e seu filho, acaba aceitando a proposta e vai até a casa do poeta para solicitar a entrevista.

Sua expectativa é imensa; mal pode esperar a hora de poder conhecer e conversar com o velho poeta. Porém, ao chegar à casa deste, sofre uma grande decepção. O lugar é precário, e o poeta é um bêbado que todas as noites reúne à sua volta bajuladores que, aos olhos de Deven, são desprezíveis. É impossível falar com Nur, que está sempre rodeado dessas pessoas. Deven retorna para sua cidade e desiste da entrevista.

No entanto, Murad acaba por convencê-lo a tentar novamente e sugere que utilize um gravador para registrar as conversas; depois, poderia escrever com calma em sua casa. O problema é onde conseguir um gravador. Deven então conversa com o professor do departamento de urdu de sua universidade, que fica encantado com a possibilidade de ter a voz do poeta gravada e consegue que a instituição  libere  verba para a compra do gravador e das fitas.

É impactante perceber como Deven se deixa manipular e não consegue reagir. Sua admiração pela poesia urdu e pelo poeta é maior do que sua capacidade de confrontar a realidade e perceber o quanto as pessoas abusam de sua boa vontade e de seu desejo de salvar a poesia urdu. Ele quer colocar o poeta e sua obra sob custódia; quer ser o guardião dessa língua que está morrendo em uma Índia que se moderniza. O urdu era a língua culta dos muçulmanos que habitavam grande parte do território indiano. Com a independência da Índia do Império Britânico, também ocorreu a partilha do território e a criação do Estado do Paquistão, para onde se mudaram a maioria dos muçulmanos.

Deven apesar de ensinar hindi na universidade, ainda escreve em urdu. Sua vida medíocre e seu casamento com uma mulher que também alimentava ilusões, lembraram-me Madame Bovary; a diferença é que ela se nutriu de filmes, e não de romances. As brigas do casal são constantes. O contraste entre o Deven que é continuamente explorado pelos outros e o Deven que encontramos em sua casa com a esposa, é grande. É nesse espaço que ele se torna mesquinho, fala alto e chega até mesmo a agredi-la.  Ela é seu espelho e confirma a ideia de que “uma vítima não procura ajuda em outra vítima, procura alguém que a liberte”.

Ao confrontar a realidade da vida do poeta, seu declínio e suas mazelas, Deven não consegue abandonar o sonho nem a idealização que construiu, mesmo que isso o conduza à ruína. O urdu e sua poesia funcionavam como uma tábua de salvação diante da vida ordinária que levava; perceber que até isso se perdeu, é algo que ele não consegue enfrentar.

Deven é um personagem difícil de aceitar, até porque sabemos que existem muitas pessoas assim. Em vários momentos sentimos vontade de sacudi-lo para que reaja, para que não se deixe manipular e explorar. Mesmo quando a sorte parece favorece-lo e sempre surge alguém para ajuda-lo, ele encontra alguma maneira de estragar tudo logo em seguida.

Nas últimas páginas do livro, a autora, através de uma carta que é enviada a Deven, deixa evidente a sociedade machista e patriarcal em que os personagens vivem e, principalmente, o quanto o próprio Deven despreza intelectualmente as mulheres. E se ele nos passa a impressão de ser medíocre e facilmente manipulável, também revela certa prepotência ao acreditar que é ele quem tem sob custódia a poesia urdu, sem perceber que essa mesma custódia também o mantém prisioneiro.  

Anita Desai nasceu em Mussoori, Índia, em 1937. É uma romancista indiana e professora emérita de Humanidades John E. Burchard.



terça-feira, 9 de junho de 2026

LIVRO: NOITE É O DIA TODO

 


NOITE É O DIA TODO

PREETA SAMARASAN

ROCCO – 1ª ED. – 2010

400 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – MALÁSIA

Malásia, década de 1970. Uma poderosa família descendente de indianos. É partindo desse contexto que Samarasan irá apresentar a Malásia com todas suas contradições internas. Trata-se de um país formado por emigrantes, principalmente chineses e indianos. O livro aborda questões internas da sociedade malaia, onde, após o fim da colonização inglesa, os malaios desejam seu país para eles.

A autora retorna ao período colonial da família Rajasekharan para poder falar dos descendentes em torno dos quais o romance gira. O casamento de Raju com Vasanthi, uma mulher de classe social mais baixa, provocará ressentimentos e mágoas com a família, principalmente com a sogra Paati.

Ao abordar a revolta malaia de 1969, que ocorreu em Kuala Lumpur, capital da Malásia, a autora utiliza uma metáfora por meio de dois personagens, para explicar o que aconteceu – Boato e Fato.  

Gostei muito do uso dessas figuras para demonstrar como muitas vezes revoltas ocorrem movidas pelo que atualmente chamamos de fakes news. Nada mais fácil do que espalhar boatos e mentiras para inflamar uma população que já está arredia, com raiva, desconfiada, prestes a explodir. E, como fica claro no livro, de nada adiantam os Fatos diante dos Boatos, algo que continua extremamente atual.

Ao contrário do anunciado na sinopse do livro, há relativamente pouco sobre a história da Malásia. O romance permanece centrado na trajetória de uma família e suas questões. Ainda assim, esse microcosmo reflete os preconceitos raciais e de classe que existiam na sociedade malaia da época. Podemos conhecer um pouco da culinária e há o relato do desabamento das cavernas onde vivia a família de uma das empregadas da casa, que perdeu seu marido e filhos na tragédia, mas dois dias depois retorna ao trabalho por precisar dele. Esse episódio faz referência à tragédia de Gunung Cheroh, ocorrida em 1973.

A família é composta pelo casal e seus três filhos, pela avó Paati e por Balu apelidado de “Tio salão de baile”, irmão de Raju, desprezado pelo irmão por ser dançarino. A narrativa demora a se desenrolar, e apenas aos poucos começarmos a compreender o comportamento de cada personagem. Praticamente apenas na reta final do livro descobrimos o que levou cada um deles a agir da maneira como age.  

Já Vasanthi, me deixou com a sensação de um salto sem explicação. Da jovem explorada na casa do pai, que se encanta por Raju, ela se transforma, logo após o casamento, em uma pessoa fria e extremamente fútil. É possível compreender o ressentimento e a profunda mágoa que sente em relação à sogra e ao marido, assim como a sensação de não ser amada pelos filhos. O que me incomodou foi a brusquidão dessa transformação. Não foi exatamente um processo; pelo menos a autora não o demonstra.

A história dessa família é construída sobre mentiras, enganos, omissões e uma absoluta falta de diálogo. Quando algo ocorre, cada um deles formula sua própria interpretação, que geralmente não condiz com o que de fato ocorreu. E isso, porque nada é falado, tudo é omitido.

A filha caçula, Aasha, uma criança de apenas quatro anos, sofre de uma enorme carência afetiva. Sem atenção da mãe. do pai ou da avó, ela desenvolve uma verdadeira obsessão pela irmã mais velha, Uma. Inicialmente, Uma zela por ela, mas, devido a um acontecimento que só conheceremos ao final do livro, afasta-se da menina.  Esse abandono leva Aascha a cometer algumas crueldades com outros, mentindo descaradamente.

Um segredo que Balu carrega desde a infância o desestabiliza profundamente e o transforma em uma pessoa insegura. Mais tarde, ele será testemunha de outro momento difícil envolvendo Uma e seu pai, no entanto, ele se cala sobre ambos os acontecimentos.

Temos também Chellam, a empregada contratada para cuidar “exclusivamente” de Paati, que a partir de um certo dia, passa de uma mulher enérgica e atenta a uma velha encarquilhada, que só sabe reclamar e não consegue mais andar. Chellam é demitida logo no primeiro capítulo do livro, mas só muito depois iremos descobrir o que de fato ocorreu.

Chellan é quem nos traz o universo cosmológico da Malásia com seus espíritos e fantasmas que enriquece o imaginário de Aascha. A principal referência é Pontianak, um dos espíritos mais temidos pelos malaios.

Ao final da narrativa vemos Appa relatar com orgulho que sua filha foi para os Estados Unidos. Seguindo uma ideia muito presente na época – e que ainda persiste em certa medida -, ele acredita que a América é o lugar onde todos podem alcançar um “felizes para sempre”.

Quando alcançamos a metade do livro, começamos e compreender o que aconteceu com cada personagem e percebemos o quanto todos são incapazes de enxergar o outro, incapazes de se envolver, e recolhem-se aos seus próprios casulos. É uma solidão completa vivida em meio a várias pessoas.

 Confesso que tive dificuldades para continuar a leitura em determinados momentos. Não sentia vontade de pegar o livro e demorei um pouco para compreender a razão de minha resistência. Em muitos romances é comum o autor ou autora se utilizar de flashbacks ou alterne presente e passado. Neste livro, há uma intercalação tripla, ou seja, parte-se do presente, retorna-se ao passado e, surgem acontecimentos localizados entre esses dois momentos. O problema é que, a cada retomada, há uma repetição de informações já apresentadas, o que torna a leitura menos envolvente e além disso, a autora não se utiliza de iscas, não cria mistério, o que levaria o leitor a querer saber mais. O resultado é que a revelação chega muito tarde, o que pode fazer com que muitos abandonem o livro antes.

No entanto, ao chegar ao final, essa impressão muda. Não há como não pensar nas injustiças e crueldades cometidas em consequência do egoísmo de cada um, e na incapacidade de fazer uso de palavras e de dizer o que pensa e sente. Aasha, a caçula, sintetiza de forma particularmente dolorosa todas essas questões. Mas ela tem apenas quatro anos.



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O ARQUÉTIPO DA MULHER SELVAGEM

 

MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS

Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem.

CLARISSA PINKOLA ESTÉS

ROCCO – 1ª ED. – 1994

628 páginas

Em Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, Clarissa Pinkola Estés, constrói uma obra que atravessa psicologia, mitologia, folclore e espiritualidade para pensar o feminino a partir de uma dimensão arcaica, instintiva e simbólica. O livro propõe a recuperação daquilo que a autora chama de “mulher selvagem”, entendida não como figura primitiva ou desordenada, mas como fonte profunda de saber, intuição, criatividade e força vital.

A partir de mitos e contos tradicionais de diferentes culturas, Estés interpreta narrativas ancestrais como mapas psíquicos. Cada história funciona como um espelho simbólico das experiências femininas: perda, iniciação, ferida, silêncio, retorno e transformação. O lobo surge como metáfora central desse feminino instintivo: um ser que conhece os ciclos da vida, que vive em relação com o território, que sabe quando avançar e quando recolher-se. Correr com os lobos, nesse sentido, não é romper com a cultura, mas reconectar-se a um saber soterrado por séculos de repressão, moralização e domesticação do corpo e do desejo femininos.

O livro dialoga fortemente com a psicanálise junguiana, sobretudo com a noção de arquétipo, e propõe uma escuta atenta dos símbolos como linguagem da alma. No entanto, sua força não está apenas na teoria, mas na maneira como convoca a leitora a um processo de reconhecimento de si. Ao nomear feridas coletivas — como o silenciamento, a culpa, a perda da autonomia e o medo da própria potência —, Estés oferece imagens que auxiliam na reconstrução subjetiva e no resgate da integridade psíquica.

Ao mesmo tempo, Mulheres que correm com os lobos pode ser lido criticamente. Seu universalismo simbólico, ao falar de um arquétipo feminino comum, corre o risco de apagar diferenças históricas, culturais e materiais que atravessam as experiências das mulheres. Ainda assim, o livro permanece relevante como uma obra de escuta e cuidado, sobretudo em um mundo que continua exigindo das mulheres adaptação, docilidade e produtividade em detrimento da vitalidade e do desejo.

Mais do que um manual de autoajuda, o livro se apresenta como um percurso iniciático. Ele não promete respostas rápidas nem soluções fáceis, mas oferece narrativas que acompanham processos longos, dolorosos e, muitas vezes, solitários. Ler Clarissa Pinkola Estés é aceitar o convite para descer às camadas profundas da psique, reconhecer perdas e resgatar forças esquecidas. É um livro que fala de cura, mas não de uma cura pacificada: trata-se de uma cura que passa pelo enfrentamento, pela memória e pela reconciliação com aquilo que foi expulso da cultura dominante.


Clarissa Pinkola Estés nasceu em Gary, Indiana, EUA, em 1945. É uma psicóloga Junguiana


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

OLHAR PARA A AMÉRICA LATINA


 

O ANO DA CÓLERA: Protestos, tensão e pandemia em 5 países da América Latina

SYLVIA COLOMBO

ROCCO – 1ª ED. – 2021

256 páginas

O ano da cólera, de Sylvia Colombo, parte de uma pergunta incômoda e necessária: o que nós, brasileiros, realmente sabemos sobre nossos vizinhos latino-americanos? Para além das disputas de futebol, há pouco interesse efetivo pelos países que compartilham conosco o mesmo continente. Nosso olhar costuma se voltar para a Europa, os Estados Unidos e, mais recentemente, para potências como China, Rússia ou para o “Oriente Médio”. A América do Sul permanece, muitas vezes, como um território próximo e ao mesmo tempo desconhecido, e a autora reconhece que esse distanciamento não é exclusivo do leitor, mas algo do qual ela própria também faz parte.

O livro não se propõe a uma análise aprofundada de cada país, mas oferece uma visão panorâmica dos principais acontecimentos recentes em cinco países da América Latina, articulando-os com seus contextos históricos, políticos e sociais. Essa abordagem permite compreender por que certos processos assumiram formas específicas, evitando leituras apressadas ou meramente ideológicas. Ao longo do texto, fica evidente o quanto nossas opiniões costumam ser construídas a partir de preconceitos, clichês e disputas políticas externas, sem real preocupação em conhecer o país concreto, com suas contradições e particularidades.

A autora nos convida a revisitar acontecimentos que, muitas vezes, nos surpreenderam justamente por desconhecimento. O que levou às grandes manifestações no Chile, frequentemente visto como um modelo de estabilidade e “civilidade” na América Latina? O que de fato ocorreu na Bolívia com a saída de Evo Morales? O que se passou na Venezuela para além do slogan repetido como ameaça política — “virar uma Venezuela”? Como compreender a volta do kirchnerismo na Argentina? E por que o Uruguai aparece como uma espécie de exceção silenciosa no cenário latino-americano, raramente lembrada nas análises mais correntes?

Sylvia Colombo constrói um panorama que não oferece respostas fechadas, mas amplia o campo de compreensão, permitindo que o leitor comece a pensar de maneira mais informada e menos estereotipada sobre esses países. O livro se encerra com a chegada da pandemia de Covid-19 e seus impactos na região, cobrindo os acontecimentos até 2020, além de incluir breves incursões por outros contextos latino-americanos, como Colômbia, Equador, México e El Salvador. O ano da cólera cumpre, assim, um papel fundamental: não esgota os temas, mas abre caminhos para uma leitura mais atenta e menos provinciana do nosso próprio continente. Vale a leitura.


Sylvia Colombo é uma jornalista e historiadora especializada em América Latina 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

FASCISMO, GUERRA E CAMPONESES

 


O REFÚGIO

VALERIO MASSIMO MANFREDI

ROCCO – 1ª ED. 2012

352 páginas 

O Refúgio narra a saga da família Bruni — Callisto, Clerice e seus nove filhos, sete homens e duas mulheres. Camponeses simples e trabalhadores, vivem como meeiros em uma propriedade rural, explorados pelos donos da terra, como tantos outros na Itália do início do século XX. Ainda assim, levam uma vida marcada pela solidariedade, pela hospitalidade e por uma certa alegria possível: recebem quem os procura, especialmente no inverno, oferecendo um prato de sopa quente e um lugar para dormir.

Após um dia exaustivo de trabalho no campo, a família se reúne no estábulo para contar histórias. Esses momentos de partilha e oralidade funcionam como um refúgio simbólico: um espaço de memória, afeto e pertencimento que sustenta a família diante das adversidades.

A vida segue seu curso até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, quando os filhos homens são enviados ao front. A guerra irrompe na rotina, altera destinos e impõe ausências definitivas. Após seu término, é preciso recomeçar, mas a paz é frágil. Surgem movimentos que questionam a exploração dos camponeses, e aqueles que ousam sonhar com mudança passam a ser perseguidos pelos camisas pretas, apoiadores do fascismo de Mussolini.

Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, a história se repete sob novas formas. A Itália, inicialmente aliada ao Eixo, muda de posição após a rendição e passa a ser atacada pelos alemães — os mesmos inimigos contra os quais seus soldados haviam lutado na Primeira Guerra. O território se transforma em campo de batalha, e a população civil, mais uma vez, paga o preço das decisões políticas.

Ao acompanhar a trajetória da família Bruni, Manfredi reconstrói a história da Itália a partir de baixo: pela vida dos camponeses, seus costumes, rituais, formas de resistência e sobrevivência. O Refúgio é um romance sensível e potente, que mostra como a grande História atravessa vidas comuns — e como, apesar de tudo, elas seguem buscando abrigo, sentido e continuidade.


Valerio Massimo Manfredi nasceu em Castelfranco Emilia, Itália, em 1943. É historiador, antropólogo, ensaísta, escritor e jornalista italiano. 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

UMA JOVEM, UM NAUFRÁGIO E O DIREITO DE EXISTIR

 


UMA ESPERANÇA MAIS FORTE QUE O MAR

A jornada de Doaa Al Zamel

MELISSA FLEMING

ROCCO – 1ª ED. 2017

272 páginas 

Esta é a história de Doaa Al Zamel, uma jovem síria que tem sua vida brutalmente alterada em função das guerras. Tudo começa na Síria, onde sua família vivia em relativa paz, apesar das dificuldades, até que eclode a Primavera Árabe e se inicia a guerra no país — conflito que, até hoje, persiste. Diante das ameaças constantes às suas vidas e do risco real de estupro das meninas, seu pai decide partir, e a família se refugia no Egito, que inicialmente os recebe bem.

A vida não é fácil, mas ainda assim é melhor do que na Síria. Isso muda quando começam as agitações no Egito para depor o presidente — o que de fato ocorre — e, a partir daí, os sírios passam a ser desprezados e atacados. É nesse contexto que Doaa conhece Bassem, com quem fica noiva. Sem qualquer perspectiva de uma vida digna, decidem tentar a Europa e embarcam no horror que são as travessias pelo Mediterrâneo, promovidas por contrabandistas.

Doaa tinha medo da água e não sabia nadar. Após o naufrágio provocado pela colisão com outro barco, confesso que não há palavras que consigam exprimir o horror e o pavor que ela viveu.

De qualquer maneira, é um livro que recomendo fortemente, sobretudo àqueles que não conseguem compreender por que há tantos refugiados, por que se arriscam nessas travessias e por que levam consigo crianças e idosos. É um livro que os que se posicionam contra refugiados deveriam ler. Talvez, lendo no calor de suas casas, confortáveis, com uma xícara de café ou chá à frente, consigam refletir sobre o terror que esta jovem enfrentou.

Além do relato do ponto de vista dos refugiados, o livro também explica como os países agem, como é difícil pedir asilo ou refúgio e como os sistemas de acolhimento são excludentes. Doaa, mesmo sendo considerada uma heroína, ainda assim precisou lutar para poder permanecer na Suécia e conseguir levar sua família.

Vale a leitura!!


                                        Doaa Al Zamel nasceu em Daraa, Síria. É uma refugiada



Melissa Fleming é jornalista, escritora e funcionária das Nações Unidas , Diretora de Comunicações do Alto Comissariado das Nações Unidas para refugiados - ACNUR 


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

AS MULHERES QUE MANTÊM O SISTEMA — E AS QUE O FAZEM RUIR

 


OS TESTAMENTOS

MARGARET ATWOOD

ROCCO – 1ª ED. 2021

448 páginas 

Em Os Testamentos, Margaret Atwood desloca o foco da vítima silenciosa para a estrutura do poder em decomposição. Se O Conto da Aia era o relato claustrofóbico da opressão vivida no corpo das mulheres, aqui o que se expõe é o funcionamento interno de Gilead — seus mecanismos de manutenção, suas cumplicidades e, sobretudo, suas fissuras.

A grande virada do romance está na multiplicidade de vozes femininas. Atwood abandona a narração única e fragmenta o relato entre mulheres situadas em posições distintas do regime. Essa escolha não é apenas formal: ela é política. O totalitarismo não se sustenta apenas pela violência explícita, mas pela adesão, pelo medo administrado e pela promessa de sobrevivência. Em Os Testamentos, compreendemos que o patriarcado precisa de mulheres que o reproduzam para continuar existindo.

A figura da Tia Lydia é central nesse sentido. Longe de ser apresentada apenas como vilã, ela encarna uma questão incômoda: como mulheres podem ocupar lugares de poder dentro de regimes misóginos? Sua narrativa revela o preço da adaptação, da negociação moral e da crença de que, para sobreviver, é preciso colaborar. Atwood não absolve, mas também não simplifica. O mal, aqui, não é espetacular; é burocrático, estratégico, calculado.

O romance também desloca o eixo da resistência. Diferente da espera quase suspensa de Offred, agora a resistência se organiza por arquivos, testemunhos, segredos e memórias. A palavra escrita torna-se uma arma silenciosa contra o esquecimento. Não é pela revolta aberta que Gilead começa a ruir, mas pela produção de provas, pela circulação subterrânea da verdade, pela erosão interna da autoridade.

Há ainda um aspecto fundamental: Os Testamentos é um livro sobre o depois. Depois do trauma, depois da violência, depois do silêncio. Atwood nos lembra que regimes totalitários não caem em grandes gestos heroicos, mas em processos lentos de desgaste. A queda não é gloriosa; é suja, ambígua, cheia de pactos incômodos. E mesmo quando o sistema termina, suas marcas permanecem.

Se O Conto da Aia perguntava como é possível viver sob a tirania, Os Testamentos pergunta algo ainda mais perturbador: o que fazemos com o que fomos obrigadas a ser para sobreviver? A resposta não é confortável. Mas é necessária.

Atwood escreve, mais uma vez, não como quem imagina um futuro distópico, mas como quem reconhece padrões históricos. Os Testamentos não oferece redenção plena, apenas lucidez. E talvez seja exatamente isso que o torna tão atual: a certeza de que nenhum regime termina sem deixar rastros e que narrá-los é um gesto político.



Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Canadá em 1939. É uma romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. 

NÃO É O FUTURO: É O PATRIARCADO EM PLENO FUNCIONAMENTO

 


O CONTO DA AIA

MARGARET ATWOOD

ROCCO – 1ª ED. 2017

368 páginas 

O Conto da Aia não é uma distopia sobre um futuro distante, tecnológico ou improvável. Ao contrário: é uma narrativa construída a partir de fragmentos muito reconhecíveis da história — patriarcado, fundamentalismo religioso, controle dos corpos das mulheres, autoritarismo político. Atwood não inventa nada que já não tenha existido. Apenas reorganiza.

A República de Gilead surge após um golpe teocrático que dissolve a democracia e instaura um regime baseado numa leitura literal e instrumental da Bíblia. Diante da queda drástica da fertilidade, o corpo feminino torna-se o principal território de disputa política. As mulheres férteis são transformadas em “aias”, reduzidas à função reprodutiva, privadas de nome, história, desejo e linguagem própria. Offred — “do Fred”, pertencente ao comandante — já não é sujeito: é posse.

A violência em Gilead não se dá apenas pela força física, mas pela normalização. O horror não é gritado, é ritualizado. A cerimônia do estupro, travestida de ato religioso, talvez seja um dos momentos mais perturbadores do livro justamente por sua frieza, por sua repetição mecânica, por sua tentativa de apagar o crime sob a aparência da ordem. O patriarcado aqui não é caótico: ele é meticulosamente organizado.

Atwood é particularmente incisiva ao mostrar como o regime só se sustenta porque conta com a participação ativa de algumas mulheres. As Tias, responsáveis por disciplinar as aias, encarnam a pedagogia da submissão. As Esposas, embora também aprisionadas, exercem poder sobre aquelas que estão abaixo delas. O livro desmonta qualquer fantasia de uma solidariedade feminina automática: em sistemas autoritários, a hierarquia atravessa também o gênero.

A narração em primeira pessoa é fragmentada, entrecortada por memórias do “antes”. Esse recurso revela algo fundamental: a opressão não começa de repente. Ela se instala aos poucos, enquanto direitos são retirados em nome da segurança, da moral, da tradição. Offred lembra de quando as mulheres perderam o direito ao trabalho, à conta bancária, à autonomia — e de como tudo parecia temporário, administrável, reversível. Não era.

O corpo feminino, em O Conto da Aia, deixa de ser experiência e torna-se função. Menstruação, gravidez, parto — tudo é monitorado, regulado, apropriado pelo Estado. A maternidade não é potência, é dever. A sexualidade não é desejo, é instrumento. O silêncio não é escolha, é imposição. Atwood expõe, com clareza cruel, como o controle do corpo é sempre o primeiro passo para o controle da subjetividade.

Mais do que uma distopia, o romance funciona como advertência. Ele pergunta o tempo todo: até onde estamos dispostas a ir para manter uma aparência de normalidade? O que aceitamos perder antes de perceber que já não temos nada? E quem paga primeiro esse preço?

O Conto da Aia permanece atual porque dialoga com retrocessos reais: ataques aos direitos reprodutivos, alianças entre religião e política, discursos morais que legitimam a violência contra mulheres em nome da ordem. Ler Atwood hoje não é exercício de imaginação — é exercício de vigilância.

No fim, a narrativa de Offred não é apenas um testemunho de opressão, mas um gesto de resistência. Contar a própria história, mesmo fragmentada, mesmo em segredo, é recusar o apagamento total. Onde o poder quer silêncio, a memória insiste. E onde o regime quer corpos dóceis, a palavra ainda é risco.



Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Canadá, em 1939. É uma escritora canadense, romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. 


segunda-feira, 2 de março de 2015

LIVRO: REZE PELAS MULHERES ROUBADAS - JENNIFER CLEMENT


Clement, Jennifer. 1ªed. Rocco, 2015
237 páginas
Tradução: Léa Viveiros de Castro
Título Original: Prayers for the stolen

O livro da jornalista Jennifer Clement é escrito em forma de ficção para dar conta de mostrar e denunciar  o que ocorre no Estado de Guerrero, ao sul do México, dominado pelo narcotráfico

O relato é poderoso e impactante, mas consegue também mostrar como estas mulheres conseguem viver neste mundo que as rodeia sem vermos um pingo de autocompaixão, mas sim de aceitação de como é suas vidas e do que devem fazer para sobreviver a isto. 

As mães rezam para que nasça um menino, mas quando é uma menina elas tratam de divulgar a todos que foi um menino e mantém a criança de cabelos curtos vestidas como meninos. Quando elas crescem é a hora de enfeia-las, cabelos curtos, sujam os dentes para que pareçam podres, jamais pintam as unhas. Um buraco cavado perto de suas casas é onde se escondem ao menor sinal de aproximação de uma SUV com os traficantes que vem roubar as meninas para vender. 

Uma vida miserável, sem nenhuma expectativa de futuro, mas ainda assim as quatro garotas da história onde a principal personagem é Ladidy, não em homenagem à princesa, mas como um ato de vingança de sua mãe às traições do marido, conseguem ir a escola (quando tem professor) e são unidas por uma forte amizade. O salão de Rute chama-se "Ilusão", um local não para o embelezamento da mulher, mas sim para a feiura. 

A montanha onde vivem já foi uma comunidade, mas hoje, após a construção da estrada que liga a Cidade do México à Acupulco é um local onde vivem poucas mulheres, pois seus homens foram embora para os Estados Unidos, a estrada dividiu a comunidade e muitos morreram. A única coisa que a mãe de Ladidy faz é assistir TV graças a antena parabólica que ganhou do marido que nunca mais voltou, e esta também é a única abertura para o mundo, uma cultura de televisão. O local é cheio de insetos, formigas e também escorpiões, a casa de Ladidy tem dois cômodos e o chão é de terra batida, o calor é insuportável.

Uma das garotas, a mais bonita, Paula, um dia foi roubada. Ela vai conseguir voltar mas nunca mais será a mesma. Ladidy terá a oportunidade de ir trabalhar em Acapulco, o que também não irá melhorar sua vida, pelo contrário, se verá envolvida num crime. Qual a única esperança destas pessoas? ir para os Estados Unidos.

A autora entrevistou por mais de dez anos mulheres nas regiões mais violentas do México. Baseada nisto ela criou este livro em forma de ficção para colocar palavras nisto que é inefável para as protagonistas e com isto fazer mais uma denúncia. Até quando?


Jennifer Clement nasceu em 1960 em Connecticut, EUA. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

LIVRO: O FEMININO E O SAGRADO - CATHERINE CLÉMENT e JULIA KRISTEVA



Clément, Catherine; Kristeva, Julia. Rocco, 2001
220 páginas
Tradução: Rachel Gutiérrez

Um livro escrito a duas mãos, duas vozes. Catherine Clément e Julia Kristeva através de cartas falam sobre o feminino e o sagrado.

O que é o sagrado para o feminino?

Não é fácil escrever sobre este livro que acabo de reler. Os temas são variados dentro do que ambas consideram como sagrado e nem sempre vai de encontro ao que eu mesma penso sobre isto, mas é muito interessante e enriquecedor. 

Kristeva fala do lado Ocidental, com sua formação psicanalítica e linguística, nasceu na Bulgária e vive na França, já Clément é  francesa, judia e viveu por muitos anos na Índia e África, romancista, estudou filosofia, professora e jornalista, tem uma visão mais antropológica. Elas concordam e discordam, há um momento no livro que se sente um pouco a tensão entre as duas que defendem seus pontos de vista, uma certa agressividade até, para depois se recomporem e continuar. Não há nada de conclusivo e nem era esta a intenção, o que elas fazem é levantar questões e falar sobre elas cada uma de seu ponto de vista e compreensão. 

Kristeva fala da Virgem Maria, das místicas ocidentais, de suas analisandas, da anorexia; Clément das africanas e do transe, sobre as tradições Indus, sobre o pudor e a sujeira. Pessoalmente me sinto mais atraída pela visão de Clément que está falando do que viu, viveu, do que acontece de fato na realidade que ela vive. Kristeva em um dado momento chama de sedução de terceiro mundismo, não gostei desta posição dela. Penso que para falar do sagrado a antropologia está mais habilitada do que a filosofia ou a psicanálise. Mas isto é uma opinião pessoal que não significa que Kristeva também não agrega pontos muito interessantes, principalmente sobre as místicas, as santas, sobre Catarina de Siena. Será ela que depois vai escrever um belíssimo livro sobre Teresa D'Ávila. Mas Clément escreveu a Louca e o Santo junto com um psicanalista hindu. 

Num ponto elas concordam, o sagrado é uma separação, ele separa, classifica, é uma maneira de se sair do profano, do mundano, do cotidiano, e viver algo diferente, recuperar-se, e voltar. O sagrado não é divino, há uma diferença, e por isto mesmo nem sempre está ligado à religião. É uma experiência privada, e o risco de se tornar coletiva é o fundamentalismo, a violência, pelo menos no mundo atual, uma vez que entre os povos ditos "primitivos" os rituais eram coletivos e cumpriam seu papel. As aldeias tinham seu espaço sagrado e era respeitado. No mundo atual para se encontrar um espaço sagrado realmente precisamos da privacidade e penso que se trata de uma experiência pessoal para cada um. O sagrado pode estar numa música, num lugar, na dança. Eu mesma considero minha casa um espaço sagrado e a rua o profano, mas também busco na natureza e na terra esta experiência. 

Catherine Clément 

Julia Kristeva nasceu em 1941 em Sliven, Bulgária 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

LIVRO: ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO O senhor do labirinto - LUCIANA HIDALGO


Hidalgo, Luciana. 2ª ed. [revista e ampliada]. Rocco, 2011
208 páginas

Última leitura deste ano de 2014.

Arthur Bispo do Rosário, esquizofrênico-paranoico ou um místico? e qual seria a diferença? penso que o que mais influencia é o contexto e a cultura onde se está, a diferença entre o louco e o santo. 

Sabe-se muito pouco sobre ele no real, por causa de um registro de batismo em uma igreja encontrado pela autora pode-se afirmar que ele nasceu em Japaratuba no Sergipe e conhece-se os nomes de seus pais: Claudino Bispo do Rosário e Blandina Francisca de Jesus. Os significantes nos nomes de seus pais chamam a atenção: Bispo, Rosário e Jesus. 

A cidade de Japaratuba tem um rico folclore e muitas festas religiosas, de onde provavelmente vem muito do que Arthur bordou em sua vida. Nada se sabe de sua família, infância. Entrou para a Marinha, trabalhou na Viação Excelsior e depois trabalhou para a família Leoni no Rio de Janeiro. Após uma visão no dia do Natal em 1938 de sete anjos e vagou por dois dias até chegar ao Mosteiro de São Bento. Considerava-se o Cristo. Tinha 30 anos quando foi registrado no Hospital Nacional dos Alienados e depois transferido para a Colônia Juliano Moreira em Jacarepaguá. Ia e vinha entre a colônia e a casa dos Leoni. 

Dizia que foi obrigado a construir seu mundo paralelo, que criava seguindo as ordens que recebia. O fato é que deixou uma obra belíssima em miniaturas, bordados e assemblages. Pessoalmente gosto de ver isto como um bricolage, onde ele reordena objetos de seu cotidiano no mesmo espaço, mas de outra forma, ou seja, mexe na estrutura, resignificando. 

Em sua obra destacam-se as palavras e nomes, e isto me remete a duas grandes artistas - Frida Kahlo e Louise Bourgeois que também trabalhavam com palavras. Uma de suas frases mais marcantes é " o louco é um homem vivo guiado por um espírito morto".

Também chama a atenção de Bispo executar uma arte dentro de seu mundo fechado, sua casa-forte, que ao mesmo tempo se desenvolvia no mundo da arte, o novo realismo

A obra de Bispo é no fundo autobiográfica, seu inconsciente está presente ali e lhe traz os traços e reminiscências da infância e do que viveu e dos principais significantes para ele, porém como é algo que ele produz, como um sonho, mas ninguém consegue interpretar, nem mesmo ele, não há como decifrar ali sua história, mas para os que são mais sensíveis é possível ver uma construção ficcional de sua vida, o que não deixa de ser a realidade, uma vez que todos nós construímos uma ficção, só que temos algumas referências, e ele não as dizia ou não lembrava. 









Luciana Hidalgo é jornalista, ensaísta e escritora 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

LIVRO: HOTEL DO LAGO - ANITA BROOKNER


Brookner, Anita. Rocco, 1986
163 páginas
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Título Original: Hotel du Lac

Edith é um escritora que escreve sob um pseudônimo romances de amor. Ela vive sozinha em Londres e tem um romance com David que é casado e alguns amigos, além de seu editor com quem as vezes sai para almoçar. Mas ela comete um erro imperdoável segundo seus amigos que a isolam e enviam para o Hotel do Lago na Suíça.

O Hotel nesta época do ano já tem poucos hóspedes, a temporada está acabando, e na maioria são mulheres desacompanhadas, cada uma com sua história. É um Hotel reconhecido por sua sobriedade e por se manter na tradição não aderindo as muitas novidades que a hotelaria vem utilizando.

Edith inicialmente se mantém distante e observando, aos poucos começa a interagir com os hóspedes, mas mesmo assim, é tudo muito superficial, o que não a impede de criar uma história para cada um, e de perceber o quanto ela acredita em seus romances e no que escreve, apesar das tentativas de seu editor para que ela se modernize, ao invés de acreditar tanto no amor romântico.

A sua estada no Hotel aos poucos a fará repensar muitas coisas, observar o feminino em suas manifestações e de aos poucos compreender o quanto estas pessoas vivem da aparência e não uma vida real. Um consumismo exagerado, manter o status social, e não se sentir ridículo perante os outros, mas quem são estes outros? são importantes? A própria Edith sempre deixou que os outros comandassem sua vida e a repreendessem, a ponto de decidirem que ela devia exilar-se.

Este crescimento permitirá que finalmente Edith tome uma decisão por si mesma e lhe desmanchará as ilusões que mascaram a vida e as pessoas.

Anita Brookner nascem em 1928 em Herne Hill, no Reino Unido.

domingo, 7 de setembro de 2014

LIVRO: UM ANO DE VIAGENS - Passeios apaixonantes pela Europa, Marrocos e Turquia - FRANCES MAYES


Mayes, Frances. Rocco, 2007.
446 páginas
Tradução: Talita Rodrigues
Título Original: A year in the world: journeys of a passionate traveller.

Mayes é conhecidíssima pelo livro e filme "Sob o sol da Toscana" (postei no blog sobre o filme), quando ela se separou e numa viagem à Itália compra Bramasole em Cortona e passa a viver por lá um tempo onde acaba conhecendo Ed, seu marido que a acompanha neste delicioso livro Um ano de Viagens.

Não se trata de sair viajando por um ano direto, mas das viagens realizadas que ela nos relata com muita sensibilidade, com um olhar estético, amoroso, e guloso, sim, porque a culinária está presente em todo o livro.

Eles irão para vários lugares na costa do Mediterrâneo, Espanha, Portugal, Marrocos, Turquia, Grécia, Escócia, Ilhas Britânicas.

O que mais apreciei é que se trata de dois flaneurs. Eles viajam conforme seu desejo os conduz, param onde algo os atrai, buscam os restaurantes típicos, locais, e não os recomendados para turistas, aliás, eles são tudo, menos turistas. Eles procuram vivenciar o local e as pessoas que ali habitam. Mayes sempre se faz a pergunta: Eu poderia viver aqui?

E isto torna o livro encantador e diferente. Não são descrições de locais turísticos, são detalhes, pinceladas, daquilo que interessou, do que atraiu o olhar, do que encantou, do que é capaz de mudar algo numa pessoa.

Eu me identifiquei muito com ela. Viaja sempre carregada de livros, o que também faço. Gosta de fotografar detalhes, uma porta, um trinco, uma varanda, uma flor, um detalhe da escultura. Não aprecia passeio prontos com tempo determinado, eu também não. Não aprecia muito guias turísticos, principalmente os que parecem recitar algo, mas sempre há exceções e encontramos excelentes guias. Odeia locais cheios onde não se consegue apreciar nada, ver nada, e somos empurrados com os outros. Prefere as ruelas, os becos, caminhar muito, olhar, cheira, provar. Compra livros, objetos para sua casa. Ed compra Cds das músicas locais. A descrição dos lugares com suas cores, as plantas, flores, as pessoas. A conversa com os habitantes.


Um livro maravilhoso sobre viagens, recomendo a leitura.