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segunda-feira, 8 de junho de 2015

FILME: MANGE, CECI EST MON CORPS - 2007



Direção: Michelange Quay - 2007
Duração: 99 min

País de origem: Haïti 

Um filme diferente que irá agradar a poucos. É um filme que representa um transe, fora da compreensão e do racional. É uma experiência cinematográfica, que nos leva ao mais profundo do sofrimento espiritual e material do Haïti. 

Vou falar sobre o que senti. Logo no início do filme vemos uma senhora branca num leito (Catherine Samie) que fala palavras ditas por Jesus, mas ela completa dizendo que ela é a abundância incompreendida por eles (haitianos) que cospem nela em sua ignorância. Ela alimenta este mundo canibal, coma, este é meu corpo. Ela diz perdoe-os, eles não sabem o que fazem. Mas ela mesma se alimenta deles, ao ponto de se ver neles e diz que eles pegam, mas não retribuem. 

Alguns meninos se dirigem em fila para a casa colonial. São lavados, vestidos de terno, sapatos, para o ritual da refeição. Uma mesa posta, tigelas e colheres. Surge Madame (Sylvie Testud), ela se senta com os meninos à mesa, mas não há comida, o que não desobriga o obrigado!, repetido à exaustão. Ela sugere que eles devem fechar os olhos e imaginar que estão comendo. Mas quando eles finalmente tem um bolo para dividir, eles se empanturram, e fazem guerra com o bolo. 

O filme retrata o branco comendo o negro. É um jogo de espelhos, o negro se olha no espelho, ele espia a mulher branca. Uma busca de identidade. A mulher branca acaba tomando consciência do outro, mas para isto sua mãe tem que morrer. 

É como um mergulho no inconsciente, poucas palavras, imagens, vemos as duas senhoras brancas, que representam a colonização. Vemos os negros habitantes e originários dali. Um se olha no outro, e por mais que o branco tente se manter afastado ele acaba assimilando também. Então já temos dois lados diferentes. Além disto há uma crítica a colonização, a situação da casa colonial diante do restante do povo. O branco acredita que ele está levando algo de bom para eles e os haitianos não agradecem, e porque teriam que agradecer? Eles é quem estão sendo explorados pelo branco. Então ao contrário do que diz a senhora no começo do filme, é ela quem se alimenta deles e não o contrário. 

Um filme que possibilita muitas interpretações. 

O filme foi realizado antes do terremoto de 2010 que arrasou o país que até hoje não se recuperou. 





Michelange Quay é haitiano

domingo, 24 de maio de 2015

FILME: UM HOMEM QUE GRITA - 2010


Direção: Mahamat-Saleh Haroun - 2010
Duração: 90 min
Título Original: Un Homme qui crie

País de origem: Chade

Ganhou o Prêmio do Jurí em Cannes. 

Adam (Youssouf Djaoro) é um ex-campeão de natação e há 30 anos trabalha na piscina de um hotel de luxo na capital do Chade - Djamena, na África. O hotel acaba de ser comprado por chineses e a administração começa a agir de uma maneira diferente, onde antes contava os laços, o tempo, a dedicação, agora é uma questão prática. Primeiro é o cozinheiro que é demitido, ele que sempre cozinhou com amor, e não seguindo cardápios ou receitas sofisticadas. E Adam tem que ceder o lugar ao seu filho Abdel (Diouc Koma) e assumir o lugar de porteiro, uma situação que o fere e incomoda, pois ele considera um declínio social, ele que acreditava que seu lugar de guardião da piscina era um direito divino, principalmente por merecimento pois ele foi campeão de natação e é chamado por todos de campeão. 

O país está passando por uma guerra civil, com rebeldes ameaçando o governo, e a população precisa ajudar o governo, com dinheiro ou enviando seus filhos para lutar pelo país. Adam não tem o dinheiro e passa a viver o dilema de enviar seu filho para a guerra, sendo que é pressionado pelo líder do bairro que acaba lhe dando três dias para decidir. 

Um paralelo entre a vida de Adam e do país, que vai aos poucos perdendo toda sua beleza, tudo aquilo em que se acredita, seus rituais, suas tradições. Adam acaba entregando o filho e passa a sofrer com sua consciência, mas não conta a ninguém o que fez. Ele reassume o lugar na piscina até o dia em que a guerra chega mais perto e todos começam a fugir. A namorada de Abdel havia procurado a família, está grávida. E somente à ela Adam acaba contando o que fez. Ele então parte para buscar o filho. 

Os conflitos de Adam começam no dia que é "expulso" da piscina, seu paraíso. Até ali ele está indiferente à guerra, aos aviões que lhe passam por cima da cabeça. Ao falar com o cozinheiro demitido eles reconhecem que "nosso problema é que colocamos nosso destino na mão de Deus". Começa o desabrochar político de Adam. 

O filme é africano, e portanto não tem um enfoque ocidental. Apesar da questão do destino nas mãos de Deus ser uma referência à catequização imposta, eles não jogam a culpa sobre os colonizadores franceses. Para eles é o homem quem é o responsável por sua vida. 

O Chade vive em guerras civis e pobreza perene, mas segundo o diretor Haroum seu povo sabe que a guerra não é um ato de cima, mas uma criação dos homens.


Mahamat-Saleh Haroun nasceu em Abéché, Chade. Vive na França desde 1982.

terça-feira, 14 de abril de 2015

FILME: TIMBUKTU - 2014




Direção: Abderrahmane Sissako - 2014 
Duração: 95 min

País de Origem: Mauritânia 

Indicado para o Festival de Cannes 2014 como longa-metragem


Baseado no caso real ocorrido em Aguelhok no Mali em 2012 - Um casal com dois filhos foi apedrejado até a morte por serem casados no papel. O ambiente ficou turbulento, os tuaregues fizeram uma rebelião e declararam independência da parte norte do país, os militares deram um golpe de Estado, e os grupos islâmicos tomaram o controle de partes do território com o objetivo de implantar a sharia. Em 2013 tropas francesas interferiram e recuperaram algumas áreas. Sissako não faz uma adaptação literal do fato.


Nunca um filme me provocou tamanha angústia. Sissako é brilhante!

Estamos em 2012 em uma pequena aldeia ao norte de Mali. Os extremistas religiosos estão no controle do lugar. Nada de cigarros, nada de música, nada de futebol, tudo é proibido. As mulheres tem que cobrir não só o corpo e os cabelos, mas também os pés e as mãos com meias e luvas. 

O que antes era uma aldeia alegre, cheia de vida, colorida, passa a ser seco e árido como o deserto, as pessoas se retraem, outras fugiram. Kidane (Ibrahim Ahmed dit Pino) vive com sua mulher Satima (Toulou Kiki) e sua filha em uma tenda afastado da aldeia. Todos foram embora, só eles ficaram. Ali eles conseguem ainda viver como antes até o dia que um pescador mata uma de suas vacas e ao tirar satisfações com ele a arma que Kidame levava dispara acidentalmente e mata o pescador. Então Kadime se vê nas mãos deste grupo de fundamentalistas.


O filme tem cenas fortes mas mostradas com cortes, e também nos traz Zabou (Kettly Noël) que aparentemente seria meio doida o que a coloca fora das interdições, sendo a única a manter a cor, a alegria no local. Seria necessário ser louco para ser livre numa situação assim? Até as mulas que andam pela aldeia tem mais liberdade. O futebol que é proibido, a bola descendo as escadas e a prisão do jogador. Em seguida vemos uma cena antológica de um grupo de rapazes e homens jogando futebol, mas detalhe, não há bola, mas o jogo acontece.



Uma mulher canta e é presa, julgada é condenada a chibatadas. Durante o castigo ela canta em lágrimas. Duas pessoas estão enterradas na areia e são apedrejadas. Uma jovem é dada em casamento a um dos extremistas sem o consentimento de sua família. Ela chora.




Onde está Deus nisto tudo? Não há piedade, nem misericórdia, há apenas o desejo do grupo que quer ser o Outro das pessoas que ali vivem. 

Um grupo fundamentalista que se apodera do lugar de Deus, do lugar da cultura e passa a ditar as regras e normas, mas as transgride, pois vemos um dos líderes (Abel Jadri) assediando a mulher de Kidane e este mesmo se esconde no deserto para fumar. 

O que sentimos surge das imagens do filme, da nossa percepção e do que nos toca como seres humanos, e no meu caso, como mulher diante de uma situação onde a mulher é um objeto e não um sujeito. Mas elas lindamente resistem, como a mulher que canta enquanto recebe chibatadas, como Zabou que penso se finge de louca, como Satima que dribla o que o líder esperava com a morte de seu marido, indo até ele e morrendo junto.



O que Sissako consegue é através da beleza e arte criar um impacto que é muito maior do que se ele filmasse apenas o horror, a violência de forma explicíta. Ele o faz, mas com cortes entremeados de cenas ontológicas. 

Abderrahmane Sissako nasceu em 1961 em Kiffa, Mauritânia

domingo, 12 de abril de 2015

FILME: FOR THOSE WHO CAN TELL NO TALES - 2014




Direção: Jasmila Zbanic - 2014
Duração: 69 min

País de Origem: Bósnia-Herzegovina

Kym (Kym Vercoe) mora na Austrália e viaja para a Bósnia-Herzegovina em suas férias, se diferenciando dos outros que preferem outras opções. Antes de viajar ela leu o livro de Ivo Andric - A ponte sobre o rio Drina, e segue um guia de viagens para percorrer a região, além de sempre gravar seu dia a dia, como se fosse um diário. 




Por causa do livro que leu resolve visitar Visigrad, que é onde fica a ponte. Faz reserva  em um hotel indicado pelo guia como um local romântico.Até este momento tudo está indo muito bem e ela está feliz com sua viagem, mas na noite que passa no hotel ela sente um mal estar, não consegue dormir. Ao retornar à Austrália ela irá procurar no Google mais informações e é quando descobre que o Hotel foi usado como campo de concentração de mulheres que eram estupradas e mortas, durante a guerra.



Kym se sente chocada com isto e não consegue aceitar que tenha dormido ali, naquele quarto onde algum tempo antes havia ocorrido o horror. Ela volta para lá 6 meses depois para tentar compreender, encontrar respostas e então vai descobrir como as cidades se reerguem após uma guerra, porém sem nunca deixar para trás seu passado sangrento. 

Ela tira fotos de tudo, das marcas nas paredes, na ponte, buracos de tiros, ruínas, tudo que a guerra deixou. Com isto chama a atenção da polícia e acabará interrogada e terá que deixar o país, mas não sem antes prestar uma homenagem às mulheres mortas no hotel e desta forma conseguir elaborar seu mal estar.

Em um determinado momento ela anda pelas ruas da cidade acompanhada de um professor de história e ele diz o que talvez ela não estivesse conseguindo compreender por vir de um lugar onde não havia ocorrido algo assim. Ele fala que "os que viram e viveram se perderam no dom da palavra e os que estão mortos não podem contar histórias. E completa ... essas são coisas que não são contadas e sim esquecidas, mas onde elas não são esquecidas como podem ser contadas? As vezes a ignorância é uma benção.

É o retrato do que acontece nos lugares que passaram pelo horror da guerra. São necessário anos para que se possa falar sobre o que aconteceu. Muitos não querem ouvir e outros não querem falar. É por isto que somente agora vemos uma explosão de livros escritos por sobreviventes do holocausto na Segunda Guerra, estão se aproximando da morte, é talvez a última geração que viu a guerra, e então sentem a necessidade de falar finalmente, para que não seja esquecido.

Este filme me remete a um momento em minha vida quando fui pela primeira vez no local do desembarque na Normandie na França. Eu olhei a praia, pisei nela e não suportei, era como pisar em sangue. Mas a areia estava branca, o mar e a chuva haviam retirados os vestígios, mas eu sentia que estava lá, ainda estava lá.

Jasmila Zbanic nasceu em 1974 em Sarajevo, Bósnia 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

FILME: TANGERINES - 2013



Direção: Zaza Urushadze - 2013
Duração: 87 min
Título Original: Mandariinid

País de Origem: Geórgia

Um filme sensível sobre a guerra onde a humanidade ainda se faz presente através de Ivo (Lembit Ulfsak). É a guerra na Abcásia, 1992, que quer se tornar independente da Geórgia. Os estonianos deixaram a aldeia, mas Ivo e Margus (Elmo Nüganen) ficam. O primeiro por motivos pessoais que iremos compreender no final do filme e Margus para cuidar de sua plantação de tangerinas. Os dois são amigos, e Ivo faz as caixas de madeira para Margus colocar as tangerinas. Estão com um problema pois não encontram ninguém para ajudar na colheita.





Ahmed (Giorgi Nakashidze) aparece na casa de Ivo com seu companheiro, ele é um mercenário que está lutando por dinheiro. Depois de pegar comida vai embora. Logo em seguida vai haver um ataque na porta da casa de Margus e Ahmed está ferido, os outros estão mortos. Ivo o leva para sua casa para tratá-lo e com Margus vão enterrar os outros, porém descobrem que há mais um sobrevivente, Niko (Misha Meskhi), um georgiano, que está gravemente ferido na cabeça. Ivo também o socorre.



A partir daí serão os quatro, sendo que Ahmed jura que vai matar Niko para vingar a morte de seu amigo, mas acaba dando sua palavra de honra que não o fará na casa de Ivo. São quatro pessoas de diferentes nacionalidades, religião, idade, cada um com sua visão de mundo que terão que conviver ali. Aos poucos as questões surgem, por que lutam? que direito eles tem de matar? trazendo a tona o absurdo da guerra onde as pessoas se tornam inimigas, se odeiam, muitas vezes sem motivo algum, e que se não fosse a guerra poderiam inclusive ser bons amigos. É disto que o filme trata.



Zaza Urushadze nasceu em 1965 na Geórgia. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

FILME: COISAS INSIGNIFICANTES - 2008


Direção: Andrea Martínez - 2008
Duração: 98 min
Título Original: Cosas insignificantes

País de Origem: México

Esmeralda (Paulina Gaitan) é uma adolescente que coleciona objetos que encontra em seu dia a dia e os guarda em uma caixa. São objetos esquecidos, perdidos ou descartados, insignificantes para ela, mas que possuem um significante em cada um para aqueles que os deixaram para trás. 

O filme nos mostra as histórias de cada uma dessas pessoas que tem em comum o fato de não conseguirem demonstrar e expressar o amor. Cada um destes objetos foram esquecidos, feitos ou descartados em momentos onde faltou a palavra, onde algo não pode ser dito. Um pai que passou 20 anos sem ver a filha, uma mãe que não consegue expressar seu amor pelo filho, um casal que tem problemas e a própria Esmeralda que não consegue expressar seu amor pela irmã e pela avó. 

Os pequenos objetos da caixa representam esta falta, ausência de comunicação, mas também a sua possibilidade. 

Quantas vezes não falamos através de algo? Quando guardamos uma flor que ganhamos de alguém que amamos, este gesto é um significante, fala de amor, que muitas vezes não foi dito, falado. Objetos que representam algo que nunca foi dito, que não chegou ao outro. 

No momento que Esmeralda consegue ultrapassar esta barreira e expressar seu amor pela irmã e pela avó, participando inclusive das alucinações desta, ela não precisa mais da caixa e a repassa ao médico que não consegue falar com sua filha. 

Ao assistir o filme me lembrei que também tenho uma caixa assim, com flores secas, um guardanapo de uma lanchonete, um maço de cigarros, uma bonequinha, um papel de bala, e que todos representam amores que tive em minha vida. Será que consegui expressar os significantes que estão ali? 


Andrea Martínez 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

DOCUMENTÁRIO: OS ANIMAIS TAMBÉM SÃO SERES HUMANOS - 1974



Direção: Jamie Uys - 1974
Duração: 92 min
Título Original: Animals are beautiful people

País: África do Sul

Um dos melhores documentários que assisti sobre os animais e o único que vi até hoje que não foca na caça de outro animal para a alimentação. 

O documentário chega a ser hilário, e há um narrador que nos conta a história obviamente pelo viés do ser humano, acompanhando os atos e costumes dos animais como se fossem humanos. As paisagens são belíssimas, o documentário é filmado no deserto vermelho da Namíbia, deserto branco, Okavango e deserto de Kahalari. 

Foram necessários quatro anos para fazer o filme e percorreram 200 mil Km do território da África, do grande deserto na Namíbia até o vale do rio Zambesi captando expressões, gestos, o dia a dia dos animais desde aves, répteis, felinos, mamíferos e outros animais selvagens, demonstrando o quanto nos parecemos com eles.

O ser humano mantém mesmo na dita modernidade ou pós-modernidade os aspectos antropomórficos sempre humanizando sejam os deuses, a natureza ou objetos inanimados. Toda narração deste filme foge ao real, uma vez que se supõe que o animal esteja fazendo algo que estaria muito mais próximo do humano do que do mundo dele, apesar que sim, alguns aspectos são realmente parecidos ou até mesmo iguais, afinal nós também somos animais, nos diferenciando justamente pela linguagem, pela fala, que nos permite então criar todo este mundo imaginário onde um javali ao se jogar na lama está tomando seu banho nupcial, por exemplo. 

Recomendo!

Jamie Uys nasceu em 1921 em Boksburg, África do Sul e faleceu em 1996 em Joanesburgo. 

domingo, 11 de janeiro de 2015

FILME: CAMELOS TAMBÉM CHORAM - 2003


Direção: Byambasuren Davaa e Luigi Falorni - 2003
Duração: 87 min
Título original: Die Geschichte vom weinenden Kamel

País: Mongólia

Belíssimo! No deserto de Gobi, Sul da Mongólia, Primavera de 2002, uma família de nômades de sheperds que vivem em tendas e criam camelos e ovelhas. É o momento dos camelos terem seus filhotes, mas uma delas, a última a parir, rejeita sua cria, após um parto muito complicado onde a família tem que ajudar, puxando o filhote para fora. É um belo potro branco, muito raro.



A família fara de tudo para que ela aceite seu filhote, mas nada a convence e ela se afasta a cada vez que ele se aproxima. Quando a seguram para que ele mame, ela bate as pernas, gira. É comovente ver o olhar do pequeno, abandonado, sem o afeto de sua mãe. A filha erá alimentá-lo, mas chegará um ponto onde ele não aceitará mais. Neste momento o avô diz que é preciso fazer um ritual, mas para isto precisam de um músico. Os garotos vão até uma cidade buscar o músico. Após o ritual a mãe chora, e finalmente aceita seu filhote. 


Esta comunidade que vive de forma tão diferente do que nós conhecemos, ainda integrada à natureza, com rituais, lendas e mitos que o avô conta para seus netos. Quando os garotos viajam o menor entra em contato pela primeira vez com uma cidade maior e com isto com a TV e os jogos eletrônicos, o que o deixa encantado, mas será que dentro desta cultura, se for preservada, há a possibilidade disto desvirtuar o que de tão belo os une e move? O filme não nos responde isto. O que ele mostra é a beleza da vida possível entre os seres humanos e a natureza que os envolve, sejam as tempestades de areia ou o parto do pequeno camelo, que só é aceito quando sua mãe se emociona com a música, o que nos leva a pensar que os animais também são seres vivos e que tem sentimentos, eles choram.



O filme além de trazer uma bela história, nos mostra um pouco da cultura deste povo, da Mongólia, onde a maioria são nômades. As tendas deles tem portas de madeira, e dentro são muito aconchegantes. Durante o filme vemos vários outros rituais. A religião deles é o budismo tibetano. 


Byambasuren Daava nasceu em 1971 em Ulan Bator, Mongólia. 

Luigi Falorni nasceu em 1971 em Florença, Itália. 


FILME: E BUDA DESABOU DE VERGONHA - 2007



Direção: Hana Makhmalbaf - 2007
Duração: 76 min
Título Original: Buda as sharm foru rikht

País: Afeganistão - Neste caso coloco o filme para este país apesar da diretora ser Iraniana porque o filme se passa se neste país e trata da cultura deste povo. 

Um filme que me tocou muito, não sei nem dizer tudo a que este filme me remete. O filme se passa no vale de Bamyan no Afeganistão, exatamente onde o Taliban destruiu as imensas estátuas de Buda em 2001, e vemos então os nichos onde eles ficavam. É a este fato que o título do filme se remete, que eles não teriam sido destruídos, mas que desabaram de vergonha.



Apesar das dificuldades e da miséria, assim mesmo vemos um povo pacífico, que luta para viver. Bakhtai é uma menina de 06 anos da etnia hazara, ela vive nas cavernas como a maioria da população. Seu vizinho, um menino Abbas, lê em voz alta e isto lhe chama a atenção, ela não sabe ler e como ele a desafia a ler e ela não sabe, apesar de tentar fingir que sabe, decide então que deseja ir para a escola para aprender a ler, mas mais que isto, como Abbas lê um trecho para ela de seu caderno, ela quer ir a escola aprender histórias divertidas. O problema é que ela não tem um caderno nem um lápis. E eis que começa a odisseia de Bakhtai para conseguir estes dois objetos tão desejados e finalmente poder ir a escola, porque ela não tem dinheiro e não consegue encontrar sua mãe para pedir. 

Abbas sugere que ela venda ovos no mercado, e lá vai ela com seus quatro ovos. Finalmente ela consegue pelo menos o caderno, mas não o lápis, então ela pega o batom de sua mãe para escrever e vai para a escola.



Até aqui vemos toda inocência de uma criança, seu olhar meigo, seu desejo, suas peripécias para conseguir o que quer. Porém ela vive num país marcado por anos de opressão do Taliban, machista, que segrega as mulheres dos homens, ela mesma com 06 anos já cobre a cabeça, e no caminho para a escola ela encontra um grupo de meninos que brincam de guerra, os talibans contra os americanos, eles a prendem porque batom é algo que não pode, eles dizem que vão apedrejá-la, rasgam seu tão precioso caderno para fazer aviões de papel, colocam um saco de papel em sua cabeça deixando apenas buracos para os olhos, nariz e boca e a levam até uma caverna onde estão outras meninas pequenas.

Me comove ver esta pequena menina não ter medo. Para ela que ainda não tem consciência do que se passou em seu país, os meninos estão apenas brincando. Ela vai embora da caverna, enquanto as outras com medo lhe pedem para buscar a polícia. Os meninos refletem a história de seu país, mas ao mesmo tempo eu não pude deixar de pensar que as crianças ocidentais também faziam isto brincando de Forte Apache combatendo os índios. Estes mesmos meninos depois irão reaparecer, desta vez no papel de americanos prendendo os do Taliban.


Bakhtai após conseguir sair da caverna continua sua caminhada para a escola. Finalmente ela vai encontrar um lugar onde meninas estudam. Ali ao descobrirem o batom as meninas começam a  brincar, se pintar, como toda criança faz, mas quando a professora vê isto, ela é expulsa dali.

Voltando para casa é que reencontra os meninos, e Abbas também, que na brincadeira se finge de morto, ela não, ela corre e eles atrás dela. Abbas grita: morre! morre que você se liberta! Ela ainda resiste. Só a morte liberta grita seu amigo, e ela finalmente se joga no chão fingindo de morta.


Através de brincadeiras de crianças o filme nos mostra uma sociedade que limita a liberdade da mulher, o que Bakhtai ainda vai descobrir, mas no filme esta pequena menina simboliza a resistência, ela não tem medo, como as outras, e isto me comoveu e me remete ao fato de que o medo gera violência, é o medo que leva as pessoas a desejarem o poder. Os meninos reproduzem sua cultura e sua história, porém, diferente do Forte Apache, que aqui no Ocidente foi mudando a situação e apesar de ainda não se respeitar o índio, pelos menos já temos quem os defendam e livremente, sem falar que eles mesmos o fazem, no Afeganistão esta pequena menina terá que se render à sua cultura que continua se propagando já nas brincadeiras infantis, ela terá que se jogar ao chão, e isto tudo difere muito do budismo.
  
Hana Makhmalbaf nasceu em 1988 em Teerã, Irã 

domingo, 4 de janeiro de 2015

FILME: BABA AZIZ - O príncipe que contemplava sua alma - 2006


Direção: Nascer Khemir - 2006 
Duração: 96 min
Título Original: Bab' Aziz, le prince qui contemplait son âme 

País: Tunísia 

Baba Aziz (Pariz Shahinkhou) é um dervixe que caminha junto com sua neta Ishtar (Maryam Hamid) para o encontro dos dervixes que ocorre a cada 30 anos. Para guiá-los apenas a fé. O percurso é longo e pelo deserto e Baba Aziz vai contando a história de um príncipe que passou anos contemplando sua alma até se transformar num dervixe. A medida que caminham vão encontrando outras pessoas e cada uma conta sua história.





Um filme de rara beleza poética e visual, as imagens do deserto, as danças, a música, os cantos, sem falar no contato que temos com a vida no deserto, as construções que surgem de repente no meio do nada, da areia, eles se limpam com a areia, as noites frias.





"Quem está em paz não perde-se no caminho"

Nascer Khemir nasceu em 1948 em Korba, Tunísia 

sábado, 3 de janeiro de 2015

FILME: O CHEIRO DO PAPAIA VERDE - 1993



Direção: Tran Anh Hung  - 1993
Duração: 104 min
Título Original: Mùi Du Dû Xanh 

País: Vietnã

Filme dedicado à Chau A Long e Phan Thi Hông Hanh

Um belo filme sobre o Vietnã.

1951 em uma casa em Saigon uma menina vem do interior para ser serviçal em uma casa, é Mui (Man San Lu). Apesar da guerra colonial que percebemos pelo toque de recolher e o som dos aviões, o que o filme retrata é um cotidiano, nada mais banal e tranquilo, bem ao ritmo oriental. Mui cresce e anos mais tarde (Tran Nu Yên-Khê) é uma bela jovem que agora terá que deixar a casa onde cresceu pois a família se encontra em dificuldades financeiras e ir trabalhar para um compositor amigo do filho mais velho da família que acaba se apaixonando por ela e a engravida, finalizando o filme numa história de amor.



Apesar do filme mostrar sutilmente a exploração do trabalho dos menores, analfabetos e pobres, que trabalham da manhã à noite, ele nos mostra principalmente a vida no Vietnã com toda a riqueza dos detalhes. As casas, a decoração destas, muitas plantas e toda variedade de insetos e pequenos animais, rituais, e principalmente a culinária. Estamos acostumados a ver filmes sobre a guerra do Vietnã, mas este nos mostra a vida e a cultura deste país, e sem se referir a divisão de Norte ou Sul, ao comunismo ou democracia.



O diretor buscou recriar o Vietnã de sua infância que chegou a retornar ao país, mas descobriu que a guerra havia destruído tudo, então recriou tudo num estúdio para filmar. O papai lhe traz as lembranças pois os gestos e os sons do preparo do papaia era algo conhecido e que todos faziam. 



O filme tem uma rica estética, é encantador os detalhes e o preparo das refeições, além dos sons do dia a dia que sugerem uma poesia. 
Tran Anh Hung nasceu em 1962 em Da Nang, Vietnã. Mudou-se para a França onde estudou cinema. A atriz deste filme é sua esposa.