Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo.
Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
Direção: Georg Maas - 2013 Duração: 97 min Título original: Zwein Leben
1990 - o murro de Berlin acabou de cair. Katrine (Juliane köhler) vive na Noruega há mais de 20 anos, casada com Bjarte (Sven Nordin), tem uma filha e uma neta. Ela é uma das "filhas da guerra" que foram as crianças que nasceram de relações entre alemães e norueguesas durante a ocupação da Noruega na Segunda Guerra Mundial. Estas crianças foram retiradas de suas mães pelos nazistas e enviadas para serem arianos, acabaram em orfanatos.
Tudo ia muito bem até que um advogado lhe pede para testemunhar e a sua mãe Ase Evensen (Liv Ullmann) num julgamento contra o Estado Norueguês a favor das crianças da guerra. A partir deste momento muitos segredos virão à tona.
Katrine teria fugido da Alemanha Oriental para encontrar sua mãe, Ase Evensen, mas ela carrega um segredo imenso. Num papel tanto de vítima como de culpada, não há como julgar Katrine.
O filme fala destas crianças que foram tiradas de suas mães e depois que a Alemanha perdeu a guerra foram discriminadas, pois também não eram bem vistas pela Noruega. Além disto trata da guerra fria e da espionagem, a Stasi - Serviço secreto da Alemanha Ocidental, e agentes infiltrados em famílias norueguesas que até hoje não foram todos descobertos.
Um filme denso, que trata de vários temas em volta da Segunda Guerra e suas consequências seguida pela Guerra Fria. As escolhas, decisões tomadas durante uma guerra podem ser julgadas como os atos fora deste contexto? há realmente escolha em alguns momentos? e é triste ver que o que aconteceria à Katrine se sua escolha tivesse sido outra no começo de tudo o seu fim seria o mesmo que anos depois.
Direção: Bernt Amadeus Capra - 1990 Duração: 112 min Título original: Mindwalk País: Estados Unidos Baseado no livro O ponto de Mutação de Fritjof Capra, irmão do diretor.
No filme temos o encontro no Mont Saint-Michel na França de três pessoas: um poeta Thomas (John Heard), um político Jack (Sam Waterston) e uma física Sônia ( Liv Ullmann) que irão dialogar enquanto caminham pelo local sobre as questões que são abordadas no livro de Capra.
Jack após uma derrota política vai passar uma temporada com seu amigo o poeta Thomas na França que o leva até o Mont Saint-Michel, lá eles encontram casualmente Sônia que se hospeda ali para refletir sobre seu trabalho na física quântica.
É no diálogo dos três que veremos a discussão sobre os velhos paradigmas e a necessidade urgente de mudar algo.
Mont Saint-Michel - França
Bernt Amadeus Capra nasceu em 1941 em Viena, Áustria. É irmão de Fritjof Capra.
Direção: Ingmar Bergman - 1978 Duração: 99 min Título original: Höstsonaten Roteiro: Ingmar Bergman País: Suécia
Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro e o Prêmio Globo de Ouro. Produção Suécia, Alemanha e França.
A relação entre mãe e filha
De uma lado a filha Eva (Liv Ullmann), do outro a mãe Charlote (Ingrid Bergman), duas brilhantes interpretações.
A mãe vai visitar a filha no interior da Noruega onde ela vive com o marido após muitos anos sem se verem. O que era para ser um reencontro feliz transforma-se num confronto entre mãe e filha a respeito de seus conflitos, raivas, dores, cobranças.
Ao chegar Charlote descobre que sua outra filha doente que ela acreditava internada também está ali, Eva a trouxe para morar ali.
Charlote é espaçosa, fala muito, decide tudo e Eva é tímida, retraída, difícil de ser satisfeita. A mãe é uma pianista famosa, e Eva tenta tocar algo para a mãe. O rosto, a expressão que Ingrid Bergman coloca no rosto é algo impagável, não há palavras para expressar. O confronto se torna inevitável, Eva deixa todo seu ódio pela mãe aparecer e o fala. Ela se apega a sua verdade, ao que a mãe é para ela, seus efeitos. Não consegue olhar para a mãe, de certa maneira fala como a criança que não conseguia ver a mãe como uma mulher que também tem suas questões, que também pode ser frágil por baixo de tanta segurança.
Seu desejo de fusão com a mãe se reflete na relação que Eva mantém com seu filho morto, que está sempre ali e nunca se separam. Ela não permite que o filho morra.
Tudo é culpa da mãe, até a doença de Helena, a acusa de só ter olhos para si mesma.
Charlote tenta se defender, explicar, pedir perdão. Se recorda de sua mãe, fala de sua incapacidade de amar, de seus medos.
Eva julga, acusa dentro das suas certezas, não "perdoa" a mãe, exceto no final, quando a mãe vai embora novamente.
Charlote vive a solidão, sempre viajando, é famosa, mas não se satisfaz. É uma busca constante de algo que ela não sabe o que é. Nenhum lugar está bom. Talvez seja devido a divisão que sofre entre a carreira e a família.
Eva é ressentida em relação a sua mãe por seu pai, e ela tem certeza sobre o pai e a relação que ele tinha com a mãe, o que na verdade não pode saber. O que ela sabe é o que sentiu, o que introjetou, mas que não quer dizer que foi assim para os dois.
A mãe interna que Eva tem dentro de si não é uma mãe amorosa que cuidou dela. Ela não teve este modelo com o qual se identificar.
Se por um lado um filho não pode odiar a mãe, esta também não pode odiar o filho, mas o que o filme nos mostra e o que é a realidade tão difícil de ser aceita é que o amor e o ódio são faces da mesma moeda, onde um está com certeza tem o outro, do contrário é a indiferença. E mesmo sendo mãe ou filha, há sempre a alteridade de cada um, portanto o que Eva tem certeza de ser assim, não é para Charlote, nem para o pai dela. E esta mãe que Eva odeia, e que acha culpada pelo estado de Helena, é amada por esta filha que é desprezada, ou melhor, afastada pela falta de coragem da mãe de enfrentar isto.
Mas Charlote pede perdão à Eva, que só depois consegue pedir o mesmo, lhe escrevendo uma carta. Que este momento difícil e dolorido possa então abrir novas possibilidades para todos.
Vale ler o roteiro também onde é possível acompanhar o confronto com mais vagar, mas o filme tem que ser visto, pois as expressões faciais não podem ser descritas.
Assista ao trailer:
Ingmar Bergman nasceu em 1918 em Uppsala e faleceu em 2007 em Farö, Suécia. Seus temas são a existência, a solidão, a fé, a mortalidade. Para Bergman filmar é encontrar respostas.