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domingo, 29 de maio de 2016

DOCUMENTÁRIO: SIMONE DE BEAUVOIR E O FEMINISMO - 1959/2007



- Uma mulher atual - Dominique Gros - 2007
- Porque sou feminista - Jean-Louis Servan-Schreiber - 1975
- Simone de Beauvoir fala - Wilfrid Lemoine - 1959 

Este DVD da Versátil nos traz três documentários de Simone de Beauvoir com raras entrevistas com a filosofa, escritor e ativista política francesa.

- Uma mulher atual eu já havia assistido e está postado aqui no Blog. 

- Porque sou feminista (Pourquoi je suis feministe)  - neste documentário Simone é entrevistada por Jean-Louis para o programa "Questionnaire". Fala sobre as mulheres, de como se deu conta da condição destas e sobre a escrita do Segundo Sexo. Lembra que mesmo os da esquerda não olham as mulheres como vulneráveis, uma vez que a luta deles é a de classes não de gênero, e a esquerda também é composta por homens. Diz que nunca se sentiu ela mesma tolhida, porém foi olhando ao seu redor que percebeu a opressão, a maneira como uma sociedade constitui o gênero. 

- Simone de Beauvoir fala - Esta é uma entrevista filmada em Paris pela Radio-Canada, que censurou sua difusão por pressão do arcebispo de Montreal. Aqui ela fala sobre suas ideias, sobre o existencialismo, religião, o casamento, o amor livre. 


Os três documentários nos trazem o perfil de Simone por ela mesma, sua liberdade, curiosidade, sua relação com Sartre e com os intelectuais franceses, a literatura, seus engajamentos políticos. 

Jean-Louis Servan-Schreiber nasceu em 1937 em Boulogne-Billancourt, França.

Wilfrid Lemoine nasceu em 1927 em Québec, Canadá e faleceu em 2003. 

terça-feira, 24 de maio de 2016

LIVRO: A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO - Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura - MARIO VARGA LLOSA



Llosa, Mario Vargas. 1ªed. Objetiva, 2013
208 Páginas
Tradução: Ivone Benedetti
Título Original: La civilización del espectáculo

Um livro atual e ao mesmo tempo já sentimos falta de eventos ocorridos no mundo, uma vez que tudo é tão acelerado e o mundo muda a cada dia. 

Llosa faz uma crítica a falta de cultura no mundo atual e refere-se ao que se chama de cultura como entretenimento com intuito de fugir da realidade, de não ter que confrontar nem a si mesmo e menos ainda se engajar em ações em prol do mundo e do outro. É como um narcótico que faz com que as pessoas se desliguem, ao invés de agir, levando ao que toda ditadura sonha, um povo entorpecido e que não reage mais e se torna obediente cuidando de sua família e trabalho sem questionar nada. 

Discordo do conceito de cultura que Llosa utiliza ao se referir criticamente ao que a Antropologia considera cultura dizendo que devido a este relativismo foi possível chegar a situação atual. A Antropologia realmente tem um conceito de cultura que não diferencia o dito "primitivo" de uma cultura civilizada ou superior, considera a todas com real valor e importantes, sendo que nenhuma delas pode ser considerada inferior. Mas Llosa nos fala principalmente da literatura, do cinema, das artes, e neste caso acredito que nos falta então uma palavra, sim tudo isto é cultura, porém para a Antropologia são itens que estão na cultura, que abrange mais do que isto. Aqui eu pensei em erudição, mas ainda não é isto. 

Llosa separa o que ele considera uma cultura das elites de uma cultura mais popular considerando a primeira como a fonte de aprendizado, estudos, conhecimentos e que proporciona a possibilidade de compreender a si mesmo e ao mundo, sem escapar das misérias, da dor, da morte, e que nos ensina a não nos deixar enganar pelas ilusões e engôdos. Somente esta "alta" cultura é capaz de proporcionar isto e não leva ao entorpecimento. 

Realmente, às vezes sinto falta de grandes teóricos, de grandes escritores, de grandes artistas no mundo atual. Recentemente visitei uma exposição de arte moderna e saí dela me perguntando se aquilo era realmente arte, ou o que era aquilo. Quando vejo um pedaço de pedra coberto por massinha de modelar num grande museu eu estranho isto e não consigo compreender e aceitar isto como arte. Parecia que eu estava vendo o resultado da aula de arte ou de lazer de um jardim de infância. 

Mas o livro é extremamente interessante e oportuno para lidar com o que vemos hoje no mundo chamado de cultural. Porém, por sorte, ainda temos muitas produções de alto nível, nem tudo está focado no entretenimento e para escapar da realidade. Apesar de que também considero isto importante, desde que não seja a única opção. Precisamos sim, de vez em quando, escapar de tudo isto e entrar num mundo ilusório.

A crítica que o autor faz a política é importante, e realmente penso que ele tem razão quando diz que hoje homens éticos, interessados no outro, já não se interessam pela política, uma vez que esta mesma está desacreditada e fornece uma visão de algo corrupto, interesseiro, e de muitas mentiras. Principalmente nós que vivemos este momento atual no Brasil, onde se vê claramente um estado de exceção, onde uns são condenados e outros que cometeram o mesmo crime não. Não estou aqui sendo nem de esquerda, nem de direita, mas ética. 

A civilização do espetáculo é real, realmente temos muitos livros, artes e filmes que se enquadram nisto, e a grande maioria da população prefere isto do que ler um grande clássico, ou um filme de arte ou alternativo. Ninguém quer pensar muito, se foge do esforço necessário, da reflexão necessária diante de uma obra de arte. Visita-se os museus para dizer que esteve lá, que viu a exposição tal, e claro, tirar selfs para postar no facebook. Quem atualmente fica horas dentro de um museu admirando cada obra, deixando os efeitos desta surtirem em si mesmo, procurando conhecer o artista e o que ele realmente quis dizer ali e o que nós sentimos? Quem lê atualmente Ulissses de James Joyce, A montanha mágica de Thomas Mann, o Dom Quixote de Cervantes, a Divina Comédia de Dante? Quem assiste a filmes produzidos por cineastas que não pertencem nem a Hollywood e nem ao cinema europeu? Os asiáticos, os africanos? Fiquei impressionada com o filme Timbuktu de Abderrahmane Sissako, mas não encontrei ninguém com quem falar sobre este filme. Ou Winter Sleep de Nuri Bilge Ceylan que ganhou o Palma de Ouro? Sim, este filme é longo, com muitos diálogos, sem ação, sem entretenimento, é feito para refletir sobre a vida, mas belíssimo. Para ver e rever. Mas estes filmes só chegam ao público através de pouquíssimos cinemas, que sempre estão nas capitais e voltados para um público seleto. Inclusive por causa de suas salas vips. 

Por outro lado, sou a favor que todos tenham acesso à cultura, possam ler os grandes clássicos, os bons livros, assistir aos bons filmes, Possibilitar o acesso de todos a isto. Não concordo que tenha que permanecer como algo seleto, da uma minoria, porém, o grande público não se interessa por isto, talvez por já estar domesticado, imbuído da necessidade de prazer, felicidade e sucesso, que nos impõe a ideologia atual. Não se deve sofrer ou ter que enfrentar as questões, tome um anti-depressivo e seja feliz. Mas isto é saudável? ou é uma grande fuga? Esta divisão que Llosa faz com a cultura das elites e a do povo é um tanto divisória, como esquerda e direita, como pobres e ricos, como norte e sul. E não gosto disto, gera discursos de ódio. 

O livro é um grande alerta ao que ocorre atualmente. Não foi dado o acesso a todos à cultura, pelo contrário, foi dado acesso ao mundo da ilusão, de uma arte, literatura, cinema controlado, comercial, que serve para domesticar a todos, levar a inércia diante dos fatos da vida e da fuga a eles. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

DOCUMENTÁRIO: O GUIA PERVERTIDO DA IDEOLOGIA - 2012


Direção: Shopie Fiennes - 2012
Duração: 134 min
Titulo Original: The pervert's guide of ideology
País de Origem: Irlanda


Neste documentário o filósofo Slavoj Zizek aborda através de vários filmes usando ao mesmo tempo roupas e cenários que se referem aos filmes, as muitas faces da ideologia. Zizek analisa os filmes pelo viés da filosofia e da psicanálise. Também se utiliza de músicas e de comerciais ou de produtos bem conhecidos. 

O primeiro filme que ele aborda é "Eles Vivem" de 1988 do diretor John Carpenter sobre os óculos que o protagonista encontra e ao usá-los ele vê o que os outros não conseguem ver. Zizek então nos fala que a ideologia é nossa relação espontânea com o mundo social, é como percebemos seu significado. Gostamos da ideologia e sair dela machuca. Eis o porque da recusa das pessoas de usarem o óculos, pois têm consciência de que ao colocá-los irá ver a verdade que pode ser dolorosa e não querem passar pela violência extrema da libertação, a liberdade dói. 

Com o filme "A Noviça Rebelde" de 1963 do diretor Robert Wise ele nos fala de uma parte da música que em seu país foi censurado e fazendo uso da psicanálise fala do gozo, de distinguir o gozo dos prazeres corriqueiros. A lógica da igreja católica, não do cristianismo, é que protegido pelo grande Outro - goze! Se você fingir, renunciar poderá ter tudo. O gozo é um estranho dever perverso, o excesso está sempre conosco. 

Para falar do sublime ao excremento, Zizek toma uma coca-cola, de gelada à quente. A dialética elementar da mercadoria é o excedente ilusório. Já o Kinder Ovo é usado para demonstrar o objeto do desejo, o brinquedo que está dentro do ovo que preenche o espaço vazio do ovo. A surpresa é o excedente. 

Com o "Hino à alegria" de Beethoven - Nona Sinfonia ele mostra como esta música é usada por opostos, nazismo, comunismo, maoismo, é o hino não oficial da União Europeia. Cena perversa de fraternidade universal.

A ideologia funciona como invólucro vazio. 

O filme "Laranja Mecânica" de 1971 do diretor Stanley Kubrick nos diz sobre o discurso liberal quando justifica a delinquência pela pobreza, miséria, exclusão. O homem não é apenas um produto de circunstâncias objetivas, tem uma margem de decisão. 

Com o filme "Taxi Driver" de 1976 do diretor Martin Scorsese e "Rastros de ódio" de 1956 de John Ford sobre a vítima que de um modo perverso goza ou participa de sua vitimização. Não quer ser redimida, resiste. 

O filme "Tubarão" de 1975 do diretor Steven Spielberg, Zizek demonstra como este filme unifica todos os medos. Fala do racismo, que o outro tem um gozo , perverso, ele tenta roubar de nós o nosso gozo. Perturba o nosso estilo de vida. 

Além destes filmes também serão citados Titanic para o sagrado e o obsceno, A Queda de Berlim, Mash, Nascido para matar, Batman o Cavaleiro das trevas, A última tentação de Cristo, O segundo rosto entre outros.

Zizek falará ainda sobre o capitalismo ter uma estrutura religiosa, a inércia do Real, dos ritos obscenos que regulam as escolas na Inglaterra. Sobre o grande Outro - o stalinismo. Sobre a histeria e por sermos responsáveis por nossos sonhos que encenam nossos desejos. 

Trata-se de um  documentário denso, para assistir mais de uma vez, mas vale a pena!

Shopie Fiennes nasceu em 1967 em Ipswich, Reino Unido.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

FILME: O HOMEM IRRACIONAL - 2015


Direção: Woody Allen - 2015
Duração: 94 min
Título Original: Irrational Man
País de Origem: Estados Unidos

Vou comentar o filme, mas irei retornar à ele.

Um professor de filosofia Abe Lucas (Joaquin Phoenix) vive uma crise existencial, não encontra nenhum sentido para sua vida, sofre de impotência sexual, acha tudo sem graça, é um pessimista e considera até mesmo a filosofia um monte de palavras que não serve para nada. Ele chega para ser o novo professor em uma pequena cidade dos Estados Unidos. 

Jill (Emma Stone) é sua aluna e se encanta com ele, fica fascinada pelo seu intelecto. A professora Rita (Parker Posey) também se interessa apesar de casada, vê nele a possibilidade de uma nova vida em outro lugar, de preferência na Espanha. 

Será num encontro com Jill em uma lanchonete que atraídos pela conversa da mesa ao lado, Abe irá encontrar algo que dê sentido a sua vida. Compreende que é pelo ato que irá atingir uma completude, ora, nada mais existencialista. Ele mesmo cita durante o filme Kierkegaard, Kant, Heidegger, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. 

Abe planeja o assassinato do juiz que é o obstáculo a uma mulher para ficar com seu filho diante de uma separação conjugal. Ele irá chamar isto de "ato existencial", acredita que isto deixará o mundo melhor, mas quem imediatamente fica melhor é ele mesmo que volta a ter gosto pela vida e recupera sua potência sexual. Mas não existe crime perfeito como ele acredita. Jill desconfiará e o colocará diante da moral e da ética. Novamente vemos termos existencialistas atuarem, será o acaso, a contingência que determinará o final do filme. 

O irracional que se manifesta em um homem que lida com a razão, acredita nela. Desta vez Woody Allen que gosta muito da psicanálise parte para a filosofia existencial neste filme. 

Woody Allen 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

LIVRO: MINHA PARIS MINHA MEMÓRIA - EDGAR MORIN



Morin, Edgar. 1ª ed. Bertrand Brasil, 2015
224 páginas
Tradução: Clóvis Marques
Título Original: Mon Paris, Ma Mémoire

Neste livro Morin nos traz uma autobiografia de sua vida através dos endereços onde morou em Paris, uma vez que foi nesta cidade que ele viveu seus momentos mais importantes, confundindo suas memórias com as da cidade e todos os eventos ocorridos ao longo dos anos, desde seu nascimento até os dias atuais. 

Mas Morin não nos fala apenas sobre eventos públicos, mas principalmente sobre ele mesmo diante destes acontecimentos, assim como sobre o que ocorria em sua vida pessoal. Sua infância, sua adolescência, seus amores, sua vida acadêmica, seus aprendizados com a vida e suas lutas.

Lendo as memórias de Morin nos damos conta de como ele formou seu pensamento complexo. Ele nos relata a história de seu país e de sua cidade através de sua história passando pela Resistência durante a Segunda Guerra, sua adesão ao comunismo e depois sua saída, suas amizades, e  me interessei especialmente pela amizade com Marguerite Duras.

Morin é também um grande cinéfilo e no livro nos fala dos principais filmes que marcaram sua vida. Agora o mais impressionante é seu desejo de viver, e mesmo agora, nonagenário continua ativo e vivendo o que o mundo oferece de bom e de ruim, sempre aprendendo e buscando compreender.

Este livro nasceu de seu desejo de escrever sobre Paris como palco de suas memórias após pronunciar o discurso de agradecimento ao receber em 05 de junho de 2012 das mãos do Prefeito Bertrand Delanoë a Médaille de Vermeil de la Ville de Paris.

Edgar Morin nasceu em 1921 em Paris, França.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

DOCUMENTÁRIO: FOUCAULT X FOUCAULT - 2014



Direção: François Caillat  2014
Duração: 53 min
Título Original: Foucault contre lui-même
País: França

Muito bom este documentário para nos dar um panorama geral sobre quem foi Michel Foucault. Foi professor do College de France o que lhe dava uma posição e status, porém soube utilizar-se desta posição para ir muito além e sair daquele lugar que requeria uma certa postura. Um homem complexo, que através da sua obra foi se contradizendo, o que pessoalmente acho extremamente rico uma vez que as coisas mudam, e nós mudamos, porque então se fixar em um único pensamento ou forma de ver o mundo? 

O documentário é uma coletânea de entrevistas com críticos e filósofos contemporâneos que reclassificam o legado de Foucault, numa tentativa de construir novas formas de pensar sobre a luta contra os mecanismos de dominação da sociedade. 

Sempre trazendo para o considerado digno e permitido aquilo que estava à margem: os loucos, os detentos, a sexualidade, estuda o passado mas é lido como se fosse o presente, sempre atual, ele se desdobra sobre si mesmo. Um ativista que ao lado de Sartre e Genet ia para as ruas, e isto me chamou a atenção sobre o que vivemos hoje  onde os intelectuais analisam e falam sobre as manifestações, mas não os vejo lá, junto ao povo, trazendo o povo para perto de si mesmos, apoiando. Foucault fala justamente disto, que é preciso ir lá, ver com seus olhos, viver a situação. 

Um eterno insatisfeito com suas próprias conclusões, sempre em busca de algo mais. Encantou-se com a Califórnia e seus jovens, a liberdade que viu ali. Vindo da França, onde supõe sempre ser o país da liberdade, mas que contraditoriamente a isto, o que vemos mesmo são os "flics", a polícia sempre na rua e contendo as manifestações, batendo e prendendo, nos EUA ele encontra um outro mundo, pelo menos para seus olhos naquela época. 

Que sirva de grande exemplo contra o conformismo e o que vou chamar de "confortismo".


François Caillat estudou filosofia. Dirigiu curtas e se voltou para os documentários. 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

DOCUMENTÁRIO: SARTRE POR ELE MESMO - 1976


Direção: Pierre-André Boutang e Guy Seligmann - 1976
Duração: 187 min
Título Original: Sartre par lui même
País: França

O documentário nos mostra 03 horas de entrevistas com Jean-Paul Sartre respondendo a todas perguntas feitas sobre sua vida, sua obra, e seu percurso intelectual e político. Filmado em seu apartamento ou no de Simone de Beauvoir, estão presentes além dos dois, Jacques-Laurent Bost, André Gorz, Jean Pouillon, Marie Olivier, François Périer e Serge Reggiani. 



Sartre fala de sua infância com seus avôs, sua mãe, o casamento desta em segundas nupcias, sua vinda para Paris onde conhece Paul Nizan e em seguida Simone de Beauvoir, seus primeiros contatos com a filosofia e sua rejeição da psicanálise freudiana e do surrealismo em voga na época. Inicialmente Sartre não se interessa pela política, irá para Berlim em pleno nazismo e estudará a fenomenologia de Hegel. Será quando ficar preso num campo de prisioneiros que despertará para o mundo. Até este momento Sartre havia ignorado o nazismo, a guerra civil da Espanha, dedicando-se totalmente a escrita do "O ser o nada". Também publicou "A Náusea". 

Após escapar do campo de prisioneiros ele começa sua atuação política, inicialmente através do teatro, como a peça "As moscas" falando de forma simbólica sobre o regime de Vichy. Após a guerra sua obra se torna conhecida e célebre, o momento é oportuno, todos querem viver e esquecer a guerra. A França passa a respirar o existencialismo, é algo além da filosofia, se torna social. Sartre e Beuavoir fundam a revista "Temps Modernes", e passam a tomar parte ativa nos acontecimentos políticos, Sartre se torna um intelectual engajado, ativo. Ele fala sobre sua participação no partido comunista e sua saída, sobre a viagem à Cuba, sua militância sobre a questão da Argélia. Recusa o prêmio Nobel de literatura. E nos fala de maio de 1968.

O documentário é o percurso, a trajetória de vida de Jean-Paul Sartre e de todos os acontecimento políticos e sociais vividos por ele. Vale para conhecer além deste grande filósofo e escritor também toda uma época da história.

Pierre-André Boutang nasceu em 1937 em Paris e faleceu em 2008 na Córsega, França

Guy Seligmann 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

MINISSÉRIE: SARTRE A ERA DAS PAIXÕES - 2006



Direção: Claude Goretta - 2006
Duração: 190 min
Título Original: Sartre: L'agê des passions 
País: França 

Trata-se de uma minissérie em dois episódios que reconstitui a atuação de J.P. Sartre entre os anos de 1958 e 1964.



Durante estes sete anos acompanhamos Sartre (Denis Podalydès) em seus debates filosóficos, literários e políticos, sua atuação contra a Guerra da Argélia, suas viagens à Cuba e à Rússia, sempre acompanhado de Simone de Beauvoir (Anne Alvaro).

O Filme também traz a vida mais pessoal de Sartre, como seus amores, principalmente neste período por Carla ( Maya Sansa), uma italiana que vivia em Paris e namorava Frédéric (Frédéric Gorny) que se engaja na militância contra a guerra da Argélia e por Lena (Nino Kirtadzé), uma russa. Suas viagens pela Itália, para onde iam praticamente todos os anos, muitas vezes acompanhados de Sylvie (Élisabeth Vitali). Também adentramos um pouco o mundo das editoras com a famosa Gallimard que publicou os livros de Sartre e Simone através das conversas de Sartre e Robert Gallimard (Carlo Brandt). As amizades, as discussões intelectuais, os livros, as impressões e a atuação de Sartre e Beauvoir na revista Os Tempos Modernos.

A todos que se interessam por Sartre e Beuavoir recomendo que assistam. Mas o filme também é um retrato da época, de Paris, da efervescência intelectual , da agitação política que já antecipava o maio de 68. 

Claude Goretta nasceu em 1929 em Genebra, Suíça

sábado, 29 de novembro de 2014

FILME: WAKING LIFE - 2001



Direção: Richard Linklater
Duração: 97 min 


Acordar para a vida

O filme é uma bela animação. Um jovem não consegue acordar de um sonho e começa a encontrar várias pessoas que lhe falarão sobre a vida, religião, ciência, filosofia, antropologia, psicologia, arte. 

O filme explora o mundo onírico, dos sonhos, nos levando ao inconsciente e demonstrando o quanto o sonho também é real, é uma viagem, e não algo para ser considerado sem sentido, muito pelo contrário, é nos sonhos que o que temos de mais nosso vem a tona e nos possibilita nos conhecer, saber aquilo que não sabemos de nós mesmos. O sonho permite saber quem somos e porque agimos de determinada maneira, o que nos rege e conduz nossas vidas. 

O filme é uma viagem, assim como nossa vida. 

A cada encontro algo é falado, vivido, e não há como falar disto aqui, inclusive porque a cada um sua maneira de interpretar. Um filme para ser visto muitas vezes. 


Assista ao trailer:



Richard Linklater nasceu em 1960 em Houston, Texas, EUA. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO BBC - HUMANO, DEMASIADO HUMANO - JEAN-PAUL SARTRE - O CAMINHO PARA A LIBERDADE - 1999



III- JEAN-PAUL SARTRE - O CAMINHO PARA A LIBERDADE

Sartre diz: Nunca fomos tão livres como durante a ocupação alemã. Perdemos todos os direitos, a livre expressão, éramos insultados e tínhamos que nos calar, e é por isto que éramos livres. Enquanto o veneno alemão adoecia nossas mentes éramos constantemente vigiados, cada gesto que fazíamos era um compromisso.

A liberdade para Sartre era um senso fisiológico de liberdade de modo que a liberdade se incorporasse, se tornasse corpo.

Após a Segunda Guerra os valores do passado entraram em colapso. Sartre recusa tudo - casamento - família - filhos - religião e é feliz. Torna-se uma referência para as pessoas que buscavam algo novo naquele momento e já não podiam mais se referenciar nos valores antigos. 

Não é o passado que nos dirige, é o que nós fazemos, temos que assumir a responsabilidade por nossas ações e de um jeito novo. "Você tem não apenas o direito de escolher, mas também a culpa pela escolha."
"O que importa é o que você escolhe ser no futuro."

Tudo isto caia perfeitamente no momento que a Europa vivia após a guerra. Transformou-se numa esperança e possibilidade de reconstruir a vida e um futuro. Todos queriam esquecer a guerra, havia uma negação do que ocorreu, e poder negar o passado dentro desta filosofia da existência era perfeito.

Sartre nasceu em 1905 em uma família de classe média alta. A morte de seu pai e o ódio ao seu padrasto levou a criança precoce a se reinventar com uma personalidade desconectada de tudo ao seu redor. A morte do pai o livrou de ter um modelo e ele teve que inventar um. 
Quando lhe tiraram as roupas de bebê descobriu-se diferente no espelho. Era feio e o pior, descobriu que as pessoas não mais reagiam a ele como antes. Diante disto seu cérebro passa a valer ouro.

Foi estudar na Ecole Normale Supérieure em Paris onde conhece Simone de Beauvoir. 

Foi professor e interessou-se pela fenomenologia. Em 1933 foi estudar em Berlim com Edmund Husserl. 

Estar consciente de algo é ter relação com algo no mundo, de modo que relacione este algo a uma representação mental. Ele pensou sobre a autoconsciência como uma ideia que temos do mundo. A ideia que nós temos do EU como um caráter essencialmente como de fato é. Não há caráter predeterminado que faz com que você seja quem você é. Você é aquilo que você está tentando fazer. 

Amava o cinema, principalmente filmes de suspense. À diferença dos personagens, lá fora não há roteiro. Escreve o artigo " A contingência da existência" e o romance "A náusea" - a falta de sentido na existência. 

O fato que a vida não tem sentido é o que nos dá a oportunidade de lhe dar um significado. Por não ter significado anterior é que estamos justificados ao criar um. 

Escreve sua principal obra - "O ser e o nada" com influência de Martin Heidegger. 

Foi como prisioneiro de guerra que percebeu que sua filosofia era individualista e precisava relacioná-la ao social. 
Após a guerra fundou a revista Tempos Modernos, deu uma conferência - "Existencialismo é um humanismo". Publicou "Os caminhos da liberdade" e estreou a peça "Entre quatro paredes". 

Foi acusado pela mídia por suas ideias ateístas corromperem os jovens, como um Sócrates. Ele dizia que se Deus existe o homem não é livre. Eu sou a minha liberdade. 

Isolou-se indo morar com a mãe na Rue Bonaparte. 

Da infância em diante era alguém que sofria quando não podia ter o controle da imagem que os outros formavam dele. Isto era para ele o inferno. Era profundamente aflitivo quando pensava sobre o que os outros pensavam quando olhavam para ele. A aprovação. O olhar eterno sobre ele das outras pessoas, sentiu a existência real da vergonha. Parou de pensar no "EU" como um objeto único. Constrói uma ideia de "NÓS" como um outro mundo. Como uma entidade como o "EU" surge? Isto implica que não é possível as pessoas sentirem-se confortáveis umas com a outras. É impossível pensar em vários "EUs" simultanemente. O seu "EU" sempre será um objeto para o outro observador. Todo "EU" está sempre em conflito. Não podemos escapar destes jogos terríveis das pessoas conosco o tempo todo. 

Ao perceber nas pessoas as semelhanças, o uso dos mesmos códigos, isto vai contra o "isto é milha escolha." "EU" prefiro fazer isto. Exagero de liberdade. É a destruição dos outros valores, sob os quais vivemos a maior parte do tempo. 

Um mundo existencialista em que tomamos decisões por nós mesmos seria um mundo socialista em que todos nós nos trataríamos como iguais, mas é difícil ver se este não seria um mundo de maníacos tratando-se da mesma maneira. 

Em 1964 ganhou o prêmio Nobel, mas recusou-o. Não quer ser inserido no sistema. Pensa que se foi escolhido é porque agora o sistema o aceita, e se coloca contra isto. 

Como ele concebe a liberdade sempre fora uma fantasia, mas se tornou claro que a liberdade individual não existe. 

"Eu penso contra eu mesmo. Contra tudo que lhe foi inculcado pela educação. Você tem que criticar tudo o que foi "dado" à você.

Faleceu em 19 de abril de 1980. 

Participaram deste documentário:

- Bernard- Henry Levy - Filósofo
- Annie Cohen-Solal - Biógrafa
- Michele Vian - Amiga
- Jonathan Rée - Filósofo
- Ronald Hayman - Biógrafo
- Baroness Mary Warnock - Filósofa
- Olivier Todd - Escritor
- Patrick Vauday - Filósofo
- Jean Pouillon - Amigo
- Michel Contat - Amigo
- Mary Warnock - Filósofa

Parte 1: https://www.youtube.com/watch?v=jDHnW6U0Tk4
Parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=ts-fcq6ZNHk
Parte 3: https://www.youtube.com/watch?v=8Hu2mW20pes
Parte 4: https://www.youtube.com/watch?v=rHeUm5W00mY&spfreload=10




sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO BBC: HUMANO, DEMASIADO HUMANO - MARTIN HEIDEGGER - PENSAR O IMPENSÁVEL - 1999



II - Martin Heidegger - Pensar o impensável 

"Aquele que pensa grande amiúde comete grandes erros".


Martin Heidegger nasceu em 1889 em Messkirch onde também está sepultado. Foi um filosofo simultaneamente muito admirado e execrado. Admirado pela sua mente brilhante e sua produção intelectual, execrado por seu lado político, aderindo ao nacional-socialismo e se tornando um nazista fanático. 

Foi somente após sua morte que surgiram documentos que se tivessem aparecido antes não teriam possibilitado seu retorno ao lugar de professor de filosofia na Universidade, sem contar que teria que ter respondido pelo o que fez. Que ele pensasse que Hitler era a salvação da Alemanha, isto a maioria dos alemães pensaram, mas o que não se aceita é que depois de todos saberem do Holocausto foi ele declarar que nunca teve nada a ver com isto e que nada tinha a dizer ou algo do tipo. Morreu sem pronunciar uma palavra sobre isto, sem dizer que errou, ou qualquer outra menção. 

Seus pais eram camponeses, mas viviam bem. Seu pai era sacristão e ele foi coroinha e antes dos 10 anos decidiu que queria ser padre. Em 1909 após terminar a escola secundária custeado a maior parte pela igreja católica, inscreveu-se na Universidade de Freiburg. Iniciou seus estudos em teologia católica, mas foi perdendo a fé, mudou para matemática e finalmente para filosofia influenciado por um professor que admirava - Edmund Husserl - que iniciou a fenomenologia que oferecia uma nova maneira de entender a consciência humana. Husserl tomou Heidegger sob sua proteção e muito fez para incentivar e possibilitar sua carreira, ao que seria retribuído de forma cruel por seu discípulo durante a Segunda Guerra. 

Na Primeira Guerra Heidegger muito se gabou, mas na verdade ele evitou o front, mantendo-se sempre atrás. Durante a guerra casou-se com Elfriede Petri com quem teve dois filhos. Em 1923 mudaram-se para Marburg no centro da Alemanha onde Husserl havia ajudado a encontrar um lugar como professor de filosofia. Ele nunca se acostumou ao lugar e sempre voltava à floresta negra onde construiu ele mesmo uma cabana de madeira na subida da Montanha Todtnauberg. Era seu retiro espiritual e onde escrevia seus livros.

Sua grande obra - Ser e Tempo, que tem em seu âmago uma pergunta aparentemente simples: o que realmente significa o verbo "ser". O tempo e a existência humana estão inextricavelmente ligados. Nosso ser é o processo de "tornar-se", Rechaça a ideia de que haja algum tipo de essência humana fixa. O que vem em primeiro é a própria existência do homem. A existência é o ato de "expansão" pelo qual estamos projetando-nos constantemente para o futuro, sempre na expectativa, esperando coisas. 

A maioria das pessoas, principalmente as que vivem em cidades grandes, tende a perder o contato com a sua individualidade. forçados a conformarem-se com os padrões de comportamento das massas. Experimentamos fortes sentimentos de ansiedade o que nos leva ao que ele chama de "vidas inautênticas". A maioria vive "a vida da gente", Nós somos um - a gente faz isso, a gente pensa assim. Ele diz - o "eu" não é "a gente". E tudo isto nos anos 20 como uma premonição do que viria pela frente, antes do que temos atualmente com a vida e a morte padronizados. 

Em 1924 Hanah Arendt torna-se sua anula e envolvem amorosamente. Quando Hitler sobe ao poder esta relação há havia acabado. 

O documentário mostra bem todo o envolvimento de Heidegger com o nazismo, seu comportamento, sua influência sobre os estudantes. Hermann Staudinger, professor de química foi perseguido por Heidegger que fazia denúncias infundadas sobre ele para a polícia e para a Gestapo. Posteriormente ele recebeu o prêmio nobel. Mas o pior foi sua postura diante de Edmund Husserl que tanto fez por ele. Husserl era judeu e foi proibido de ter acesso as salas da Universidade. Heidegger assumiu a reitoria e poderia ter revogado esta ordem, mas não o fez, pelo contrário, a executou o que dilacerou por dentro Husserl. 

Ao final Heidegger acreditou que o nacional-socialismo era sua teoria na realidade, aproximava a vida rural, sem grandes avanços tecnológicos, e privilegiava a vida em comunidade. Seu anti-semitismo era algo arraigado na cultura alemã da época. Mas ele pensa que Hitler precisa de um guia, e quem mais além dele próprio? Ele sucumbiu à ilusão de que poderia desempenhar o papel de um rei filósofo. Virou um nazista fanático e megalomaníaco. 

Após o fim da Guerra ele se esconde durante um tempo e retorna para enfrentar a questão, mas desmente todas as acusações. Tentou o suicídio e foi internado por um tempo. Depois recolheu-se à sua cabana de madeira e voltou a se ocupar dos assuntos da mente. E novamente vai se sobressair. 

Não somos nós que falamos, mas é a língua que nos fala. Ela estrutura nosso mundo, estrutura nosso sentido de tempo, da identidade e das relações humanas, do amor, da violência. Novamente é o filosofo. 

Encontrara-se com Arendt que acaba por ajudá-lo divulgando sua obra nos Estados Unidos. Também será apoiado por Sartre. Volta a brilhar. 

Morreu em 1976. 

A questão é agora, diante de todos os documentos que foram encontrados se ele vai continuar sendo tão admirado.

Participaram do documentário:

- Andrew Benjamin - Filósofo
- George Steiner - Escritor
- Thomas Sheehan - Filósofo
- Hans-Georg Gadamer - Filósofo
- Hugo Ott - Historiador
- Miguel de Beistegui - Filósofo
- Elizabeth Young-Bruehl - Biógrafa
- Richard Wolin - Historiador
- Raymond Klibansky - Filósofo
- Richard Rorty - Filósofo
- Tom Rockmore - Filósofo

Assista:




DOCUMENTÁRIO BBC: HUMANO DEMASIADO HUMANO - FRIEDRICH NIETZSCHE - ALÉM DO BEM E DO MAL - 1999



Documentário produzido pela BBC em 1999 dividido em 03 episódios e conta a história de três filósofos: Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre.


I- Friedrich Nietzsche - Além do bem e do mal

Nietzsche é tão importante quanto Marx, Freud e Einstein na evolução do modo como as pessoas pensam no século XX e XXI. 

Com a entrada na modernidade há o que Nietzsche chama de a morte de Deus e com isto o enfraquecimento das certezas morais e intelectuais. O que é certo e o que é errado? o que é bem e o que é mal? A igreja era o árbitro da moral, a guardiã da verdade moral. Hoje não somos mais determinados por forças exteriores, a vida é algo para ser construído e somos responsáveis por isto. A filosofia de Nietzsche não é um guia para quem pensa como ele, mas sim é um guia para quem pensa por si mesmo. Ele nos incita a pensar. 

Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 em Röcken. Seu pai era pastor. No seu batizado o pai perguntou o que seria desta criança , o  bem ou o mal? Nietzsche tentará vencer esta dicotomia, relacionando o bem e o mal, para torná-los dependentes um do outro. 

Teve um infância feliz até 1847, quando estava com 05 anos e seu pai morreu. Um ano depois foi seu irmãozinho que morreu. Então ele se questiona: porque Deus punira seu pai com tanto sofrimento. Surgem as dúvidas sobre o cristianismo.

Após a morte de seu pai e irmão muda-se com a mãe e a irmã Elizabeth para Naumburg e foi enviado para o internato de Schülpforta de tradição em educação religiosa. Após estas perdas ele mudou muito, passou a buscar a solidão. 
Foi estudar teologia na Universidade de Bonn com a ideia de ser pastor. Em 1865 num domingo de Páscoa recusou-se a comungar. Neste ano abandonou sua vocação religiosa para estudar línguas como filólogo clássico. Em uma carta para sua irmã explica que há os que creem e os que buscam. 

Em 1869 foi nomeado professor de filologia clássica na Universidade de Basiléia. 

Havia se libertado das amarras do cristianismo e buscava algo para substituí-lo. Sem o cristianismo a dor e o sofrimento humano não fazia sentido (castigos pelos pecados). Procurou então na filosofia e encontrou em Schopenhauer, que é uma filosofia pessimista, Para escapar do sofrimento há a arte, principalmente a música diz Schopenhauer e Nietzsche encontra isto em Richard Wagner. Assistiu três vezes a ópera Tristão e Isolda e se identificou com o sofrimento deles. 

Wagner se torna um pai substituto. Na arte deste Nietzsche viu a possibilidade de um renascimento da ultura européia baseado no modelo grego clássico da tragédia. ("O nascimento da tragédia"). A música de Wagner representa o ideal pré-cristão simbolizado pelo deus grego Dionísio. A cultura dionisíaca era selvagemente enérgica, musical. Era associada à embriaguez, intoxicação, os excessos, a alegria e a mais absoluta insensibilidade à tristeza, à dor e à tragédia. 

Nietzsche sofria debilidades, era míope, contraiu sífilis apesar de nunca ter falado isto em público, aos 30 anos estava parcialmente inválido, sentia dores de cabeça fortíssimas, e ficava vários dias de cama. "Surpreendo-me o quão difícil representa viver". Sua enfermidade vai ser um ponto de mudança decisivo em sua vida. 

Em 1876 ocorre a inauguração do grande teatro de Wagner em Bayreuth. Nietzsche sai depois do primeiro ato sentindo náuseas, o que é simbólico e um sintoma físico que expressava um estado psicológico. A relação com Wagner fica tensa, ele não aceita o nacionalismo deste. Ele precisa de sua filosofia.

Deixei de ser pessimista nos piores anos de minha vida. O instinto de auto-reparação proibiu-me uma filosofia de pobreza e desalento. Afasta-se de Schopenhauer. 

O autodomínio e o autoconhecimento está no corpo. O cristianismo baniu o corpo da cultura. O físico e o psicológico tem relação com a nossa forma de pensar. A vontade de poder é o fazer-se a si próprio. 

Nietzsche libertou-se das tradições e das opiniões que não eram suas. Condena-se a uma solidão selvagem. Renuncia a seu lugar de professor na Universidade e muda-se para St. Moritz nos Alpes Suíços. Nos próximos dez anos viverá no verão nos Alpes e no inverno na Riviera francesa ou italiana. 

O super-homem é transcender-se a si mesmo, superar-se, buscar um novo caminho, mas dentro do que é humano. O Nazismo corrompeu isto por causa da irmão de Nietzsche, Elisabeth, que promovia o ideal ariano. Mas o super-homem de Nietzsche não é o homem superior, a raça superior. É o humano, a humanidade que está incluída nisto. 

Em 1888 vai viver em Turim na Itália. Em janeiro de 1889 sofre um colapso em uma rua de Turim. Foi para um sanatório e depois para a casa de sua mãe. É declarado louco e sua irmã cuida dele em Weimar. Morreu em 1900 de uma infecção pulmonar. 

Elisabeth controlou por 30 anos o legado literário do irmão e tentou promover falsamente o filósofo como um pensador nazista.

Participam do documentário:
- Ronald Hayman - Biógrafo de Nietzsche
- Leslie Chamberlain - Biógrafa de Nietzsche
- Andrea Bollinger - Arquivista
- Reg Hollingdale - Tradutor
- Will Self - Escritor
- Keith Ansell Pearson - Filosofo





terça-feira, 11 de novembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: SIMONE DE BEAUVOIR - UMA MULHER ATUAL - 2008



Direção: Dominique Gros - 2008 
Duração: 51 min 
Título original: Simone de Beauvoir une feme actuelle 


Documentário sobre Simone de Beauvoir com alguns apanhados de momentos de sua vida enfocando mais o período do pós-guerra, a guerra da Argélia, sua ida para os Estados Unidos, e principalmente seu livro O Segundo Sexo e sua autobiografia que ela escreveu em vários volumes.


Escolhi iniciar meu blog com Simone de Beauvoir devido sua forte influência em minha vida e formação intelectual quando eu tinha 20 e poucos anos. Li toda sua autobiografia a começar por Memórias de uma moça bem comportada onde fala de sua infância até seu encontro com Sartre e a morte de Zaza, sua melhor amiga.

O documentário fala sobre sua militância política e suas posições a favor da independência da Argélia indo contra a vontade da França o que a colocou numa posição delicada perante os franceses, mas ela não recuou, era contra o colonialismo. Também se opôs a guerra do Vietnã. Na segunda guerra ela era contra os nazistas e os colaboradores, porém não encontrou uma forma de agir contra isto, o que não ocorre mais depois quando se manifesta, assim como Sartre.

Simone escreveu O Segundo Sexo que foi um dos marcos iniciais, senão o principal, do movimento feminista defendendo a liberdade da mulher. Ela dizia que uma mulher oprimida e em casa também oprime seu marido que ao invés de estar engajado irá ficar em casa e ver televisão, alegando desta forma que era de interesses políticos a manutenção da opressão. Sua famosa frase "Não se nasce mulher, torna-se mulher" ela irá estendê-la aos homens também, dizendo com isto que não é um destino biológico, mas social e cultural e que é possível romper e construir sua própria vida.

O Documentário também falara de sua vida amorosa, e traz a tona o fato de que ela e Sartre deixaram de ter relações sexuais depois de 7/8 anos juntos, mas mantiveram uma vida sexual ativa com outras pessoas. Se por um lado Simone irá se relacionar com mulheres para oferece-las à Sartre, por outro viverá um grande amor com Nelson Algren, um escritor americano. Terá também relacionamentos amorosos com Bost e Claude Lanzmann.

São feitas leituras de suas obras, escritos, cartas, mas ela também surge no documentário falando. Pela primeira vez vi Simone com os cabelos soltos e pude perceber uma beleza que ainda não havia notado, uma vez que normalmente suas fotos ela está de turbante ou com um coque. Há uma beleza delicada em seu rosto com os cabelos soltos.

Ela sempre dizia que se devia dizer tudo, toda a verdade. Acreditava que podia encontrar a verdade, o que eu pessoalmente não acho possível. Não se constrangia para dizer ao outro tudo, mas esquecia que o outro nem sempre se sentiria bem com isto, da mesma forma que ela reconhece que o acordo que ela tinha com Sartre e que faria com que nunca se separassem havia esquecido o outro, e isto trouxe sofrimento, principalmente para Nelson Algren e para algumas mulheres na vida de Sartre.

Simone também escreveu sobre a Velhice. Quando ela se viu diante deste momento opta por então apreender tudo sobre isto e ficará chocada com o que vai ver e depois escreverá em seu livro.

Seu pior momento foi a morte de Sartre. Foi internada e muitos acreditaram que ela não sobreviveria, mas ela conseguiu e retomou a vida. A vida que quando jovem ela pensava que a tinha toda para viver, para descobrir na velhice que ela não é algo que temos, mas algo que passa.

Foi uma filosofa existencialista e foi uma grande pensadora. Escreveu romances onde se expunha de outra forma, escreveu sobre sua vida e escreveu livros sobre a Mulher, a Velhice que foram marcos iniciais em grandes mudanças que  teriam início e continua atual, pois ainda não podemos dizer que a mulher atingiu sua emancipação, e nem podemos dizer que os velhos são considerados como pessoas sábias que merecem todo o respeito, e que são capazes de decidir e também de desejar.


Assista: http://tvhumana.com/2014/05/28/selecao-humana-simone-de-beauvoir-pensadora/

Dominique Gros nasceu em 1951 na França. 

domingo, 19 de outubro de 2014

FILME: QUANDO NIETZSCHE CHOROU - 2007



Direção: Pinchas Perry - 2007
Duração: 105 min
Título original: When Nietzsche wept


Baseado no livro homônimo de Irvin D.Yalon. 


Como terminei de ler Nietzsche na Itália de Paolo D'Iorio, já postado, resolvi rever este filme que havia assistido já faz alguns anos, e também já li o livro no qual o filme é baseado.

É uma ficção, apesar de trazer alguns fatos reais, ele se baseia num encontro que nunca ocorreu entre o filósofo Nietzsche (Armand Assante) e o Dr. Joseph Breuer (Ben Cross) a pedido de Lou-Andreas Salomé (Katheryn Winnick).

Lou procura Breuer para ajudar Nietzsche pois este se encontra desesperado por ela não haver aceito seu pedido de casamento. Ouviu falar sobre a cura pela palavra no caso Anna O. ou Bertha (Michal Yannai). De início Breuer se recusa, mas acaba aceitando o desafio.

Breuer é casado com Mathilde (Joanna Pacula) e amigo do jovem Sigmund Freud (Jamie Elman) que acompanhou o caso de Bertha.

É um filme que vale a pena ser visto pois se desenvolverá uma relação terapêutica entre Breuer e Nietzsche, mas neste caso será o filósofo quem atuará como um psicanalista sobre a obsessão de Breuer por Bertha.  O plano inicial era que desta forma Nietzsche confiaria em Breuer e lentamente começaria a falar de si mesmo e de sua paixão por Salomé, mas no filme o que ocorre é o contrário, e quem acaba livre da obsessão é Breuer. Há passagens ótimas sobre a filosofia de Nietzsche que ele utiliza em suas sessões com Breuer. Freud um jovem aprendiz ainda acompanha tudo e acabará hipnotizando Breuer o que o fará ver a realidade.

Nietzsche exporá no filme o eterno retorno perguntando a Breuer se caso houvesse um demônio que fizesse com que tudo que nos acontece, sentimos, falamos, sempre se repetisse sem parar por toda eternidade, ou seja, voltaríamos sempre para reviver exatamente as mesmas coisas, o que ele pensava? seria bom reviver sua vida? E também falará que amamos muito mais o ato de desejar do que o objeto do desejo.

A filosofia e o embrião da psicanálise é real, e Yalon faz uma junção muito boa da filosofia de Nietzsche e da psicanálise, apesar de Freud sempre ter dito que não leu as obras do filósofo, há muitas coisas que são as mesmas, apenas faladas em linguagens diferentes.

Nietzsche realmente se apaixonou por Salomé que acabou ficando com seu amigo Paul Rée, e sofria de enxaquecas terríveis. Breuer protegia e ajudava Freud naquela época, e realmente estudaram juntos o caso de Ana O. e a histeria, que depois Freud irá publicar em um dos seus livros. Salomé sob a supervisão de Freud se tornará uma psicanalista.
Quando Mathilde descobriu que Anna O. dizia estar grávida de Breuer exigiu que ele encerasse o tratamento, o que ele fez, e partiram ambos em um segunda lua de mel da qual nasceu uma filha, que anos depois iria morrer assassinada pelos nazistas. Bertha se tornou uma assistente social reconhecida.

Pinchas Perry 

domingo, 2 de março de 2014

FILME: WITTGENSTEIN - 1993



Direção: Derek Jarman - 1993 
Duração: 75 min
País: Reino Unido 

Usando a forma de teatro o filme conta a vida do filósofo Ludwig Wittgenstein, nascido em Viena em 1889 vai para a Inglaterra estudar. Em Cambridge conhece Bertrand Russel que o considera um dos maiores filósofos do momento. Wittgenstein (Karl Johnson) é temperamental, não gosta de ser contrariado, deseja a perfeição e é homossexual numa época onde isto não era bem aceito.

Após lutar na primeira guerra mundial ele retorna como professor e se envolve com um aluno que é amante de seu amigo John Maynard Keynes.

Wittgenstein escreveu o Tractatus Logico-Philosophicus e as Investigações Filosóficas, sendo este último publicado postumamente. É considerado o pai da filosofia analítica e pertenceu ao círculo de Viena. Um dos seus principais interesses era a linguagem seus usos e limitações.

O filme não é suficiente nem para falar da vida do filósofo e menos ainda para abarcar sua filosofia da qual nos é oferecido algumas frases, mas é sempre um bom início a este grande filósofo.

Recomendo principalmente para quem se interessa por filosofia.


Derek Jarman nasceu em 1942 em Northwood, Reino Unido e faleceu em 1994 em Londres.

Musica de Jan Latham-Koenig - Brahms - Intermezzo in a major op. 119 nº 1

Jan Latham-Koenig nasceu em 1953 na Inglaterra e é um maestro.

Ludwig Wittgenstein nasceu em 1889 em Viena, Áustria e faleceu em 1951 em Cambridge, Inglaterra.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

FILME: HANNAH ARENDT - 2012



Direção: Margarethe von Trotta - 2012
Duração: 113 min
Roteiro: Margarethe von Trotta e Pam Katz 
País: Alemanha - França 

Um filme sobre a filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt

Hannah Arendt (Barbara Sukowa) já está nos Estados Unidos onde vive com seu marido Heinrich (Axel Milberg) por ocasião do Julgamento de Eichmann que ocorrerá em Jerusalém. Ela irá para cobrir o  mesmo pelo The New Yorker.

Sua análise do julgamento repercutiu muito mal, ela sofre ofensas, incompreensões e acusações por três anos. Ainda se estava muito próximo de tudo que aconteceu na Segunda Guerra com os judeus. Mas sua análise se por um lado assombrou o mundo, por outro é extremamente lúcida. A banalidade do mal não é por ser supérfluo, mas é pela mediocridade. Ela foi fria, ficou atenta aos fatos e à lei.



Eichmann cuidava da logística dos trens que levavam os judeus para os campos de concentração, mas ele sabia o que eram aqueles trens e qual o destino para seus ocupantes, e neste sentido o maquinista também é um criminoso.
Quando um líder agrega a massa, ela não pensa, irá agir conforme a massa, fará coisas que jamais faria sozinha, mas seguirá o grupo. Eichmann é um burocrata, obedece e faz seu trabalho bem feito. E a solução final está dentro da lei do Estado Nazista. É complicado isto. Ele não agiu ilegalmente dentro daquele Estado e dentro da lei que vigorava.
Isto não retira o hediondo, o crime de Eichmann, mas mostra como um cidadão comum, pai de família e um bom pai pode fazer o que ele fez. Se não houvesse o nazismo ele teria sido um funcionário exemplar e um bom marido e pai de família, jamais um criminoso. Ele não pensa, não avalia o que está fazendo.



Um dos pontos mais controversos é quando diz: "Toda a verdade é que , se o povo judeu tivesse sido verdadeiramente desorganizado, sem chefes, o caos teria reinado e muita miséria também, mas o número de vítimas não teria podido atingir entre quatro e meio e seis milhões."

O gueto de Varsóvia, os chefes judeus, que se por um lado conseguiam coisas como comida, por outro escolhiam quem ia ser deportado e os convenciam que iam trabalhar. E os outros confiavam neles. Ao final a maioria foi eliminada, mas alguns escaparam e estavam em postos políticos quando Arendt publicou seu livro. Somente quando começaram a surgir os relatos dos sobreviventes isto foi ficando mais claro.

Eichamnn é culpado por ter obedecido sem pensar, o que não lhe traz  culpa no seu entender, ele fez o que tinha que fazer e obedecer é uma virtude, para os alienados é. Porém existe a maldade, está no ser humano. Não se trata como diz Platão que o mal só existe porque não se conhece o bem, não se sabe o bem, e aprendendo o bem se elimina o mal.

A questão é quando se acredita que eliminar os outros é o bem.

Arendt não defendia Eichamnn, ela queria compreender, mas isto não o absolve de seus crimes.

O filme retrata um pouco de sua vida, de sua relação com Heidegger, seu marido, alguns amigos. Era judia, foi para um campo de concentração na França e conseguiu ir para os Estados Unidos. Sua clareza na compreensão de como alguém pode agir da forma mais monstruosa e não acreditar nisto, e ainda acreditar que fez o correto, e também por ter levantado que entre os judeus houve pessoas que colaboraram, lhe valeu a perda de amizades inclusive de pessoas que ela amava muito, além de todas as acusações que sofreu.

Atualmente já se faz outra leitura de sua análise e do seu livro. E ele é válido não apenas para os nazistas, mas para compreender como é possível que o ser humano possa agir de uma forma tão cruel e ser um assassino para uns e para outros ser uma excelente pessoa e continuar acreditando que agiu certo.


Margarethe von Trotta nasceu em 1942, em Berlin, Alemanha. Atualmente mora em Paris.

domingo, 5 de janeiro de 2014

FILME: LE HÉRISSON - 2009 - O PORCO ESPINHO

Direção: Mona Achache - 2009 
Duração: 100 min 
Título Original: Le Hérisson 
País: França 

Como acabo de postar o livro que deu origem ao filme "A Elegância do Ouriço" de Muriel Barbery, aproveito para falar do filme que assisti recentemente.

O filme retrata duas mulheres em diferentes idades, mas que questionam o que é a vida e seus absurdos. Renée (Josiane Balasko) é uma zeladora de um prédio, extremamente séria, de poucas palavras, tratada por alguns dos moradores com a arrogância típica burguesa que se acredita superior e mais culta. O que eles não sabem é que Renée tem um segredo que somente seu gato Léon conhece. Atrás de uma porta que está sempre fechada se encontra sua verdadeira vida, uma biblioteca.

Paloma (Garance Le Guillermic) é uma menina de onze anos que se apercebe do absurdo da vida e resolve se suicidar no dia do seu aniversário se nada ocorrer que lhe mostre que vale a pena viver.

É do encontro destas duas que veremos de um lado Renée que se redescobre como mulher e Paloma que ainda se pergunta o que é ser uma mulher. A mãe da menina lhe dá pouca atenção, sua irmã se acha a melhor em tudo, o que deixa pouco espaço para a menina que não encontra um lugar. Entre as duas irá surgir o Sr. Ozu (Togo Igawa), um novo morador no prédio.




Como toda vez que se tenta colocar um livro extremamente rico em idéias e reflexões ,se torna difícil transpor isto para um filme.



É uma condensação, um resumo do livro, mas se perde muito da riqueza do livro em todos os seus detalhes, diálogos e reflexões. 
No que se refere ao contexto geral o filme o retrata bem, mas falta a riqueza da filosofia, e senti muita falta dos diários de Paloma, apesar da tentativa de expressá-los através das filmagens que ela faz.



Mona Achache nasceu em 1981 na França.

Trilha sonora de Gabriel Yared