Mostrando postagens com marcador Relume-Dumará. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Relume-Dumará. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de maio de 2016

LIVRO: NISE DA SILVEIRA Uma psiquiatra rebelde - FERREIRA GULLAR



Gullar, Ferreira. Relume-Dumará, 1996
98 páginas

Após assistir ao filme sobre Nise, postado aqui no blog, interessei-me por saber mais sobre sua vida e fui a minha biblioteca onde este livro estava aguardando para ser lido. 

O filme trata de um momento, quando ela volta ao Hospital após seu afastamento por ter sido presa ao ser considerada comunista. Já este livro que também fala muito sobre todo o período tratado no filme, temos uma visão mais ampla de sua vida desde sua infância em Alagoas, sua formação intelectual, a ida para Salvador onde estudou medicina, sua vinda para o Rio de Janeiro, amigos, seu envolvimento com defensores do comunismo que lhe emprestam livros sobre Marx e que fazem com que uma enfermeira a denuncie.

Sua experiência como presa política lhe ensinou muito sobre a questão de estar preso em um lugar, ter sua liberdade cerceada e ser tratado com desprezo e desdém. Nise defende um tratamento humano para os doentes mentais, com atenção, carinho. Diz que precisam ter alguém ao seu lado, dando apoio, sentir segurança.

A escuridão onde estão submersos dá sinais de tentativas de manter contato com a realidade através dos desenhos, das pinturas, da escultura, já que lhes faltam palavras. O psiquismo sempre procura se reequilibrar.

Quando percebe que muitos que deixam o hospital psiquiátrico acabam retornando, se dá conta que é necessário uma fase de transição, para que possam se readaptar ao mundo. Ela criou então a Casa das Palmeiras onde podem fazer esta transição.

O livro também traz uma entrevista com ela.

Ferreira Gullar nasceu em 1930 em São Luís, Maranhão. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

LIVRO: A LOUCA E O SANTO - CATHERINE CLÉMENT E SUDHIR KAKAR



Clément, Catherine; Kakar, Sudhir. Relume-Dumará, 1997
272 páginas
Tradução: Renato Aguiar
Título Original: La folle et le saint

Catherine é uma filósofa, historiadora, escritora francesa e Sudhir um psicanalista indiano que resolvem estudar e comparar uma louca internada em Paris no Salpêtrière sob os cuidados do psiquiatra Pierre Janet e o grande místico indiano Ramakrishna

Ambos viveram no século XIX, porém o fato de estarem em lugares diferentes e inseridos em culturas diferentes acaba por fazer com que um seja um santo e a outra uma louca.

Em Paris, Madeleine após ser presas várias vezes pelo que era considerado vadiagem, e tendo acrescido a sua ficha na polícia outros delitos, inclusive prostituição, pelo simples motivo destes delitos se enquadrarem no motivo, acaba sendo internada no Hospital Psiquiátrico Salpêtrière. Pode-se dizer que sua sorte foi ter tido como médico Pierre Janet que cuidou dela, mas por outro lado, o fato dela ser uma mística como foram outras mulheres na Idade Média como Santa Teresa D'Ávila, consideradas santas pela igreja, apesar do médico até o perceber e chegar a dizer que ela nasceu no lugar errado e na época errado, não é levado em conta, Janet quer curá-la e devolvê-la ao mundo como uma pessoa normal, normal mas infeliz, e ele o consegue.

Já na Índia temos Ramakrishna que mesmo tendo os mesmos "sintomas" que Madeleine, por viver num país com uma cultura muito diferente, vira um santo, guru.

O livro faz o percurso de análise de ambos os comparando e os diferenciando, demonstrando que loucura é algo que tem a ver com o lugar e o tempo, com a cultura. Clément nos faz o relato de Madeleine e Kakar de Ramakrishna, depois eles unirão seus comentários e análises e levando em conta a psicanálise poderão nos mostrar um quadro diferente do que normalmente teríamos ao ler a vida de ambos, mas separadamente e sem juntá-los. Há pontos comuns na infância de ambos, relação com a natureza e principalmente Clément e Kakar falam da bissexualidade envolvida no misticismo, que não tem nenhuma relação com a sexualidade genital, mas é psíquica. Na infância o psicanalista Winnicott fala do espaço transicional, que ocorre quando a criança após ser "afastada" da mãe, saindo da fusão inicial, busca o substituto através da ilusão, seja com um pano, um ursinho, um objeto que ela elege, até conseguir se separar e ter seu eu.

O êxtase místico ocorre neste mesmo espaço,  espaço este que ainda é bissexual, uma vez que a criança ainda não tem noção de seu sexo, nem fez a escolha, mesmo que já seja determinado biologicamente, mas em psicanálise a sexualidade não é isto, mas sim a escolha que fazemos por um sexo, feminino ou masculino, a constituição deste sexo. É um espaço de vazio que se preenche com o êxtase. Madeleine atinge o êxtase espontaneamente, enquanto que Ramakrishna o faz quando o deseja, ele se preparou para isto, apesar de que no início sua primeira visão também foi espontânea.

Há diferenças entre o que chamam de visão e alucinação, apesar de ser muito próximo, mas os místicos tem visões. Apesar de ser um surto psicótico, não é o mesmo, eles não são loucos, nem doentes mentais. O êxtase é vivido com todo o coração, com a alma e com toda força, há um gozo, volúpia, ao contrário da loucura que na sua pobreza precisa criar alucinações e delírios para preencher o vazio, para restituir algo.

Ao final do livro também temos uma análise da transferência e do papel do médico, do psicanalista e do guru.

 Catherine Clément é filosofa,  historiadora e escritora de ficção. Nasceu em 1939 em Boulogne-Billancourt, na França. Irei falar mais dela pois é uma das mulheres do meu projeto. 

Sudhir Kakar é um psicologo e psicanalista. Nasceu em 1938 em Nainital, Índia. Começou sua formação psicanalítica no Instituto Sigmund Freud em Frankfurt, Alemanha. Atua como psicanalista na Índia e estuda a psicologia cultural e psicologia das religiões