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sábado, 27 de dezembro de 2014

FILME: O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA - 2007



Direção: Mike Newell - 2007
Duração: 138 min
Título Original: Love in the time of cholera 

Baseado no livro homônimo de Gabriel García Márquez 

Estou lendo o livro, mas quando encontrei o filme acabei assistindo antes de finalizar a leitura.

O filme inicia já na velhice quando o Dr. Juvenal Urbino (Benjamin Bratt) morre e Florentino Arizo que esperou por este dia por mais de 50 anos procura a viúva Fermina Daza (Giovanna Mezzogiorno) para lhe dizer que por todo este tempo esperou por este dia. A partir daí o filme retrocede no tempo para contar a história dos três. 

Florentino conheceu Fermina quando era muito jovem e se apaixonou perdidamente por ela que se encantou com ele, e passaram a trocar cartas até o dia que o pai dela descobre tudo e ao perceber que não iria conseguir separá-los envia a filha para o interior da Colômbia. Alguns anos se passam e ela retorna à Cartagena, mas quando Florentino a procura ela lhe diz que foi tudo uma ilusão. Pouco depois ela adoece e chamam o Dr. Juvenal Urbino que passa a cortejá-la e acabam se casando. Florentino não aceita isto, não aceita que foi tudo uma ilusão, e por mais que sua mãe Tránsito (Fernanda Montenegro) tente ajudá-lo, ele irá nutrir este amor pelo resto de sua vida e será incapaz de amar outra mulher.




Mais de 50 anos se passarão, Florentino continuará amando Fermina, mas manterá relações rápidas com outras mulheres, fazendo um caderno numerando-as, chegando a 622 mulheres em determinado momento do filme. Por seu lado Fermina vivera um casamento com tudo que ele possui, e que muitas vezes é feito muito mais de problemas, atritos do que de momentos de felicidade e encanto, como dirá o Dr. Urbino a sua esposa, que a estabilidade de um casamento é muito mais importante do que o amor e a felicidade, ao que responde Fermina perguntando: o amor é mais difícil?

O amor é como o cólera, se apodera da pessoa e pode destruir, é uma doença, mas também é possível a cura. Logo após Fermina dizer a Florentino que descobriu naquele instante que tudo não passou de ilusão, ele passará muito mal, suará, sentirá dores. Sua mãe acredita que ele está com cólera.



Tránsito foi abandonada pelo pai de Florentino cujo irmão a ajuda com dinheiro. Ela se apega ao filho, um excesso de preocupação e zelo, e isto interfere na maneira como ele vive o amor. Viverá ao lado da mãe até sua morte. Fermina representa o além de sua mãe, ela despertou algo nele de que não conseguirá se desapegar tornando este amor obsessivo. Florentino fica paralisado neste sentimento, idealiza a amada, e viverá para estar perto deste objeto de amor e acredita que um dia ficarão juntos, ele anseia por isto. Ela é algo inalcançável, proibida agora que é casada, mas diferente do amor burguês, ele espera que o marido morra e teme que ela morra antes dele.

Fermina diante da situação de impossibilidade colocada por seu pai reage de outra forma. Ela vai reprimir seu amor, se convencer de que foi uma ilusão. Só após a morte do marido ela vai se sentir livre, poderá refletir sobre tudo isto e fazer escolhas por si mesma.

Florentino não consegue fazer o luto da separação, ele se torna melancólico, já Fermina consegue, e com isto abre a possibilidade de sua vida ao lado de Urbino.

Será então na velhice que este amor poderá ser vivido na realidade, deixar de ser um fantasma que esteve presente na vida de ambos. Fermina diz que Florentino parece uma sombra. As cenas do reencontro, ou novo encontro, pois ambos haviam mudado, vivido anos sem se falarem, são belas, a delicadeza, a sensibilidade de Florentino com ela, o cuidado que ele tem. O reconhecimento que está velha em Fermina, que coloca sua feminilidade em um momento frágil é superado pelo amor dele.



Um filme belíssimo sobre o amor.

Mike Newell nasceu em 1942 em St Albans, Reino Unido. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

FILME: MAR ADENTRO - 2005


Direção: Alejandro Amenábar - 2005
Duração: 125 min

Baseado em fatos reais, na vida de Ramón Sampedro

Ramón (Javier Bardem) era um jovem cheio de vida que trabalhava como mecânico em navios e assim andava pelo mundo todo até o dia em que ao pular de uma pedra para o mar bate com a cabeça na areia por não haver calculado o recuo do mar o que lhe causa uma lesão no pescoço tornando-o tetraplégico.



O filme inicia quando ele já está assim há mais de 26 anos e está lutando na  justiça espanhola para conseguir o direito ao que chama de uma morte digna, ou seja, a eutanásia ou suicídio assistido, uma vez que não pode se matar ele mesmo, e considera sua vida indigna e sem felicidade.

No começo ele era atendido por sua mãe, mas após a morte dela é sua cunhada Manuela (Mabel Rivera) quem assume seus cuidados, e Ramón sente-se muito mal dependendo dos outros, e considera seu corpo como uma prisão.



Gené (Clara Segura) faz parte de uma associação que luta pela liberdade das pessoas e ajuda Ramón, e possibilita o encontro dele com Júlia (Bélen Rueda) uma advogada que sofre de uma doença degenerativa e que se identifica com ele se dispondo a ajudá-lo e levar o caso aos tribunais. Ao mesmo tempo ele conhece Rosa (Lola Dueñas) que após vê-lo na TV o procura e acaba se apaixonando por ele, pois é o único homem que foi bom para ela.

Júlia o ajudará a publicar seu livro - Cartas do Inferno - e fará um trato com ele que ao lhe trazer o primeiro exemplar ambos se matarão, mas isto não ocorre, pois o marido de Julia a reterá perto dele. Então será Rosa quem ajudará Ramón. Ele gravará um vídeo onde isenta todos seus amigos que o ajudaram e se suicida.

Ramón não aceitou sua condição, mas era um homem vibrante, que sabia fazer uso de sua imaginação de uma forma que muitos de nós jamais conseguiria. Dono de um humor que muitas vezes era negro, mas ele sabia ouvir e movimentava a vida ao seu redor. Um padre (Josep Maria Pou) que também é tetraplégico o procura e tenta convencê-lo a viver, mas este não é o discurso que teria acesso à Ramón.



Quando penso no filme Os Intocáveis que também retrata um fato real há uma imensa diferença de como lidar com a mesma situação entre os dois casos, mas cada um tem sua história e sua capacidade de sofrer os reveses da vida. Ramón se recusava a usar a cadeira de rodas o que obviamente limitou sua vida à cama. Mas ele desenvolveu um mecanismo que chamava de seu computador através do qual conseguia escrever usando a boca.

Não é fácil, 26 anos sem poder se mover, dependendo de outros para todas as suas necessidades. Os sentimentos que se geram diante desta situação são difíceis, mas cabe a cada um que passa por esta situação aprender a lidar com isto ou preferir a morte como no caso de Ramón.

Na Espanha não se considera o suicídio um crime, mas a eutanásia sim. Considero a eutanásia uma forma de ajudar as pessoas que estão com doenças terminais, sofrendo, com dores, e que irão morrer de qualquer maneira só que um pouco mais adiante. A pessoa tem o direito ao suicídio, pode escolher se deseja ou não viver, como Ramón diz: viver é um direito, não é uma obrigação.

Não estou levando em conta aqui nenhum aspecto religioso ou espiritual que condenaria o suicídio ou a eutanásia, mas lembro que prolongar uma vida com aparelhos também é ir contra os desígnios de Deus, e não é a vontade de Deus que se construa estas máquinas, isto é do ser humano com sua inteligência capaz de criar isto.

Julia no final do filme está em uma cadeira de rodas, perdeu os movimentos das pernas e já não se lembra de quase nada, está caminhando para um estado vegetativo, e isto é vida? Alguns dirão que são as provas pelas quais temos que passar e quando acreditamos nisto, sim, é necessário passar, mas há aqueles que não acreditam, e respeito as escolhas de cada um.

Há aqueles que enfrentam as adversidades com mais facilidade do que outros, há aqueles que aceitam o que lhes acontece e tratam de dar outro rumo a sua vida dentro destas condições limitadas por um lado, mas que podem abrir outros campos se a pessoa se dispuser a descobri-las.

Muitos se suicidam de forma inconsciente, quando aceleram um carro a alta velocidade e sofrem um acidente, quando arriscam a vida para vencer desafios que se impõem, ou até mesmo quando atravessam uma rua e não olham e são atropelados, mas nada disto é considerado suicídio, pois não foi consciente. Ramón está lúcido, é inteligente, e deseja morrer. Na minha opinião ele tem este direito. Para ele é a única saída que ele encontrou que é digna, para outros pode ser outra.

Alejandro Amenábar nasceu em 1972 em Santiago, no Chile. 

Veja um vídeo com Ramón Sampedro 


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

FILME: VICKY CRISTINA BARCELONA - 2008


Direção: Woody Allen - 2008
Duração: 96 min

Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são duas amigas íntimas americanas que viajam para Barcelona para passar três meses de férias em casa de amigos de Vicky. Apesar do forte elo de amizade elas tem visões opostas sobre a vida e o amor. Vicky estuda a cultura catalã para seu mestrado e Cristina busca algo na vida, ela só sabe o que não quer. Enquanto Vicky está prestes a se casar, Cristina busca o amor e acaba de rodar um curta sobre como é difícil definir o amor. 

Numa exposição de pintura elas avistam o pintor Juan Antonio (Javier Barden) e Cristina o acha interessante. Logo ficam sabendo que ele acaba se se separar de sua mulher Maria Elena (Penélope Cruz) de forma meio violenta, ela tentou matá-lo. Mais tarde reencontram o pintor num restaurante que as convida para um fim de semana em Oviedo. Cristina se empolga de imediato, mas Vicky tenta ser racional, principalmente depois que ele inclui no convite fazer amor, mas acaba indo. A partir deste momento muitas coisas acontecerão que irão mudar estas férias e farão as duas pensar muito sobre a vida e sobre o que desejam. 

Vemos várias pessoas que tem uma vida boa, com possibilidades de viagens, prazeres, luxo, belas casas, decorações bonitas, lugares belíssimos, e ainda assim a cada uma delas falta algo. Também percebemos a questão da sexualidade, o convite inicial do pintor que inclui sexo com as duas, a amiga de Vicky que tem um amante, mas tem medo de se separar, o pai de Juan Antonio que confessa que ainda tem sonhos eróticos com a ex-mulher do filho, e por aí vai. 

Fica notório a diferença entre a América e a Espanha, e nos parece bem mais saboroso, mais quente, mais viva a Espanha, pelo menos foi o que eu senti, uma vez que entre uma vida cheia de normas, enquadrada, com casas bonitas com quadras de tênis, computadores, tecnologia e uma vida com a música que toca o corpo, vinho, belezas naturais, pintura, e casas diga-se de passagem, maravilhosas, as ruas alegres e coloridas, é claro que o filme nos passa uma Espanha bem mais colorida do que a América. Mas mesmo assim as pessoas que ali vivem estão em busca de algo que Vicky descobre também sentir. 

No fundo o que eles não sabem é viver com a falta, e isto aparece quando Maria Elena diz que ama Juan Antonio e esta a ela, mas não conseguem viver juntos porque falta algo para o equilíbrio do amor e considera Cristina como este algo. Tamponando a falta tudo funciona. Será? será que Cristina conseguirá ser a falta do outro? e ela mesma? suas faltas? 

Juan Antonio não consegue lidar com a perda, de certa maneira ele está enroscado na relação neurótica com Maria Elena, ela é impulsiva, passa ao ato de imediato, não consegue parar para pensar ou analisar algo,e ele se considera o elo entre ela e o real. Mas sem ela quem se perde é ele, precisa de alguém com ele. 

Um filme muito bom, que propõe muitas interpretações, a cada um sua maneira de ver o filme e o compreender e sentir. 

Woody Allen 

BELÍSSIMA TRILHA SONORA 


Giulia y los Tellarini - Barcelona

Paco de Lucia - Entre dos aguas

Juan Serrano - Entre Olas

Juan Serrano - Gorrion

Juan Quesada - Asturias 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

FILME: COMER REZAR AMAR - 2010



Direção: Ryan Murphy - 2010 
Duração: 133 min 
Título original: Eat Praty Love 
Roteiro: Ryan Murphy e Jennifer Salt
País: Estados Unidos 

Baseado no livro autobiográfico Comer Amar Rezar de Elizabeth Gilbert 

Elizabeth (Julia Roberts) encontra dificuldades em seus relacionamentos, seu casamento termina, e ela percebe que algo nela mesma não vai bem até o dia em que abandona tudo e resolve viajar para a Itália, Índia e Bali para se dar um tempo e viver algo diferente.

Eu também li o livro, mais um que comprei no aeroporto para passar meu tempo na sala de espera. Nestes momentos gosto de um livro mais leve, divertido mas que também me ensine algo, e este foi um destes.

A Itália, lugar de comer. A busca da pulsão da vida, do prazer, o prazer de comer sem culpa. E há melhor lugar para o prazer do que a Itália? um lugar belíssimo, arte, experiências estéticas, música alegre e dançar, falar e claro, comer! Um prazer que é diferente de diversão, de entretenimento. Na Itália se fala com a boca, mas também com gestos, muitos gestos, o que leva a pessoa a se soltar e se expressar com maior vivacidade.



A Índia - Rezar. Ou um lugar espiritual, para encontrar a paz, a serenidade. Elizabeth quer meditar, não é fácil, mas ela insiste. O encontro de si mesmo e perceber que só você mesmo pode fazer algo por si. É a hora de curar as feridas, as dores.



Indonésia - Bali. O amor. É quando conhece Felipe (Javier Bardem) que também passou por momentos difíceis em seu relacionamento. O encontro destes dois possibilitará o encontro com o amor.



Apesar de nos carregarmos junto para onde que vamos, lugares novos sempre propiciam novas experiências, pessoas novas, outros olhares, outros cenários, cheiros, sons, comidas, a língua. Vemos coisas inusitadas outras parecidas, estranhamos e nos encantamos, também nos chocamos. Viver algo diferente pode ser mais construtivo do que uma terapia, e no filme é esta a escolha de Liz, terapia ou viver algo novo? Ela opta pela segunda opção. Não é uma fuga, a dor vai junto, mas ela pode se transformar neste processo.


Ryan Murphy nasceu em 1965 em Indianápolis, Indiana, EUA.

Trilha sonora de Dario Marianelli 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

FILME: SOMBRAS DE GOYA - 2006




Direção: Milos Forman - 2006
Duração: 118 min 
Título original: Goya's Ghosts / Los fantasmas de Goya 
Roteiro: Milos Forman e Jean-Claude Carrière
País: Espanha e Estados Unidos 


O filme não é exatamente sobre a vida do pintor Goya, apesar de retratar uma fase de sua vida, mas sobre sua arte dentro do contexto da época - 1792 - 1809.
O que se passa no filme, o que é filmado é o que está nas Gravuras de Goya, o que ele viu e retratou, pintou. É um filme sobre sua arte.
Goya pinta, retrata, desenha o real, não o que se espera que ele veja ou pinte. O quadro da rainha, por exemplo, ele não consegue fazer dela uma mulher mais bonita, pinta o que vê, e claro que a rainha não gostou.



O filme também nos mostra a época, a inquisição, o Santo Ofício, o jogo do poder, a igreja, a miséria, as prisões e hospícios. A revolução, as guerras e Napoleão e a revolta dos espanhóis contra este.



Tudo isto, a dor, a miséria, o poder, a loucura alimenta a pintura de Goya, são seus fantasmas.






Goya (Stellan Skarsgard) é reconhecido pela corte espanhola. É a época da invasão de Napoleão e da Inquisição. Sua musa Inés (Natalie Portman) é presa pela inquisição sob falsas acusações de heresia e nem mesmo Frei Lorenzo (Javier Bardem) consegue libertá-la, mas ele irá visitá-la e acabará por engravidá-la. Quando finalmente sai da prisão ela irá atrás de seu filho, todos a consideram louca, mas Goya irá acreditar nela.




Assista ao trailer:


Milos Forman nasceu em 1932 em Caslav, República Tcheca. Mudou-se para o Estados Unidos em 1968 e em 1977 naturalizou-se.

Trilha Sonora Varhan Orchestrovich Bauer de Praga


FILME: BIUTIFUL - 2010





Direção: Alejandro González Inárritu - 2010 
Duração: 147 min 
Roteiro: Alejandro Gonzáles Inárritu , Nicolás Giacobone e Armando Bo 
País: Espanha e México 

Prêmio de melhor ator para Javier Bardem no Festival de Cannes 2010 


É um filme que mostra a cidade do outro lado do espelho reluzente que todos adoram ver, principalmente Barcelona. O lado considerado negro por alguns e criminoso, marginal por outros, mas alto lá, o que o filme mostra é a realidade, a vida de milhares de pessoas é assim em muitas cidades. Para os que não se atrevem a chegar perto deste lado de uma cidade, é pavoroso, é crime e haverá muitas críticas. Imigrantes, o que vieram fazer aqui? Esquecem que no país deles há fome, guerra, falta de trabalho, e que são seres humanos e a terra lhes pertence tanto quanto. 

Ao saber que vai morrer, Uxbal ( Javier Bardem)  parece que continua com sua vida sem que isto se faça presente. Pode-se dizer que é o véu que temos para a morte. Só quando caímos e o corpo não reage mais a morte se faz presente para si mesmo. Enquanto ainda podemos comer, caminhar, falar...

Ele vive no meio da miséria, onde todos lutam para sobreviver, imigrados presos num porão, que trabalham por uma miséria explorados por outros de seu país. O filme é escuro, não há alegria, festas cheias de droga e sexo, bebida. A mulher dele Marambra (Maricel Álvarez)  é doente, e no final é internada novamente. Prostituição, corrupção.
Que vazio de palavras, de ouvir, de procurar ver o lado do outro, mas ao mesmo tempo ele tenta ajudar os outros, dentro do sistema em que vivem. Pode-se dizer que ele também explora, mas se arrisca junto, apesar de que ganha mais. Ali todos sabem o risco que correm ao vender produtos de contrabando. Não são bandidos, são seres humanos lutando para sobreviver, num mundo onde não conseguem um bom trabalho, um bom lugar para morar. Somente uma vez aparece a catedral de Barcelona em meio às brumas. Ela não pertence a este mundo. Temos uma Barcelona feia, triste, suja, com sofrimento. Tão diferente daquela que se vende ao mundo, aos turistas e aos que podem morar e viver nela em outros locais.

Mas temos Ige, acho que é assim seu nome, que ao final volta, poderia ter ido embora, e volta, vem cuidar dos filhos dele. Ela tinha dinheiro e poderia ter seguido seu caminho, mas como lidar com a culpa deste dinheiro. Seria suficiente a raiva que ela sentia dele, por culpá-lo de seu marido ter sido preso? Mas ele avisou, mas eles tinham alternativa, era só lá que vendia?

 A mãe deixa o filho de castigo. Este castigo é para o filho ou para ele? Que não foi e não disse por que. Que não lhe contou que estava morrendo de câncer? que não confiou nela. Que voltou para ela quando precisava dela, mas não moveu um dedo para reatar com ela. Ele queria ficar em paz para ter com quem deixar as crianças. Ninguém dá muita atenção a este menino, logo no começo ele fala ao pai que nem o ouve, sobre a roupa do astronauta. A filha tem que assumir um lugar que não é o dela. O anel que lhe passa ao dedo.

 E a morte. Ele sabe que vai morrer, será que tenta então melhorar algumas coisas para os outros para se sentir melhor? E compra aqueles aquecedores que quando vi entrando naquele porão adivinhei na hora o que iria ocorrer. Ele escolheu os mais baratos, para ficar com dinheiro, para deixar aos filhos. E seus filhos teriam ficado sem nada se Ige não volta. Iriam ficar sozinhos, a mãe internada, o pai morto. Igual a ele? que também perdeu o pai e a mãe? Pede a filha que nunca esqueça seu rosto. O rosto que ele precisou ver na exumação do corpo do pai. Um pai que não tinha rosto e passa a ter.

 O filme é a vida, o que ela é, sem enfeites, sem colorido, não há final feliz. O final é a morte. Sim, poderia haver uma certa alegria ali, mesmo com todas as dificuldades, mas só quem vive nesta situação sabe o quanto é difícil ser alegre e contente vivendo assim. Só tem duas cenas de alegria: Ana, sua filha, sorrindo para um bebê. O primeiro morre asfixiado, o segundo, é o filho de Ige. Não há prazer, pois até a viagem que era para ser algo alegre, prazeroso, perde seu encanto, quando ele não vai e a mãe deixa o filho. Não é mais a Disneylandia que a mãe desejava. Um mundo de sonho.   
Vidas onde não há o desejo, onde não há a paixão e o amor, nem mesmo na declaração de amor que ele fez a ela, quando conta aos filhos, e diz que ele enfiou o dedo no nariz dela. O desejo existe, mas não se realiza. E é a vida da maioria das pessoas.
O filme começa e termina no pós morte. O pai jovem, que o encontra, vai buscá-lo quando ele morre. Nem mesmo aí temos o paraíso. Mas temos uma coruja que expele uma bola de pelos, aquela, que nós carregamos dentro de nós a vida toda. E então ele pergunta: o que temos lá? precisamos morrer para saber.

Ele que passou a vida com medo do fundo, do escuro, da morte, e falava com os mortos, se encontra com ela, como todos nós, pois a morte está na vida e a vida na morte. Viver é beautiful, mas a vida não é beautiful, é no máximo, biautiful, uma aproximação, uma tentativa, de acertar. 

Trailer do filme:


Alejandro González Inárritu nasceu em 1963 na Cidade do México, México.

Música de Gustavo Santaolalla

Gustavo Santaolalla nasceu em 1951 em El Palomar, Argentina. É músico e compositor.