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sexta-feira, 19 de junho de 2015

LIVRO: A HORA DA HISTÓRIA - THRITY UMRIGAR




Umrigar, Thrity. 1ª ed. Globo Livros, 2015
333 páginas
Tradução: Amanda Orlando
Título Original: The Story Hour

Trata-se da história do encontro entre Maggie, uma psicanalista e Lakshmi, uma jovem indiana que tentou o suicídio. Para liberar Lakshmi do hospital, Maggie convence o marido desta a permitir que ela faça análise.

É deste encontro entre duas pessoas tão diferentes, mas ao mesmo tempo parecidas que se tece a Hora da História. Sobre as dificuldades de ser um estrangeiro, um imigrante ou de outra cultura num país. Maggie é negra e casada com um indiano, mas tem uma boa situação financeira. Lakshmi veio para os Estados Unidos por causa do marido, mas é sozinha, não tem amigos, e sente falta da família e de seus costumes. 

Maggie por sua vez, apesar de ser casada com um homem que a ama, gentil, atencioso, também sente falta de algo e acaba se envolvendo com Peter, um fotógrafo free lancer que vive viajando pelo mundo e jamais ficaria ao lado dela para sempre, e mesmo assim Maggie arrisca seu casamento. 

Uma história que aborda de maneira leve o conflito dos que estão em outro país e se sentem excluídos, não aceitos, e sentem falta de reconhecimento. Mas também sobre os conflitos das relações humanas e dos casamentos. 

Thrity Umrigar nasceu em Bombaim, Índia 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

LIVRO: A VIAGEM VERTICAL - ENRIQUE VILA-MATAS


Vila-Matas, Enrique.Cosac Naify, 2014
252 páginas
Tradução: Laura Janina Hosiasson
Título Original: El viaje vertical

País: Espanha 

Mayol vive em Barcelona e está acomodado em sua vida, acredita que fez tudo correto, enriqueceu com sua empresa de Seguros que agora é presidida pelo seu filho, deu uma vida boa a sua família, mas não consegue se entender com o filho mais novo e está furioso com ele por ter compreendido que ele o chamou de inculto. Sem saber Julían tocou no ponto mais sensível de Mayol, sua falta de cultura. Ele foi obrigado a abandonar os estudos por causa da guerra civil na Espanha e depois nunca mais retomou. 

Tudo teria continuado desta forma se não fosse a esposa de Mayol, Julia sem mais nem menos lhe dizer que está farta, que quer que ele vá embora porque ela precisa ficar sozinha e ter tempo para si mesma e descobrir quem ela é, depois de tantos anos se dedicando e fazendo as vontades de todos. Mayol não compreende, mas Julia está de certa forma dando uma dica para Mayol, sempre é tempo de se ir em busca de seu desejo, de descobrir quem somos. Julia, como o marido, considera que cumpriu sua missão e agora quer um tempo para si mesma que nunca pode ter antes.

Mayol sem compreender nada do que sua esposa Julia deseja acaba indo embora. Começa o que ele vai chamar de viagem vertical para o sul. Primeiro Porto, depois Lisboa até que ele chega a Ilha Madeira. É uma viagem para o fundo, de descobrimento de si mesmo. É um recomeço onde ele poderá finalmente enfrentar seu trauma e buscar o que deseja. Sempre é possível, a derrota às vezes é apenas a forma de sacudir uma pessoa para que ela saia de seu conformismo e autopiedade para fazer algo por si mesma.

É como os romances de formação só que aqui o personagem já tem mais de setenta anos, mostrando que enquanto se está vivo é possível ir em busca de si mesmo e do que se deseja.


Enrique Vila-Matas nasceu em 1948 em Barcelona, Espanha

sexta-feira, 24 de abril de 2015

LIVRO: SANGUE NO OLHO - LINA MERUANE


Meruane, Lina. Cosac Naify, 2015
192 páginas
Tradução: Josely Vianna Baptista
Título Original: Sangre en el ojo

Lucina está numa festa quando sente que explodiu uma veia em seu olho e o encheu de sangue. Ela não consegue mais enxergar, exceto vultos e sombras. Ela estava em tratamento com um oftalmologista e já era algo que ela sabia possível de ocorrer e que ela temia. Agora ela passa a depender dos olhos de Ignácio, seu companheiro. 

O livro trata de como se sente uma pessoa que enxergava e de repente fica cega e de como ela pode reagir à isto, se submetendo ou não. Um outro ponto forte no livro é a questão de como os outros vêem isto, como os amigos de Ignácio que lhe dizem que ele não tem uma namorada, mas um fardo. 

Lucina, ou Lina Meruane, é chilena e vive nos Estados Unidos, é escritora e interrompe seu trabalho com a cegueira apesar da insistência de sua professora que lhe recorda o grande escritor cego, que apesar de não ter seu nome citado sabemos se tratar de Borges

Vamos acompanhando o drama de Lucina, inclusive visualmente, pois o livro tem as páginas que vão se escurecendo a medida que avançamos na leitura. A que ponto podemos chegar para não ficarmos cegas? Lucina vai ao extremo em sua luta por enxergar, abandonando a ética. Também luta contra toda superioridade médica que lhe impõe um quadro de cegueira que ela não aceita. Por outro lado ela o diz no livro que está aprendendo a ser cega . 


A autora que tem o mesmo nome da protagonista do livro também passou por uma experiência com seus olhos, não tão drástica, e talvez se trate de expressar isto que ela faz escrevendo o livro, como uma espécie de autobiografia. A expressão sangue no olho em espanhol significa desejo de  vingança. Ao acompanharmos o decorrer dos dias de Lucina podemos perceber como se sente uma pessoa que fica nesta situação e o que é possível ou não fazer. 

Lina Meruane nasceu em 1970 em Santiago, Chile. 

domingo, 12 de abril de 2015

LIVRO:O TOM AUSENTE DE AZUL - Uma aventura filosófica - JENNIE ERDAL


JENNIE ERDAL 
BERTRAND BRASIL, 1ª ED. 2015
378 páginas
Tradução: Pierre Menard
Título Original: The missing shade of blue

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - ESCÓCIA 

O enredo é simples. Edgar viaja para Edimburgo para fazer uma trabalho de tradução dos manuscritos do filósofo David Hume. Ao chegar lá ele conhece por acaso o filósofo Harry Sanderson que é casado com uma pintora, Carrie. A partir daí tudo muda para Edgar a começar do seu jeito de viver que é programado e sistemático até um mergulho em seu passado. 

Edgar passou por um colapso nervoso na Universidade e desde então procura se manter longe de emoções e da desordem, mas Sanderson é o oposto, anárquico, paranoico e está passando por uma crise autodestrutiva. O encontro destes dois é o que há de brilhante no livro, principalmente Sanderson que irá questionar o que é ser feliz? se a felicidade existe? 

Será diante das atitudes, comportamento e do que diz Sanderson que Edgar terá que enfrentar seus próprios conflitos. Ele é mais velho e mais vivido que Edgar e traz toda uma gama de experiência de vida que traz para o real o que costumamos romancear, transformar em ficção ou algo belo, na tentativa de não se confrontar com a velhice, com as frustrações, com as perdas e faltas. Sanderson revela como nos valemos de consolos e da imaginação para escapar ao real da vida. 

O final deixa claro que o "vivemos felizes para sempre" é algo ilusório, mas ao chegar ao fim do livro percebemos em nós mesmos como torcemos para que isto aconteça, como desejamos continuar dentro deste imaginário. O quanto estamos sempre criando o tom ausente de azul. 

Recomendo!

Jennie Erdal é uma escritora escocesa

sábado, 8 de março de 2014

LIVRO: O CORPO EM QUE NASCI - GUADALUPE NETTEL



Nettel, Guadalupe. Rocco, 2013
Tradução: Ronaldo Bressane
222 páginas
Título original: El cuerpo en que nací

Um livro autobiográfico escrito pela mexicana Guadalupe Nettel. Ela nasceu com um problema no seu olho direito, uma mancha de nascimento em cima da córnea do olho. Inicialmente seus pais farão de tudo, mas ela não pode ser operada enquanto não crescer, então terá que fazer exercícios com seu olho usando um tampão o que para ela é um suplício, mas que enfrenta sem nunca ter tido a ideia de retirá-lo assim que ficasse fora de vista de seus pais.

Nettel irá nos contar sua infância e sua adolescência com seus pais e seu irmão. Anos setenta em plena liberação sexual onde se experimentava de tudo tanto no campo sexual, ou fumar maconha e a liberdade dentro de um regime de ditadura política. Seus pais acabam separando-se e ela ficará com a mãe junto com o irmão. Irão morar na França onde se sentirá uma outsider e depois retornam ao México onde finalmente sua mãe decidirá por tentar a cirurgia para retirar a mancha do olho, o que não será possível uma vez que a catarata que se formou grudou na retina tornando a cirurgia extremamente arriscada.

É neste momento que finalmente Nettel poderá se assumir com sua diferença e aceitar o corpo em que nasceu como seu, com suas alteridades.

O livro é belo, questiona sem mágoa ou acusações o que é ser diferente, seja no corpo ou na nacionalidade, nos costumes, na língua. Ela olha para os outros com suas limitações e diferenças as indicando, mas em momento algum há preconceito ou racismo nestas suas observações. E acaba questionando o que é ser normal? Se compara a Gregor Samsa numa alusão à Metamorfose de Kafka, em sua crítica de ter que atender aos outros e ao que os outros esperam dela.

O relato todo se passa em sessões com sua psicanalista que em momento algum se pronuncia, apenas ouve. Um longo processo de análise que a leva a assumir seu corpo com suas particularidades, mas também a ela mesmo com sua alteridade.

Guadalupe Nettel nasceu em 1973 na Cidade do México, viveu em Paris, Barcelona e Canadá.