Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo.
Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
Direção: Emilio Martínez Lázaro - 1978 Duração: 92 min Título Original: Las palabras de Max País: Espanha Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1978
É um filme antigo, mas que tem muito a nos dizer sobre a maturidade e a solidão. Logo no início vemos Max sozinho ao telefone, ele tenta seguidamente falar com alguém para driblar sua solidão, mas não consegue, liga até mesmo para seu dentista e para um padre que foi seu professor há muitos anos atrás e que nunca mais viu. Só este início valeu o filme, pois retrata o que é solidão e o mundo atual, onde não encontramos mais ninguém para conversar, trocar uma ideia, todos estão ocupados, ou em busca de uma conversa boba que não o faça pensar.
Max é um sociólogo, aliás interpretado por Ignacio Fernandez de Castro que foi um sociólogo e jurista espanhol , está separado de Clara e tem uma filha (Gracia Querejeta). Ele conhece uma mulher e tenta se relacionar com ela, mas as relações não são fáceis.
Max sempre seguro de suas opiniões começa a se questionar de como é visto pelos outros, sua filha e a amante lhe dizem algumas coisas, mas é interessante pensar como sempre temos que estar de acordo com o que os outros desejam que sejamos, ou então, a solidão....
Emilio Martínez Lázaro nasceu em 1945 em Madri, Espanha
Direção: Peter Hadke Duração: 119 min Título original: Die Linkshändige Frau Baseado no livro homônimo de Peter Hadke
Marianne (Edith Clever) é casada com Bruno (Bruno Ganz) e tem um filho Stephan. Sem expor nenhum motivo Marianne pede que Bruno vá embora após passarem a noite juntos, ela não quer mais viver com ele. Durante todo o filme não haverá uma explicação por parte dela sobre isto.
O que dizer sobre o filme? Fui tomada por uma sensação de monótono, de dia a dia, de melancolia. Estamos no pós-guerra, as paisagens são melancólicas, poucas pessoas nas ruas, bosques com árvores caídas, sem folhas, tudo é cinza com pouco colorido.
Bruno fica pasmo, não quer acreditar e tem dificuldade em aceitar. Ela não se incomoda. O filho parece sentir tudo isto, diz em um momento que ele também está triste, mas permanece em sua rotina, exceto pelo fato que toma o lugar do pai para proteger a mãe do editor que vem fazer uma visita. O pai escreve para o filho, e quando vai à casa não há cenas dele com o Stephan.
Marianne olha tudo e parece sempre estar fazendo uma reflexão, mas nada que altere sua vida de forma notória. Os outros não compreendem e insistem para que ela volte para o marido, o que ela não faz.
O filme mostra uma realidade, sem grandes feitos, o que ocorre no dia a dia. Nada de grandes encontros, festas, sonhos e ilusões, mas simplesmente o vazio inicial de uma separação, as dúvidas, os medos, mas também as descobertas que se faz pouco a pouco. Não concordo com alguns comentários sobre o filme que Marianne se torna independente,uma vez que permanece no seu conforto de sua casa e com uma conta bancária conjunta que lhe proporciona o que precisa, mas ela pode finalmente ocupar este espaço de forma independente, mudando as coisas de lugar, jogando fora o que não lhe interessa, mas há algo que me toca, ela sempre olha para fora, como se buscasse algo lá fora.
Ela passa a trabalhar como tradutora, e acaba se afastando das pessoas uma vez que elas a julgam e insistem para que volte para o marido. Ela passará pelo momento de reavaliar quando percebe outros casais juntos, famílias, sejam os vizinhos, na rua ou num filme que assiste. Mas permanecerá determinada em sua decisão.
É um filme que trata do real dentro da realidade, uma vez que não se trata da busca de uma ilusão de felicidade, mas apenas de uma decisão de uma mulher que precisa estar consigo mesma, sentir uma certa liberdade, poder fazer o que deseja, o que não significa o paraíso que muitos fantasiosamente buscam.
Talvez por isto seja um filme difícil de assistir e que causa incomodo, não nos vemos diante projeções de felicidade e sucesso, mas simplesmente diante da realidade sem fogos de artifício.
Gerard Depardieu faz uma pequena aparição no filme.
Peter Handke nasceu em 1942 em Griffen, Caríntia, Áustria.
Direção: Ingmar Bergman - 1978 Duração: 99 min Título original: Höstsonaten Roteiro: Ingmar Bergman País: Suécia
Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro e o Prêmio Globo de Ouro. Produção Suécia, Alemanha e França.
A relação entre mãe e filha
De uma lado a filha Eva (Liv Ullmann), do outro a mãe Charlote (Ingrid Bergman), duas brilhantes interpretações.
A mãe vai visitar a filha no interior da Noruega onde ela vive com o marido após muitos anos sem se verem. O que era para ser um reencontro feliz transforma-se num confronto entre mãe e filha a respeito de seus conflitos, raivas, dores, cobranças.
Ao chegar Charlote descobre que sua outra filha doente que ela acreditava internada também está ali, Eva a trouxe para morar ali.
Charlote é espaçosa, fala muito, decide tudo e Eva é tímida, retraída, difícil de ser satisfeita. A mãe é uma pianista famosa, e Eva tenta tocar algo para a mãe. O rosto, a expressão que Ingrid Bergman coloca no rosto é algo impagável, não há palavras para expressar. O confronto se torna inevitável, Eva deixa todo seu ódio pela mãe aparecer e o fala. Ela se apega a sua verdade, ao que a mãe é para ela, seus efeitos. Não consegue olhar para a mãe, de certa maneira fala como a criança que não conseguia ver a mãe como uma mulher que também tem suas questões, que também pode ser frágil por baixo de tanta segurança.
Seu desejo de fusão com a mãe se reflete na relação que Eva mantém com seu filho morto, que está sempre ali e nunca se separam. Ela não permite que o filho morra.
Tudo é culpa da mãe, até a doença de Helena, a acusa de só ter olhos para si mesma.
Charlote tenta se defender, explicar, pedir perdão. Se recorda de sua mãe, fala de sua incapacidade de amar, de seus medos.
Eva julga, acusa dentro das suas certezas, não "perdoa" a mãe, exceto no final, quando a mãe vai embora novamente.
Charlote vive a solidão, sempre viajando, é famosa, mas não se satisfaz. É uma busca constante de algo que ela não sabe o que é. Nenhum lugar está bom. Talvez seja devido a divisão que sofre entre a carreira e a família.
Eva é ressentida em relação a sua mãe por seu pai, e ela tem certeza sobre o pai e a relação que ele tinha com a mãe, o que na verdade não pode saber. O que ela sabe é o que sentiu, o que introjetou, mas que não quer dizer que foi assim para os dois.
A mãe interna que Eva tem dentro de si não é uma mãe amorosa que cuidou dela. Ela não teve este modelo com o qual se identificar.
Se por um lado um filho não pode odiar a mãe, esta também não pode odiar o filho, mas o que o filme nos mostra e o que é a realidade tão difícil de ser aceita é que o amor e o ódio são faces da mesma moeda, onde um está com certeza tem o outro, do contrário é a indiferença. E mesmo sendo mãe ou filha, há sempre a alteridade de cada um, portanto o que Eva tem certeza de ser assim, não é para Charlote, nem para o pai dela. E esta mãe que Eva odeia, e que acha culpada pelo estado de Helena, é amada por esta filha que é desprezada, ou melhor, afastada pela falta de coragem da mãe de enfrentar isto.
Mas Charlote pede perdão à Eva, que só depois consegue pedir o mesmo, lhe escrevendo uma carta. Que este momento difícil e dolorido possa então abrir novas possibilidades para todos.
Vale ler o roteiro também onde é possível acompanhar o confronto com mais vagar, mas o filme tem que ser visto, pois as expressões faciais não podem ser descritas.
Assista ao trailer:
Ingmar Bergman nasceu em 1918 em Uppsala e faleceu em 2007 em Farö, Suécia. Seus temas são a existência, a solidão, a fé, a mortalidade. Para Bergman filmar é encontrar respostas.