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terça-feira, 14 de outubro de 2014

LIVRO: A ORIGEM DO MUNDO - JORGE EDWARDS


Edwards, Jorge. Cosac Naify, 2014
158 páginas
Tradução: José Rubens Siqueira
Título original: El origen del mundo

Primeiro livro do meu projeto livros por país

País: Chile

Gustave Courbet pintou em 1866 o quadro "A origem do mundo", uma mulher com o rosto velado, de pernas abertas com sua vulva aparecendo. O quadro foi encomendado por um bei da Turquia. Pertenceu a Jacques Lacan, o psicanalista francês, e depois foi exposto no Musée D'Orsay em Paris.

A história começa quando o médico setentão Patrício Illanes e sua mulher Silvia, ambos exilados do Chile, vão à esta exposição e diante do quadro Patrício, ou Patito, como era seu apelido chileno, pensa que o mesmo parece muito com sua mulher. Na sequência dos acontecimentos temos o suicídio de Felipe Díaz, outro exilado, mas não sem antes haver um encontro entre este e Patito num café onde Felipe lhe fala de uma mulher filósofa, mexicana-japonesa, e de que acabou trocando um garrafa por uma mulher. Felipe bebia muito. Quando Silvia vê Felipe morto tem uma reação histérica que surpreende Patito e parece lhe confirmar suas suspeitas de que ambos eram amantes. A partir daí temos o relato neurótico de Patito em busca das provas desta traição.

É um retrato belo e cru do que o ciúme é capaz de fazer. Até que ponto chega a imaginação e o que passa a acreditar alguém que está submerso no ciúme, na paixão, na dúvida. Nada fara com que ele deixe de pensar que tem razão. Vai buscar as provas de forma patética, ridícula até, perguntando a todos que conheceram Felipe e pedindo que sejam generosos e lhe contem a verdade, pois somente assim poderá se curar do que tem consciência ser uma doença. Mas de nada adianta todos dizerem que isto é um total absurdo, que nunca viram ou ouviram nada, pois na mente delirante de Patito, eles estão com pena dele, ou querem poupá-lo, ou protegem, ou acham melhor mentir para preservar o casamento dele com Silvia.

Mas esta história vai muito além do ciúme, é uma história sobre a velhice, como o personagem de Memória de minhas putas tristes de Gabriel García Marquéz, que ao completar noventa anos deseja uma virgem, pois o sexo e a paixão fazem viver.

Quando Patito vê o quadro algo deve ter despertado dentro dele sem que o mesmo tivesse consciência disto. Sua vida sexual já não era como quando era jovem, e no seu entender, por ouvir tantas histórias de Felipe sobre mulheres, talvez pensasse que este devia ter uma vida sexual gloriosa, e que justamente chegava ao fim, quando escolhe a garrafa ao invés da mulher. Mas isto não descarta que antes disto teria sido amante de Silvia. E a imaginação é cruel neste momento, fazendo-o imaginar os dois juntos, o que o exasperava mais ainda.

Ao final de sua patética busca ele se volta para Silvia e lhe pergunta. Esta é de uma sensibilidade espantosa, pois acaba por compreender o que se passa. E lhe diz que sim, que foi amante de Felipe e lhe conta detalhes, o que desperta a sexualidade de Patito levando-o a ter uma relação sexual com ela que havia muito tempo não tinham.

A fantasia inconsciente, o desejo, a paixão, o sexo e o erotismo, a fantasmagoria, tudo isto está neste livro e descrito de uma maneira esplêndida. O quadro A origem do mundo também pode ser interpretado como de onde nascemos, de onde viemos, e a velhice é o fim, e não é um retorno ao paraíso, mas é o nada, o vazio, o não conhecido que assusta. Somente com a ficção ou a fantasia, ou a imaginação, se pode lidar com a morte, e a velhice é o momento onde isto vai surgir fortemente, este medo da morte e a consciência que estamos muito longe desta origem. Patito prefere a ilusão do que a morte, prefere o amor-paixão que reaviva o desejo, e o que mais é a vida do que o desejo? ele nos movimenta. Quando o desejo cessa, estamos mortos.

Felipe Díaz não suportou e preferiu morrer, Patito optou pela vida, mesmo que sofrendo, mas quem sofre está vivo. Ambos sofreram a frustração de seus ideais políticos, ambos tiveram que sair de seu país e se exilarem, e sabiam que mesmo depois de tudo ter passado, não seria mais possível voltar ao seu país, não se identificariam mais com este lugar que ficou no passado. Se esta origem não lhes permitia viver, então porque não a origem da vida? o sexo e todo seu lado erótico.

Na velhice o erótico já não é como antes, e para não cair num sexo carne, animal, a fantasia e a ficção vem para sanar isto. Não é mais o belo corpo, mas a fantasia.

Recomendo a leitura

Jorge Edwards nasceu em 1931 em Santiago, Chile. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

LIVRO: AMOR, DE NOVO - DORIS LESSING



Lessing, Doris. Companhia das Letras, 1996
Tradução: José Rubens Siqueira
362 páginas

Li este livro em 2011, mas nunca me esqueço dele por me tocar fundo. O Amor, tema de tantos livros, filmes e da vida. Talvez me seja mais inquietante ainda por eu também estar na meia-idade e sozinha.

Logo no início: Estou amando outra vez,
                       Coisa que nunca quis...

Sarah Durham tem 65 anos, fundou uma companhia de teatro com outros três amigos e dedica sua vida à companhia. Sua família, ou seja, seus filhos, não lhe dão atenção, exceto quando precisam dela, mas Sarah acredita que sabe lidar com isto, apesar de muitas vezes não conseguir se desvencilhar destas demandas, o que a leva a acolher sua sobrinha problemática, Joyce.

Há muito tempo, vinte anos, ela abdicou da vida amorosa e segue trabalhando com afinco e dedicação. Sua companhia resolve montar uma peça sobre uma mulher - Julie Vairon, que era da Martinica, uma pintora e musicista que viveu seus amores proibidos no Sul da França. É escrevendo sobre esta mulher que Sarah se verá novamente diante do amor.

A Companhia parte para a França onde serão encenadas as primeiras apresentações de Julie Varon. Sarah irá se apaixonar, primeiro por Bill, um jovem ator, mas também por Henry, o diretor do espetáculo e apesar deste ser mais maduro que Bill, ambos são mais jovens do que ela.

Lessing se detém sobre a mulher madura que de repente se vê apaixonada, com desejos sexuais, mas que não sabe o que fazer, sua angústia, sua indecisão, os medos, e a moral. Todo amor busca reviver a infância, tem suas raízes ali, nos amores objetais, os primeiros de nossas vidas, e ela irá analisar justamente as privações da infância que se refletem na vida adulta da mulher.

Ao se apaixonar nesta idade Sarah revive sua adolescência, percebe que nada muda, é a mesma loucura, a mesma intensidade, o mesmo desejo. Mas há a experiência passada que a faz temer este sentimento. De qualquer maneira o amor a faz reviver com intensidade, a sentir, a desejar. Seu amor por Bill a fará reviver uma fase mais infantil e por Henry uma fase mais madura.

Doris Lessing nasceu em 1919 em kermanshah no Curdistão Iraniano, então parte do Reino da Pérsia e faleceu em 2013 em Londres.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

LIVRO: PEÇAS EM FUGA - ANNE MICHAELS



Michaels, Anne. Companhia das Letras, 1997
Tradução: José Rubens Siqueira
222 páginas

O Romance nos fala de duas biografias, a de Jakob Beer e a de Ben. Ambos tiveram suas vidas modificadas devido à guerra.

"A experiência que um homem tem da guerra jamais termina com a guerra. O trabalho do homem, assim como a sua vida, jamais se completa..."

Até que ponto o tempo pode apagar dores indizíveis? ou ao contrário, ele as perpetua? A guerra terminou em 1945, mas por quanto tempo e espaços tudo que ela significou e provocou irá se perpetuar e continuar como se fossem ondas no espaço e tempo?

Jakob escapa dos nazistas com a ajuda de Athos, que o leva para a Grécia, após ter ficado enterrado para se esconder. Mas mesmo com todo o amor, o cuidado que Athos lhe oferece ele nunca mais se esquecerá de seus pais e principalmente de Bella, sua irmã. Por mais que Athos o distraia com histórias, conhecimentos, e lhe diga para escrever, ele não esquece. Não saber o que realmente aconteceu com  sua irmã, como ela morreu a transforma num fantasma que o persegue.

Ben acaba conhecendo Jakob, e irá se envolver na vida deste ao ir procurar seus cadernos na Grécia após sua morte. Ben é filho de pais que sobreviveram ao holocausto, mas um segredo que se revelará somente após a morte destes o fará compreender melhor a dor e o porque de tanto silêncio. Porém ele irá sofrer as consequências, pois sua mãe por medo terá um excesso de zelo com ele, e seu pai nunca se mostrará totalmente para ele, sendo uma pessoa distante e fechada.

Michaels trabalha com o relato, mas inclui a poesia para falar de coisas dolorosas, e coloca a ciência e o tempo em paralelo com a vida de uma forma brilhante, nos levando a pensar que estamos sempre sujeitos a catástrofes, ao imprevisto. A diferença é que temos a sensação de que as guerras poderiam ser evitadas, ao contrário de um temporal, um ciclone, um rio que transborda devido às chuvas e leva com ele tudo que tem pela frente ou uma avalanche de neve. E o maior imprevisto de todos, mas do qual ninguém escapa, a morte.

Jakob viveu tudo, assistiu ao massacre de seus pais, quando saiu de seu esconderijo sua irmã não estava ali. Fugiu, se escondeu, viveu o terror. Ben nasceu depois da guerra, mas seus pais passaram por ela e também viveram os horrores. E qual a diferença entre os dois? ambos carregam em si os efeitos, ambos sofrem com o que jamais termina com a guerra e que somente a poesia, a linguagem pode vir para reparar, reconstruir, as palavras, faladas ou escritas.

Também achei interessante saber um pouco sobre a Segunda Guerra na Grécia.

Anne Michaels nasceu em 1958 na cidade de Toronto no Canadá.

domingo, 29 de dezembro de 2013

LIVRO: A INFÂNCIA DE JESUS - J.M. COETZEE



COETZEE, J.M. Companhia das letras, 1ª Ed. 2013
Tradução: José Rubens Siqueira
304 páginas. 

A SOCIEDADE IDEAL, ETERNA UTOPIA.

Uma sociedade ideal, Novilla, onde as pessoas não tem mais desejos, pulsões, tudo é controlado, não há emoções, não há sexualidade, nem erotismo. Só há uma língua, o espanhol que todos devem aprender. Quando se chega ao local é preciso esquecer tudo, você não tem mais história ou passado. É um local para recomeçar tudo, e sem ter que sofrer. As pessoas são renomeadas, recebem uma moradia e um emprego. Chegam ali os recém nomeados: Simon um homem de meia idade e David um menino.

Uma sociedade perfeita, mas onde nada acontece. Tudo é previsto, não há sentimentos, paixões, sem conflitos. Lendo é que se percebe o quanto seria monótono uma vida assim, sem sabor, sem sal. As pessoas sonham com uma vida assim, onde não se sofre, onde não haja conflitos, mas isto seria deixar de viver.
Uma única língua, me lembra a tentativa com o Esperanto, mas que não funciona, pois uma língua traz em si toda uma cultura e um jeito de falar e de se expressar. Ao se colocar uma única língua se limita as trocas, e a sociedade não muda.

A alimentação é suficiente, mas de poucas opções, sem o prazer da comida, os sabores. As moradias são bem parecidas, poucos móveis, pouca roupa, tudo é regulado. Estamos diante da apatia.

É contra tudo isto que Simon e David irão se rebelar e lutar contra. Simon pensa em comidas, fica atônito diante da frieza das mulheres, não compreende que as pessoas não queiram fazer nada para melhorar ou mudar algo. Ele já não sabe o que fazer, como se comportar e aos poucos vai até se acomodando, mas não David.

E é aí que talvez vamos ter uma boa nova! Além de paralelos que surgem rapidamente com a vida de Jesus durante toda a obra. É Davi que vai questionar e não aceitar a ordem das coisas, ele quer mudanças.

Então talvez compreendamos que recomeçar tudo de novo é justamente fugir do conhecido e fazer algo diferente dos outros. É enfrentar a vida com todos seus sabores e dissabores.

Esta sociedade também me lembra muito os modelos totalitários e o livro 1984. Da maneira que o mundo se conduz hoje, sem ao menos perceber, estamos ficando cada vez mais iguais, pois consumimos exatamente as mesmas coisas, só compramos o que está em evidência ou é ofertado pelo marketing e pela mídia, nos comportamos como esperam que o façamos do contrário somos excluídos, não é de bom tom, não é politicamente correto. A cegueira vai tomando conta, e fico muito assustada a cada vez que vejo uma fila se formando na noite anterior diante de shoppings para comprar o mais novo lançamento tecnológico que será vendido no dia seguinte. A cada vez que me criticam por que meu celular é do modelo antigo, apesar de funcionar muito bem ainda, e que vou ter que trocar quando não puder mais usar pois não será mais compatível com a tecnologia atual, ou seja, sou obrigada a fazê-lo. A cada vez que entro numa livraria e nunca encontro um livro que não esteja na lista dos mais vendidos e tenho que recorrer ao sebo e as pessoas me olham de forma estranha por estar procurando este tipo de livro e não aqueles de auto ajuda ou os últimos lançamentos.

A história se passa no mundo atual, mas é como termos um novo messias que venha nos ensinar a ver as coisas de outra forma, por que por incrível que pareça, ainda precisamos de um messias, um líder, ou da mídia, só que o primeiro tenta nos fazer enxergar, enquanto que os outros tentam nos fazer viver em Novilla.



J.M. Coetzee é um escritor sul-africano. Nasceu em 1940 na Cidade do Cabo e recebeu o Nobel de Literatura em 2003.