Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo.
Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
Direção: Étienne Chatiliez - 1990 Duração: 106 min Título Original: Tatie Danielle País: França
Se por uma lado vemos muitas vezes os velhos serem desprezados e considerados dementes, sem escolha ou desejos e suas famílias querem controlá-los ou acabam colocando-os em casas de repouso, há também um outro lado onde um idoso pode manipular toda a família em prol de seu prazer perverso e de seu desejo. É o caso de Tia Danielle (Tsilla Chelton).
Uma idosa de 80 anos, viúva, cujo único prazer que lhe resta, além de comer doces, é o de praticar diariamente perversidades contra os que estão próximo ou lhe cruze o caminho. O filme inicia com ela ainda vivendo em sua casa numa cidade do interior e logo percebemos suas maldades contra a governanta, outra senhora idosa, até o dia que esta acaba morrendo e Danielle nem se comove com isto, ela já voltou o seu olhar perverso para seu sobrinho que vive em Paris.
Eles a acolhem em sua casa com todo o carinho e cuidado, mas Tatie Danielle como é chamada, não faz conta disto, seu prazer são as maldades e a manipulação das pessoas. Seu sobrinho Jean-Pierre Billard (Eric Prat) acaba percebendo, mas não se sabe porque não o diz a sua esposa Catherine (Catherine Jacob) que sofre por não conseguir agradar a perversa tia. Até mesmo quando chega o momento de saírem de férias para a Grécia ela ainda reluta em deixar a idosa com uma moça contratada para cuidar dela, mas acaba partindo e é agora que as coisas mudam, pois Sandrine é tão perversa ou mais que Tatie e a guerra está declarada e é inacreditável a que ponto se chega.
O filme é excelente para que se perceba em que armadilhas muitas vezes caímos ao tentarmos ser bonzinhos, diferente de generosos, e como somos manipulados por outro lado por atos supostamente generosos dos outros, como a Tatie que manipulava as pessoas com dinheiro, mas esperando em troca a submissão e o atendimento de seus desejos.
Adaptação do livro de Anaïs Nin - Heny & June and me
Anaïs Nin (Maria de Medeiros) é casada com Hugo (Richard E. Grant) mas sente uma imensa necessidade de vida, de algo novo, de experiências que seu marido, um banqueiro bem sucedido, não lhe proporciona. Henry Miller ( Fred Ward) vai viver na França e é apresentado à Anaïs por seu marido. No início ela não se sente atraída por ele, mas percebe que ele tem algo de especial, que ele tem alegria de viver.
Quando conhece June (Uma Thurman), esposa de June, fica fascinada pela relação dos dois, mas também por June. Aos poucos ela se apaixona por ambos, e será amante de Henry, mas também de June, e este triângulo modifica a vida dos três.
Anaïs queria viver, queria experimentar tudo, para poder escrever. Anaïs se permite viver o desejo, ela experimenta, transforma o sexo em algo tremendamente erótico, algo da pele, do cheiro, do toque, de sensações, que não sacia, que alimenta, que dá prazer e se traduz em vida.
Qual o traço que nos marca e que iremos procurar sempre ao nos apaixonarmos?
Antoine (Jean Rochefort) quando criança viu uma cabeleireira com os seios a mostra, e isto o marcou, fazendo com que adorasse ir cortar os cabelos, ia mais até do que necessário. Já adulto se apaixona por Mathilde (Anna Galiena), também cabeleireira.
O objeto perdido e o traço do amor, que permanece e aparece em toda busca amorosa. O filme irá falar da descoberta da sexualidade, do erotismo, da velhice e da morte. O que faz uma mulher quando descobre o real, quando se dá conta que o traço que carrega e que faz com que o outro se apaixone nada tem a ver com ela em si mesma? mas que é algo que ficou marcado em algum momento da infância?
Direção: Bernt Amadeus Capra - 1990 Duração: 112 min Título original: Mindwalk País: Estados Unidos Baseado no livro O ponto de Mutação de Fritjof Capra, irmão do diretor.
No filme temos o encontro no Mont Saint-Michel na França de três pessoas: um poeta Thomas (John Heard), um político Jack (Sam Waterston) e uma física Sônia ( Liv Ullmann) que irão dialogar enquanto caminham pelo local sobre as questões que são abordadas no livro de Capra.
Jack após uma derrota política vai passar uma temporada com seu amigo o poeta Thomas na França que o leva até o Mont Saint-Michel, lá eles encontram casualmente Sônia que se hospeda ali para refletir sobre seu trabalho na física quântica.
É no diálogo dos três que veremos a discussão sobre os velhos paradigmas e a necessidade urgente de mudar algo.
Mont Saint-Michel - França
Bernt Amadeus Capra nasceu em 1941 em Viena, Áustria. É irmão de Fritjof Capra.
Direção: Bernardo Bertolucci - 1990 Duração: 138 min Título Original: The sheltering sky Roteiro: Bernardo Bertolucci e Mark Peploe País: Itália Baseado no livro de Paul Bowles
O Filme já vale pelas suas imagens do deserto, e da vida
na África, das cidades. As cidades, a gente olha e é estranho, aquela construção
enorme no deserto, murros, poucas janelas. Claro, tempestades de areia. O filme
mostra uma caravana chegando, e entrando nestas cidades, é incrível o labirinto
que são, e os camelos vão juntos, por aqueles corredores estreitos, fazendo
curvas, e retornando na mesma direção.
O filme é sobre um casal de escritores Kit (Debra Winger) e Port (John Malkovich) que viajam para a
África com um amigo George (Campbell Scott). Partem de New York. Logo no início do filme eles falam do
tempo, e de que eles, o casal são viajantes e portanto não tem tempo, já o outro é um
turista, que vai retornar após duas semanas. O casal está em crise. O marido
nunca consegue ficar sozinho com a mulher, o amigo está sempre por ali. E
começam a discutir o que ele está fazendo ali, quem o levou, por que foi junto.
Ele se convidou, mas quem aceitou? Este amigo está apaixonado pela mulher e ela
gosta disto, de se sentir desejada, seduzida.
Um casamento em crise, 10 anos, rotina, acomodação,
silêncios, claro que se sentir desejado é bom. Encanta, seduz, o novo, o
diferente. Ao invés de tentar resolver o que há é mais fácil ser seduzido por
algo novo. Num dado momento o amigo lhe pergunta sobre o marido: Será que ele
sabe de nós? E ela responde: Ele sabe, mas ele não sabe que sabe.
Há coisas que não passam desapercebidas, sempre
sentimos, percebemos, intuímos, não sei o que é exatamente, mas captamos isto.
Um casal em crise que parte para tentar se reencontrar não leva um amigo junto.
O amigo já era uma parede, uma divisória entre eles. Não apenas o fato de
dormirem em quartos separados, mas a própria vida deles, como agem, os separam. Inconscientemente eles se separam através de seus atos.
O marido tem um sonho, sobre o deserto, um lençol e
morte. Ela não quer ouvir. Ela não quer por que o sonho fala demais. E ela não
quer enfrentar.
Num dado momento ele consegue se livrar do amigo,
mudando sua rota. A partir de agora estão só os dois, e o silêncio se instala. O
deserto e seu silêncio, é um vazio árido. Mas o deserto é uma imensidão. Atordoa e ali o céu é que nos protege, põe um limite, cerca o deserto. Os dois viviam
sem tempo, sem projetos e sem futuro. Viviam sem o tempo.
É quando ele contrai febre tifoide. Ela entra em
desespero. Procura a legião estrangeira, e ali fica com ele, sem muitos
recursos. Antes de morrer ele dirá: percebi que tenho vivido para te amar.
Agora ela está só, sem ninguém. Parte junto com uma caravana.
Não fala uma palavra, não pode se comunicar, um dos líderes se interessa por
ela. Faz dela uma amante, ou para ele outra mulher. Há uma cena simbólica, onde ela enterra suas roupas, peças íntimas, se enterra como a mulher que era. Chegando na cidade ele a fecha num quarto onde vai vê-la. Ela tem que se acostumar as novas roupas, comidas
diferentes, ao sol do deserto. Passa um bom tempo sem poder falar com
ninguém e sem compreender ninguém.
Agora o silêncio é outro, agora ela quer
falar e não pode. O líder viaja de novo e suas mulheres a libertam. Ela foge.Está perdida no meio da rua, com fome, quer comer,
transgride alguma regra e acaba sendo agredida, quase linchada.
Com sua ida para o hospital a Embaixada Americana a
localiza, pois o amigo havia avisado de seu desaparecimento. Vão buscá-la e no caminho a mulher que a acompanha informa que o amigo a espera no hotel. Percebe-se o tempo que se
passou pelo rosto dele, que está mais velho. Não se sabe ao certo quanto tempo
se passou, o tempo que ela ficou com os locais. Seu olhar é distante, quase uma
insanidade. Mas ela foge, não encontra o amigo, vai para o bar onde esteve com
seu marido e onde ele falou sobre o sonho. Um senhor, que na verdade é o
narrador do filme, está ali, ela lhe diz: estou perdida!
Eles não conseguiram se falar, ela não deixou, fugia,
mas estava insatisfeita. Ele também estava insatisfeito. Não conseguiram e a
aproximação só ocorreu na doença e morte. Ficaram os momentos, os poucos dos
quais conseguimos nos lembrar em uma vida e que iremos recordar para sempre, mas
que são estruturantes, dão suporte a quem está perdido, quando este consegue se
lembrar.
Um filme sobre desencontro, silêncio, e a questão do
tempo. Um casal que se deixa levar, que não sabe para onde vai, nem onde deseja
chegar. Quando o sabemos já somos atropelados pelas contingências da vida, agora
quando as contingências surgem na vida de alguém que não vê o futuro, ele
desestrutura tudo, todo aquele presente. A mudança é radical, como ocorre com
ela.
Assista ao visual do filme que é fantástico e belíssimo
Bernardo Bertolucci nasceu em 1941 em Parma, Itália.
Trilha Sonora de Richard Horowitz e Ryûichi Sakamoto
Richard Horowitz é um compositor especializado em música do Oriente Médio.
Ryuichi Sakamoto nasceu em 1952 em Nakano, Tóquio, Japão. É um músico, produtor, compositor e ator japonês.
Direção: Jane Campion - 1990 Duração: 158 min Título original: An angel at my table. País: Nova Zelândia
Um filme magnifico - 2hs e meia, baseado na autobiografia de Janet Frame,escritora da Nova Zelândia.
Uma garota ruiva, tímida, fechada (Karen Fergusson), apesar de uma família amorosa e presente. Era gordinha, seu cabelo muito volumoso e cacheado, criticada e humilhada na sala de aula, foi afastada de sua melhor e única amiga por coisas normais da idade, conversas sobre sexo. Gosta de escrever poesias.
As irmãs são unidas, e um dia em que Janet (Alexia Keogh) não quer ir junto ao rio para nadar, uma delas morre afogada, gerando nela uma culpa inexistente.
Vai para a Universidade estudar. Ela sofre de algumas crises, e então um prof. de psicologia com o qual estabeleceu uma forte transferência, elogia sua redação dizendo que ela escreve bem. Ela sonha com este elogio, mas por causa de algo que ela escreveu e de sua resposta quando ele perguntou ele a considera doente e comunica isto à direção da Universidade. Querem interná-la, e ela aceita, por que o prof, de psicologia lhe diz que é bom para ela e poderá descansar. O rosto deste professor e seu sorriso é mecânico, frio, falso, mas ela, apaixonada, acredita nele. Durante 08 anos ela irá ficar internada, foram inúmeros eletrochoques, seu diagnóstico: esquizofrenia. Querem fazer uma lobotomia, e ela é salva por que seu livro de contos foi premiado.
Ela (Kerry Fox) finalmente sai do sanatório, será sempre tímida e fechada. Busca o contato, mas não sabe como. Fala pouco e só quando lhe dão amor ela confia.
Outra irmã morre afogada.
Ela se transformará numa das mais aclamadas escritoras da Nova Zelândia. Mas antes, irá viajar, passar por vários locais, conhecer finalmente o amor de um homem. Seus pais morrem, e ela segue, sempre tímida, afastada até que um psiquiatra lhe dirá que ela não é esquizofrênica, que o diagnóstico estava totalmente errado.
Só que agora ela tem que se tratar por causa do trauma que ficou pelo o que teve que passar. Trata-se com a análise, e seu analista aconselha-a a escrever sobre tudo isto. É o que faz.
Assista ao trailer em inglês
Janet Frame
Jane Campion nasceu em 1954 em Wellington, Nova Zelândia.