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sábado, 11 de outubro de 2014

FILME: INEVITÁVEL - 2013


Direção: Jorge Algora - 2013 
Duração: 95 min 
Título original: Inevitable 

Baseado numa peça de teatro de Mario Diament

Nas ruas de Santiago de Compostela uma mulher caminha com lágrimas nos olhos. Na mesma rua caminha um homem e que quando a vê algo nele se anuncia. Ela também, mas ao invés dele lhe oferecer o lenço e ela olhar para ele, nada disto acontece e cada um segue seu caminho, mas aquele momento ficará para sempre na vida dos dois.

Há coisas na vida que são inevitáveis, como o amor, a morte, as crises pelas quais passamos, os encontros e desencontros, os acasos que nunca são por acaso fazendo parecer que o destino trama seus fios, e mesmo que leve anos esses fios se cruzam novamente. E há coisas que sempre retornam, como o verdadeiro amor.

Fábian (Darío Grandinetti) é um executivo de um banco casado com Mariela (Carolina Peleritti) com quem tem uma filha. Logo no início vemos um mundo capitalista onde o presidente do banco diz que ali eles são como um galinheiro, que os que estão mais alto no poleiro sujam os que estão embaixo. Um dos executivos é chamado após a reunião à sala do presidente, ele e Fábian se conhecem há 20 anos, mas nunca foram amigos, antes de ir ele pede para falar com Fábian que lhe diz que depois falariam e sai da sala, neste momento ele sofre um ataque do coração e morre ali mesmo diante de todos.

Fábian é o escolhido para falar no enterro representando o banco, depois ele está sentando num banco no parque e chega um senhor cego (Federico Luppi) que ele reconhece como um escritor famoso e começam a conversar. A partir destes fatos Fábian começa a questionar sua vida, se é feliz, se é o que sonhou ser. Sua vida em casa é fria, todos são distantes, reúnem-se à mesa, mas mal falam uns com os outros e estão sempre apressados.

No consultório Mariela é confrontada por uma paciente (Mabel Rivera) o que a acorda para sua vida também. Então ela propõe ao marido fazerem uma viagem juntos para a Europa.

Fábian não irá, pois ele acaba de conhecer Alícia (Antonella Costa) uma escultora por quem irá se apaixonar perdidamente a ponto de se tornar obcessivo. Já Alícia em momento algum se apaixonou por ele, mas em troca do cheque pelo quadro diz que lhe deu sexo, o que pode ter um preço alto a pagar.

O final é inesperado, mas nada que fuja ao humano quando temos emoções e da loucura que muitas vezes a vida produz em nós. Eu fico me perguntando, independentemente do final, se um momento não pode valer muito mais do que uma vida inteira que é vivida mecanicamente e sob controle, como aquele momento que vemos logo no início do filme. Por outro lado, podemos ficar presos a estes momentos e impossibilitados de seguir em frente e viver intensamente outras coisas, ou será porque nossa vida não é intensa que ficamos presos?



Jorge Algora nasceu em 1963 em Madrid, Espanha

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

FILME: MAR ADENTRO - 2005


Direção: Alejandro Amenábar - 2005
Duração: 125 min

Baseado em fatos reais, na vida de Ramón Sampedro

Ramón (Javier Bardem) era um jovem cheio de vida que trabalhava como mecânico em navios e assim andava pelo mundo todo até o dia em que ao pular de uma pedra para o mar bate com a cabeça na areia por não haver calculado o recuo do mar o que lhe causa uma lesão no pescoço tornando-o tetraplégico.



O filme inicia quando ele já está assim há mais de 26 anos e está lutando na  justiça espanhola para conseguir o direito ao que chama de uma morte digna, ou seja, a eutanásia ou suicídio assistido, uma vez que não pode se matar ele mesmo, e considera sua vida indigna e sem felicidade.

No começo ele era atendido por sua mãe, mas após a morte dela é sua cunhada Manuela (Mabel Rivera) quem assume seus cuidados, e Ramón sente-se muito mal dependendo dos outros, e considera seu corpo como uma prisão.



Gené (Clara Segura) faz parte de uma associação que luta pela liberdade das pessoas e ajuda Ramón, e possibilita o encontro dele com Júlia (Bélen Rueda) uma advogada que sofre de uma doença degenerativa e que se identifica com ele se dispondo a ajudá-lo e levar o caso aos tribunais. Ao mesmo tempo ele conhece Rosa (Lola Dueñas) que após vê-lo na TV o procura e acaba se apaixonando por ele, pois é o único homem que foi bom para ela.

Júlia o ajudará a publicar seu livro - Cartas do Inferno - e fará um trato com ele que ao lhe trazer o primeiro exemplar ambos se matarão, mas isto não ocorre, pois o marido de Julia a reterá perto dele. Então será Rosa quem ajudará Ramón. Ele gravará um vídeo onde isenta todos seus amigos que o ajudaram e se suicida.

Ramón não aceitou sua condição, mas era um homem vibrante, que sabia fazer uso de sua imaginação de uma forma que muitos de nós jamais conseguiria. Dono de um humor que muitas vezes era negro, mas ele sabia ouvir e movimentava a vida ao seu redor. Um padre (Josep Maria Pou) que também é tetraplégico o procura e tenta convencê-lo a viver, mas este não é o discurso que teria acesso à Ramón.



Quando penso no filme Os Intocáveis que também retrata um fato real há uma imensa diferença de como lidar com a mesma situação entre os dois casos, mas cada um tem sua história e sua capacidade de sofrer os reveses da vida. Ramón se recusava a usar a cadeira de rodas o que obviamente limitou sua vida à cama. Mas ele desenvolveu um mecanismo que chamava de seu computador através do qual conseguia escrever usando a boca.

Não é fácil, 26 anos sem poder se mover, dependendo de outros para todas as suas necessidades. Os sentimentos que se geram diante desta situação são difíceis, mas cabe a cada um que passa por esta situação aprender a lidar com isto ou preferir a morte como no caso de Ramón.

Na Espanha não se considera o suicídio um crime, mas a eutanásia sim. Considero a eutanásia uma forma de ajudar as pessoas que estão com doenças terminais, sofrendo, com dores, e que irão morrer de qualquer maneira só que um pouco mais adiante. A pessoa tem o direito ao suicídio, pode escolher se deseja ou não viver, como Ramón diz: viver é um direito, não é uma obrigação.

Não estou levando em conta aqui nenhum aspecto religioso ou espiritual que condenaria o suicídio ou a eutanásia, mas lembro que prolongar uma vida com aparelhos também é ir contra os desígnios de Deus, e não é a vontade de Deus que se construa estas máquinas, isto é do ser humano com sua inteligência capaz de criar isto.

Julia no final do filme está em uma cadeira de rodas, perdeu os movimentos das pernas e já não se lembra de quase nada, está caminhando para um estado vegetativo, e isto é vida? Alguns dirão que são as provas pelas quais temos que passar e quando acreditamos nisto, sim, é necessário passar, mas há aqueles que não acreditam, e respeito as escolhas de cada um.

Há aqueles que enfrentam as adversidades com mais facilidade do que outros, há aqueles que aceitam o que lhes acontece e tratam de dar outro rumo a sua vida dentro destas condições limitadas por um lado, mas que podem abrir outros campos se a pessoa se dispuser a descobri-las.

Muitos se suicidam de forma inconsciente, quando aceleram um carro a alta velocidade e sofrem um acidente, quando arriscam a vida para vencer desafios que se impõem, ou até mesmo quando atravessam uma rua e não olham e são atropelados, mas nada disto é considerado suicídio, pois não foi consciente. Ramón está lúcido, é inteligente, e deseja morrer. Na minha opinião ele tem este direito. Para ele é a única saída que ele encontrou que é digna, para outros pode ser outra.

Alejandro Amenábar nasceu em 1972 em Santiago, no Chile. 

Veja um vídeo com Ramón Sampedro