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sexta-feira, 27 de maio de 2016

LIVRO: A MÃE ETERNA morrer é um direito - BETTY MILAN


Milan, Betty. 1ªed.- Record, 2016
141 paginas


Após o livro "Carta ao filho" desta vez Milan nos fala da mãe. É um relato fictício, mas que é sincero sobre os sentimentos de uma filha diante do envelhecimento e da morte da mãe. 

Fui tocada pelo livro pois passei por isto, em dado momento tive que ser a cuidadora da que cuidou de mim, daquela que me deu a vida e me escutou, instruiu, consolou. Como é difícil aceitar que esta mãe, com a qual contamos sempre, deixa este lugar, já não escuta direito, não consegue mais conversar com você, envelhece e pode morrer. Por outro lado temos consciência do que é envelhecer, perder sua liberdade e autonomia, pelo menos a física. Um corpo que já não permite que se faça o que deseja, até mesmo as menores coisas, como ir a um cinema, visitar um filho, chegando ao ponto de não poder tomar um banho sozinha. 

A filha que cuida da mãe sente raiva, medo, se sente sendo subjugada nisto tudo, obrigações que não deseja, pesos em sua vida, mas não consegue deixar de fazer, de cuidar, pelo imenso amor que sente. E não há como falar sobre isto. Dizer que se sente raiva? não pode!! Milan é corajosa ao falar com honestidade, franqueza sobre estes sentimentos.

O filho no livro que não aceita, não ajuda e não participa. No fundo sente o mesmo mas reage de outra forma, não consegue aceitar o envelhecimento da mãe, a perda da mãe. Filhos desejam que a mãe seja eterna, a mesma, e se não pode ser assim no real, o imaginário se ocupa disto. 

Quantas vezes me senti assim. Não aceitar, não querer que minha mãe envelhecesse, ficar com raiva quando ela ficava mal, doente. Não era por ter que socorrer, era por não querer que ela envelhecesse e morresse. 

A imagem da mãe que cuidou de nós é a que fica. É esta que desejamos e mantemos. Nada mais cruel para um filho ou filha do que ter que se tornar mãe da mãe. Milan tem razão, é o momento em que perdemos a mãe, em que ela deixa de ser mãe, se torna filha. E como é difícil enfrentar isto. E penso que para a mãe também, tanto que ela vai reagir, com atos que chamamos de teimosia, rabugice, estar fora da casinha. Ela também deseja preservar sua independência e autonomia. Vai fazer coisas que não pode, vai comer coisas que não pode. Com diz Milan, "a velhice castra antes de a morte ceifar e por isso é tão aterradora". 

Segundo Freud há uma fusão entre mãe e bebê, que carregamos pela vida, nunca nos separamos totalmente. A morte da mãe nos leva um pedaço, morremos junto. Uma parte de nós se foi. E ver a mãe morta é ver a si mesmo morta, e saber que um dia também vamos morrer. 

Betty Milan nasceu em 1944 em São Paulo. É psicanalista e escritora.

terça-feira, 24 de maio de 2016

LIVRO: HEREGES - LEONARDO PADURA


Padura, Leonardo. 1ªed. Boitempo, 2015
503 páginas
Tradução: Ari Roitman, Paulina Wacht, com a colaboração de Bernardo Pericás Neto
Título Original: Herejes
País de origem: Cuba

Um livro que não se larga! Dividido em quatro capítulos nos conta a história da Família kaminsky. Trata-se de uma ficção, porém baseado em extensa pesquisa histórica. 

A primeira parte trata da chegada do navio Saint Louis em 1939 com judeus que fugiam da segunda guerra e do nazismo à Cuba e que foi enviado de volta com todos seus passageiros, que após outras tentativas de desembarque em outros locais retornou à Europa sendo que o destino de seus passageiros acabou sendo o campo de concentração e a morte. Neste navio estava a família Kaminsky, pai, mãe e filha, que vinham para ficar com o irmão do pai e o filho, Daniel, que já estava em Cuba. Havia uma esperança de desembarque uma vez que, possuíam um quadro legítimo de Rembrandt que poderia ser negociado. Infelizmente isto não ocorreu. 

Daniel fica com seu tio, casa-se, e irá para os Estados Unidos fugindo de algo que seu filho quer descobrir o que é. Para isto anos depois Elias retorna à Cuba e procura Conde um ex-policial, para ajudá-lo a desvendar o mistério. 

Na segunda parte temos a história do quadro. Amsterdã na época em que os judeus acreditam que o Messias chegou, Baruch Spinoza é excomungado, um jovem judeu se torna aprendiz junto com Rembrandt, coisa inédita e perigosa, uma vez que os judeus proíbem a reprodução de imagens. 

Na terceira parte temos o tempo atual, onde se desvela o restante do mistério sobre o quadro. 

Recomendo!!

Leonardo Padura nasceu em 1955 em Havana, Cuba

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

LIVRO: ÍRISZ: AS ORQUÍDEAS - NOEMI JAFFE



Jaffe, Noemi. 1ª ed. Companhia das Letras, 2015
222 páginas

Um belíssimo livro sobre traumas, sobre falta, sobre como construir uma história para dar conta de uma incompreensão sobre sua origem. 

Írisz foge da Hungria após o fracasso do levante contra a União Soviética, ela vem para trabalhar no Jardim Botânico em São Paulo onde conhece Martin. Através de seus relatórios para ele aos poucos ela nos conta sua história. O desconhecimento do paradeiro de seu pai que sua mãe queria acima de tudo esquecer, sua desilusão com o levante em seu país, sobre Imre, o homem que ela ama e que não quis deixar o país em função de um ideal e um sonho. Aos poucos ela vai questionando tudo, lidando com sua culpa por ter deixado a mãe doente e Imre e vindo para o Brasil, culpa esta que ela sustenta, sem se deixar abater por ela. 

Írisz constrói uma história, uma ficção para compreender seu pai, e também sua mãe. Ela aprende a ler nos silêncios, nos olhares, nos gestos, o que sua mãe obstinadamente esconde dela sobre seu pai. É a busca de sua origem, de sua filiação, que ela elabora, onde podemos ver acontecendo numa vida o que a psicanálise tenta construir numa análise. 

Por outro lado temos Martin, que abriu mão de tudo em prol do comunismo. Nunca se casou, não teve filhos, viveu em função deste ideal e que agora também desmorona, principalmente com as notícias que chegam do massacre em Budapeste. A idealização que se desmonta, a desidentificação a algo, tudo aparece nos escritos de Martin, cartas que ele escreve para Írisz. 

Há uma terceira voz, que seria como o coro grego, que surge no meio da leitura nos dando outras informações. E é belo de acompanhar as metáforas de que Írisz se utiliza com as orquídeas para se explicar, se compreender. 

Um livro profundo, bonito, muito bem escrito. Recomendo!!

Noemi Jaffe nasceu em 1962 em São Paulo. 

LIVRO: O MAPA E O TERRITÓRIO - MICHEL HOUELLEBECQ


Houellebecq, Michel. Record, 2012
399 páginas
Tradução: André Telles
Título Original: La carte et le territoire

Este é o segundo livro que leio de Houellebecq e noto que há pontos que se repetem em relação ao outro - Submissão - já postado aqui no Blog.

Primeiramente o protagonista, um homem solteiro, que mora sozinho e que tem  dificuldades de se relacionar com o outro. O distanciamento dos pais, ser inapto para o amor, a sexualidade, e um mundo moderno com suas supostas vantagens que acabam sempre não o sendo, o solitário, o isolamento. Outra característica é que o autor costuma colocar como personagens pessoas públicas e que ainda vivem, mas em forma de ficção, nem sempre correspondendo à realidade, e neste livro ele coloca a si próprio, o escritor Michel Houellebecq é um dos personagens. 

Neste livro ao invés de François, um professor, temos Jean Martin, um artista plástico, que mora sozinho em Paris e tem seu pai já com certa idade que ainda mora na antiga casa da família. Após se aposentar, era um grande arquiteto, resolveu ir morar numa casa de idosos e finalmente optou pelo suicídio assistido que é permitido na Suíça. 

Jean tem vários momentos em sua arte, a fotografia, a pintura à óleo, mas o que nunca imaginou é que um dia seria famoso e que suas telas valeriam fortunas. Tem uma relação amorosa com Olga, uma russa que está na França e que depois retorna ao seu país, ela o ama, porém ele em momento algum tem um gesto para retê-la ou pensar em ir com ela. Simplesmente deixa acabar. 

É um retrato da modernidade, do vazio, da melancolia, onde as relações perdem seu verdadeiro sentido e são apenas vividas no momento sem criar laços. O mundo da arte, as frivolidades, o dinheiro. Um dos principais pontos de Houellebecq em seus livros é o mercado de consumo e neste livro vamos encontrar várias passagens onde diante de algo vital para a existência se dilui em pensamentos fúteis, em análises sem profundidade. 

O que marca no livro é perceber que Jean se torna um artista famoso e vale muito dinheiro, porém, será arte mesmo o que ele faz? ou será o merchandising que o tornou famoso? E ele ao invés de se pavonear com isto e viver a fama se isola cada vez mais. Não posso deixar de pensar que quando um artista dá seu suor e cria uma obra ele não pode ficar indiferente, há algo de produzido neste boom pelas obras de Jean e que não foi ele quem fez isto. 

Apesar de ser este o livro que ganhou o Prêmio Goncourt, eu prefiro Submissão, que veio depois, onde a realidade do mundo moderno se apresenta com questões muito atuais, sendo que este O Mapa e o território, conta uma história que nos mostra o retrospectivo, a diferença que podemos imaginar entre o que foi e o que é. Entre o antes do mundo do consumo e o de hoje. 

Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

LIVRO: GRANDE SERTÃO: VEREDAS - JOÃO GUIMARÃES ROSA



Rosa, João Guimarães. 20ª ed. Nova Fronteira, 1986
568 páginas

O que falar sobre esta grande obra prima que já não foi dito? Como exaltá-la mais? Prefiro falar da minha experiência de leitura deste grande livro, deste clássico da literatura brasileira.

Normalmente considerada uma leitura difícil, com muitos regionalismos, que para quem não é da terra, das Minas Gerais, do sertão, se torna muitas vezes um desafio. Sabendo disto optei por me lançar na leitura de corpo e alma, e acabei vivendo uma experiência nova para mim. Eu escutei o livro! Li o livro com os ouvidos, se é que isto é possível.

Talvez por ter passado por uma análise psicanalítica isto se tornou possível, não sei, mas o fato é que fiz isto de alguma maneira. Ouvi Riobaldo, atravessei com ele este Grande Sertão e suas veredas. 

Riobaldo elege um interlocutor, alguém a quem falar, para rememorar sua vida recontando sua história de jagunço nos sertões, e com isto reescrevê-la, dar-lhe outro significado, reconstruir sua história, fazendo a travessia de seus fantasmas. E qual o maior deles? o que rege sua vida? O pai. Filho bastardo, busca encontrar a lei, o pai que se reflete em Zé Bebelo, Joca Ramiro, o interlocutor, Medeiro Vaz, seu padrinho, no diabo. Busca de uma identificação capaz de lhe dizer quem é, busca inútil, mas que todos fazemos. 

Interessante o amor dele por Diadorim, que é uma mulher, mas ninguém o sabe. Melhor retrato de que sabemos e não queremos saber? O Olhar, outro traço que rege sua vida, onde ele reencontra o olhar de sua mãe. 

Li o livro com o ouvido, ouvindo este relato, esta construção de uma vida, seus medos, seus amores, suas dúvidas, o ódio, a alegria, ouvindo: Viver é perigoso! Travessia. 

João Guimarães Rosa nasceu em 1908 em Cordisburgo, Minas Gerais e faleceu em 1967 no Rio de Janeiro.

terça-feira, 28 de julho de 2015

LIVRO: QUE FIM LEVOU JULIANA KLEIN? - MARCOS PERES



Peres, Marcos. 1ªed. Record, 2015
347 páginas

Um livro que traz como cenário Curitiba tanto a de Dalton Trevisan como a do Batel

Um delegado de polícia de Maringá é chamado para ajudar num caso em Curitiba. Irineu chega no aeroporto Afonso Pena e se dirige para o casarão do Batel para encontrar Gabriela Klein, a filha de Juliana que está traumatizada com o último episódio sangrento da família. Aos poucos Irineu vai nos contando esta história que começa na Alemanha, a briga filosófica entre os Klein defensores da filosofia de Nietzsche e os Koch, que agora são professores da Universidade Federal do Paraná e da Puc.

O desaparecimento trágico de Juliana Klein foi precedido por outros assassinatos como o de Teresa Koch, professora da Puc, assassinada no teatro Guaíra pelo marido de Juliana após uma conferência onde ela defende que o destino não existe.

Irineu foi o responsável pela prisão de Salvador, o marido de Juliana, e se apaixonou por ela lhe prometendo proteger sua filha Gabriela. Agora diante de mais um assassinato,desta vez de Mirna Klein, a irmã de Juliana, ele volta a se envolver nesta eterna briga de famílias.

Ao longo das páginas somos informados do passado e acompanhamos as novas ocorrências trágicas que envolvem estas família e de sua briga dita filosófica. Juliana sempre dizia que tudo se repete, tudo retorna, e explicava para Irineu o pensamento do Eterno Retorno de Nietzsche, que tudo se repetiria.

Um romance policial filosófico onde a resposta para o mistério se encontra na filosofia de Nietzsche. Não quero me adiantar mais para não tirar o prazer de quem for ler o livro, mas me permito ter um enfoque por outro viés, ou seja, pela psicanálise. Aliás, sempre encontro um paralelo muito grande entre Nietzsche e Freud.

O Eterno Retorno de Nietzsche e a herança psíquica são muito próximos, e é o que veremos no decorrer do livro. A repetição de tudo, com a diferença que  podemos romper o círculo da repetição ou o tempo cíclico de Nietzsche, desde que conheçamos o que move o inconsciente e que nos faz sempre repetir e que acabamos passando aos nossos filhos. E no livro percebemos isto, o quanto tudo se repete e volta, e retorna, só que a ruptura não ocorre.

O autor também se utiliza da Divina Comédia de Dante, com a inscrição da porta do inferno onde contém uma aviso sobre deixar toda esperança do lado de fora, e na porta do quarto de Gabriela tem uma placa que diz que ali tem esperança. Associando a filosofia de Nietzsche o que realmente isto quer dizer é que a esperança é algo que se projeta, algo que se espera, e com o eterno retorno ela deixa de existir.A questão é um tanto religiosa, ou seja, não há vida após a morte, não há esperança que algo mude, exceto no aqui e agora. O inferno é o aqui, o presente, o único lugar onde se pode fazer algo de bom que então irá se repetir.

Ao final do livro teremos três versões para o que aconteceu, mas eu não deixo de fazer uma pergunta em relação à uma das pessoas assassinadas e que é: como o corpo foi retirado da mansão? O que deixa em aberto mais uma possibilidade que foi levantada pelo delegado Irineu já no final da história.

Marcos Peres nasceu em Maringá - PR. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

LIVRO: ROSA CANDIDA - AUDUR AVA ÓLAFSDÓTTIR



Ólafsdóttir, Audur Ava. 1ª ed. Objetiva, 2015
299 páginas
Tradução: André Telles
Título Original: Afleggjarinn 

País: Islândia. 

Penso que criei uma expectativa sobre o livro que acabou não condizendo com que li. Não é fácil então falar do livro quando isto acontece e receio ser injusta. 

Esperava algo mais profundo de um romance de iniciação de um jovem, e também mais detalhes sobre o jardim e as rosas. 

O jovem Lobbi mora com seu pai na Islândia e cuida das plantas em uma estufa que era de sua mãe que faleceu em um acidente de carro. Ele tem um irmão gêmeo que é autista e vive num Centro Especial, vindo para casa nos fins de semana. Em um encontro de uma única vez com Anna ela engravida. Diante de tudo isto e suas interrogações sobre o que fazer com sua vida ele aceita ir cuidar de um famoso porém, abandonado, jardim de rosas que fica num mosteiro e com isto ter tempo para si mesmo. 

Lá ele conhece Frei Tomáz, um cinéfilo que acaba lhe indicando vários filmes para ver diante das questões que lhe surgem, porém não teremos acesso a análise que ele faz destes filmes, o que ele aprende com eles, o que é uma pena. O jardim também logo fica de lado uma vez que Anna o procura e pede que cuide da filha para ela poder estudar para seu mestrado. 

Ao final realmente ocorre uma modificação em Lobbi que cresce diante da vida e das circunstâncias, mas seria mais interessante se durante a leitura pudéssemos ter acesso as suas reflexões, o que acaba empobrecendo a leitura. Há muitas informações sobre suas compras, e tentativas de cozinhar, mas poucas sobre o que realmente ele sente. Percebemos seus medos e receios, suas dúvidas, seus desejos, mas fica o vazio do crescimento que temos que tentar preencher para acompanhá-lo. O livro acaba focando mais o externo que o interno, como se o que ocorre fora é o que pudesse mudar o interior, e não o contrário, apesar de que não posso discordar que experiências e vivências nos amadurecem, porém é preciso sentir e refletir. 

Como eu disse no começo, talvez minha expectativa tenha sido alta, mas o livro não deixa de ser interessante e gostoso de ler. 

Audur Ava Ólafsdóttir nasceu em 1958 em Reykjavík, Islândia

LIVRO: O FRÁGIL TOQUE DOS MUTILADOS - ALEX SENS



Sens, Alex. 1ª ed. Autêntica Editora,2015
415 páginas

Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012

É gratificante encontrar um escritor brasileiro que surpreende de várias maneiras. Primeiramente um jovem que eu diria que tem uma alma velha, tem profundidade e toca em assuntos dolorosos com sabedoria, e em segundo por sairmos da literatura regionalista que foca o Brasil entrando num mundo contemporâneo que pode estar localizado em qualquer lugar do mundo. O cenário onde se passa a história, uma pequena cidade à beira de uma praia, o mar que está constantemente presente ao longo da história e que também tem seu papel, não sabemos onde fica e somente no final somos informados que se trata do Brasil. 

Três irmãos, Magnólia, Orlando e Elisa se encontram após muitos anos para passar as férias na casa do irmão que fica de frente para o mar. Será um momento de reencontro mas que traz toda a carga de culpas, mágoas, desencontros que toda família tem e que quase sempre é varrido para baixo do tapete. Incrível a dificuldade de falar, de expor os sentimentos ao outro, mesmo sendo seu irmão ou irmã, o que acaba se traduzindo em atos ou palavras, provocações, críticas que ao invés de aliviar só pioram a situação. 

Orlando perdeu sua esposa Sara que morreu afogada ali em frente à casa, tem dois filhos - Muriel e Tomás. Após a morte da esposa passou a beber, deixou seu trabalho na rádio e tenta pintar quadros. Ele é o irmão do meio. Magnólia é a mais velha, está casada com Herbert, um apaixonado por Virginia Woolf e que tenta escrever um ensaio sobre ela e quer aproveitar as férias para isto, mas sua esposa tem um transtorno psíquico denominado Borderline, ela tem altos e baixos, se automutila se cortando, ou segurando durante um tempo uma pedra de gelo em sua mão, durante as férias abandona os remédios e passa a tomar muito vinho, aliás, os vinhos fazem parte de sua profissão. Elisa optou por uma vida zen, quer manter uma energia positiva a sua volta para não sofrer as interferências disto em seu equilíbrio, diz que todos temos escolhas, o que irrita e muito Magnólia. 

O livro começa com uma cena onde algo grave ocorreu no último dia das férias para depois entrar na história deste mês e do encontro dos irmãos. Cena esta que só iremos compreender ao final do livro, o que também nos mantém interessados e curiosos, como em um romance policial. Acompanhamos então todo este mês, dia a dia. Magnólia não se importa com o outro, quer atender a seus desejos e é tremendamente crítica e provocadora com tudo que não condiz com o que ela pensa, mas tem pavor de ser abandonada. Orlando vive colocando panos quentes em tudo, sente muita culpa e escapa pela bebida, já Elisa apesar de toda sua aparência zen também tem questões sérias. 

Gostei muito do livro, mesmo que ele não se aprofunde muito nas causas destes problemas dos três irmãos, como sua infância, dando apenas pinceladas, é extremamente válido no sentido de ver como agem e repetem em sua vida adulta questões que nunca foram resolvidas e das quais se foge ao invés de enfrentar, o que aliás, infelizmente, ocorre na maioria das famílias, até porque somos todos esfacelados, ou mutilados e nosso toque ou tentativa de tocar o outro é frágil. 

Alex Sens nasceu em 1988 em Florianópolis SC e se radicou em Minas Gerais 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

LIVRO: TENHO ALGO A TE DIZER - HANIF KUREISHI



Kureishi, Hanif. Companhia das Letras, 2009
501 páginas
Tradução: Celso Nogueira
Título Original: Something to tell you

Jamal Khan é quem narra a história. Ele é um psicanalista londrino, filho de um paquistanês e de uma inglesa e tem uma irmã Mirian. Está divorciado e tem um filho. 

O livro aborda o mundo atual, a mistura cultural, a depressão, o desejo, o medo de terroristas, um filho na adolescência, a separação, a solidão, os desajustes. Transita em todos os níveis sociais e percebemos que em todos eles a situação humana se repete, mesmo que o cenário seja outro. 

Lembrou-me um pouco o relato de Theodore Dalrymple sobre a periferia de Londres, mas vai além. Jamal carrega uma imensa culpa e um amor frustrado na adolescência. Precisou fazer análise e depois ele mesmo vira um psicanalista. Mas o livro não foca apenas a psicanálise, vai muito além narrando a família atual e a vida de Jamal longe de seus pacientes, de seu amigo Henry, um artista frustrado que se apaixona pela irmã de Jamal, que é depressiva, faz uso de drogas, e abusa do sexo. 

Uma visão cinza do mundo ocidental e todo seu vazio existencial e das consequências disto. A tentativa de preencher este vazio e driblar suas dores através de drogas ou sexo. O submundo aparece, mas não apenas na periferia, também nas mansões luxuosas. 

O livro preferido de Jamal é o Mal Estar da Civilização de Freud, não à toa, pois o livro todo é como revisitar este texto escrito há tantos anos, mas totalmente atual. 

Hanif Kureishi nasceu em 1954 em Bromley, Reino Unido

sexta-feira, 19 de junho de 2015

LIVRO: A HORA DA HISTÓRIA - THRITY UMRIGAR




Umrigar, Thrity. 1ª ed. Globo Livros, 2015
333 páginas
Tradução: Amanda Orlando
Título Original: The Story Hour

Trata-se da história do encontro entre Maggie, uma psicanalista e Lakshmi, uma jovem indiana que tentou o suicídio. Para liberar Lakshmi do hospital, Maggie convence o marido desta a permitir que ela faça análise.

É deste encontro entre duas pessoas tão diferentes, mas ao mesmo tempo parecidas que se tece a Hora da História. Sobre as dificuldades de ser um estrangeiro, um imigrante ou de outra cultura num país. Maggie é negra e casada com um indiano, mas tem uma boa situação financeira. Lakshmi veio para os Estados Unidos por causa do marido, mas é sozinha, não tem amigos, e sente falta da família e de seus costumes. 

Maggie por sua vez, apesar de ser casada com um homem que a ama, gentil, atencioso, também sente falta de algo e acaba se envolvendo com Peter, um fotógrafo free lancer que vive viajando pelo mundo e jamais ficaria ao lado dela para sempre, e mesmo assim Maggie arrisca seu casamento. 

Uma história que aborda de maneira leve o conflito dos que estão em outro país e se sentem excluídos, não aceitos, e sentem falta de reconhecimento. Mas também sobre os conflitos das relações humanas e dos casamentos. 

Thrity Umrigar nasceu em Bombaim, Índia 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

LIVRO: A TERAPEUTA - Um romance sobre a ansiedade - GASPAR HERNÁNDEZ


Hernández, Gaspar. 1ª ed.Casa da Palavra, 2014
208 páginas
Tradução: Marcelo Barbão
Título Original: La terapeuta


O livro é uma ficção sobre a ansiedade, principalmente a que se desencadeia após um stress pós-traumático. Uma forma mais leve e compreensível de abordar uma questão importante e que atualmente vem acometendo a muitos. Através da  história de Héctor, um ator de teatro, que assistiu a um assassinato e que procura a ajuda de uma psicóloga, Eugênia, vamos vendo o desenrolar da ansiedade, seus efeitos, como atua, o que causa. O trauma na verdade é apenas o gatilho de algo mais profundo, ou seja, a pessoa já tem questões anteriores, e quando ocorre algo mais grave, que causa um choque, a ansiedade dispara e aparece com todos seus sintomas. 

A história também fala da transferência e contratransferência de uma relação terapêutica, mas é algo bem superficial, não se aprofunda nisto e nem demonstra como isto faz parte da terapia e deve ser trabalhado, mas não é este o foco da história, mas sim, através de uma ficção trazer informações sobre a ansiedade, e para um início  cumpre seu papel de uma forma mais leve do que ler um livro científico, tornando assim mais acessível o tema. Mas não se trata de um livro que vai a fundo no assunto que é muito mais sério e duradouro do que nos mostra a história. 

Além disto é escrito de uma forma que aguça a curiosidade. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

LIVRO - ARROZ DE PALMA - FRANCISCO AZEVEDO



Azevedo, Francisco. 12ª ed. Record, 2013
362 páginas

Família é prato difícil de preparar!

E como, e todos nós temos que prepará-lo. Um belo livro sobre a família, com tudo que ela contém, amores, apoios, desavenças, ciúmes, inveja, arrogância, humildade, acordos, desacordos, e muito mais. 

Tudo começa em Portugal no ano de 1908 numa aldeia chamada Viana do Castelo. Os pais de Antonio, José Custódio e Maria Romana, se casam e ao sair da igreja recebem a tradicional chuva de arroz. Palma, irmã de Antonio ao ver todo aquele arroz no chão resolve recolhê-lo e o oferece como presente aos noivos com os seguintes dizeres:

" Este arroz - plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido na pedra - é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha benção. Palma "

José Custódio, orgulhoso, se sente ofendido, mas Maria Romana vê nisto um belo gesto de amor e guarda o arroz, arroz este que permeará a vida desta família por muitos anos, até o aniversário de 88 anos de Antonio, ou melhor, dois infinitos

Vamos acompanhar toda a trajetória desta família. A vinda para o Brasil, o nascimento dos filhos, a partida deles para outras cidades, os casamentos, o nascimento dos netos. Mas é Antonio quem  nos conta a história, é do ponto de vista dele que acompanhamos tudo, e também a história do arroz. 

Um belíssimo livro sobre família, sem ser piegas, sem ser romântico, sem ser só desavenças, mas tendo tudo isto, porque família é assim, família é um prato difícil de preparar!

Francisco Azevedo nasceu em 1951 no Rio de Janeiro 

LIVRO: O DISCÍPULO DA MADRUGADA - PE. FÁBIO DE MELO



Pe. Fábio de Melo. Editora Planeta, 2013
184 páginas

O Pe. Fábio de Melo escreve esta ficção em forma de romance para dar conta de expressar o que compreendeu sobre o Velho Testamento e a vinda de Jesus. 

O meu interesse pelo livro não é religioso, porém ele tem uma mensagem muito interessante para questões de posicionamento perante a vida e principalmente sobre a questão do trair-se a si mesmo, quando somos subjugados pela sociedade e acabamos não fazendo aquilo que realmente gostaríamos de fazer. O percurso do discípulo da madrugada é justamente se libertar deste social que impera em sua vida, sem precisar renegar suas origens judias e nem ao texto sagrado, mas retirando dele uma nova visão e interpretação. 

E este é o ensinamento que o livro traz, conseguir extrair uma nova visão de sua vida e valores, sem se renegar, mas também sem se trair. Ele também nos fala do medo, das projeções que fazemos, do pavor que temos daquilo que está em nós, mas que não conseguimos aceitar. 

Através de uma história, podemos aprender um pouco mais sobre si mesmo. 


Pe. Fábio de Melo nasceu em 1971 em Formiga, Minas Gerais

quarta-feira, 6 de maio de 2015

LIVRO: A VIAGEM VERTICAL - ENRIQUE VILA-MATAS


Vila-Matas, Enrique.Cosac Naify, 2014
252 páginas
Tradução: Laura Janina Hosiasson
Título Original: El viaje vertical

País: Espanha 

Mayol vive em Barcelona e está acomodado em sua vida, acredita que fez tudo correto, enriqueceu com sua empresa de Seguros que agora é presidida pelo seu filho, deu uma vida boa a sua família, mas não consegue se entender com o filho mais novo e está furioso com ele por ter compreendido que ele o chamou de inculto. Sem saber Julían tocou no ponto mais sensível de Mayol, sua falta de cultura. Ele foi obrigado a abandonar os estudos por causa da guerra civil na Espanha e depois nunca mais retomou. 

Tudo teria continuado desta forma se não fosse a esposa de Mayol, Julia sem mais nem menos lhe dizer que está farta, que quer que ele vá embora porque ela precisa ficar sozinha e ter tempo para si mesma e descobrir quem ela é, depois de tantos anos se dedicando e fazendo as vontades de todos. Mayol não compreende, mas Julia está de certa forma dando uma dica para Mayol, sempre é tempo de se ir em busca de seu desejo, de descobrir quem somos. Julia, como o marido, considera que cumpriu sua missão e agora quer um tempo para si mesma que nunca pode ter antes.

Mayol sem compreender nada do que sua esposa Julia deseja acaba indo embora. Começa o que ele vai chamar de viagem vertical para o sul. Primeiro Porto, depois Lisboa até que ele chega a Ilha Madeira. É uma viagem para o fundo, de descobrimento de si mesmo. É um recomeço onde ele poderá finalmente enfrentar seu trauma e buscar o que deseja. Sempre é possível, a derrota às vezes é apenas a forma de sacudir uma pessoa para que ela saia de seu conformismo e autopiedade para fazer algo por si mesma.

É como os romances de formação só que aqui o personagem já tem mais de setenta anos, mostrando que enquanto se está vivo é possível ir em busca de si mesmo e do que se deseja.


Enrique Vila-Matas nasceu em 1948 em Barcelona, Espanha

LIVRO: SUBMISSÃO - MICHEL HOUELLEBECQ



Houellebecq, Michel. 1ª ed. Objetiva, 2015
251 páginas
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
Título Original: Soumission

É realmente um livro que nos coloca num processo reflexivo intenso. Procurei ler o livro sem me deixar levar pelos conceitos ocidentais evitando desta forma considerar a história um tanto machista, o que seria simplista demais. 

Estamos na França em 2022. François é um professor universitário, leciona na Paris III - Sorbone. Leva uma vida sem grandes acontecimentos. Solteiro, sua namorada o deixou, aliás, ele nos fala que é um ciclo repetitivo e que a cada início de ano letivo isto acontece. Não consegue manter laços afetivos, não tem contato com seus pais que são divorciados e vivem em lugares diferentes. Não consegue manter um relacionamento amoroso. Envolve-se com estudantes ou então procura por prostitutas. Nunca viaja nas férias e não tem amigos, apenas conhecidos.Às vezes pensa em suicídio. 

É época de eleições e quem vence é Mohammed Ben Abbes, da Fraternidade Muçulmana. É conciliador porém aos poucos as mudanças vão se impondo. A educação é uma das mais atingidas, entrando a educação islâmica em vigor. As mulheres não podem mais trabalhar, tem que usar o véu, e todas as professoras, mestres da Universidade tem que se retirar. Diante de uma sociedade que é considerada amoral o que se busca é a recuperação da moralidade, da família. 

François é convidado ou a se converter e ser um professor muçulmano ou a se aposentar. Ele opta pela segunda opção. Tem dinheiro suficiente para ter uma vida boa, mas não sabe o que fazer de sua vida. Considera que sua vida intelectual terminou no dia em que apresentou sua tese. Sua vida de professor acabou, a ex-"namorada" por ser judia foi embora para Israel com sua família. 

O livro é uma crítica mordaz a atual sociedade e seus valores, mas é também um imenso alerta, uma sacudida, um impacto. 

A situação de François é bem conhecida no mundo atual, a falta de sentido, o vazio, a solidão, a falta de laços afetivos, a fuga pelo sexo, comidas, bebidas. Quando recebe uma nova proposta para retornar à faculdade ele balança e terá que tomar uma decisão entre esta vida que leva ou uma nova opção.

Mas o livro é ainda mais profundo. Apesar de ter por protagonista um homem que dentro da sociedade muçulmana pode ter algumas escolhas, o livro não deixa de fazer uma crítica também à mulher quando diz que nesta sociedade islâmica a mulher pode permanecer na infância, ao se ver duas mulheres com véu olhando revistas de moda e rindo como crianças. Também a analogia entre a mulher ocidental que se levanta de manhã, se arruma toda, se veste bem e sai para o trabalho e quando chega a noite ela retorna ao lar cansada, coloca uma roupa confortável e tem vontade de se deitar no sofá, enquanto que a muçulmana passa o dia sob um véu, mas a noite se arruma toda para seu marido. Sim, realmente é uma analogia possível, mas sinceramente, um tanto machista, uma vez que visa apenas ao prazer do homem, do nosso protagonista François. Mas a verdadeira crítica estaria na futilidade do consumo, e por outro lado na competição que existe no ocidente entre homens e mulheres, mas mais ainda, entre as mulheres.

Ao final o que se percebe é realmente a submissão, e aqui não é apenas da mulher, mas do homem também. E fica a pergunta se no fundo não desejamos isto.

O que realmente se traz a tona neste livro não é o islamismo, este conhecido por sua forma de considerar a mulher e sua moral, mas o vazio de François que é o de muitos no mundo atual e que o levaria a submissão para ter uma vida melhor por falta de desejo e falta de vontade de se mover e fazer algo. É mais fácil receber tudo.

A questão maior do livro é justamente a modernidade e a vida de François. Ele não consegue criar laços afetivos, as cenas de sexo são cruas, e sem amor, visando unicamente ao prazer dele. A visão que ele tem da mulher é mais misógina ainda, que pensa numa mulher para a cama e outra para a cozinha, na poligamia, o que resolve os problemas de satisfação dele, mas em momento algum ele se preocupa com o outro. Aliás a humanidade não lhe interessa. A crítica é ao individualismo da sociedade ocidental que leva o sujeito de desejar um objeto a se transformar em objeto pela submissão, como uma única saída para todo seu desespero e vazio existencial. E realmente estamos diante do mundo atual onde as pessoas cada vez se afastam mais das outras e pensam apenas no prazer e na felicidade, no sucesso, mas não querem ter que fazer os investimentos necessários na manutenção de laços e querem encontrar tudo isto pronto, para consumo.

Manter laços afetivos é algo que deve ser trabalhado, requer investimentos afetivos e inclui riscos, e me parece que é justamente o que François não deseja fazer, ele visa apenas o prazer próprio, sua satisfação. Desenvolver uma carreira profissional também é trabalhoso, e novamente ele não se esforça para isto. E nem mesmo a relação com seus pais lhe interessa, a ponto de ambos morrerem e ele não ter ido vê-los. E no mundo atual é visível o quanto é difícil para as pessoas manterem estes laços, preferindo o virtual onde se pode usar a tecla deletar quando algo incomoda ou exige mais. François não busca uma mulher para ser sua companheira com todos os riscos e prazeres que isto proporciona, ele prefere as relações com estudantes que terminam a cada verão ou as prostitutas.

O alerta é justamente sobre a desmoralização, a falta de laços, a falta de norteamento e de desejo que transforma a pessoa em submisso ao que lhe proporcione tudo isto sem ter que se esforçar. Algo que venha preencher o vazio existencial, mas sem esforço, e dentro da ilusão do que se considera a felicidade ou prazer. E volto a minha pergunta inicial: até que ponto desejamos isto? até que ponto a sociedade se infantilizou desejando a volta ao paraíso onde podemos receber tudo sem ter que fazer nada para isto, exceto obedecer aos pais, a Deus, ao Islã como no livro.


Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

LIVRO: SANGUE NO OLHO - LINA MERUANE


Meruane, Lina. Cosac Naify, 2015
192 páginas
Tradução: Josely Vianna Baptista
Título Original: Sangre en el ojo

Lucina está numa festa quando sente que explodiu uma veia em seu olho e o encheu de sangue. Ela não consegue mais enxergar, exceto vultos e sombras. Ela estava em tratamento com um oftalmologista e já era algo que ela sabia possível de ocorrer e que ela temia. Agora ela passa a depender dos olhos de Ignácio, seu companheiro. 

O livro trata de como se sente uma pessoa que enxergava e de repente fica cega e de como ela pode reagir à isto, se submetendo ou não. Um outro ponto forte no livro é a questão de como os outros vêem isto, como os amigos de Ignácio que lhe dizem que ele não tem uma namorada, mas um fardo. 

Lucina, ou Lina Meruane, é chilena e vive nos Estados Unidos, é escritora e interrompe seu trabalho com a cegueira apesar da insistência de sua professora que lhe recorda o grande escritor cego, que apesar de não ter seu nome citado sabemos se tratar de Borges

Vamos acompanhando o drama de Lucina, inclusive visualmente, pois o livro tem as páginas que vão se escurecendo a medida que avançamos na leitura. A que ponto podemos chegar para não ficarmos cegas? Lucina vai ao extremo em sua luta por enxergar, abandonando a ética. Também luta contra toda superioridade médica que lhe impõe um quadro de cegueira que ela não aceita. Por outro lado ela o diz no livro que está aprendendo a ser cega . 


A autora que tem o mesmo nome da protagonista do livro também passou por uma experiência com seus olhos, não tão drástica, e talvez se trate de expressar isto que ela faz escrevendo o livro, como uma espécie de autobiografia. A expressão sangue no olho em espanhol significa desejo de  vingança. Ao acompanharmos o decorrer dos dias de Lucina podemos perceber como se sente uma pessoa que fica nesta situação e o que é possível ou não fazer. 

Lina Meruane nasceu em 1970 em Santiago, Chile. 

LIVRO: JUDAS - AMÓS OZ



Oz, Amós. 1ª ed. Companhia das Letras, 2014
362 páginas
Tradução: Paulo Geiger
Título Original: Habssorá al pi Iehudá Ish Keraiot

Shmuel Ash é um jovem israelense que vive em Jerusalém e está fazendo uma pós graduação cujo tema é Jesus na visão dos judeus e quem foi Judas. Mas de repente tudo muda, sua namorada o deixa para se casar com outro e seu pai após perder uma causa no tribunal lhe avisa que está falido e não pode mais sustentá-lo o que requer que ele vá trabalhar para pagar os estudos, a moradia e a alimentação como fez sua irmã na Itália que arrumou dois empregos para fazer o mesmo. Porém Shmuel desiste dos estudos e pensa em ir viver em outro local, mas ele vê um pequeno anúncio sobre um senhor inválido que procura alguém para conversar e oferece um modesto salário com moradia. 

Shmuel se candidata e consegue o trabalho, passa então a viver numa casa num bairro afastado numa água furtada. Na casa além do velho Gershom Wald,  vive Atalia cujo pai Shaltiel Abravanel foi um militante expulso do movimento sionista por ser contra a transformação de Israel num Estado independente e considerado um traidor por ser amigo de árabes. 

A questão que o livro nos traz entre discussões filosóficas e históricas é a do traidor, não o traidor por dinheiro, mas aquele que é considerado um traidor pelos outros por não ter sido compreendido, por ter ideias diferentes do outro, inclusive avançadas demais às vezes para uma determinada época. Judas era rico, não precisava se vender por tão pouco, então porque o teria feito? se não foi pelo dinheiro? e se realmente o vendeu porque se enforcou? e porque teria que entregar Jesus se este não se escondia?  Amós Oz levanta outra hipótese enquanto paralelamente nos conta a história de Abravanel. Ele nos mostra um Judas como o único que realmente acreditou em Jesus e o viu como o filho de Deus, e ele tinha certeza de que ele desceria da cruz mostrando a todos quem ele era de fato. Judas foi o primeiro cristão e talvez o único. É polêmico principalmente para os católicos, uma vez que a hipótese de que Judas não traiu  leva a conclusão que Jesus não era capaz de milagres e que era apenas mais um dos inúmeros profetas que vagavam pela Palestina na época. Por outro lado falar de Abravanel também é polêmico entre os israelenses. Ele queria que os judeus e os árabes convivessem em paz na mesma terra, a terra que já era e não criar um novo Estado, que era óbvio que isto só traria a guerra o que de fato ocorreu. 

Para Amós a figura de Judas é simbólica no antissemitismo contra os judeus. E tocar na questão de Abravanel é uma maneira de dizer que a questão Israel-Palestina poderia ter sido resolvida de outra forma se houvesse mais "traidores" corajosos o suficiente para fazer diferente do que todos pensam. 

Na casa, durante o inverno, cada um dos moradores, com todas as suas diferenças e mágoas, acabam se aproximando e rompem a muralha que criaram em torno de si mesmos passando a gostar um pouco do outro. Wald perdeu seu único filho na guerra pela independência, numa morte atroz. Ele era casado com Atalia que é amargurada e considera os homens idiotas por pensarem da maneira que o fazem. E Shmuel é um solitário que deseja muito um tempo para si mesmo, para escrever, mas que acaba se apaixonando por Atalia. 

O livro é uma espécie de catarse do autor devido suas posições contrárias as da maioria muitas vezes também considerado um traidor. Amós Oz deseja o Estado de Israel dividido entre judeus e árabes. Ambos são desta terra, ela é de ambos e nenhum tem outro lugar para ir. Mas a questão do traidor acompanha Amós desde a juventude quando ele também foi chamado assim por ter feito amizade com um sargento britânico. 

Um livro para refletir sobre as condições do mundo e também sobre o que é realmente um traidor. Vale a leitura. 

Amós Oz nasceu em 1939 em Jerusalém. 

domingo, 12 de abril de 2015

LIVRO: O SENHOR AGORA VAI MUDAR DE CORPO - RAIMUNDO CARRERO



Carrero, Raimundo. 1ª ed. Record, 2015
111 páginas

Na madrugada de 18 para 19 de outubro de 2010 o escritor Raimundo Carrero sofreu um AVC, que o deixaria com o lado esquerdo comprometido. Após sair do hospital o que mais o atormentava era se ainda conseguiria ser um escritor, se conseguiria escrever. E conseguiu. 

Mas este livro sobre o que lhe aconteceu demorou mais. Ele escreveu três versões e não se satisfez com nenhuma delas. Ele não conseguia escrever na primeira pessoa, então optou por escrever na terceira pessoa e através de metáforas, e o resultado é este pequeno imenso livro. 

Belíssimo! a medida que vamos lendo sentimos em nós mesmos a angústia que ele sentiu, o medo, mas junto a isto tudo também as recordações da vida, do antes, e novamente a angústia, do agora. São sonhos e pesadelos, a verdade e a invenção. 

Mudar de corpo, mas como o autor nos diz, o corpo está sempre mudando, desde que nascemos. Por outro lado costumamos imaginar que a vida se passa fora do corpo, não o sentimos ali junto vivendo junto com nossos pensamentos, sensações, dores, por mais paradoxal que seja, uma vez que a dor e as sensações só as conseguimos captar e sentir através do corpo. 

Fiquei emocionada, me tocou profundamente este livro. 

Raimundo Carrero nasceu em 1947 em Salgueiro, Pernambuco, Brasil