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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

FILME: BABEL - 2006


Diretor: Alejandro González-Iñárritu - 2006
Duração: 142 min
País: Estados Unidos - México - França
Roteiro: Guillermo Arriaga

Babel é um filme denso e extremamente atual que pode ser visto sob várias perspectivas. Um ônibus com turistas travessa uma região do Marrocos, nele estão Richard (Brad Pitt) e sua esposa Susan (Cate Blanchett), um casal de americanos, e outros europeus. Eles fazem esta viagem numa tentativa de reconciliação. No alto das montanhas estão dois garotos, Ahmed e Youssef que são pastores de cabras. Eles acabam de ganhar um rifle do pai para proteger os animais dos chacais. Eles competem entre si para ser o melhor atirador e duvidam do alcance do tiro da arma, para tirar a dúvida atiram primeiro contra um carro que passa na estrada, não acerta, e depois contra o ônibus. Susan é atingida.

Os filhos de Richard e Susan ficaram nos Estados Unidos aos cuidados de Amélia ( Adriana Barraza) que é a babá dos dois desde pequenos. Ocorre que é o dia do casamento de seu filho e não há ninguém para cuidar das crianças. Richard lhe diz que sente muito, mas que ela não poderá ir. Amélia porém não quer deixar de ir ao casamento que é numa cidade no México, e decide levar as crianças junto. Seu sobrinho Santiago (Gael García Bernal) vem buscá-la de carro.

No Japão um homem tenta superar a morte trágica de sua esposa que se suicidou e ajudar sua filha (Rinko Kinkuchi) que foi a primeira a encontrar a mãe e é surda. Ela é jovem, e vive a adolescência com toda a efervescência da sexualidade.

Partindo deste roteiro estas vidas irão se entrecruzar de alguma maneira, e o tiro dado nas distantes montanhas do Marrocos de alguma maneira afetará a todos. O interessante é que isto nos leva a pensar justamente no fato de vivermos num mundo global, onde algo que ocorre num lugar distante afeta a vários outros lugares e pessoas, mas o paradoxo é que se por uma lado tudo parece ligado e próximo, o isolamento é cada vez maior. Podemos também ver a história em dois planos familiares, dos pais e dos filhos. O casal americano que tenta se reconciliar no Marrocos e seus filhos que estão nos Estados Unidos e que com a babá irão para o México. O japonês que deu a arma a um guia marroquino que é o pai da jovem que é surda, e a família marroquina e seus filhos de onde parte o tiro inicial da trama.

Há também todos os aspectos culturais e do medo do estranho e os preconceitos. Aqui também novamente vemos também a falta de comunicação em função seja de ideias preconcebidas em relação ao outro ou pela própria língua falada, onde quando um marroquino fala a um americano, não há muita diferença da surdez da jovem em Tóquio. 

O comportamento dos europeus no Marrocos e do casal americano. Eles sentem medo das pessoas, se sentem em perigo na aldeia marroquina, estranham tudo e querem ir embora. Susan antes de ser atingida tem um gesto com o gelo quando almoçam jogando fora, dizendo que não se sabe de onde vem a água. Já os Marroquinos estão curiosos com o que está acontecendo, é uma vila do interior, algo de diferente está ocorrendo. Eles são prestativos, mas com sua aproximação assustam ao estrangeiro. Porém serão eles que serão solidários com Richard e seu drama, pois os europeus irão embora com o ônibus abandonando-os a sua sorte. O guia marroquino fará de tudo que for possível para ajudar e eles serão acolhidos na casa dele. 

Nos Estados Unidos o sobrinho de Amélia não se agrada dela levar as crianças, mas aceita. O menino diz que sua mãe lhe falou que o México é perigoso. Mas apesar do receio inicial, dos sustos, como crianças, acabam brincando com as outras crianças e se divertem muito na festa de casamento. O problema é na volta, quando o sobrinho embriagado cria confusão na alfandega diante da desconfiança do policial que ali está. Aqui vemos nitidamente os dois lados, o policial que desconfia dos mexicanos e os considera de alguma maneira um problema, e o mexicano que por saber que são vistos assim não é nada simpático e inclusive um tanto revoltado. Ele fura a barreira e se dá início uma perseguição que o levará a abandonar a tia e as crianças em pleno deserto. Amélia tenta encontrar ajuda, mas é presa. Apesar disto as crianças são encontradas, mas afastadas do perigo chamado Amélia, que ao ver da polícia é perigosa para elas, justo ela que as criou desde pequenas. O resultado é sua deportação para o México. A lei é fria e não leva em conta nada, as relações humanas que existiam ali, os 16 anos de vida de Amélia nos Estados Unidos, tudo isto é desconsiderado.

Os meninos marroquinos logo no início percebemos a rivalidade dos irmãos e que se acentua quando o pai designa o menor para dar o primeiro tiro o que faz com que o mais velho reaja. Ele pode dar o primeiro tiro, mas erra e isto é comentado. Youssef também observa a irmã se trocando, e depois acaba se masturbando nas montanhas. É esta rivalidade que irá levar ao tiro que dá início ao que ocorre no filme, é o gatilho. Youssef ainda é uma criança, mas que já se interessa por seu corpo e pelo o que sente. Seu irmão que é mais velho se contém, mas provavelmente também desejaria ver a irmã nua, que por sua vez é conivente com o irmão. Isto virá a tona quando o pai descobrir o que eles fizeram e que foram responsáveis pelo tiro, e ao inquiri-los Ahmed falará tudo, inclusive sobre isto, onde percebemos a raiva e a inveja que sentia de seu irmão mais novo e entregando-o se ilude ao acreditar que agora será o bom filho amado.

O tiro irá se transformar num atentado terrorista, principalmente com o incentivo da imprensa. De um acidente, de uma rivalidade entre irmãos que acabam cometendo um grande erro, chegamos ao terrorismo, e a polícia procura os terroristas. Um absurdo neste contexto, mas que demonstra a paranoia que é muito atual em relação ao outro, e principalmente do Ocidente em relação aos muçulmanos  confundindo pessoas que tem uma religião com pessoas desta mesma religião, mas que são terroristas. 

Enquanto isto a jovem no Japão se defronta com suas questões de sexualidade, ela tem dificuldades em lidar com isto, e acaba apelando para formas simbólicas ou gestuais para sinalizar seu desejo, de uma forma errônea, sem saber como agir. Como isto é recebido ou com risadas ou com rejeição ela se sente cada vez mais só em seu mundo. Ela tenta chamar a atenção, ser desejada, ser amada. Apesar de seu pai tentar ajudá-la há uma distância entre eles, primeiramente a típica de jovens em relação aos pais, mas também há uma frieza, uma falta de afetos, de aproximação maior, até que finalmente diante de algo que talvez desperte em seu pai um medo do suicídio, ele se rende a abraçá-la com amor. 

Poderíamos questionar o que leva um pai a dar uma arma a duas crianças? Ali trata-se de um ritual masculinizante, e para proteger o rebanho, matar os chacais que atacam as cabras. Mas a imaturidade dos dois os leva a competir entre si para dar tiros. A jovem no Japão apesar de surda tem um grupo, ela é inserida socialmente, mas lhe falta a mãe e outra mulher mais velha para lhe servir de espelho em sua feminilidade e como atuar com ela. Eles vivem num belíssimo apartamento com conforto, mas este espaço é frio e silencioso. 

Há também a questão do enfoque do filme. Em alguns momentos senti que o Marrocos e o México estariam sendo enfocados por um ângulo de muita pobreza, promiscuidade, como por exemplo, alimentos cheio de moscas em cima, mas se pararmos para analisar o filme veremos que o enfoque do europeu e dos americanos nos mostra uma suposta demonstração de superioridade , que estão amedrontados, são preconceituosos, tentando preservar-se longe de tudo que eles consideram uma civilização inferior, mas são tão sozinhos e desamparados quanto os outros. O Japão e sua bela cidade moderna, belos apartamentos, e a solidão, o vazio das vidas. Já o Marrocos com sua aparência de pobreza, não se esquecendo que as vilas de montanhas são assim, nos mostra um povo muito mais caloroso e hospitaleiro. Assim como os mexicanos e toda sua festa em torno do casamento. Como poderia uma mãe mexicana deixar de ir ao casamento de seu filho? A cena que mais me tocou foi quando Richard ao ir embora abre a carteira e retira dinheiro para pagar ao guia, que por sua vez recusa. Há uma incapacidade do americano em ver no outro alguém que foi solidário e que o acolheu em seu momento de dor e dificuldade, é como se ele considerasse que o outro lhe prestava um serviço e que teria que ser pago, e com isto também não há uma dádiva ali, mas ele quitaria sua dívida pagando.

Também me chama a atenção que apesar de Richard não dar queixa de Amélia, em momento algum ele se dispõe a defendê-la perante as autoridades levando em conta que ela estava com eles desde que seus filhos eram pequenos. O que vejo é a repetição do ato com o guia, ela era paga, ele não devia nada à ela. E por um lado não deixa de ser correto, é um trabalho, mas por outro me pergunto se caso fosse uma pessoa americana se ele não agiria de outra forma. De qualquer maneira talvez o fato de não dar queixa já seja uma maneira de demonstrar que ele aprendeu algo com tudo que ocorreu, seja o possível para ele dentro da cultura que vive. 

Ao final o que vemos são acontecimentos da vida, não há nenhum terrorismo, nenhum sequestro de crianças, nenhum tráfego de drogas nem de armas, exceto os criados pela mente humana dentro de seus preconceitos, medos, intolerância ao outro, dificuldades em lidar com o diferente, e a arrogância de alguns de se considerarem superiores ao outro e os efeitos que isto provoca. E é muito válida a crítica à imprensa que sempre sensacionaliza tudo, apelando para estes jargões e deduzindo em tudo um ato terrorista. 



Alejandro González Iñárritu nasceu em 1963 na Cidade do México, México. 

terça-feira, 23 de junho de 2015

FILME: 10 CANOËS, 150 LANCES ET 3 ÉPOUSES - 2006



Direção: Rolf de Heer e Peter Djigirr - 2006
Duração: 87 min
Título em português: 10 Canoas, 150 lanças e 3 esposas
País: Austrália

Prêmio especial do júri na seleção Un certain regard de Cannes. 

Este filme aborda os aspectos da Mitologia Aborígene da Austrália. Um jovem, Dayindi (Jamie Dayindi Gulpilil Dalaithngu) está apaixonado pela terceira esposa de seu irmão mais velho. Durante uma caçada o velho Minygululu (Peter Miyngululu) aproveita para lhe contar uma história que ocorreu há um longo tempo atrás para colocá-lo de volta na linha e de acordo com as leis tribais.



O filme nos faz então navegar entre o destino (filmado em preto e branco) de Dayindi e (filmado em cores)  do guerreiro Ridjimiraril (Crusoe Kurddal) e seu irmão mais novo Yeeralparil (o mesmo ator de Dayindi) que também se apaixonou pela esposa mais jovem do irmão.



Durante uma hora e meia observamos o cotidiano dos aborígenes, seus mitos, lendas, histórias, o feiticeiro, os rituais, mas também as caçadas, a disposição da tribo que separa os solteiros, o dia a dia das mulheres. Tiramos grandes lições, como aprender a paciência, a respeitar os mais velhos, e a ver as consequências dos desejos. 



Na história contada por Minygululu aparecem todas as regras de convivência da tribo, e também o destino atuando. É muito interessante ver que quando os homens sentam para discutir algo eles imaginam a cena ocorrendo. Um dia chega um estranho no local, e o feiticeiro os adverte das possíveis consequências, e vemos eles imaginando as cenas. Quando a segunda esposa de Ridjimiraril desaparece, eles também imaginam todas as probabilidades, e o chefe chega a conclusão que ela foi sequestrada pelo estrangeiro que apareceu em suas terras. Quando reaparece outro desta tribo estranha o chefe atira sua lança contra ele, pensando ser o mesmo de antes, e o mata. Isto vai causar a necessidade de um acerto de contas entre as duas tribos.



O chefe será atingido. Sua primeira esposa tenta curá-lo com ervas, mas não consegue, o feiticeiro também tenta, mas diz que não conhece este tipo de feitiçaria.


Antes de morrer ele fará a dança de sua própria morte até cair no chão exaurido. Quando o irmão mais velho morre é o mais novo que assume seu lugar na família, inclusive as esposas. Seu irmão mais novo após passado o tempo do luto fica então feliz pois finalmente vai poder ter a mulher que ama, só que ela é a mais nova e ele terá que cumprir seus deveres primeiro com as mais velhas.




Rolf de Heer nasceu em 1951 em HeemsKerk, Países Baixos, foi para a Austrália com 08 anos. 

Peter Djigirr nasceu em 1963 na Austrália

domingo, 14 de junho de 2015

FILME: KAMOME DINER - 2006



Direção: Naoko Ogigami - 2006
Duração: 102 min
Título Original: Kamome Shokudo
País de Origem: Japão 
Filmado na Finlândia. 

Sachie (Satomi Kobayashi) é uma japonesa que abriu um café em Helsinki na Finlândia, para servir comida japonesa esperando com isto apresentar sua culinária ao povo filandês, o que acaba não dando muito certo. Seu único cliente é Tommi (Jarkko Niemi) que é fã da cultura nipônica. Justamente para ajudar Tommi com a letra de uma música, visitando uma livraria ela vê outra japonesa ali e puxa conversa. Ela acaba indo ajudar Sachie no café, e mais tarde também outra que ao visitar a Finlândia espera por suas malas que foram perdidas pela Cia Aérea. 


Aos poucos elas irão se dar conta que para os finlandeses elas são estranhas, e mais ainda a comida. Resolvem então tentar com comidas locais. Fazem um bolinho de canela que imediatamente atrai as pessoas. 
Então surge a ideia de começarem a fazer comida japonesa com ingredientes locais como o salmão, arenque, camarão. E isto dá certo. 




Esta é a primeira lição do filme, que é preciso misturar as coisas, nem o totalmente finlandês, mas nem o nipônico, para começar a aproximação, desfazer o estranho. Mas o filme vai além, porque cada uma destas pessoas e também outros clientes tem seus problemas, e elas acabam envolvidas nisto, como uma forma terapêutica de ajuda. Afinal a comida é sempre uma forma de cura e de aproximação. 


Nakao Ogigami nasceu em 1972 em Chiba, Japão 

domingo, 31 de maio de 2015

FILME: A ILHA - OSTROV - 2006


Direção: Pavel Lungin - 2006
Duração: 112 min
Título Original: Ostrov 
País de origem: Rússia 

1942, Segunda Guerra Mundial uma embarcação soviética que carrega carvão é capturada pelos nazistas. Um jovem marinheiro em pânico acaba atirando em seu amigo por ordem do inimigo, a seguir a embarcação explode, mas não sem antes o jovem marinheiro comemorar por estar vivo. 
Em seguida vemos monges que socorrem um jovem numa pequena praia, é o marinheiro. 

1976 - uma ilha no Mar Branco da antiga União Soviética, um monastério de monges ortodoxos. Várias pessoas aguardam, desejam falar com um velho monge, Anatoly (Pyotr Nikolayevich Mamonov), conhecido por seu poder de cura e visões. É um velho estranho, ele vive afastado dos outros numa cabana onde se aquece com fogo abastecido de carvão que ele vai buscar diariamente, enquanto os outros vivem em outras cabanas com aquecimento. São pequenas ilhas ligadas por pontes de madeira. Se chamam de irmãos e são chamados por pai. O pai Filaret (Viktor Sukhorukov) é o abade. Ele se dedica a pintar a iconografia ortodoxa. 

Anatoly nunca cumpre as regras do monastério o que deixa o pai Iov (Dmitri Dyushev) indignado, mas não há o que ele possa fazer, pois até mesmo o abade aceita Anatoly como é. Agora porque este velho monge é assim tão estranho? Pela culpa que carrega, pelo remorso, por não conseguir esquecer sequer um dia o que fez por medo em sua juventude, atirar em Tikhon (Yuri Kuznetsov). Ele buscou refúgio no monastério e com Deus para tentar aplacar sua culpa, mas não conseguiu. Talvez apenas um milagre posso fazer isto e ele possa então morrer em paz. 

É um filme sobre a culpa e o peso de carregar isto por toda uma vida, por não conseguir se libertar de seu passado. 




Pavel Lungin nasceu em 1949 em Moscou, Rússia.

terça-feira, 26 de maio de 2015

DOCUMENTÁRIO: CONGO RIVER - 2006


Direção: Thierry Michel - 2006
Duração: 116 min

Produção Franco-belga

Seguindo os passos do explorador Stanley o documentário segue da foz do rio à fonte. Percorrendo seus 4.371 km passando pelos lugares que são os testemunhos da história tumultuosa do país, desde a colonização belga até os dias atuais e a guerra civil com o terror dos estupros perpetuados contra as mulheres. Seguindo a margem do rio vamos encontrando este povo e sua história, suas alegrias e sofrimentos, as festas, os rituais, os dramas que fazem parte da vida dos pescadores, comerciantes, viajantes, militares, rebeldes, crianças-soldados, os mai-mai, as mulheres violentadas. Um povo que busca recomeçar e recuperar sua dignidade. 

Este rio é o principal meio de comunicação e locomoção da República Democrática do Congo uma vez que devido as guerras civis a floresta se apossou novamente das estradas e cobriu os trilhos dos trens, herança do tempo da colonização belga. A medida que avançamos pelo rio, inicialmente a bordo de uma barcaça que leva o povo, animais, carga, todos alojados em cima de um pontilhão, cada um armando uma cobertura de plástico, lona, cozinhando ali, dormindo ali, vamos também tendo uma retrospectiva do período da colonização, seja em imagens em preto e branco ou através das ruínas do que ficou ali abandonado, como uma universidade botânica, palácios, barcos. Seguimos pelo rio de Kinshasa até Mbandaka por 1700 km, depois é preciso fazer um trecho por terra pois o rio se torna rápido demais e com pedras e cachoeiras, para então chegar a Kisangani e lugares devastados pelos longos anos de guerras. 

Pessoalmente não tinha muito conhecimento sobre o país exceto pelas notícias de violência contra as mulheres e sobre a colonização belga. É interessante ver a influência da catequização cristã dos colonizadores misturado aos rituais locais, até mesmo uma missa em uma igreja rezada por um bispo onde ele invoca a todos para abandonarem seus antigos rituais, no final o que vemos é uma canção ao som de tambores e o ritmo de dança tipicamente africano. 

Sobre a guerra o herói Mai Mais encontra na bíblia as justificações para tudo que fez, e eles acreditam que estão protegidos pela água para lutar, e citam a bíblia sobre isto, mas são capazes de imensa crueldade, como violentar crianças, mulheres, não por necessidade ou prazer, mas para destruir. 

É sempre interessante e instrutivo conhecer outros povos e sua cultura. Vemos apesar de tudo pelo que este povo passou uma alegria, principalmente eles adoram dançar e cantar. Lembrei-me do livro O Sagrado e o feminino de Cathérine Clément, já postado aqui no blog, sobre a questão das cerimônias religiosas, mesmo cristãs, e que as mulheres entram em transe. No filme vemos isto. Há tristeza também, crianças pequenas trabalhando, a falta de ajuda externa que faz com que este povo ele mesmo tente recuperar seu país da forma mais arcaica, braçal, mas acreditando nisto. 

É a história de um povo e de seu país, para os quais o Rio Congo é de suma importância. 

Thierry Michel nasceu em 1952 em Charleroi, Bélgica. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

FILME: BABA AZIZ - O príncipe que contemplava sua alma - 2006


Direção: Nascer Khemir - 2006 
Duração: 96 min
Título Original: Bab' Aziz, le prince qui contemplait son âme 

País: Tunísia 

Baba Aziz (Pariz Shahinkhou) é um dervixe que caminha junto com sua neta Ishtar (Maryam Hamid) para o encontro dos dervixes que ocorre a cada 30 anos. Para guiá-los apenas a fé. O percurso é longo e pelo deserto e Baba Aziz vai contando a história de um príncipe que passou anos contemplando sua alma até se transformar num dervixe. A medida que caminham vão encontrando outras pessoas e cada uma conta sua história.





Um filme de rara beleza poética e visual, as imagens do deserto, as danças, a música, os cantos, sem falar no contato que temos com a vida no deserto, as construções que surgem de repente no meio do nada, da areia, eles se limpam com a areia, as noites frias.





"Quem está em paz não perde-se no caminho"

Nascer Khemir nasceu em 1948 em Korba, Tunísia 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

FILME: A PELE - 2006



Direção: Steven Shainberg - 2006
Duração: 121 min
Título Original: Fur: An imaginary portrait of Diane Arbus


Um retrato imaginário de Diane Arbus

Não se trata de uma história biográfica, mas sim uma tentativa de refletir o mundo interior da fotógrafa Diane Arbus (1923-1971) considerada uma das maiores artistas do século XX, apesar de pouco conhecida na Brasil. 

Diane (Nicole Kidman) é a única filha de um casal de peleteiros (Harris Yulim e Jane Alexander) casada com um fotógrafo, Allan (Ty Burrell) e mãe de duas meninas. Ela é assistente de seu marido, uma mulher reprimida pelo ego fortíssimo da mãe que a intimida, não lhe permitindo ser um sujeito. Numa festa de apresentação das peles e do estúdio de fotografia de seu marido ela vê pela janela a chegada de um novo morador, Lionel (Robert Downey) que usa uma máscara no rosto o que a atrai enormemente. 

Aos poucos ela começa a reviver fatos de sua infância e de sua sexualidade inconsciente, onde é voyeur e gosta de se exibir. Um dia ela vai ao apartamento de Lionel e descobre que ele sofre de uma doença - hipertricose - e tem o corpo todo coberto de pelos. 

Diane é atraída por tudo que é diferente, estranho, e que atiça seu olhar. Lionel a introduz neste mundo apresentando-a a pessoas diferentes, anões, portadores de deficiências físicas, obsessões sexuais, ou seja, os outsiders, que sua família se choca ao ter contato. 

O interessante é o fascínio que ela sente em olhar, não conseguir desviar os olhos, e pela fotografia ela irá capturar estes momentos, enquadrá-los. A associação entre o homem peludo e seu pai um peleteiro é óbvia psicanaliticamente falando. Seu pai cobre as mulheres de pelos de animais com suas peles, e ela termina o filme se cobrindo com um manto feito dos pelos de Lionel. 

Allan em dado momento ao perceber que tem um rival no homem peludo deixa a barba crescer, mas isto não é suficiente. Diane não é atraída pelo o que é considerado normal, ela busca o estranho. 

Interessante o uso de uma chave que Diane encontra no encanamento entupido de pelos. A chave que abre as portas do inconsciente, a chave que abre a porta do quarto de Barba Azul. Ela abre a porta para sair de seu mundo de aparências e do que é considerado belo para entrar em um mundo de estranhos e que costuma chocar à massa, mas por outro lado o estranho também é belo e atrai o olhar acima de tudo. 

Steven Shainberg nasceu em 1963 nos Estados Unidos. 

Diane Arbus nasceu em 1923 em New York - EUA e faleceu em 1971 na mesma cidade. Foi uma fotógrafa e escritora conhecida por suas fotos em preto e branco de pessoas marginalizadas. Ela acabou suicidando-se após várias crises depressivas. 

Foto de Lionel 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

FILME: NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO - 2006


Direção: Richard Eyre - 2006
Duração: 92 min 
Título Original: Notes on a scandal

Baseado no livro de Zoe Heller

Barbara (Judi Dench) é uma professora de história em uma escola pública de Londres. Pessoa solitária que vive com sua gata, possui muitos preconceitos, é inflexível, e autoritária. Por tudo isto não é amada pelos seus alunos que a temem. Ela também não se esforça nem um pouco para ser simpática ou agradável com seus colegas. Sheba (Cate Blanchet)  é a recém contratada professora de artes da mesma escola. É jovem, bonita, casada com Richard (Bill Nighy) com quem tem dois filhos, sendo que o menino é portador da síndrome de Down.

Barbara escreve diários, diz que sempre ouviu os segredos de todos, mas os dela,somente o diário os conhece. Sheba se encontra em apuros por causa da briga de dois alunos e então Barbara se intromete e acaba com a confusão. É assim que começa a amizade das duas. Sheba a convida para um almoço em sua casa onde Barbara se surpreende com seu marido bem mais velho e com as crianças fazendo comentários ácidos em seu diário. Neste dia Sheba a leva conhecer seu refúgio no jardim, um atelier. Ali as duas conversam, ou melhor, Sheba fala de sua vida, da mãe difícil, de ter passado dez anos cuidando de seu filho e que só agora ele está indo para uma escola e que por isto ela quer trabalhar.

Tudo parece ótimo, Barbara a solitária encontrou uma amiga que a convida, a traz para o convívio de sua família e Sheba também encontrou uma mãe que a ouve e acolhe. Até que Barbara descobre o segredo de Sheba, ela está tendo um caso com um aluno de 15 anos, o mesmo da briga. Chocada e com ciúme Barbara pensa em denunciá-la, mas percebe que se não contar vai se beneficiar muito mais, pois Sheba ficará presa a ela pelo segredo e lhe devendo isto. Para não denunciá-la impõe que ela se afaste do garoto, mas isto não vai ocorrer apesar da promessa de Sheba.

Um dia ela vai atrás de Sheba porque seu gato está sendo sacrificado e então quer que ela volte junto ao veterinário para buscá-lo, mas é o dia da primeira apresentação de teatro do filho de Sheba, e ela não irá abrir mão de seu filho em prol de Barbara o que a outra não aceitará e com isto resolve se vingar o que fará. O escândalo estoura.

Barbara é uma pessoa que busca um gozo, ela não ama Sheba, vê nela um objeto de  desejo, quando não consegue o que quer se vinga. Depois ela novamente irá ficar ao lado de Sheba que vai morar com ela por um tempo, até que esta irá descobrir os diários de Barbara. Barbara então não sofre como poderíamos imaginar que iria acontecer, pelo contrário, ele segue sua vida e no final do filme já está procurando outro objeto de desejo. No filme é a terceira mulher que ela assedia, a primeira chegou a procurar ajuda na justiça e se mudou de cidade.

Sheba tem uma mãe que também só quer que seu desejo seja atendido, a relação com sua filha é difícil e se nota que ela compete. Numa passagem muito rápido vemos a mãe falando sobre quando o pai de Sheba morreu, e também fala que ela é muito bonita, mas não tem conteúdo. É notório a questão do édipo, seja em seu casamento com um homem mais velho e que era seu professor, seja em sua relação com o garoto.

Quando há o encontro destas duas mulheres inicialmente parece perfeito. Barbara tão solitária encontrou finalmente uma amiga e que a introduz no convívio de sua família, pelo menos é assim que Barbara o vê, família esta que é um obstáculo aos desejos de Barbara, tanto que ela os menospreza. Mas isto Sheba não sabe. Mas os indícios estão por ali, e Sheba os nega, ou não vê. Ela busca um apoio protetor de mãe, alguém que a ouça e proteja, como faria uma mãe, e Barbara percebe isto quando ela diz que a noviça foi buscar ajuda com a madre superior. Barbara vive um delírio sobre a vida que as duas teriam juntas, como se tivesse certeza de que é isto que Sheba também deseja, por isto diz que perdoa-a sobre o garoto, pois ela vale a pena. Vale a pena como qualquer objeto que se cobiça.

Sheba não está satisfeita com sua vida amorosa, sexual e pessoal. Dedicou-se ao filho durante 10 anos e deixou de viver sua vida. Seu marido é um paizão, exatamente o lugar que inconscientemente ele ocupa para Sheba também. Um garoto se interessa por ela, ela se sente viva, desejada, e não pensa nos aspectos éticos disto, se entrega com o corpo e o desejo. Não é uma relação de amor, nem para um nem para o outro.

Richard Eyre

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

FILME: KLIMT - 2006


Direção: Raoul Ruiz - 2006
Duração: 130 min 


1918 - Gustav Klimt (John Malkovich) está internado quase à morte e recebe a visita de seu amigo Egon Schiele (Nikolai Kinsky). A partir deste momento temos uma retrospectiva da vida de Klimt desde a Exposição Universal de 1900 em Paris onde é elogiado e recebe um prêmio, enquanto que em sua terra natal, Viena, não ocorre o mesmo.

O filme trabalha com a realidade e a imaginação, retrata o que Klimt vê e pinta, através da vida fragmentada do artista, com hiatos, nos mostra as nuances, o dourado, o nu, e as mudanças que Klimt viveu e pintou. É a Europa do século XIX, a liberdade sexual e moral que aparecem em suas telas eróticas, mas que contradizem a arte oficial que além do mais é anti-semita.



Uma vida voltada para a arte, as mulheres, o amor. Teve inúmeros filhos com várias mulheres. Sua musa e modelo preferida Emilie Floger (Veronica Verres) por quem tem um amor estranho, ele não se relaciona sexualmente com ela. Serena Lederer (Sandra Ceccarelli) que também está no filme foi retratada por ele.

Aqui no blog já falei de Gustav Klimt no livro A Dama Dourada retrato de Adele Bloch-Bauer que também foi retratada por Klimt.

Raoul Ruiz nasceu em 1941 em Puerto Montt, Chile e faleceu em 2011 em Paris, França

Gustav Klimt nasceu em 1862 em Baumgarten, Áustria e faleceu em 1918 em Viena. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

FILME: LIÇÕES DE VIDA - 2006


Direção: Jeremy Brock - 2006
Duração: 99 min
Título original: Driving Lessons

Ben (Rupert Grint) vive com seus pais em Londres e é muito retraído. Sua mãe (Laura Linney)  é uma imensa sombra sobre ele e extremamente religiosa, ela "devora" o filho mantendo-o preso à ela com chantagens emocionais e se utilizando da religião e Deus. O pai, como normalmente ocorre com uma mulher assim, que visa apenas seu desejo e não o dos outros, é quieto e não consegue intervir, apesar de compreender o filho.

Mas as coisas mudarão quando Ben incentivado pela mãe procura um trabalho e acaba indo trabalhar para Evie (Julie Walters) , uma atriz aposentada que é extrovertida, fala palavrões, adora seu jardim, e vive citando Shakespeare.

Quando Evie decide ir acampar e a mãe de Ben não permite ela apronta, e fingindo engolir a chave do carro acaba forçando o garoto a passar a noite ali. Em seguida ela lhe diz que tem uma doença terminal e que deseja ir a Edimburgo para um recital, talvez o último de sua vida, o que comove Ben que decide levá-la. Para o garoto que foi reprovado na direção ao bater o carro no exame e que tinha aulas com sua mãe, ele de repente se vê ao volante dirigindo em estradas.

Este ato de dirigir o carro é uma perfeita metáfora com o que acontece com sua vida a partir de agora, ou seja, ele começa a tomar a direção dela, o que antes era impedido pela mãe que a tudo domina e determina.

O filme retrata a passagem da adolescência para a maturidade, o corte com a mãe e a conquista da autonomia. Porém são muitos os que nunca conseguem dar este passo e ficam para sempre presos na culpa, na chantagem, e sem a luz do sol encoberto pela sombra da mãe. É necessário coragem para romper, o que não significa não amar a mãe. Ben rompe, mas ele está lá ao lado dela no hospital, mesmo magoado com o fato dela ter deixado seu pai por outro homem e colocar isto como uma decisão de Deus, o que é um absurdo mínimo.

Ao final é bonito ver o reencontro de Ben com o pai e poder ouvi-lo dizer que não era um covarde, mas ele tem valores que tentou manter, mas apesar disto ele também soube romper, uma vez que a decisão do divórcio partiu dele.
Jeremy Brock nasceu em 1959 em Bruxelas, Bélgica. 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

FILME: UM BOM ANO - 2006


Direção: Ridley Scott - 2006 
Duração: 118 min 
Título Original: A good year 

Max Skinner (Freddie Highmore/ Russell Crowe) passava férias  na Provença e foi educado pelo seu Tio Henry (Albert Finney) dono de uma grande propriedade com vinhedos, para conhecer os vinhos, mas também para saber como lidar com a vida diante de seus sucessos e fracassos. Max gosta muito de ganhar, e muitos anos depois vive em Londres e trabalha com ações, o que não lhe deixa tempo para nada, é um mundo extremamente competitivo, não tem fim de semana, não tem férias, apenas ganhar dinheiro e gozar o prazer da vitória quando se supera o outro. Ele não tem sensibilidade, as pessoas o detestam, mas admiram sua frieza com os negócios e o invejam. Até o dia em que recebe a notícia que seu Tio Henry morreu e que ele é o herdeiro da propriedade na Provença.



Pensando que pode ser um negócio bem rentável a venda da propriedade ele se permite um dia para ir até lá e ver de perto como está tudo. Entre muitas trapalhadas e correrias ele chega e encontra o local um tanto abandonado. Lá está o vinheteiro Duflot (Didier Bourdon) e sua esposa Ludivine (Isabelle Candelier) que conhece desde criança, mas agora ele e Duflot não se entendem por que este último não quer que ele venda a propriedade onde viveu a vida toda produzindo vinho para seu Tio.

Enquanto isto em Londres o chefe de Max convoca uma reunião à qual Max não consegue chegar devido ocorrências na Provença. Então é colocado em suspensão por uma semana pelo chefe e aproveita para ficar na casa de seu Tio, revivendo lembranças de sua infância e tentando colocar ordem para vendê-la. Uma surpresa o espera, a chegada de Christie (Abbie Cornish) que se diz filha de seu tio e pode querer a herança. Mas ele a acolhe e instruído pela advogada a trata muito bem.


Ele também reencontra uma conhecida de infância (não lembra dela no primeiro momento), Fanny (Marion Cottilard) que quase atropelou na estrada e que o deixa em apuros dentro da piscina onde caiu e da qual não consegue sair. Ele irá atrás dela em seu restaurante.



Aos poucos Max vai sendo reeducado na arte de viver e de ser educado, ético e sensível pelos habitantes da Provença. Ele começa a reencontrar os encantos deste lugar e suas lembranças mexem com ele através de cheiros, sabores e recordações dele com seu tio. Quando retorna à Londres para encontrar Sir Nigel (Kenneth Cranham), o diretor-executivo da empresa onde trabalha, este lhe oferece a sociedade da empresa ou uma boa soma em dinheiro para não ir para a concorrência, pois está ciente da capacidade de Max. Na sala da reunião há um belo quadro de Van Gogh, mas é uma cópia, pois o original está guardado no cofre. Max então lhe pergunta se para apreciá-lo ele entra no cofre à noite, ou ele se contenta em olhar para apenas para a cópia?

Um belo filme sobre o que realmente importa na vida e sobre quais valores são mais importantes. E você dará boas risadas também, além de poder apreciar o local com sua beleza natural.

Ridley Scott nasceu em 1937 em South Shields, no Reino Unido. 


Trilha Sonora de Marc Streitenfeld 

Marc Streitenfeld nasceu em 1974 em Munique, Alemanha

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

FILME: PRAGA - 2006



Direção: Ole Christian Madsen - 2006 
Duração: 92 min
Título Original: Prag 

Christoffer (Mads Mikkelsen) e sua mulher Maja (Stine Stengade) viajam para Praga para buscar o corpo do pai de Christoffer para ser enterrado na Dinamarca onde eles vivem e está o túmulo da família, para que ele fique junto de sua mãe da qual se separação há muitos anos atrás e após isto nunca mais reviu o filho. 

O casamento dos dois está em ruínas, há um distanciamento enorme entre eles, e Maja tem um amante. Mas ele também não é inocente, como aliás sempre ocorre numa relação. A maior parte do filme são diálogos, ou quase monólogos, pois um não consegue mais compreender o outro, sobre esta relação. Paralelamente Christoffer vai descobrir coisas sobre seu pai que ele não sabia e terá que lidar com aspectos culturais sobre o ritual de morte. 

Christoffer parece gozar em se auto-torturar, nenhum dos dois consegue se separar e também não conseguem expressar o que desejam, o que pensam, a raiva fica contida, a dor fica contida. Ele parece transferir para sua infância de filho abandonado todo o abandono que parece sentir no momento, mas não dá um passo para modificar tudo isto, nem aceita compreender seu pai. Ela ainda ama o marido, mas não consegue mais se aproximar dele. Há um momento de explosão de raiva e dor, em uma cena em público, onde também não ocorre um resgate para os dois. 

Aos poucos todos os segredos vem a tona, e cada vez mais se vê a desestruturação do casamento, os cacos que já havia se quebram ainda mais. 

Um filme sobre o quanto duas pessoas que vivem juntas há 14 anos podem se afastar, se desconhecer, mesmo se amando e as consequências disto. 

Ole Christian Madsen nasceu em 1966 na Dinamarca 

domingo, 1 de junho de 2014

DOCUMENTÁRIO: OS CADERNOS SECRETOS DE NUREMBERG - 2006



Direção: Jean-Charles Deniau - 2006 
Duração: 52 min 

Baseado nos cadernos de Leon Goldensohn 

Leon Goldensohn foi o psiquiatra americano que acompanhou os criminosos nazistas durante o julgamento de Nuremberg. Ele tinha na época 34 anos e era judeu. Visitava diariamente os presos e conseguiu que falassem. O Documentário relata as entrevistas realizadas com Hermann Göring, Rudolf Höss, Hans Frank e Julius Streicher possibilitando pela primeira vez uma visão do psiquismo e da mente destes criminosos.

Quando o julgamento terminou Goldensohn voltou para a América, após sua morte sua esposa não se deu conta da importância destas anotações e os cadernos se dispersaram sendo recuperados novamente somente em 2004 quando vieram à luz. A Companhia das letras editou o livro com as entrevistas.

É impressionante a constatação de que não há culpa nem arrependimento. Como pode? A primeira questão é que não podemos olhar para estes criminosos como monstros com problemas mentais, loucos, mas sim, como um ser humano como todos nós somos. Eles não são uma aberração fora de tudo, pelo contrário, o mais chocante e preocupante é que são pessoas como as outras, e isto nos leva a pensar que não basta eliminar estes e descobrir quais são as características do monstro para que não haja repetição da barbárie, isto pode se repetir a qualquer momento em qualquer lugar.

Mas a compreensão do que leva um ser humano comum a agir desta forma é o que pode mudar algo e ajudar a evitar repetições.

Como é possível que um povo que vem da terra de Goethe, Nietzsche, Schopenhauer, Thomas Mann entre tantos outros, grandes músicos, filósofos, escritores, cientistas, produziram esta monstruosidade?

Todos eram bons pais, maridos, vinham de famílias comuns, alguns tinham nível superior, e todos fizeram o teste de QI e foram considerados de inteligência superior. Então como foi possível? Como é possível que um  homem ou mulher seja um ser amoroso com sua família, filhos e se transforme num monstro cruel, assassino com outros?

Poderia se falar em esquizofrenia? Não é o caso deles. Todos nós temos o bom e o mau dentro de si mesmo e há sempre um gatilho para detonar este lado cruel, mau, mas o casos destes criminosos parece ainda ser mais complexo, a impressão que se tem é que eles aboliram a fronteira entre o bem e o mal. Não é uma questão de ter os dois e eles atuarem em algum momento conforme o contexto, mas sim, uma simultaneidade dos dois, não há fronteira dividindo, estão juntos atuando ao mesmo tempo. Estamos acostumados a pensar em opostos, mas ali é o simultâneo.

Um outro ponto que chama muito a atenção é a obediência cega e a necessidade do ideal de perfeição. Era uma necessidade eliminar os judeus e temos que fazê-lo de forma eficaz, era meu trabalho. Como pode um pai que chega em casa e abraça, brinca com seus filhos, mandar crianças para a morte? Era seu trabalho e precisava ser bem feito.

Não há moral neste trabalho, não há perguntas, simplesmente se cumpre a ordem e se fica satisfeito se foi eficaz. Como pode um ser humano chegar a isto? Eles eram funcionais com um supereu que ditava o ideal de perfeição sem moral, sem perguntas, faça e bem feito. Por outro lado eram egocêntricos, como Göring, vaidoso, narciso, que a tudo transformava num espetáculo para se promover, inclusive o julgamento.

Os outros são levados a agradar ao líder, desejam seu reconhecimento, desejam o elogio, como qualquer criança o faz em relação ao seu pai, ou sua mãe. Hitler era um pai.

O anti-semitismo não foi criado pelo nazismo, sua história retorna ao passado. Todo outro é um estranho, assusta, se transforma num bode expiatório para todos os males que afligem. Sempre há a tendência de expulsar o estranho, segregá-lo. A grande dificuldade de conviver com o diferente que leva  ao desprezo do outro, condenando sua cultura e modo de ser.

Os nazistas se consideravam puros, uma raça superior, queriam purificar o território deles incluindo os conquistados. Formados numa obediência servil, disciplina, humilhados pela perda da Primeira Guerra, o sistema patriarcal desmoronado, e desejando agradar ao imenso pai que os salvava, lhes restituía a honra, o lugar, eles não sentem culpa pelo o que fizeram, pelo contrário, acreditam que estavam certos.

O que se percebe ao longo das entrevistas é a racionalização do crime. Obviamente que os presos também tinham em mente salvar suas vidas, mas é notório  a falta de remorso ou culpa, a alegação de que cumpriam ordens, e que eles pessoalmente nunca assassinaram ninguém, eram outros que faziam isto, mas eles assinaram as ordens. Muitos alegavam que não sabiam do que acontecia, que não sabiam do extermínio. Ainda hoje há pessoas que alegam que tudo isto foi uma invenção dos que venceram a guerra. A força da negação que chega ao delírio.



Leon Goldensohn 

Jean-Charles Deniau é francês