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sábado, 27 de dezembro de 2014

LIVRO: INÊS DE CASTRO (1310?-1355) - A verdade histórica e a realidade psíquica, após seis séculos de fantasia e nevoeiro - GONDIN DA FONSECA



Fonseca, Gondin da. 2ª ed. Livraria São José, 1957
156 páginas

Neste livro encontramos a parte histórica de Inês de Castro e Pedro relatada em forma de teatro, mas este teatro é uma tragédia e foca principalmente em Pedro e na realidade psíquica do que ocorreu. Gondin se baseia em Freud para fazer uma análise psicanalítica da tragédia destes dois amantes. 

A questão é o Édipo. Pedro odeia seu pai por ele ser o obstáculo de seu desejo inconsciente em relação à sua mãe Dona Beatriz, é ele quem tem a mãe, mas o pai também odeia este intruso cuja esposa ama tanto. Sem ter consciência disto é Dona Beatriz quem fomenta esta rivalidade e ódio entre pai e filho. Como Afonso IV é o pai, por mais ódio que Pedro sinta isto lhe traz culpa, e ele não é capaz de atacar seu pai, de se opor à ele, e nem a sua mãe, o que caracteriza que Pedro apesar de homem ainda permanece psiquicamente na infância. 

Apesar da grande beleza de Constança é por Inês que ele se apaixona, provavelmente por esta portar um traço de Dona Beatriz. Pedro foi avisado várias vezes que seu pai pretendia matá-la, mas nada fez para a proteger, inclusive a deixando sozinha muitas vezes, e em uma destas oportunidades o assassinato aconteceu. Quando Pedro retorna a dor é insuportável e o ódio também, mas a pedido de sua mãe, seu objeto de amor inconsciente, ele aceita fazer as pazes com seu pai e jura em cima dos evangelhos que perdoará os assassinos e esquecerá o que houve. E assim faz enquanto sua mãe viver. Seu pai é o primeiro a morrer, mas apesar de ser entronado neste momento como rei, Pedro continua a levar sua vida, tendo relacionamentos com outros mulheres. Será somente quando sua mãe morrer que ele deixará toda sua raiva, ódio, culpa, vir a tona. É neste momento onde ele transfere para Inês a imago de sua mãe que ele vai reagir e se vingar. Matará dois dos assassinos, o outro conseguiu fugir, de forma cruel, mandando tirar o coração deles, um pelo peito e o outro pelas costas, num ato de vingança contra seu pai, e na realidade ele está matando o pai através destes. 

Após isto ele dirá que se casou em segredo com Inês, o que nunca foi provado, mas diante disto ela é rainha. Fará construir um tumulo belíssimo para ela e outro para ele e mandará exumar o corpo levando-o de Coimbra até o mausoléu em um cortejo fúnebre digno de uma rainha. Na chegada a colocará em um trono e exige que todos lhe beijem a mão. Depois ele a sepulta e nunca mais se envolveu com nenhuma mulher, sendo que foi sepultado de frente para ela. 

A versão histórica retrata a época, as questões de poder e reinados, os casamentos arranjados e as amantes que eram os amores vividos, sendo que neste relato Afonso mandou matar Inês por temer que seus irmãos tivessem influência em Portugal e também interviessem para tornar um filho de Inês o rei de Portugal no lugar de Fernando, filho de Constança. Na análise psicanalítica o que vemos é a rivalidade entre o pai e o filho, um filho que odeia seu pai pois é ele quem se deita com sua mãe, mas que ao mesmo tempo teme o pai, teme a castração. Segundo relatos o pai sempre odiou o filho e amava sua filha, provavelmente porque este filho era um empecilho entre ele e sua esposa que amava muito Pedro, e em função disto sempre foi cruel com Pedro, matando seu cachorro quando criança, e depois a mulher que ele amava. Pedro não consegue se impor ao pai, não cresceu, não separa Inês de sua mãe, e se sente culpado em relação ao desejo incestuoso. O pai matando o que o filho ama parece proceder no real com a castração que Pedro não consegue aceitar. Somente com a morte da mãe é que Pedro se sente livre para vingar a morte de Inês/Beatriz, ou seja, ele vinga a morte da mãe. 

Também há os relatos dos julgamentos de Pedro, pois em Portugal quem julga é o rei e sua indisposição com o clero. É visível que ele condena e manda matar àqueles que procedem da mesma forma que ele, projetando no outro o que está nele. Por outro lado, quando se trata de uma ofensa, por pior que seja, feita diretamente à ele, é capaz de perdoar. 

Uma visão psicanalítica da tragédia de Inês e Pedro que procura explicar os fatos de uma maneira mais profunda, revelando o que fica oculto no inconsciente das pessoas frente aos seus atos. 

Gondin da Fonseca nasceu em 1899 no Rio de Janeiro e faleceu na mesma cidade em 1979. 

PERFIL - MULHERES - INÊS DE CASTRO - RAINHA PÓSTUMA DE PORTUGAL


Nasceu em 1320/1325 em Galiza e faleceu assassinada em 07 de Janeiro de 1355 em Coimbra.


D. Pedro, filho do rei Afonso IV, futuro rei de Portugal,  casa-se com Constança Manuel que ao mudar-se para Portugal leva consigo sua dama de companhia Inês de Castro, uma bela jovem loura, que ficou conhecido devido sua beleza por "colo de garça". Pedro apaixona-se por ela e iniciam um romance que lhe dará mais quatro filhos, além dos três filhos de Constança. 

O romance incomodou a corte, e Constança a chamou para ser madrinha de seu filho, acreditando que com isto a afastaria de Pedro, uma vez que seria pecaminoso a relação entre ambos, mas isto não ocorreu. Inês foi afastada e só retornou após a morte de Constança num parto, quando Pedro a trouxe para viver em Coimbra num palácio de onde se avistava o Mosteiro de Santa Clara. Pedro se encontrava com ela na Fonte dos Amores, que ficava perto da residência de sua amada. 

Devido as ligações de Pedro com os irmãos de Inês que lhe ofereceram o trono do reino vizinho, Dom Afonso IV irritou-se, e temia que isto acabasse por interferir na independência de Portugal e aborrecesse Castela, além de temer que a família de Inês interviessem para que o filho bastardo de Pedro com ela assumisse o trono de Portugal no lugar de Fernando, filho de Constança com Pedro. Segundo a história Afonso teria sido convencido por seus três conselheiros Pedro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco que a única forma de garantir o poder seria se Inês morresse. Em 07 de Janeiro de 1355 os três partiram para Coimbra e encontrando Inês sozinha, pois Pedro havia partido para caçar, a degolaram e enterraram na Igreja de Santa Clara. 

Quando Pedro retornou ficou louco de dor e empreendeu uma luta contra o pai até que Dona Beatriz sua mãe intervisse e acabasse conseguindo que selassem a paz, fazendo com que Pedro jurasse sobre os evangelhos tudo esquecer e perdoar. 

Em 1357 Afonso morreu e Pedrou subiu ao trono de Portugal. Após a morte de sua mãe Dona Beatriz ele fez um trato com Castela que lhe entregou dois dos assassinos, apenas Diogo Lopes conseguiu fugir. A morte de ambos foi extremamente cruel, Pedro mandou que lhes arrancassem o coração, um pelo peito e outro pelas costas. 

Sua paixão se tornou uma obsessão e em 1360 ele jurou que havia se casado em segredo com ela o que a tornava rainha. Mandou construir dois túmulos em Alcobaça para onde mandou transferir os restos mortais de Inês e onde ele mesmo descansaria após sua morte. O cortejo que levou o corpo foi digno de uma rainha e diz a lenda que ele mandou colocá-la num trono onde todos teriam que beijar a mão da rainha. No túmulo de Inês está esculpido sua história. 

Túmulo de Inês de Castro 

Coroação Póstuma e o beija mão 

Dom Pedro 
Fonte dos Amores em Coimbra 


A história de Pedro e Inês nos é contada nos Lusíadas de Camões. Postarei um livro que li e que traz uma outra versão da história, onde há uma análise psicanalítica do que ocorreu e de porque Dom Pedro que foi avisado das intenções de seu pai de matar Inês nada fez para impedir e só se vingou após a morte de sua mãe Dona Beatriz, descumprindo o juramento que havia feito. Também vou assistir ao filme Inês de Castro e postar no Blog.