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sexta-feira, 26 de junho de 2015

FILME: UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA - 2015



Direção: Roy Andersson - 2015
Duração: 100 min
Título Original: En duva satt pa en gren och funderade pa tillvaron
País: Suécia, Noruega, Alemanha e França 

Vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza em 2014 

Um filme para refletir muito. Qual o sentido da vida, se é que tem? ou será que cada um deve construir este sentido, o que é mais provável? O filme é um soco no estômago. 

Logo no início vemos um casal num Museu de história Natural. O homem observa pássaros empalhados e se detém em frente a um pombo pousado num galho. 

O filme é melancólico, poucas cores, tépido, mas é justamente assim que é a vida de dois vendedores Sam (Nisse Vestblom) e Jonathan (Holger Andersson)  de artigos para divertir os outros, sacos de risadas, dentaduras de vampiro e a máscara do tio banguela. Os dois estão sem ânimo e cansados. Vivem num condomínio extremamente controlado por um porteiro que exige que todas as regras sejam cumpridas. 

Vamos vendo as pessoas em seu dia a dia, sem graça, sem novidades, tudo se repete, a vida passa. Mas se prestarmos bem atenção nos veremos refletidos ali também. Se pararmos para pensar no quanto nossos dias são tão repetitivos também, no quanto nos falta de vivacidade, alegria, capacidade de ouvir o outro ou mudar algo. Onde está o prazer. Jonathan tem um pensamento: é correto usar as pessoas para seu próprio prazer? Nesta pergunta se reflete muito do filme, onde as pessoas subjugam as outras, seja pela autoridade, pelo desprezo, pela indiferença, pelo sadismo ou pelo poder gerando um gozo com isto. Mas quem se deixa levar por isto também gosta sem o saber, também retira um gozo disto e pode justificar a vida e suas mazelas colocando sempre no outro a culpa como em determinado momento que Jonathan diz a Sam que foi ele quem teve a ideia, e o repete várias vezes. 

O filme vai mais fundo em uma crítica ao Homo Sapiens, mostrando um laboratório onde um macaco sofre choques enquanto a pesquisadora fala ao celular. 

E mais quando nos mostra uma cena onde pessoas são queimadas vivas dentro de um tubo com o nome da mineradora Sueca - Boliden AB, em uma referência ao desastre ocorrido no Chile nos anos 80 com esta empresa. As pessoas assistem vestidas em roupas de gala a este evento. Mas isto também remete ao holocausto e muitos outros atos bárbaros dos quais o ser humano, o homo sapiens é capaz. 


Ao final vemos as pessoas aguardando o ônibus e duas pessoas comentam que é mais uma quarta-feira, igual a todas as outras. Uma das pessoas que aguarda pensa que é quinta. Não, é quarta! e existe alguma diferença? Alguém explica que se não for assim o caos se instaura. Se não seguir as regras, a sociedade, o caos se instaura. 

O filme nos leva a refletir a existência, em vários momentos ouvimos o pombo arrulhando, mas ele não aparece, ele observa, e me coloco como um pombo assistindo a este filme. A vida passa, os dias da semana se repetem, mas se repetem por serem nomeados, no real é um dia após o outro, uma noite após a outra, tudo igual, quem nomeia, quem da cor a vida somos nós. Ao perceber o quanto somos parecidos com estes vendedores de várias maneiras, seja nas queixas, seja na falta de ânimo, seja na repetição, seja na falta de sentido ou no cansaço, é bom parar e pousar num galho para refletir. Refletir sobre como vivemos a vida, se não há algo para mudar e ser mais feliz, menos melancólico, menos repetitivo, e assumir a responsabilidade por esta vida. 

O filme é o último da trilogia sobre a humanidade, cujas obras anteriores são Canção do Segundo Andar (2000) e Vocês, os vivos (2007). 


Roy Andersson nasceu em 1943 em Gotemburgo, Suécia

sábado, 25 de abril de 2015

FILME: LE MUR INVISIBLE - 2014



Direção: Julian Roman Pölsler - 2014
Duração: 108 min
Título Original: The wall

Adaptação do livro homônimo de Marlen Haushofer

Após assistir o filme fiquei chocada e num estado de angústia por um bom tempo. Precisei de alguns dias para conseguir escrever sobre ele. Sim, é uma ode à natureza, mas ele tem uma cena absolutamente chocante, real e cruel, e fiquei me perguntando porque? e analisando o fato do livro ter sido escrito por uma mulher. Retorno a isto no relato abaixo.

Um mulher (Martina Gedeck) vai para os Alpes Austríacos junto com um casal de amigos e seu cachorro. Assim que chegam o casal vai para o vilarejo a pé e o cachorro não os acompanha. No dia seguinte ao acordar ela percebe que eles não voltaram então segue pela estradinha com o cachorro para descobrir o que houve e se depara com um murro invisível, como uma imensa parede de vidro transparente, que ela nota tocando. Retorna e vai até uma casa nas proximidades e lá também o murro está, finalmente ela se dá conta que está presa dentro de um espaço circundado por este murro. 

Não há explicação para isto, nem o saberemos no filme que passa a focar na questão da mulher que precisa se adaptar a viver na natureza, sozinha, somente com o cachorro e depois os gatos e uma vaca que dará a luz a um bezerro. Ela começa a escrever um diário para manter sua sanidade mental. 

Até aí temos um belo filme, as paisagens são belíssimas, os sons da floresta, as mudanças de estação. Ela aprende a caçar apesar de não ser algo que lhe agrade. Um dia um de seus gatos é morto por uma raposa que depois ela terá a chance de matar, mas não o faz, compreendendo que é a lei da natureza, e que matar a raposa não trará o gato de volta e irá tirar da natureza este belo animal. A mulher deve deixar para trás uma vida na dita civilização, com todo seu stress e voltar a se ligar à natureza, ao planeta terra, e ao amor, o amor pelas plantas, pelos animais, pelo vento, pelo frio e pelo calor, a alegria de estar viva. 

A questão do filme que choca é quando aparece um homem e que irá matar seus animais, a cena é horrível e crua. Ela então vai assassiná-lo e jogará seu corpo nas pedras. A partir deste momento ela estará mais só ainda, sem a companhia do cachorro que havia se transformado em seu amigo. 

O filme termina quando acaba o papel e ela não pode mais escrever. 

A questão é do porque desta cena? esta intromissão deste homem surgido não se sabe de onde, dentro do círculo do murro invisível e que comete uma barbárie. Tentei encontrar uma resposta por um lado psicanalítico, mas também pelo lado místico. 

Há dentro de nós um lado masculino e feminino, independentemente do sexo biológico. A natureza apesar de nos parecer muitas vezes violenta e cruel é equilibrada, não há o premeditado ou a maldade e vingança. A raposa mata o gato por instinto. Mas o ser humano mata por prazer, por desespero, por vingança, por fome. Matar o bezerro pode ser por fome, mas o cachorro? porque ele defendeu a sua dona? não sabemos porque isto o filme não mostra. A cena da matança é cruel, não é matar para comer, é despedaçar, é destruir. A vaca Bela é encontrada depois enlouquecida na floresta. Ela mata o homem. Isto pode ser interpretado como ela matando este lado dentro de si mesma, ou eliminando de seu círculo dentro dos murros o que não se harmoniza com a natureza que seria então mais feminina. É o feminino que se liga à terra, aos animais, às plantas, às florestas, isto desde tempos imemoriais. 

Como o livro foi escrito por uma mulher foi o que pude pensar sobre esta cena. O que levaria uma mulher a colocar uma cena tão brutal? Esta intromissão na natureza? É quase que um alerta sobre o que o ser humano faz ao planeta através da destruição. 

Fui mais atingida porque amo os animais e principalmente os cachorros. 

Julian Roman Pölsler e seu cachorro que foi o que estava no filme. Nasceu em 1954 em Estíria, Áustria. 

domingo, 12 de abril de 2015

FILME: DIÁLOGO DE SOMBRAS - 2014


Direção: Jean-Marie Straub e Danièle Huillet - 2014
Duração: 28 min
Título Original: Dialogue d'ombres 

Baseado na novela Diálogo de sombras de George Bernanos de 1928. 

Um diálogo entre um homem e uma mulher sobre o amor, Deus, a herança familiar, o desejo, o orgulho e o exílio. Uma tentativa de se aproximar, de transpor o que os separa. Pensamos que estão longe um do outro, mas não estão, fisicamente não estão, mas há um imenso abismo ali, por mais que haja promessas.

A tentativa de se falar do amor, do possível e do impossível, do peso do passado que é uma sombra que se coloca ali entre eles e neles.

Cinema experimental, de mostrar de outra forma o que muitas vezes se tenta mostrar num filme mais longo.


Danièle Huillet nasceu em 1936 em Paris e faleceu em 2006 em Cholet, França e Jean-Marie Straub nasceu em 1933 em Metz, França. Eram casados.

segunda-feira, 9 de março de 2015

FILME: WINTER SLEEP - 2014


Direção: Nuri Bilge Ceylan - 2014
Duração: 196 min
Título em português: Sono de Inverno
Título original: Kis Uykusu
País:Turquia

Ganhou o Palma de Ouro do Festival de Cannes 2014 

Inspirado em novelas de Anton Tchekhov

O filme é longo, tem 3hs de duração, mas valeu todo seu tempo. Não serão todos que apreciarão, é um filme lento, com muitos diálogos, mas densos e que nos fazem pensar muito e mostram as diferenças entre as pessoas e o que elas sentem em relação ao mesmo tema. Um filme para rever muitas vezes. 

Aydin (Haluk Bilginer) é um ator de comédias aposentado que tem um pequeno hotel na região da Capadócia na Turquia e escreve artigos para um pequeno jornal local e também se dedica a escrever um livro sobre o teatro turco. Ele vive com sua esposa Nihal (Melisa Sözen) que é bem mais jovem do que ele e se dedica a obras de ajuda para as escolas da região e sua irmã Necla (Demet Akbag) que se divorciou recentemente.



O filme também foca nas diferenças religiosas pois a região é habitada por muçulmanos e um deles mora numa das casas que pertencem a Aydin e são locatários desde a época do pai dele, mas estão passando por momentos difíceis e não conseguem pagar o aluguel. O belo do filme é que ele nos mostra não uma guerra religiosa, mas como os comportamentos morais são diferentes, e uma das cenas fala da culpa e do perdão, sendo que para eles é importante ver e sentir que foi perdoado e beijar a mão daquele a quem se pede perdão e que se o outro negar isto relegará o que pede perdão a se sentir culpado para sempre, o que coloca Aydin numa situação difícil a qual ele adere para não deixar o outro com esta culpa, porém é visível que ele não está perdoando ninguém, até porque para ele a situação é risível e não séria como o é considerado pelo outro. 

Há um diálogo fantástico sobre o amor e a resistência à violência onde Necla defende que se não resistirmos ao agressor ele acabará percebendo que está fazendo mal ao outro e sentindo remorso pelo o que fez, ela se questiona se agiu corretamente ao resistir ao marido e fica pensando se não poderia ter sido diferente, já Aydin e Nihal colocam uma opinião contrária a esta postura. Necla chega a dizer que a beleza do gesto é por ela não ter feito nada para ele a agredir. Muito se pode refletir e pensar a respeito desta questão.

Aydin é o centro do filme. Ele mantém um domínio sobre as pessoas ao seu redor tanto financeiro como intelectual, a falta de diálogos anteriores culmina no que vemos no filme onde ressentimentos, fragilidades, desejos acabam vindo a tona nos diálogos do filme que nos mostram a complexidade do ser humano, daquilo que ele aparente ser e o que é, inclusive simbolizado no filme num momento onde Aydin aparece usando uma máscara de teatro. A vida é um palco onde as pessoas atuam, mas nem sempre somos espectadores dos que nos são mais próximos, não vemos e não conseguimos captar o que realmente os move, e muitas vezes nem eles mesmos sabem. E é através dos diálogos entre os personagens do filme que ele nos toca a cada um de nós, são diálogos com vários argumentos e por sinal muito bons, que nos faz refletir, nos levando a dialogar com o filme e eles com nós. 



As relações se constroem muitas vezes sobre enganos, não apenas em relação aos outros, mas no nosso auto-engano, nos recusamos a ver muitas vezes e nos recusamos a ouvir também. Não que seja intencional, pelo contrário, muitas vezes não conseguimos ver nem ouvir. Mas há cenas no filme que coloca cada um diante de si mesmo também, e uma das mais bonitas já no final do filme é quando Nihal decide ajudar com dinheiro a família que mora no imóvel e não consegue pagar o aluguel. O que se passa ali choca, desloca, provoca, muda algo. 

Altamente recomendado! 
Nuri Bilge Ceylan nasceu em 1959 em Istambul, Turquia 

sábado, 31 de janeiro de 2015

FILME - ADIEU AU LANGAGE - 2014



Direção: Jean-Luc Godard - 2014
Duração: 70 min
Título em português: Adeus à linguagem 
País: França 

Ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2014 

Me deixei levar pelo filme de acordo com o que eu fui captando. Primeiramente gostaria de dizer que apesar das sinopses em português, não há nenhum cachorro que fala, que intervem devido a falta de comunicação de um casal. Há sim, um cachorro que anda por ali, no campo, na cidade e acaba no meio deles, é Roxy, e ao qual se empresta uma voz sobre o que seriam seus pensamentos. 

Uma mulher casada encontra um homem livre, eles não conseguem se comunicar, o marido dela aparece querendo explodir tudo, matar. O que temos é o masculino e o feminino, relação impossível apesar de toda nossa insistência. Logo no início, surge a frase:

" Todos aqueles que lhes falta imaginação se refugiam na realidade. Resta saber se o não-pensar contamina o pensamento" 

O filme nos mostra o mundo atual onde cada vez mais se perde a comunicação e se prende em fatos, mídia, no dia a dia corrido e sem sentido. Mas ele também traz o recalcado da Segunda Guerra, que não acabou, uma vez que se diz no filme: a guerra só acabou para os mortos. 

Se divide em A natureza e a metáfora, enquanto as estações do ano passam. Sim, a linguagem é o que nos faz sair da natureza e entrar na civilização, é o que nos diferencia do animal, mas será? aqui o cachorro se sai melhor do que os humanos. Para falar precisamos das metáforas, e o que usamos? principalmente a natureza. 

Outra frase do filme: " ninguém poderia pensar livremente se seus olhos não pudessem deixar outros olhos que o seguiriam. Desde que os olhares se encontram, se pegam, não somos mais deles." Como se desvencilhar do Outro? estamos sempre sendo seguidos por outros olhos, não só os externos, mas principalmente os olhares internalizados. E continua com o cachorro - "Há dificuldade de ficar sozinho. Não é o animal que está cego, mas o homem cegado pela consciência é incapaz de olhar o mundo. O que está no exterior escreveu Rilke nós o sabemos através do olhar de um animal, e então uma citação de Darwin que diz que o cachorro é o único ser na terra que te ama mais do que ama a si mesmo. "

Um deles diz: o face a face inventa a linguagem. Só os seres livres podem ser estranhos um dos outros. Eles tem uma liberdade comum, partilhada, mas exatamente isto os separa. Eu falo = sujeito. Eu escuto = objeto. 
Desde o nascimento somos vistos como um outro e somos forçados a entrar em nosso personagem. Eu posso saber o que pensa outra pessoa, mas não posso saber o que eu penso. É uma sorte que posso falar. 

O filme com seus cortes, montagens, sons, imagens, é como um bricolage. Mas se atentarmos que estes cortes, desencontros, faltas ocorrem constantemente na linguagem, onde um não escuta o outro, não compreende o outro, não há nada de estranho. O que é a linguagem? como ela atua atualmente? 

Uma frase que se repete: Você está repleto do desejo de viver. Eu estou aqui para lhe dizer não! E para morrer. 

Aqui é o real na voz do feminino, o que é viver? é morrer! Ela diz não! seria um não à ilusão? Ele lhe diz que ela reclama a igualdade, e responde que ela só é possível quando se defeca, o único lugar onde todos são iguais. 

É o primeiro filme de Godard que assisto, portanto não falo sobre sua arte, não a conheço, mas sobre uma versão pessoal do que o filme me afetou. 

Cada vez mais estamos sujeitos ao outro e ao Outro, a liberdade só é possível com a consciência deste Outro que nos domina, o personagem que habita em nós e nos foi dado, seja pela família, seja pelo social, pela religião, pelo Estado, pela moral, pelos costumes. Nos iludimos no amor, queremos agradar para sermos amados e não tomamos consciência que uma relação entre um homem e uma mulher é impossível, eles não se encontram, vivem juntos, convivem, mas são diferentes, e acho que o mérito deste filme é isto, mostrar que o masculino e o feminino não se encontram, nem mesmo a linguagem o possibilita, ao contrário, ela possibilita a ilusão deste encontro, o que não ocorre no filme, uma vez que eles não se entendem, não conseguem se comunicar, o cachorro faz o elo, e mais tarde quem sabe filhos. 

Por outro lado o mundo está se estranhando. A cada dia vemos mais preconceitos, racismos, xenofobia, e a grande dificuldade de aceitar o outro, o estranho, que não fala sua linguagem, que fala diferente. E isto começa no menor núcleo, ou seja, na relação de um casal, seja ele homossexual ou heterossexual, não importa, é sempre um outro que está ali. 

Não é um filme que agrade a muitos, não é filme para entretenimento, ele não é linear, não tem uma história com começo meio e fim, são pedaços, montagens, como um blá blá blá que é o que mais ouvimos atualmente, como a fala que não se encontra, e que vai de uma coisa à outra sem criar laços. 


Jean-Luc Godard nasceu em 1930 em Paris, França 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

FILME: UN 32 AOÛT SUR TERRE - 1998


Direção: Denis Villeneuve - 1998 
Duração: 88 min 

Projeto um filme por país  País: Canadá 

Simone Prévost (Pascale Bussières) vive acelerada com seu trabalho e acelera tanto que indo para o aeroporto sofre um acidente, por adormecer no volante. Este acidente a fará repensar sua vida e a leva a pedir demissão de seu trabalho e pedir ao seu melhor amigo Philippe (Alex Martin) que faça um filho com ela que irá criar sozinha.

O problema é que Philippe é apaixonado por ela e não consegue simplesmente fazer um filho como lhe pede Simone, ele quer fazer amor. Faz 03 anos que está deprimido por causa deste amor não correspondido e não sabe o que fazer. Então sugere que o fará desde que seja num deserto. Ela aceita.

Ambos partem para Salt Lake City, mas as coisas não sairão como imaginam e Philippe escreverá uma carta para Simone dizendo sobre tudo que sente.

Simone após o acidente passa a questionar a sua mortalidade e por isto deseja um filho, que é a forma de dar continuidade a si mesmo, uma maneira que encontramos inconscientemente de alcançar a eternidade e se perpetuar. O título do filme é como uma metáfora disto, o dia 32 de agosto é o dia seguinte da sua sobrevivência ao acidente, como se tivesse tido direito a mais dias de vida. Depois o filme retorna à setembro, a realidade, onde é preciso de confrontar com a solidão, com a vida e os desejos do outro, como Philippe que a ama e não quer lhe fazer um filho para não ficar com esta lembrança que acabaria por destruí-lo, uma vez que se apegaria demais a isto para viver.

O filme é repleto do simbólico da morte. No deserto de sal, o nada, o vazio, a luz forte. Quando Simone se afasta para fazer xixi ela vê um corpo carbonizado e fica horrorizada. Quando retornam ao aeroporto o quarto que é como um túmulo, fechado, hermético, pequeno. Já para Philippe ele se transforma como numa nave espacial sem gravidade.

Um filme para refletir.

Denis Villeneuve 

domingo, 27 de julho de 2014

FILME: CÓPIA FIEL - 2010


Direção:Abbas Kiarostami - 2010
Duração: 106 min 

Título Original: Copie Conforme 

Prêmio de melhor atriz para Juliette Binoche no Festival de Cannes 2010

James Miller (William Shimell) é um escritor que está na Itália, na Toscana, para uma conferência sobre seu livro "Cópia Fiel" onde ele defende que na arte a cópia pode ser tão boa ou melhor do que o original. A Itália é um país com uma grande número de obras de artes, e não só em museus, mas estão ao ar livre, nas fontes, na arquitetura, nas igrejas, nas ruas. Elle (Juliette Binoche) vai a conferência e compra vários livros que deseja que sejam autografados. Deixa um recado para ele com seu amigo e tradutor para encontrá-la em sua galeria de artes. Ele vai e o os dois saem para dar um passeio pela região.

Durante o trajeto conversam sobre a questão do original e da cópia, com questões como se a Monalisa no quadro já não seria uma representação da Monalisa verdadeira, que deu origem ao quadro. Num determinado momento param para tomar um café e enquanto James sai para atender seu celular a dona do local o confunde como sendo o marido de Elle que conta isto para ele quando retorna, eles então passam a encenar como se fossem um casal.

James defende seu livro partindo da posição da subjetividade de quem olha para uma obra de arte. Se é desta percepção que uma obra depende então a cópia pode ser melhor que a original. E na relação a dois? num casamento? será que vemos o original ou aquilo que desejamos ver? sim, a cópia pode ser melhor, atende nossos anseios, nossa idealização do outro.

Quando eles passam a encenar o casal, como num palco, ficamos na dúvida, o que aconteceu? eles se conhecem? é o marido dela? ou não? Nunca sabemos ao certo o que ocorre com o outro, e quando Elle diz que inveja o casal de velhinhos ela pode não saber o que houve em suas vidas, o que os mantém juntos, e quantas ilusões e auto-enganos enfrentaram.

Um filme para refletir.

Abbas Kiarostami nasceu em 1940 em Teerã, Irã. Está radicado na França desde 2010. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

FILME: HOLY MOTORS - 2012



Direção: Leos Carax - 2012 
Duração: 110 min 
País: França - Alemanha

Indicado no Festival de Cannes 2012 - longa metragem


Um filme instigante que abre mil possibilidades de interpretação nos mostrando que nunca temos o todo, há sempre novas possibilidades para interpretar, associar, falar.

Um dia na vida de Oscar (Denis Lavant) cujo trabalho seria o de representar, mas na realidade não há platéia nem câmaras conduzido por Paris em uma limousine dirigida por Céline (Edith Scob).

No filme Show de Truman apenas um não sabe que tudo aquilo não é real, são todos atores e que seu mundo é uma fantasia, ficção.... mas no fundo não é assim? E em Holy Motors, são todos atores? apenas um? o que é real? quando ele não usa máscaras e disfarces? E não estamos sempre representando?

Uma metáfora da subjetividade moderna. Descontinuidade, impossibilidade de dar sentido à algo que no instante seguinte já é outra coisa, contingências. Que sentido se pode dar a uma vida se no instante seguinte tudo pode mudar?

Ele segue por Paris dentro da limousine, tem os scripts na mão de cada compromisso do dia, são nove.

Um executivo, uma velha que se lamenta que ninguém a ama, mas mesmo assim ela vive, um louco que corre pelos esgotos de Paris e sai no cemitério. Nas lápides está escrito: acesse meu site..... Uma modelo posa para um fotógrafo (que também é ele) e o louco a rapta. A modelo não reage, faz apenas o que ele ordena, olhar perdido, parado, as unhas dos dois se parecem. Qual é mais louco? alienado? Ele me remete à Quasímodo neste instante, o corcunda de Notre Dame.
Um pai que vai buscar a filha e ela mente para ele que descobre. Pergunta se mentiria de novo e ela diz que sim. Vai me castigar? sim! Qual será meu castigo? Ser você mesma! Ele mata um banqueiro que é ele mesmo. Morre como velho nos braços da sobrinha, mata um outro que depois ele transforma em si mesmo. Encontra um velho amor. Um escafandrista que faz amor com outra num aquário sem água e sem retirar suas roupas e por fim vai para casa onde está sua esposa e duas filhas - três macacos.
Céline guarda a limousine na garagem junto com muitas outras. Ela veste uma máscara e liga para casa avisando: estou indo! E as limousines começam a conversar, estão preocupadas em serem descartadas e ir para o ferro velho.



Eis o nosso mundo, o mundo das máscaras, fantasias, fetiches, solidão e virtual. Quem espera do filme uma história linear se decepcionará.

As máscaras que usamos, dependendo de onde estejamos vamos nos comportar e agir de determinada forma, mas isto são os lugares que ocupamos, diferente de quando vestimos uma máscara para enganar a si mesmo, e talvez por isto ele mate a si próprio no filme, ou seja o fotógrafo e também o objeto da foto.

A impossibilidade de captarmos tudo no filme, nossos limites, nossas faltas, seremos tocados por aquilo que nos fala mais alto, mais de perto onde nos identificamos ou projetamos algo, onde nos sentirmos incomodados.



A única coisa que é constante é o cigarro e me leva a pensar nos vícios, que não podem sere abandonados independentes do que ocorre ao redor, irão se repetir, e são necessários.

O filme é a comédia humana moderna. Esta é minha interpretação de um filme que permitirá tantas interpretações quanto o número de pessoas que o assistirem.

Leo Carax nasceu em 1960 em Suresnes, Haust-de-Seine, França.

Cena com acordion 

domingo, 5 de janeiro de 2014

FILME: LE HÉRISSON - 2009 - O PORCO ESPINHO

Direção: Mona Achache - 2009 
Duração: 100 min 
Título Original: Le Hérisson 
País: França 

Como acabo de postar o livro que deu origem ao filme "A Elegância do Ouriço" de Muriel Barbery, aproveito para falar do filme que assisti recentemente.

O filme retrata duas mulheres em diferentes idades, mas que questionam o que é a vida e seus absurdos. Renée (Josiane Balasko) é uma zeladora de um prédio, extremamente séria, de poucas palavras, tratada por alguns dos moradores com a arrogância típica burguesa que se acredita superior e mais culta. O que eles não sabem é que Renée tem um segredo que somente seu gato Léon conhece. Atrás de uma porta que está sempre fechada se encontra sua verdadeira vida, uma biblioteca.

Paloma (Garance Le Guillermic) é uma menina de onze anos que se apercebe do absurdo da vida e resolve se suicidar no dia do seu aniversário se nada ocorrer que lhe mostre que vale a pena viver.

É do encontro destas duas que veremos de um lado Renée que se redescobre como mulher e Paloma que ainda se pergunta o que é ser uma mulher. A mãe da menina lhe dá pouca atenção, sua irmã se acha a melhor em tudo, o que deixa pouco espaço para a menina que não encontra um lugar. Entre as duas irá surgir o Sr. Ozu (Togo Igawa), um novo morador no prédio.




Como toda vez que se tenta colocar um livro extremamente rico em idéias e reflexões ,se torna difícil transpor isto para um filme.



É uma condensação, um resumo do livro, mas se perde muito da riqueza do livro em todos os seus detalhes, diálogos e reflexões. 
No que se refere ao contexto geral o filme o retrata bem, mas falta a riqueza da filosofia, e senti muita falta dos diários de Paloma, apesar da tentativa de expressá-los através das filmagens que ela faz.



Mona Achache nasceu em 1981 na França.

Trilha sonora de Gabriel Yared