Mostrando postagens com marcador Editora Planeta do Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Editora Planeta do Brasil. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A PERIFERIA E O DESLOCAMENTO DO OLHAR

 

AMANHÃ VAI SER MAIOR: o que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual

ROSANA PINHEIRO-MACHADO

PLANETA – 1ª ED. – 2019

216 páginas

Amanhã vai ser maior, de Rosana Pinheiro-Machado, é um retrato rigoroso, ao mesmo tempo sensível e crítico, do Brasil recente. A autora acompanha o percurso que vai dos movimentos de rua de 2013 até a eleição de Jair Bolsonaro, construindo não apenas uma narrativa dos acontecimentos, mas um diagnóstico profundo das fraturas sociais, políticas e simbólicas que atravessam o país. O livro responde a muitas dúvidas ao oferecer uma leitura que foge tanto da simplificação moral quanto da análise apressada, permitindo compreender processos que, à primeira vista, parecem contraditórios ou incompreensíveis.

Um de seus maiores méritos está em iluminar a periferia e a classe trabalhadora a partir de dentro, explicando por que parcelas significativas desses grupos votaram em Bolsonaro. Em vez de julgamentos fáceis, a autora revela frustrações acumuladas, expectativas frustradas e ressentimentos construídos ao longo do tempo, mostrando como escolhas políticas são moldadas por experiências concretas de vida, insegurança material e sensação de abandono. Nesse percurso, o livro também explicita os erros cometidos pelo PT em relação aos trabalhadores que constituíam sua base histórica, evidenciando o distanciamento progressivo entre o partido e o cotidiano dessas populações, tanto no plano material quanto no simbólico.

A leitura provoca um deslocamento necessário: somos levados a confrontar o quanto nossas opiniões costumam ser formadas a partir de vivências pessoais limitadas e das narrativas oferecidas pela mídia, frequentemente incapazes de abarcar a complexidade social do país. Ao dar visibilidade a realidades pouco escutadas, Amanhã vai ser maior amplia nossa compreensão do Brasil e do povo brasileiro, exigindo empatia, escuta e revisão de certezas. Trata-se, assim, de um livro fundamental para quem deseja compreender o presente para além da indignação ou da polarização rasa, lembrando que não há possibilidade de futuro sem um entendimento profundo das raízes da crise que vivemos.


Rosana Pinheiro-Machado é uma antropóloga brasileira. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

RESISTÊNCIA, COLABORACIONISMO E HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


 

UMA MULHER SEM IMPORTÂNCIA

A história secreta da espiã americana mais perigosa da Segunda Guerra Mundial

SONIA PURNELL

PLANETA – 1ª ED. – 2021

416 páginas


Uma Mulher Sem Importância, de Sonia Purnell, narra a extraordinária trajetória de Virginia Hall, uma mulher de coragem e determinação incomuns. Nascida nos Estados Unidos em uma família de posses, seu destino parecia ser o casamento conforme os desejos de sua mãe, mas Hall aspirava a muito mais. Com o apoio do pai, foi estudar na Europa e sonhava em tornar-se diplomata em uma época em que tal carreira era praticamente inacessível às mulheres.

Um revés inesperado ocorreu na Turquia, quando, em um acidente de caça, Hall disparou acidentalmente no próprio pé, necessitando de amputação acima do joelho devido a uma gangrena. A partir daí, passou a usar uma perna mecânica, carinhosamente apelidada de Cuthbert, sem que isso diminuísse sua determinação.

Com o estourar da Segunda Guerra Mundial, Hall ingressou na SOE, o serviço secreto britânico, e atuou como espiã na França, país que amava como uma segunda pátria. Lá, desempenhou um trabalho imenso com a resistência: treinando combatentes, fornecendo armas, elaborando planos de resgate para prisioneiros e promovendo sabotagens contra os alemães. Apesar de sua coragem e eficácia, jamais recebeu o reconhecimento que merecia durante a vida, muitas vezes devido ao machismo que impedia que suas realizações fossem vistas como equivalentes às dos homens, mesmo quando as superava.

Após a guerra, Virginia Hall trabalhou na recém-criada CIA nos Estados Unidos, novamente enfrentando o silêncio e a falta de reconhecimento. Considerada uma das maiores inimigas do Terceiro Reich, foi procurada incansavelmente, mas nunca capturada, embora tenha perdido amigos e companheiros, especialmente devido ao agente duplo Robert Alesch.

O livro de Purnell não só celebra a vida desta mulher extraordinária, mas também oferece um retrato detalhado da resistência francesa, do colaboracionismo e do contexto de Vichy e do governo de Pétain, proporcionando uma compreensão profunda do período histórico e da luta de indivíduos excepcionais contra o totalitarismo.


Sonia Purnell é uma jornalista e escritora inglesa. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

COMO A HISTÓRIA TRANSFORMOU UMA GOVERNANTE EM MITO ERÓTICO

 

CLEÓPATRA:  SEU MITO, SUA HISTÓRIA

FRANCINE PROSE

PLANETA – 1ª ED. – 2024.

237 páginas

 

Cleópatra é um mito, quase uma lenda, embora tenha existido historicamente. Sua história, no entanto, foi majoritariamente contada por homens, que preferiram enfatizar seus amantes, Júlio César e Marco Antônio, em vez de seu papel político. Assim, Cleópatra foi frequentemente retratada como interesseira, prostituta, sedutora e exótica, capaz de desvirtuar os “bons” romanos.

Plutarco, Shakespeare, George Bernard Shaw e, mais tarde, Hollywood contribuíram para cristalizar essa imagem, sobretudo com o rosto de Elizabeth Taylor — representação que está longe da realidade histórica. Em 2023, a Netflix lançou uma nova versão em formato de documentário, com cenas dramatizadas, na qual Cleópatra é interpretada por uma mulher negra, o que gerou intensas polêmicas. Muitos insistem em preservar a Cleópatra de olhos claros. Não saberia afirmar se ela era negra ou branca, mas certamente não era Elizabeth Taylor.

Francine Prose mergulha na história, na literatura e na arte para reconstruir outra narrativa: a de uma mulher que governou o Egito por mais de vinte anos, com habilidade política, domínio de línguas e profundo conhecimento das tradições egípcias. O livro propõe uma visão distinta daquela consagrada pela tradição masculina, deslocando o foco do erotismo para o poder, da sedução para o governo.

Cleópatra, afinal, não foi um caso isolado. O Egito teve pelo menos três grandes rainhas que se destacaram: Hatshepsut, que governou como faraó; Nefertiti; e Cleópatra. A obra de Prose convida o leitor a reconsiderar não apenas a figura de Cleópatra, mas também o modo como a história das mulheres no poder foi sistematicamente distorcida, simplificada ou reduzida a estereótipos.

Francine Prose nasceu no Brooklyn, Nova Iorque, EUA, em 1947. É uma escritora estadunidense..




segunda-feira, 31 de agosto de 2015

LIVRO: É UMA PENA NÃO VIVER - GONÇALO JUNIOR



Gonçalo Junior. Planeta do Brasil, 2015
470 páginas


Uma biografia sobre o educador e escritor Rubem Alves

Uma história rica que se inicia no interior de Minas Gerais, passa por várias cidades de Minas, Rio de Janeiro, Campinas e pelos Estados Unidos. Desde uma infância que foi difícil em termos financeiros para sua família que havia perdido tudo, mas que não afetou na época a infância de Rubem, pois como ele mesmo diz, não tinha parâmetros para isto, não sabia o que era ser pobre, até chegar ao Rio e entrar para um colégio onde estudavam vários alunos ricos. E foi justamente aí que um colega ao rir dele o marcou profundamente levando-o a tomar decisões que mais tarde teria que rever e avaliar até que ponto foram boas para ele ou não. 

O relato nos fala da formação intelectual de Rubem e também de seus estudos de teologia, de sua participação na igreja Presbiteriana, e de seu excesso de rigidez moral na época em que seguia e acreditava nos preceitos da igreja. Quando veio a ditadura sofreu uma grande decepção, pois foi justamente estas pessoas da igreja que o denunciaram, levando-o ao exílio nos Estados Unidos para não ser preso. Foi um dos primeiros a falar na Teologia da Libertação apesar de isto não lhe ser creditado após, cabendo a Leonardo Boff este mérito. 

Trabalhou como professor e isto o levou a rever as questões educacionais brasileiras e em geral, criticando-as em busca de uma nova maneira de se educar que fosse mais sensata e de acordo com os dons e habilidades de cada aluno. Uma educação que visa ao viver, e não a passar de ano, obter notas, decorar, aprender coisas que muitas vezes se tornam inúteis na vida de muitos, em prol de um aprendizado mais humanista, voltado para a vida e o bem viver. 

Confesso que a parte que se refere à Igreja Presbiteriana foi um pouco cansativa pois ocupa um grande espaço do livro, mesmo considerando que ela realmente foi uma grande parte da vida de Alves. 

Adentramos também na vida familiar de Alves e dos seus amores, esposa, companheira, filhos. O livro foca mais o lado de Taís, a companheira dele do que a de Lidia, apesar de sua presença e força durante toda a vida de Rubem, mas lemos sobre a dor de Taís com a separação e nada é dito sobre a dor de Lídia quando o marido a deixa para ir viver sozinho e manter uma relação com Taís, com quem ele nunca quis morar junto, o que acabou deteriorando a relação de ambos, apesar do grande amor que os unia. Raquel a filha caçula de Rubens foi um grande aprendizado para ele, ela nasceu com lábio leporino e o céu da boca dividido levando a ser necessário várias cirurgias em sua vida. E foi justamente aí que ele começou a contar histórias que se transformaram em seus livros infantis. Era uma forma de dar coragem à filha. 

É um belo livro, um relato de uma vida vivida, com todos seus obstáculos, perdas, alegrias, vitórias. Vale a pena ler. 

Gonçalo Junior nasceu em Guanambi, BA 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

LIVRO: O DISCÍPULO DA MADRUGADA - PE. FÁBIO DE MELO



Pe. Fábio de Melo. Editora Planeta, 2013
184 páginas

O Pe. Fábio de Melo escreve esta ficção em forma de romance para dar conta de expressar o que compreendeu sobre o Velho Testamento e a vinda de Jesus. 

O meu interesse pelo livro não é religioso, porém ele tem uma mensagem muito interessante para questões de posicionamento perante a vida e principalmente sobre a questão do trair-se a si mesmo, quando somos subjugados pela sociedade e acabamos não fazendo aquilo que realmente gostaríamos de fazer. O percurso do discípulo da madrugada é justamente se libertar deste social que impera em sua vida, sem precisar renegar suas origens judias e nem ao texto sagrado, mas retirando dele uma nova visão e interpretação. 

E este é o ensinamento que o livro traz, conseguir extrair uma nova visão de sua vida e valores, sem se renegar, mas também sem se trair. Ele também nos fala do medo, das projeções que fazemos, do pavor que temos daquilo que está em nós, mas que não conseguimos aceitar. 

Através de uma história, podemos aprender um pouco mais sobre si mesmo. 


Pe. Fábio de Melo nasceu em 1971 em Formiga, Minas Gerais

terça-feira, 29 de julho de 2014

LIVRO: HISTÓRIAS DE DIVÃ - GABRIEL ROLÓN



Rolón, Gabriel. Planeta do Brasil, 2008
260 páginas
Tradução: Sandra Martha Dolinsky
Título Original: Historias de Divan

São oito relatos de pacientes de Gabriel Rolón. O uso da palavra que permite a cura dentro de uma análise, as dores, sofrimentos, dúvidas, os conflitos. Quando alguém procura uma análise está em busca de ajuda para desvendar aquilo que só ele sabe, mas que não consegue acessar e para isto o analista está ali, na sua escuta flutuante ouvindo as associações livres, não "o que" diz o paciente, mas sim, "como diz".

Na infância nos ocorrem muitas coisas e algumas delas acabam se tornando traumáticas e são recalcadas por que não podemos admitir isto. A análise leva a simbolizar isto, a finalmente colocar em palavras o que está oculto e se manifestando em sintomas. Quando o sintoma causa dor, sofrimento, dificuldades na vida, as pessoas buscam ajuda, e é neste momento que ele entra pela porta do analista e se deita no divã, ou cara a cara, conforme o caso.

Neste livro há um relato que dói em todos nós, é o relato de Majo, e em como algumas vezes o psicanalista também deve enfrentar a dor, a dor da perda, da impossibilidade de fazer algo por mais que o deseje.

Não é um livro apenas para profissionais, pois todos que estão neste livro são seres humanos como qualquer um de nós, e o relato de Rolón é simples, verdadeiro, poético, como um romance, que é como tecemos nossa vida, um ficção, um romance.

É o segundo livro que leio de Rolón. E este foi transformado em uma minissérie que podemos encontrar no youtube.
Gabriel Rolón 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

LIVRO: PALAVRAS CRUZADAS Da dor à verdade - GABRIEL ROLÓN



Rolón, Gabriel. Editora Planeta, 2010
238 páginas
Tradução: Sandra Martha Dolinsky
Título Original: Palabras Cruzadas

Em minha recente viagem à Buenos Aires entrei na El Atheneu, uma mega livraria que fica numa ópera e nas minhas andanças por ela vi o livro de Rolón. Optei por comprá-lo no Brasil em português o que facilitaria minha leitura.

Rolón é um psicanalista argentino, e neste livro ele nos relata 05 histórias de pacientes que passaram por uma análise dolorida, mas que ao final encontraram uma verdade que era a sua e puderam finalmente tentar construir uma vida mais prazerosa e de acordo com seus desejos.

Conforme acompanhamos e também ouvimos o paciente é possível ao mesmo tempo pensar em si mesmo, pois são tantas as possibilidades e muitas vezes também estamos passando por coisas parecidas, próximas, e que não sabemos nem que está ocorrendo ou o porque de estar acontecendo. A culpa, o medo, a dor, a sexualidade, o amor, a violência, o luto. E tudo isto faz parte da vida.

Gabriel Rolón nasceu em 1961 em Buenos Aires, Argentina, é um psicanalista.

domingo, 9 de março de 2014

LIVRO: EU, UM OUTRO - IMRE KERTÉSZ



Kertész, Imre. Editora Planeta do Brasil , 2007
Tradução: Sandra Nagy
173 páginas
Título original: Valaki Más. A változás Krónikája

Eu, um outro é uma reflexão sobre quem sou eu que Kertész desenvolve ao longo destas páginas após terem se passado 40 anos desde que sobreviveu a Auschwitz.

Ele narra seu cotidiano, suas viagens ao mesmo tempo que analisa quem é ele agora, após tudo que viveu e ao que sobreviveu. É um constante perder-se para se reencontrar, mas sempre um outro.

Carregamos um passado que se atualiza, mas também vivemos novas experiências, conhecemos lugares e pessoas, e vamos nos transformando no decorrer da vida. Mesmo as experiências mais amargas, duras, tristes nos transformam em um outro quando depois de vivermos o luto, a passagem, a vida nos acena novamente e nos chama para continuar a viver.

A vida é uma história de mortes, e isto é fato, morrer para algo, mas continuar vivo para outras coisas. A felicidade como idílio não existe, mas os momentos felizes sim. E apesar de toda a dor que Kertész carrega em si mesmo ele também consegue ver a vida pulsando e construir um sentido para si mesmo.


Imre Kertész nasceu em 1929 em Budapeste. Foi deportado para Auschwitz e Buchenwald. Ganhou o prêmio nobel de literatura em 2002.