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segunda-feira, 25 de maio de 2015

FILME: O GOSTO DOS OUTROS - 2000



Direção: Agnès Jaoui - 2000 
Duração: 111min
Título Original: Le goût des autres
País: França 


O gosto do outro, o desejo do outro, a opinião do outro, a crença do outro, a visão do outro, cada um tem a sua, cada um tem seu quadro de referências e sua cultura, formação, e história. E não se mexe nisto sem fazer histórias. 

Temos vários personagens no filme. Castella (Jean-Pierre Bacri) é um empresário que tem pouca cultura.Um bom sujeito, simples, mas que ao assistir uma apresentação de teatro onde sua sobrinha atuava, ele se apaixona pelo texto de "Bérenice" e também pela atriz, que por sinal é Clara (Anne Alvaro) a professora de inglês que ele havia dispensado e que agora chama de volta apenas para poder entrar em contato com ela. Ele irá tentar se integrar ao grupo de Clara, um grupo artístico, mas sem sucesso.

A esposa de Castella é Angélique (Christiane Millet), uma pessoa que ama os animais, mas que é incapaz de respeitar o gosto do outro impondo o seu e criticando o alheio. A irmã de Castella, Béatrice (Brigitte Catillon) está montando um apartamento e Clara não aceita nada do que esta deseja para sua própria casa, e quando Castella compra um quadro de um pintor do grupo de Clara, que ele realmente gostou e o coloca na sala, ela vai tirá-lo de lá. 

Castella tem guarda-costas e motorista. Bruno (Alain Chabat) atende mais Angélique, e tem uma namorada nos Estados Unidos. Ele reencontra Manie (Agnès Jaoui) que trabalha no café ao lado do teatro. Franck (Gérard Lavin) tem suas questões em relação ao antigo emprego, e acaba se envolvendo também com Manie que é independente e faz sempre o que deseja. 

Todos os personagens em algum momento experimentam o gosto do outro, o desejo do outro, seja se submetendo, seja o fazendo ser suportado pelo outro, seja o impondo. Em um momento se diz - o mais difícil é depender do desejo dos outros. Sim, em alguns momentos ficamos à mercê do outro. 

No filme a questão do gosto é apenas um pretexto para os conflitos maiores, mais profundos como a incapacidade de aceitar o outro e seus pontos de vista singulares. Se no começo todos ainda tentam manter as relações de forma artificial, ou seja, mantendo a aparência e a hipocrisia social, aos poucos tudo isto se desmonta. 

Castella assumirá que não entende nada de arte, mas gosta daquela pintura, apenas por gostar, e dirá a sua mulher que ela nunca lhe permitiu um gosto seu. Esta por sua vez procura Béatrice para desabafar e se vê diante do apartamento redecorado ao gosto dela, afinal quem vai morar ali não é Angélique. Clara terá que rever seus conceitos e maneira de olhar os outros e ser mais aberta e humilde. Manie mantém seu espaço e escolhas. O final é magistral com Bruno tocando com um grupo e adivinhem qual é a música? - Non, je ne regrette rien! de Piaf. (Não, eu não me arrependo de nada). 

Assista ao final do filme com Bruno tocando


Agnès Jaoui

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

FILME: CHOCOLATE - 2000


Direção: Lasse Hallström - 2000
Duração: 121 min
Título Original: Chocolat

Vianne Rocher (Juliette Binoche) e sua filha de seis anos Anouk chegam a uma pequena cidade da França onde o povo segue os desejos do Conde Reynaud (Alfred Molina) que preza a moralidade e a igreja fazendo com que todos ali se comportem de forma prevista e que não destoe disto.

Vianne aluga uma antiga confeitaria de Armande (Judi Dench) e abre uma chocolateria na quaresma o que deixa a todos indignados. Mas ela também é mãe solteira e o Conde se aproveita disto tudo para desmoraliza-la e fazer com que vá embora.




Os chocolates que Vianne prepara são especiais, ela conhece segredos e se utiliza de uma roda onde pede às pessoas para dizer o que vêem quando ela gira para então baseada no imaginário de cada um saber qual o chocolate preferido daquela pessoa.



Desta forma ela conquista algumas amizades, mas principalmente de Josephine (Lena Olin) que é considerada louca por todos na cidade que já não suporta o marido Serge (Peter Stormare)que a agride. Ela foge e pede refúgio à Vianne que a acolhe o que irá mudar sua vida. Outros também se encantam com os chocolates e pelas transformações que isto lhes traz em suas vidas, mas o Conde não desiste e como detém o poder na cidade obriga o padre a fazer sermões inflamados contra a chocolateira.

Mas mal sabe ele que ainda estava por vir o pior, chega à cidade que fica a beira de um rio vários nômades que viajam em seus barcos, cujo líder é Roux (Johnny Deep). O conde então lança uma campanha para que eles partam deixando claro que não são bem vindos.



O que ele não esperava é que aos poucos Vianne irá conquistando as pessoas, inclusive as mais próximas a ele, e isto trará grandes mudanças na cidade.

Os preconceitos e o medo das mudanças, o estranho e o estrangeiro, o pecado, e um conde tirano que gosta de comandar a tudo e a todos, eis os ingredientes, mas quando se acrescenta chocolate, pimenta, nozes e outros itens nesta mistura algo acontece, e o prazer de viver aparece mudando as pessoas, ou melhor, libertando o que há de melhor dentro delas e com isto permitindo que possam sentir prazer sem culpa, possam mudar suas vidas, possam construir algo.
Lasse Hallström nasceu em 1946 em Estocolmo, Suécia. 

quinta-feira, 27 de março de 2014

FILME: PALAVRA E UTOPIA - 2000



Direção: Manoel de Oliveira - 2000
Duração: 133 min 
Roteiro: Manoel de Oliveira
País: Portugal 

Uma cineobiografia sobre o Padre Antônio Vieira.

Pe. Antônio Vieira nasceu em 1608 e veio para o Brasil em 1614. Ficou famoso pelos seus sermões. Ordenado jesuíta seus sermões denunciavam as injustiças principalmente a causa dos índios e dos negros. No ano de 1663 enfrentará o tribunal da Inquisição em Coimbra. É amigo pessoal de Dom João IV e será vítima de intrigas na corte tendo que se refugiar em Roma onde conquistará a confiança do Papa. Será o confessor da Rainha Cristina da Suécia. Retorna à Portugal e será obrigado por Dom Pedro II a passar o restante de sua vida no Brasil.



Lima Duarte representará o Pe. Vieira  na última parte de sua vida. O uso da palavra para defender os índios, negros e judeus através de seus sermões, o aspecto político de Vieira.



Manoel de Oliveira nasceu em 1908 em Porto, Portugal.
Faleceu em 02 de abril de 2015 em Porto.  

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

FILME: O DIA EM QUE ME TORNEI MULHER - 2000


Direção: Marzieh Makhmalbaf - 2000
Duração: 78 min 
Título original: Roozi ke zan shodam
Roteiro: Mohsen Makhmalbaf 
País: Irã 


Irã - Apesar das restrições religiosas e culturais, o filme abrange mais, ao tratar do feminino e da mulher.

Há algo que diz que a mulher é sempre o segundo sexo, como dizia Beauvoir. E novamente se vê a falta da união entre as mulheres. São três mulheres, uma criança que completa 10 anos, uma jovem casada, e uma velha.
A criança Hava, é o dia do seu aniversário de 10 anos, pela tradição a partir deste dia ela é mulher. Não tem nada a ver com corpo, menstruação, ou psiquismo, é pela cultura. E portanto não pode mais brincar com os meninos, nem sair de casa e tem que usar o véu. Dilacera o coração ver seu amiguinho pedir para ela ir brincar com ele, tomar sorvete, e a menina não ousando confrontar a mãe e a avó, implorando para ir. Para nós, ela ainda é uma criança. Tudo bem, criança tem sexo também, mas a constituição do ser mulher ainda não se fez, está em construção. É uma menina. A avó se recorda de seu nascimento, ela nasceu ao meio-dia, então pode brincar até o meio dia. Ensinam-a a ver a hora com um pauzinho enfiado na terra, e a sombra. E lá vai ela. Colocando a vareta a todo instante, e olhando a sombra diminuir, diminuir, diminuir. Até que sua infância termina. Agora, é uma mulher. E terá que ficar em casa até que lhe arrumem um marido. Ou seja, a mulher não tem liberdade nenhuma, está ali a espera do marido. Mas será que um marido a deixará ser mulher?



- A jovem, casada, ela ama andar de bicicleta. E lá vão elas, várias, todas de preto, usando o véu. Não estou brincando, mas parece um enterro de bicicleta. Não há alegria, a bagunça que as mulheres costumam fazer juntas, pelo menos no Ocidente. Rir e falar muito. Vão quietas, pedalando, e olhando o mar. Surge o marido à cavalo, ele não aceita aquilo. Pergunta para as outras se elas não tem marido. Quer que sua esposa desça da bicicleta e volte para casa. Ela insiste. Ele volta com o mulá.  Ele tenta convence-la, diz que a bicicleta é obra do diabo, que é pecado o que ela está fazendo. Seu rosto, a angústia, ela persiste, e a cada vez que se aproximam ela acelera a bicicleta. O marido então diz que quer o divórcio. Ela aceita. Aí vem o avô, depois o pai, e finalmente os irmãos, que lhe barram o caminho e tomam sua bicicleta a deixando ali. Nem mesmo com o divórcio...




- A velha chega de avião numa cadeira de rodas, recebeu uma herança. Chama os meninos carregadores e vão para o Shopping. Ela quer comprar tudo que nunca pode ter na vida. Seus dedos estão cheios de nós coloridos, de tudo que tem que comprar. Primeiro uma geladeira, ela nunca tece água gelada, ela quer água gelada. E por aí vai, muitas compras. Depois levam tudo para uma praia, para esperar as balsas que levarão tudo até o barco. Duas mulheres de preto chegam, e lhe pedem as coisas. Por que assim elas poderiam casar. A velha diz não, que sempre quis ter tudo aquilo. Ela usa um véu branco, com flores pretas. As mulheres lhe contam da outra que os irmãos barraram na estrada. A mulher criança olha para tudo aquilo, de mão dada com a mãe. A velha fica com um nó no dedo, e não lembra o que é, ninguém consegue ajudar: máquina de costura? Não! o último nó, provavelmente, a liberdade, a liberdade de ser.




Somente a velha quase chega lá. Mas é tarde. A vida se foi. 


As três fases da vida da mulher: infância, adulta e velha retratados de uma forma bela, dentro do contexto político, social e religioso do Irã. 


Marzieh Makhmalbaf nasceu em 1969 em Teerã, Irã.