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sábado, 14 de maio de 2016

FILME: ROMERO - 1989



Direção: John Duigan - 1989
Duração: 102 min
País de Origem: Estados Unidos

O filme Romero nos mostra a situação de El Salvador em 1977 frente a uma crise de poder em um país onde o povo vive na miséria. A igreja se mantém distante alegando que é a vontade de Deus, o que gera o conformismo e a alienação, conforme Marx já nos alertava. Porém alguns padres não concordam com isto e se aliam ao povo acreditando que seria o que Jesus teria feito e alegando que no fundo a Bíblia é revolucionária. A situação piora, os militares ganham a eleição, como ocorreu em vários países da América Latina neste período, e passam a eliminar os que se opõem a eles, baseando-se supostamente na lei e na ordem a serem mantidas e na garantia da perpetuação do capitalismo, que beneficia os ricos e mantém o povo na pobreza. Romero (Raul Julia) que no início era visto como o padre certo para ser o arcebispo devido sua pacificidade, diante do que vê começa a repensar sua posição e começa a lutar pelo povo seguindo o preceito que a fé exige que se mergulhe no mundo e que a igreja se identifica com os pobres. Acaba assassinado em 24 de março de 1980. 
Esta é uma situação que se repetiu em outros lugares, no Brasil temos vários padres que também lutaram contra a ditadura ajudando ao povo, aos familiares dos desaparecidos, falando em nome da paz e do amor.

Romero vivia voltado para a reflexão, leituras, e acreditava na paz, porém ao entrar em contato com a realidade de eu país e dos pobres que sofriam, ao perder para a ditadura amigos como o Padre Rutílio Grande (Richard Jordan) assassinado, ver outros serem torturados, ele começa a mudar sua posição e a lutar contra o governo militar. 

A situação de El Salvador é a mesma de inúmeros outros lugares que passaram e passam por um regime ditatorial, porém adepto do capitalismo. A aristocracia almeja viver como os americanos e para isto explora os pobres. Romero acredita que a igreja se identifica com os pobres, diz que a fé exige que se mergulhe no mundo, se torna um adepto da teologia da libertação. 

Sou a favor de um Estado laico até mesmo para ser justo com todos os que vivem no país garantindo a liberdade de cada um por optar ou não por uma religião. Porém a igreja não precisa ficar isenta do que se passa no país, deve defender aquele que está desamparado, com medo e que busca um apoio, um consolo por sua situação e uma luz para sair de sua atual situação.

Diante disto se pode dizer então que a igreja não pode estar separada do Estado e deve intervir, mas podemos também pensar que a igreja em seu papel espiritual e formadora de sentidos deve acolher as pessoas diante de suas dificuldades, dores, desespero, medo, mortes, pobreza, sem com isto se imbuir na política, mas sim, agindo ao lado do povo, uma vez que a igreja se identifica com os pobres seguindo o exemplo de Jesus, neste caso específico por se tratar da igreja católica no filme.
  


John Duigan nasceu em 1949 em Hartley Wintney, Reino Unido. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

FILME: A GAROTA IDEAL - 2007


Direção: Craig Gillespie - 2007
Duração: 91 min
Título Original: Lars and the real girl
País de Origem: Estados Unidos e Canadá

Lars Lindstrom (Ryan Gosling) vive na garagem de seu irmão mais velho, Gus (Paul Schneider) e sua cunhada Karin (Emily Mortimer). Ele é introvertido, tenta escapar de todos os convites insistentes de sua cunhada para tomar café ou jantar com eles. Tem um emprego, frequenta a igreja, mas é distante apesar de educado e simpático com todos. 

Através da internet ele encontra Bianca. O problema é que Bianca é uma boneca inflável erótica, mas Lars a recebe como uma mulher de verdade, e diz a todos que ela é uma missionária religiosa. Quando ela chega fala com sua cunhada inclusive para que ela possa ficar na casa deles, uma vez que não é bem visto uma mulher solteira ficar junto de um homem sozinho em sua casa. Karin fica feliz com esta novidade até... descobrir que Bianca é uma réplica de uma mulher mas feita de silicone. 

Karin e Gus procuram ajuda com uma psicóloga Dra Dagmar (Patricia Clarkson)  que lhes diz que ela é real. Esta ali na sala de espera com Lars, e para ele se trata de alguém. 

O filme é muito interessante, uma vez que vemos que questões psíquicas que normalmente seriam tratadas através de medicação, internação aqui tomam outro rumo, com a sociedade local que é pequena fazendo parte da encenação de que ela existe e é real. Falam com ela, a levam passear, lhe arrumam até um emprego de manequim numa vitrine.  

Desta forma surge a possibilidade para que Lars consiga expressar o que sente, e principalmente o que lhe faltou em sua infância, com a morte de sua mãe por ocasião de seu nascimento. Aos poucos Lars irá passando de apaixonado por Bianca ao afastamento, como no Édipo, e começará a se interessar por outras pessoas. Em seus encontros com a Dra. Dagmar sob o pretexto de tratar de Bianca, ele irá se abrindo e falando. Mas somente ele mesmo poderá encontrar uma saída para isto, e ao final poder afastar Bianca de sua vida da forma que lhe é possível e inclusive necessário para que possa se libertar de suas angústias e dores da infância. 

O filme é de extrema sensibilidade e respeito ao ser humano em suas dores de viver. E nos mostra que nem sempre tudo é patológico como a psiquiatria e a sociedade considera, levando a um tratamento através de medicação e que não iria resolver a questão de Lars. 

Craig Gillespie nasceu em 1967 em Sidney, Austrália

terça-feira, 8 de março de 2016

FILME: PODEROSA AFRODITE - 1995



Direção: Woody Allen - 1995
Duração: 94 min
Título Original: Mighty Aphrodite
País de Origem: Estados Unidos

Após um casal, Lenny (Woody Allen) e Amanda (Helena Bonham Carter) adotarem um menino, o pai adotivo resolve saber quem é a mãe biológica do menino. Após algumas peripécias e persistência ele descobre que se trata de uma prostituta chamada Linda (Mira Sorvino) também conhecida pelo seu nome artístico em filmes pornos por Judy Cum. Após conhecer a mãe de seu filho adotivo ele resolve aconselha-la a mudar de vida. Linda não sabe quem é o pai de seu filho e sequer imagina que está diante do pai adotivo dele. 

Tudo começa num restaurante onde dois casais, sendo que um deles aguarda um filho, e o outro é Lenny e Amanda discutem sobre filhos, adoções, parricídio, pais. Paralelamente veremos no decorrer do filme um Coro, nos remetendo à Grécia e seus coros nas tragédias. Na verdade Woody allen traz para este filme as tragédias de Medeia e de Édipo, trazendo-as para o mundo atual. Lenny não quer ter filhos e muito menos adotar um pois teme que seu sangue seja ruim e ele se volte contra ele. 

O Coro nos fala então sobre as tragédias de Medeia, que matou seus filhos, de Édipo que matou o pai e de como todos são vítimas do desejo proibido. Quando Lenny parte em busca da mãe de seu filho, equipara-se a Édipo que busca o assassino de seu pai, e o coro o alerta. "Ó maldito destino. Certas ideias é melhor não tê-las". 

O Filme nos fala das relações incestuosas, da violação da lei, do destino, do desejo, a culpa, o adultério. Vale a pena assistir e o final é ótimo. 

Woody Allen 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

FILME: MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA - 2015


Direção: Justin Kurzel - 2015
Duração: 118 min
País de Origem: Reino Unido - França - Estados Unidos

Macbeth (Michael Fassbender) e Banquo (Paddy Considine) são generais do exército do Rei Ducan (David Thewlis) da Escócia. Eles vencem uma revolta chefiada por Macdonwald e pelo Barão de Cawdor o que muito agrada ao rei. No caminho de volta os dois encontram-se com as três feiticeiras que lhes fazem profecias, saudando Macbeth como Barão de Glamis, Barão de Cawdor. Elas então dizem: Salve Macbeth, ainda serás rei! Menor do que Macbeth e maior! Nem tão feliz, entretanto muito mais feliz! E para Banquo - Tu engendrarás reis, embora nunca o sejas. 

A primeira profecia logo se realiza quando chegam os emissários do rei e saúdam Macbeth como Barão de Cawdor. Lady Macbeth (Marion Cotillard) que sofre por não poder dar um herdeiro à Macbeth incitará o marido para que haja e seja rei, matando o Rei Ducan durante seu pernoite na vila onde moram. A partir deste feito o medo e a culpa irá atormentar Macbeth que passará a agir para eliminar qualquer um que possa se intrometer em seu caminho, a começar por Banquo. Aos poucos todos estes atos de morte, o sangue em suas mãos que ele nunca mais limpará o leva cada vez a atos mais infames, movido pelo medo, pela ambição e pela ganância. 

Chega o momento onde Lady Macbeth já não suporta mais, o marido enlouquece, tem visões de todos que assassinou. Ele procura as feiticeiras e novamente ouve previsões, desta vez vindo de fantasmas de mortos: Cuidado com Macduff! Ninguém nascido de mulher poderá vencê-lo! Macbeth só será vencido quando o grande bosque de Birnam, subindo a alta colina de Dunsinane, marchar contra ele. 

Macbeth então decide atacar Macduff (Sean Harris), mas este fugiu. Ele então mata toda sua família, esposa e filhos. Lady Macbeth já não suporta. Ela morre. Macduff retorna para se vingar. Cerca o castelo, o bosque de Birman é incendiado, e sobe ao castelo em fumaça. Chega o momento do confronto entre Macbeth e Macduff, que vence ao dizer que nasceu de uma cesariana, retirado de dentro de sua mãe, não tendo nascido pelas vias normais. 

Macbeth era um homem bom, honrado, mas ao ouvir as profecias ele se deixa levar pela ganância e desejo de poder. Sua esposa o confronta ao seu desejo e ao dela, que também deseja ser rainha. Eles cometem o primeiro crime hediondo, com barbaridade. Mas a crença de que farei isto somente para atingir o poder e depois viveremos em paz não funciona, a culpa e os fantasmas os perseguem. O medo de que outro se apodere do trono fazendo com que este ato criminoso se torne vão o leva a cometer outros na ilusão de desta forma ficar livre. Lady Macbeth é perseguida pelas manchas de sangue que não consegue limpar. Ele aos poucos enlouquece. 

Após vencerem a batalha ambos, Macbeth e Banquo, podem estar desejando a recompensa do feito, eles lutaram e venceram para que o reino da Escócia seja livre, então provavelmente inconscientemente desejavam a coroa. Isto se projeta nas feiticeiras que verbalizam o desejo. A questão é que um será rei e o outro pai de reis. Há um descompasso entre os dois que desejam a mesma coisa, mas se por um lado Banquo se ressente por nunca ser rei, Macbeth se angustia por não ter descendência, levando seu ato criminoso a um final, sem continuidade e que vai perdendo a razão de ser. O homem deseja a imortalidade. 

Se as feiticeiras não surgissem, o desejo inconsciente de ambos teria ficado adormecido, em sonhos, mas ao serem simbolizados pela palavra passam ao consciente, e daí para a ação. Por outro lado o rei Ducan é uma figura paternal, era um velho de barba branca. Aqui então temos o parricídio. Outro ponto é que no inicio do filme vemos um Macbeth temeroso, em dúvida, que quer desistir. É lady Macbeth quem o instiga, como uma mãe ao filho, mas depois ocorre a inversão, é ele quem comanda e ela aos poucos definha. 


Justin Kurzel nasceu em 1974 em Gawler, Austrália

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

FILME: CAROL - 2015


Direção: Todd Haynes - 2015
Duração: 118 min
País de Origem: Reino Unido - Estados Unidos


Este filme é de uma delicadeza ímpar, e a parte o amor homossexual, o que mais me chamou a atenção foi o enfoque no amor feminino. Therese Belivet (Rooney Mara) trabalha numa loja de departamentos na sessão de brinquedos infantis, vive sozinha e tem um namorado. É época de natal, e Carol (Cate Blanchett), uma mulher elegante e refinada vai até a loja em busca de uma boneca para sua filha e é atendida por Therese. 

Carol é casada com Harge (Kyle Chandler) de quem está se divorciando. Há uma troca de olhares entre ela e Therese logo no início do filme, mas a aproximação das duas se dará pela solidão de ambas, pela insatisfação com suas vidas, pelas restrições que a sociedade impõe e pelo que espera da mulher, o que nem sempre está de acordo com ela deseja. 

Quando o marido de Carol a impede de passar o natal com sua filha, exigindo que ela vá junto passar com sua aristocrática família que condena o comportamento de Carol e sua amizade com Abby, madrinha da menina, ela se revolta e decide convidar Therese para fazer uma viagem com ela.

Carol está passando pelo processo de divórcio e a questão da guarda da filha, sendo que foi acusada de comportamento imoral devido sua relação com Abby. Esta viagem aproximará de vez ela com Therese, mas elas não sabem que estão sendo seguidas. 

O que toca é o singelo, a delicadeza, a busca de ser feliz, de poder viver sua vida. O que enfrentam, principalmente Carol, numa época onde o homossexualismo era condenado pela sociedade, o que talvez não difira muito de hoje no sentido do moralismo, uma vez que ainda é tabu. Sem apelos ao erótico, apesar de sua presença sutil, sem apelos ao vulgar, o filme nos traz duas mulheres apaixonadas que encontram uma na outra um sentido para suas vidas tão vazias até aquele encontro. O quanto esta relação transforma as duas. 


Todd Haynes nasceu em 1961 em Encino, Los Angeles, Califórnia, EUA. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

FILME: O REGRESSO - 2015


Direção: Alejandro González Iñárritu - 2015
Duração: 158 min
Título Original: The Revenant
País de Origem: Estados Unidos

1822 - Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) está com um grupo de homens no oeste americano caçando para ganhar dinheiro vendendo peles. Será atacado por uma ursa que defende seus filhotes que estão na mira de Glass. Fica num estado miserável, praticamente à morte. 

Como estão sendo atacados pelos índios constantemente que querem as peles para vender aos franceses, precisam ir embora, os amigos o levam até um trecho quando percebem que não é possível continuar neste passo, o deixam ali com seu filho e mais um jovem e John Fitzgeral (Tom Hardy) que se interessa apenas pelos ganhos financeiros. 

Fitzgeral propõe a Glass matá-lo para que possam ir embora e com isto ele salvaria seu filho, o que ele concorda, porém quando está sendo sufocado seu filho chega e briga com Fitzgeral que acaba matando-o. Em seguida diz ao outro jovem que viu os índios e que precisam partir. Glass fica ali, sozinho. 

O filme é uma longa jornada de retorno que é nutrida pelo desejo da vingança. São duas horas e meia de filme com Glass avançando pouco a pouco até o reencontro com Fitzgeral onde ocorre uma verdadeira carnificina. 

O interessante é que no meio destes homens rudes, quase que sem alma, surge a fala sobre Deus por duas vezes. A primeira é Fitzgeral que fala sobre seu pai de quando ele encontrou Deus e a segunda no final quando Glass se dá conta que a vingança é algo para Deus. 

O filme que nos mostra uma cena de horror quando Glass é atacado pela ursa demonstra claramente que o selvagem mesmo é o ser humano, inclusive através de uma placa deixada num índio enforcado com os dizeres: nós também somos selvagens. 

Iñárritu sempre trabalha filmes densos e nos mostra o pior do ser humano mesclado com algo de bom. O ser humano diante da morte, do real, do medo, da vingança, do ódio. A tentativa de ser bom por orgulho e vaidade. DiCaprio está brilhante na atuação, ele passa praticamente o filme todo falando através dos olhos e de expressões faciais. O silêncio impera no filme, a natureza e o homem no meio dela. 

Alejandro González Iñárritu 

FILME: O HOMEM IRRACIONAL - 2015


Direção: Woody Allen - 2015
Duração: 94 min
Título Original: Irrational Man
País de Origem: Estados Unidos

Vou comentar o filme, mas irei retornar à ele.

Um professor de filosofia Abe Lucas (Joaquin Phoenix) vive uma crise existencial, não encontra nenhum sentido para sua vida, sofre de impotência sexual, acha tudo sem graça, é um pessimista e considera até mesmo a filosofia um monte de palavras que não serve para nada. Ele chega para ser o novo professor em uma pequena cidade dos Estados Unidos. 

Jill (Emma Stone) é sua aluna e se encanta com ele, fica fascinada pelo seu intelecto. A professora Rita (Parker Posey) também se interessa apesar de casada, vê nele a possibilidade de uma nova vida em outro lugar, de preferência na Espanha. 

Será num encontro com Jill em uma lanchonete que atraídos pela conversa da mesa ao lado, Abe irá encontrar algo que dê sentido a sua vida. Compreende que é pelo ato que irá atingir uma completude, ora, nada mais existencialista. Ele mesmo cita durante o filme Kierkegaard, Kant, Heidegger, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. 

Abe planeja o assassinato do juiz que é o obstáculo a uma mulher para ficar com seu filho diante de uma separação conjugal. Ele irá chamar isto de "ato existencial", acredita que isto deixará o mundo melhor, mas quem imediatamente fica melhor é ele mesmo que volta a ter gosto pela vida e recupera sua potência sexual. Mas não existe crime perfeito como ele acredita. Jill desconfiará e o colocará diante da moral e da ética. Novamente vemos termos existencialistas atuarem, será o acaso, a contingência que determinará o final do filme. 

O irracional que se manifesta em um homem que lida com a razão, acredita nela. Desta vez Woody Allen que gosta muito da psicanálise parte para a filosofia existencial neste filme. 

Woody Allen 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

FILME: OS 33 - 2015


Direção: Patricia Riggen - 2015
Duração: 120 mim
Título Original: The 33
País de Origem: Chile - Estados Unidos

O filme retrata a angústia dos 33 mineiros que ficaram durante 69 dias presos a mais de 700 metros embaixo da terra  em Capiapó, Chile após uma explosão na mina onde trabalhavam em 05 de agosto de 2010. Abrigaram-se num lugar chamado refúgio que deveria estar preparado para emergências, mas o rádio nem estava instalado e um baú com comida continha muito pouco o que fez com que tivessem que racionar o alimento.Mario Sepúlveda (Antonio Banderas) assume a liderança para manter o precário equilíbrio mental e coordenar a distribuição do alimento. 

Na superfície a mineradora faz uma ligeira busca e decide que não há sobreviventes, porém, para sorte dos mineiros, Laurence Golborne (Rodrigo Santoro), o jovem Ministro da Energia resolve agir e graças a sua insistência junto ao Presidente do Chile consegue que a procura continue. Andre Sougarret (Gabriel Byrne) é o engenheiro encarregado da operação. 

Paralelamente vemos o drama das famílias dos mineiros que tem a frente María Segovia (Juliette Binoche) cujo irmão está lá embaixo e não desiste em momento algum de exigir que se faça algo. O filme inicia antes do acidente e nos introduz ligeiramente na vida de cada mineiro, suas famílias, ou sua solidão como o do boliviano que era seu primeiro dia na mina. Um deles era casado e tinha uma amante, (Paulina García e Adriana Barraza). 

Acompanhamos o drama que eles viveram e que na época foi acompanhado pelo mundo todo. Os momentos de desânimo, desespero, a coragem, a determinação. O filme também retrata bem a indiferença de uma empresa que considera como custo alto demais agir para o resgate, principalmente porque os considera mortos. 

Todos foram salvos, porém nunca receberam sequer uma indenização da empresa. O cruel lado do capitalismo que considera os trabalhadores como objetos para uso e exploração. Não precisa ir longe, atualmente vemos a Samarco no Brasil atuando da mesma forma com o povo de Mariana e toda região atingida pela lama e detritos de sua barragem.

No filme podemos ver como reage o ser humano em situações extremas. Soterrados, há momentos de união, porém é necessário um líder para impedir que um devore o outro, coma toda a comida em detrimento do outro, mas até mesmo este líder é humano e em determinado momento se acha superior aos outros, e pensa em tirar alguma vantagem do que está ocorrendo, até mesmo dando entrevistas e escrever um livro sobre o que ocorreu, sem envolver os outros, ficando desta forma com a fama. Tudo absolutamente humano. Do lado de fora vemos as famílias, as questões de cada uma, e a frieza do governo e das empresas, pois não fosse a juventude e a posição moral do ministro das energias, provavelmente estes mineiros teriam morrido ali embaixo de inanição, isto se não se matassem ou matassem ao outro.


Patrícia Riggen nasceu em 1970 em Guadalajara, México

FILME: GRACE DE MÔNACO - 2014


Direção: Olivier Dahan - 2014
Duração: 103 min
Roteiro: Arash Amel 
País de Origem: Estados Unidos - França

Cinebiografia da princesa de Mônaco, Grace Kelly, em um período conturbado para o principiado de Mônaco que estava em conflito com De Gaulle, então presidente da França.

Quando a atriz Grace Kelly casou-se com o Príncipe Rainier III de Mônaco em 1956 parecia um verdadeiro conto de fadas, o que sempre sucede quando uma pessoa que não é da realeza alcança este sonho, como outro exemplo, a Princesa Diana na Inglaterra. 

Mas a realidade nem sempre coincide com o sonho, e o filme começa num período onde Grace( Nicole Kidman) já mãe de dois filhos, não está feliz com sua vida repleta de cerimonial e posturas necessárias a sua posição de princesa. Ela então recebe um convite de Hitchcock (Roger Ashton-Griffiths) para voltar as telas de cinema, porém seu marido Rainier (Tim Roth) é contra, apesar de deixar a ela a escolha. 

Além disto o momento é delicado, Rainier sofre pressões do então presidente da França, Charles De Gaulle (André Penvern) que decide cobrar impostos de Mônaco ou retomar o principiado como território francês. Grace que havia decidido aceitar voltar ao cinema terá que rever sua decisão. Com a ajuda de seu melhor amigo e o único em quem confia, Francis Tucker (Frank Langella) ela irá operar uma mudança em si mesma em prol de seu marido e do principiado. 

O filme é uma ficção, apesar de vários fatos serem reais. Vale para um momento de descontração. O filme fica longe do La Môme sobre Piaf do mesmo diretor.


Olivier Dahan nasceu em 1967 em La Ciotat, França


A família com seus três filhos 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

FILME: BABEL - 2006


Diretor: Alejandro González-Iñárritu - 2006
Duração: 142 min
País: Estados Unidos - México - França
Roteiro: Guillermo Arriaga

Babel é um filme denso e extremamente atual que pode ser visto sob várias perspectivas. Um ônibus com turistas travessa uma região do Marrocos, nele estão Richard (Brad Pitt) e sua esposa Susan (Cate Blanchett), um casal de americanos, e outros europeus. Eles fazem esta viagem numa tentativa de reconciliação. No alto das montanhas estão dois garotos, Ahmed e Youssef que são pastores de cabras. Eles acabam de ganhar um rifle do pai para proteger os animais dos chacais. Eles competem entre si para ser o melhor atirador e duvidam do alcance do tiro da arma, para tirar a dúvida atiram primeiro contra um carro que passa na estrada, não acerta, e depois contra o ônibus. Susan é atingida.

Os filhos de Richard e Susan ficaram nos Estados Unidos aos cuidados de Amélia ( Adriana Barraza) que é a babá dos dois desde pequenos. Ocorre que é o dia do casamento de seu filho e não há ninguém para cuidar das crianças. Richard lhe diz que sente muito, mas que ela não poderá ir. Amélia porém não quer deixar de ir ao casamento que é numa cidade no México, e decide levar as crianças junto. Seu sobrinho Santiago (Gael García Bernal) vem buscá-la de carro.

No Japão um homem tenta superar a morte trágica de sua esposa que se suicidou e ajudar sua filha (Rinko Kinkuchi) que foi a primeira a encontrar a mãe e é surda. Ela é jovem, e vive a adolescência com toda a efervescência da sexualidade.

Partindo deste roteiro estas vidas irão se entrecruzar de alguma maneira, e o tiro dado nas distantes montanhas do Marrocos de alguma maneira afetará a todos. O interessante é que isto nos leva a pensar justamente no fato de vivermos num mundo global, onde algo que ocorre num lugar distante afeta a vários outros lugares e pessoas, mas o paradoxo é que se por uma lado tudo parece ligado e próximo, o isolamento é cada vez maior. Podemos também ver a história em dois planos familiares, dos pais e dos filhos. O casal americano que tenta se reconciliar no Marrocos e seus filhos que estão nos Estados Unidos e que com a babá irão para o México. O japonês que deu a arma a um guia marroquino que é o pai da jovem que é surda, e a família marroquina e seus filhos de onde parte o tiro inicial da trama.

Há também todos os aspectos culturais e do medo do estranho e os preconceitos. Aqui também novamente vemos também a falta de comunicação em função seja de ideias preconcebidas em relação ao outro ou pela própria língua falada, onde quando um marroquino fala a um americano, não há muita diferença da surdez da jovem em Tóquio. 

O comportamento dos europeus no Marrocos e do casal americano. Eles sentem medo das pessoas, se sentem em perigo na aldeia marroquina, estranham tudo e querem ir embora. Susan antes de ser atingida tem um gesto com o gelo quando almoçam jogando fora, dizendo que não se sabe de onde vem a água. Já os Marroquinos estão curiosos com o que está acontecendo, é uma vila do interior, algo de diferente está ocorrendo. Eles são prestativos, mas com sua aproximação assustam ao estrangeiro. Porém serão eles que serão solidários com Richard e seu drama, pois os europeus irão embora com o ônibus abandonando-os a sua sorte. O guia marroquino fará de tudo que for possível para ajudar e eles serão acolhidos na casa dele. 

Nos Estados Unidos o sobrinho de Amélia não se agrada dela levar as crianças, mas aceita. O menino diz que sua mãe lhe falou que o México é perigoso. Mas apesar do receio inicial, dos sustos, como crianças, acabam brincando com as outras crianças e se divertem muito na festa de casamento. O problema é na volta, quando o sobrinho embriagado cria confusão na alfandega diante da desconfiança do policial que ali está. Aqui vemos nitidamente os dois lados, o policial que desconfia dos mexicanos e os considera de alguma maneira um problema, e o mexicano que por saber que são vistos assim não é nada simpático e inclusive um tanto revoltado. Ele fura a barreira e se dá início uma perseguição que o levará a abandonar a tia e as crianças em pleno deserto. Amélia tenta encontrar ajuda, mas é presa. Apesar disto as crianças são encontradas, mas afastadas do perigo chamado Amélia, que ao ver da polícia é perigosa para elas, justo ela que as criou desde pequenas. O resultado é sua deportação para o México. A lei é fria e não leva em conta nada, as relações humanas que existiam ali, os 16 anos de vida de Amélia nos Estados Unidos, tudo isto é desconsiderado.

Os meninos marroquinos logo no início percebemos a rivalidade dos irmãos e que se acentua quando o pai designa o menor para dar o primeiro tiro o que faz com que o mais velho reaja. Ele pode dar o primeiro tiro, mas erra e isto é comentado. Youssef também observa a irmã se trocando, e depois acaba se masturbando nas montanhas. É esta rivalidade que irá levar ao tiro que dá início ao que ocorre no filme, é o gatilho. Youssef ainda é uma criança, mas que já se interessa por seu corpo e pelo o que sente. Seu irmão que é mais velho se contém, mas provavelmente também desejaria ver a irmã nua, que por sua vez é conivente com o irmão. Isto virá a tona quando o pai descobrir o que eles fizeram e que foram responsáveis pelo tiro, e ao inquiri-los Ahmed falará tudo, inclusive sobre isto, onde percebemos a raiva e a inveja que sentia de seu irmão mais novo e entregando-o se ilude ao acreditar que agora será o bom filho amado.

O tiro irá se transformar num atentado terrorista, principalmente com o incentivo da imprensa. De um acidente, de uma rivalidade entre irmãos que acabam cometendo um grande erro, chegamos ao terrorismo, e a polícia procura os terroristas. Um absurdo neste contexto, mas que demonstra a paranoia que é muito atual em relação ao outro, e principalmente do Ocidente em relação aos muçulmanos  confundindo pessoas que tem uma religião com pessoas desta mesma religião, mas que são terroristas. 

Enquanto isto a jovem no Japão se defronta com suas questões de sexualidade, ela tem dificuldades em lidar com isto, e acaba apelando para formas simbólicas ou gestuais para sinalizar seu desejo, de uma forma errônea, sem saber como agir. Como isto é recebido ou com risadas ou com rejeição ela se sente cada vez mais só em seu mundo. Ela tenta chamar a atenção, ser desejada, ser amada. Apesar de seu pai tentar ajudá-la há uma distância entre eles, primeiramente a típica de jovens em relação aos pais, mas também há uma frieza, uma falta de afetos, de aproximação maior, até que finalmente diante de algo que talvez desperte em seu pai um medo do suicídio, ele se rende a abraçá-la com amor. 

Poderíamos questionar o que leva um pai a dar uma arma a duas crianças? Ali trata-se de um ritual masculinizante, e para proteger o rebanho, matar os chacais que atacam as cabras. Mas a imaturidade dos dois os leva a competir entre si para dar tiros. A jovem no Japão apesar de surda tem um grupo, ela é inserida socialmente, mas lhe falta a mãe e outra mulher mais velha para lhe servir de espelho em sua feminilidade e como atuar com ela. Eles vivem num belíssimo apartamento com conforto, mas este espaço é frio e silencioso. 

Há também a questão do enfoque do filme. Em alguns momentos senti que o Marrocos e o México estariam sendo enfocados por um ângulo de muita pobreza, promiscuidade, como por exemplo, alimentos cheio de moscas em cima, mas se pararmos para analisar o filme veremos que o enfoque do europeu e dos americanos nos mostra uma suposta demonstração de superioridade , que estão amedrontados, são preconceituosos, tentando preservar-se longe de tudo que eles consideram uma civilização inferior, mas são tão sozinhos e desamparados quanto os outros. O Japão e sua bela cidade moderna, belos apartamentos, e a solidão, o vazio das vidas. Já o Marrocos com sua aparência de pobreza, não se esquecendo que as vilas de montanhas são assim, nos mostra um povo muito mais caloroso e hospitaleiro. Assim como os mexicanos e toda sua festa em torno do casamento. Como poderia uma mãe mexicana deixar de ir ao casamento de seu filho? A cena que mais me tocou foi quando Richard ao ir embora abre a carteira e retira dinheiro para pagar ao guia, que por sua vez recusa. Há uma incapacidade do americano em ver no outro alguém que foi solidário e que o acolheu em seu momento de dor e dificuldade, é como se ele considerasse que o outro lhe prestava um serviço e que teria que ser pago, e com isto também não há uma dádiva ali, mas ele quitaria sua dívida pagando.

Também me chama a atenção que apesar de Richard não dar queixa de Amélia, em momento algum ele se dispõe a defendê-la perante as autoridades levando em conta que ela estava com eles desde que seus filhos eram pequenos. O que vejo é a repetição do ato com o guia, ela era paga, ele não devia nada à ela. E por um lado não deixa de ser correto, é um trabalho, mas por outro me pergunto se caso fosse uma pessoa americana se ele não agiria de outra forma. De qualquer maneira talvez o fato de não dar queixa já seja uma maneira de demonstrar que ele aprendeu algo com tudo que ocorreu, seja o possível para ele dentro da cultura que vive. 

Ao final o que vemos são acontecimentos da vida, não há nenhum terrorismo, nenhum sequestro de crianças, nenhum tráfego de drogas nem de armas, exceto os criados pela mente humana dentro de seus preconceitos, medos, intolerância ao outro, dificuldades em lidar com o diferente, e a arrogância de alguns de se considerarem superiores ao outro e os efeitos que isto provoca. E é muito válida a crítica à imprensa que sempre sensacionaliza tudo, apelando para estes jargões e deduzindo em tudo um ato terrorista. 



Alejandro González Iñárritu nasceu em 1963 na Cidade do México, México. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FILME: O ABRIGO - 2011


Direção: Jeff Nichols - 2011
Duração: 120 min
Título Original: Take Shelter
Roteiro: Jeff Nichols 
País: Estados Unidos

Curtis (Michael Shannon) e sua esposa Samantha (Jessica Chastain) vivem numa pequena cidade de Ohio. Eles tem uma única filha com seis anos que possui uma deficiência auditiva. Apesar das dificuldades de conseguir ter os meios para ajudar a filha que precisa de uma cirurgia, eles vivem felizes e são até mesmo considerados um modelo de casal que tem uma vida boa pelos amigos. Até o dia em que Curtis começa a ter pesadelos com uma tempestade apocalíptica e fica obsessivo.

Além dos pesadelos, Curtis começa a ter visões, alucinações, como pássaros voando, mas a questão é que para ele isto é real, assim como seus pesadelos são premonitórios, um aviso. Mesmo assim ele procura ajuda, e vai visitar sua mãe que está internada por ser esquizofrênica. Durante um tempo ele esconde de Samantha o que está acontecendo, mas é impossível que ela não o perceba, uma vez que começa a ter um comportamento estranho e decide construir um abrigo no quintal para proteger-se e à sua família da tempestade que ele tem certeza vai acontecer.

Curtis começa a ir a uma psicóloga que o escuta, porém como é de um sistema de saúde conveniado, um dia ele chega e não é mais ela, é outro. Infelizmente esta interrupção acaba rompendo o processo ao qual ele já estava engajado. Seu melhor amigo não compreende o que está acontecendo com ele, e quando Curtis tem um pesadelo com este amigo que o atraiçoa, ele tem certeza disto, e pede seu afastamento de sua equipe o que gera no amigo um ressentimento que se transforma numa vingança, levando Curtis a perder seu emprego. Justo quando ele havia hipotecado sua casa novamente para construir o abrigo e a cirurgia de sua filha estava marcada, pelo convênio da empresa. 

Samantha o ama, e procura compreender e lhe dar apoio. Seu irmão chega com ares de mais velho lhe dando uma bronca, os amigos se afastam. Curtis além das alucinações se sente perseguido o que se evidencia em seus pesadelos quando seu cachorro o morde, seu amigo o agride, sua mulher o ameaça.



Percebe-se nitidamente a falta de preparo tanto no aspecto médico e psicológico como na sociedade em lidar com pessoas assim. E o interessante é que o final nos propõe algo até mesmo desanimador, uma vez que Samantha e a filha acabam digamos "contagiadas" pelo pânico, obsessão e delírios de Curtis. Isto me lembra claramente como uma paranoia se instala numa sociedade, como contaminando a todos, com algumas exceções que lhe escapam.



A cada um sua interpretação sobre o final do filme, alguns podem optar pela premonição, o transcendental, outros pela mente doente. Mas até que ponto um psicótico não está mais próximo ao real do que os outros? 

Curtis diante de seus pesadelos e visões no fundo tem medo, medo do histórico familiar, do que aconteceu com sua mãe. Ele oscila entre avaliar sua sanidade mental e o real de seu medo, do que sonha e vê. Ele receia  sua origem, não consegue e não tem um atendimento que o leve a falar, e reconstruir esta história. 


Jeff Nichols nasceu em 1978 em Little Rock, Arkansas, EUA.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

FILME: M. BUTTERFLY - 1993


Direção: David Cronenberg - 1993
Duração: 100 min
Roteiro: David Henry Hwang
País: Estados Unidos

Filme impressionante! Lembrando de início que não se trata de Madame Butterfly, a ópera sobre a história de um oficial da marinha americana Benjamin Pinkerton que se casa com uma gueixa Cio-Cio San. Ele retorna aos Estados Unidos prometendo voltar, o que não faz e se casa com uma americana. Butterfly (Cio-Cio San) então se mata. A ópera é de Giacomo Puccini e o filme esta relacionado a ela e também a fatos reais que inspirou uma peça de teatro de David Henry da qual o filme é a adaptação, sobre o relacionamento entre um diplomata francês, Bernard Boursicot, e um cantor da ópera de Pequim, Shi Pei Pu. 



René Gallimard (Jeremy Irons) é um diplomata francês em Beijing, China, nos anos 60. Ele conhece Song Liling numa apresentação na Embaixada que canta Madame Butterfly e se impressiona com ela. René é casado com Jeanne ( Barbara Sukowa), mas se apaixona por Song. Eles iniciam um relacionamento, e são separados quando começa a Revolução Cultural na China. O Embaixador Toulon (Ian Richardson) diante da depressão de René pela separação resolve que ele vai voltar para a França. 



Não entrarei em detalhes do filme, vale a pena assistir. Mas o que me impressionou é que se trata de um dos melhores filmes que assisti sobre a patologia do amor, quando completamente cegos não enxergamos mais nada.



René vê em Song uma idealização de mulher perfeita, influenciado por ela mesma e por tudo que sabe sobre a cultura oriental, onde a mulher é educada para agradar ao homem. Seu casamento não ia bem, e seu desejo é despertado diante de Song, ele se encanta e isto o torna absolutamente cego, a um ponto inimaginável que para muitos é difícil de compreender e acreditar, mas o fato é que isto é possível. Quando alguém se apaixona em geral se apaixona ou por si mesmo ou pelo o que vê na pessoa e deseja para si, mas isto normalmente está muito longe de quem é o outro. Quando a paixão se desfaz é que veremos o outro já de uma outra maneira, mas mesmo assim sempre permanece um véu, uma máscara atrás da qual está o verdadeiro outro. O filme nos mostra como funciona a paixão para o que está envolvido nela, que perde a noção do que é real para criar para si mesmo um ser desejado que é o objeto da paixão. 

A falta que René tinha e que preenchia com seu trabalho, e em sua dedicação inclusive de ser incorruptível desagradando aos seus colegas se volta para Song, ela vem preencher este lugar, e desperta em René o que ele escondia de si mesmo e não conhecia. 

Para se aprofundar mais é preciso falar do filme e do que acontece. 

David Cronenberg nasceu em 1943 em Toronto, Canadá

segunda-feira, 6 de julho de 2015

FILME: STARTING OUT IN THE EVENING - 2007


Direção: Andrew Wagner - 2007
Duração: 111 min
País: Estados Unidos

Adaptação do livro homônimo de Brian Morton

Leonard Schiller (Frank Langella) é um velho escritor que tenta escrever um último romance. Ele já fez muito sucesso, mas foi esquecido. Uma jovem acadêmica, Heather (Lauren Ambrose), deseja escrever uma tese sobre ele e o procura. Inicialmente ele resiste pois não tem muito tempo e quer continuar escrevendo, mas ela é insistente e ele acaba aceitando responder suas perguntas. 



Heather lhe diz que deseja reintroduzi-lo no mundo literário e para isto sua tese é importante, mas precisa poder adentrar em seus pensamentos e na maneira como ele escreve seus romances o que leva Leonard a recordar seu passado, mas há coisas que ele prefere não falar e a implacável jovem não se intimida, seu único objetivo é sua tese e para isto usa de formas abusadas, chegando mesmo a tentar seduzi-lo, o que obviamente mexe com este homem, que apesar de idoso, está vivo. Ela irá descobrir coisas de sua vida e lhe dirá cruamente. Ela leva em conta apenas seus primeiros romances que a agradaram porque a ajudaram em um momento de sua vida, e quer compreender porque ele mudou seu estilo, o que ela não aceita, e em sua soberba juvenil não percebe que as coisas mudam e que estes outros romances podem agradar a outras pessoas, como de fato agradam. 

Ariel (Lili Taylor) é a filha de Leonard que mora sozinha e que ligeiramente desconfia desta jovem impetuosa, mas ela está envolvida também em suas questões amorosas e no desejo de ser mãe e ter uma família. Ela termina seu romance com Vitor quando ele decide pedi-la em casamento, pois o que deseja é ter um filho sozinha e não se casar com ele, mas é justamente neste momento que retorna a cidade após 05 anos seu antigo namorado Casey Davis (Adrian Lester) por quem ela ainda é apaixonada. 

Aos poucos todos eles irão se confrontar com suas questões e ter que tomar decisões sobre ceder ou não às demandas do outro, ao desejo do outro ao invés de ao seu próprio. 

Será após sofrer um AVC que Leonard irá repensar sua vida e ter uma atitude para com Heather que aplaudi. 

O filme faz um retrato também do que é ser um escritor independente, que não se dobra à mídia ou ao que as editoras compram, como vemos num momento do filme em que um amigo de Leonard lhe diz que o respeita muito para enganá-lo, que sua editora só se interessa por livros de auto-ajuda e outros assim. Infelizmente percebemos no mundo atual o desaparecimento de grandes escritores que não são mais editados, que encontramos apenas nos sebos, mas alguns novos ainda conseguem se manter sem cair neste mercado de consumo. 

Heather no fundo não está interessada no sucesso de Leonard, ela quer se projetar como crítica, mas sem levar nada em consideração, nem o ser humano que está diante dela, e nem mesmo o gosto dos outros, pois quer moldar a escrita dele de acordo com o que ela deseja ler e lhe agrada, e no fundo me pergunto se muitos críticos não fazem isto, desapreciando excelentes livros porque não lhes interessam. A questão é que cada leitor tem um mundo próprio e costuma se projetar no livro. Independente das normas técnicas, para mim a grande literatura é aquele que consegue ser um espelho do mundo, refletir o que se passa na alma do ser humano, e não posso desconsiderar neste caso livros que refletem vidas que eu não gostaria de ter ou não conheço. 

Heather quer saborear o sucesso de relançar um escritor de acordo com o que ela acha que ele deve escrever, e para isto não se abstém de feri-lo, magoá-lo, cutucá-lo, acreditando que com isto ele voltaria a ser o escritor que foi quando jovem, aquele que ela quer. 


Andrew Wagner é um diretor de cinema americano

domingo, 5 de julho de 2015

DOCUMENTÁRIO: A FOTOGRAFIA OCULTA DE VIVIAN MAIER - 2013



Direção: John Maloof e Charlie Siskel - 2013
Duração: 84 min
Título Original: Finding Vivian Maier
País: Estados Unidos

Ganhou o Oscar de melhor documentário de 2015 

Vivian Maier passou a maior parte de sua vida adulta trabalhando como babá em um bairro rico de Chicago, mas sua grande paixão foi a fotografia, tirou milhares de fotos principalmente do cotidiano, de peculiaridades, de coisas bizarras, do humano, demasiadamente humano e também filmava, porém tudo isto ficou em segredo, ninguém sabia nada disto até que em 2007  John Maloof arrematou por 400 dólares 30 mil negativos e 1600 rolos de filmes não revelados. Ele não sabia o que iria encontrar, buscava fotos de Chicago para sua pesquisa e acabou encontrando Vivian Maier. 



Ele logo percebeu que tinha em mãos algo inusitado e de excelente qualidade. Procurou no google sobre ela e nada encontrou, o que o deixou ainda mais curioso. Numa nova pesquisa encontrou sobre o falecimento dela. Mallof iniciou uma busca obsessiva e acabou descobrindo muitas coisas sobre esta estranha mulher que tirava fotos fantásticas, mas nunca as mostrou a ninguém. 





Ao contrário do que a maioria busca que é ser reconhecido, Vivian não se interessava por isto, ela queria tirar fotos, apenas isto. Com o pouco que se sabe sobre sua vida através das descobertas de Maloof e do que relatam as pessoas que com ela conviveram, percebemos que possivelmente houve coisas difíceis em sua vida, talvez até mesmo um trauma, que acabou exacerbando uma sensibilidade aguçada para captar o ser humano pelo seu lado cômico, cruel, feio, banal, cotidiano, mas sem que isto retire a beleza de suas fotos. É impressionante. 

Vale conferir!








Charlie Siskel e John Maloof 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

FILME: A DAMA DOURADA - 2015



Direção: Simon Curtis - 2015
Duração: 109 min
Título Original: Woman in Gold
País: Reino Unido e Estados Unidos

Adaptação do livro homônimo de Anne-Marie O'Connor 

Li o livro há um tempo e está postado aqui no Blog. Trata-se da história da obra-prima de Gustav Klimt, o retrato de Adele Bloch-Bauer, da história de sua família na Segunda Guerra quando os nazistas entraram na Áustria, e do roubo de obras de arte. 


O filme foca mais na história do quadro, trazendo apenas através das lembranças de Maria Altmann (Helen Mirren), sobrinha de Adéle e legítima herdeira do quadro, algumas passagens do que ocorreu na Áustria, o suficiente para a compreensão do roubo e de como sua família foi atingida, para que possamos acompanhar a luta pela recuperação do quadro. Para uma história mais completa recomendo a leitura do livro. 



O filme inicia nos Estados Unidos quando Maria decide tentar recuperar o quadro, após encontrar uma foto dele nas coisas de sua falecida irmã. Para isto ela pede ajuda ao filho de uma amiga, um jovem advogado , Randol (Ryan Reynolds), inexperiente ainda mas que após ir à Áustria será tocado pela história de sua família que também eram judeus e viviam lá, e com isto ele abraçará a causa de outra forma do que apenas por dinheiro. 



Será uma luta árdua nos tribunais, uma vez que a Áustria não está disposta a abrir mão do que considera sua "Monalisa" e menos ainda de ter que admitir o que realmente fizeram e de como receberam os nazistas de braços abertos. Mas atualmente há pessoas no país que já não aceitam isto e se envergonham, e para tanto desejam se redimir e limpar a memória de seus antepassados. Maria e Randol terão a ajuda de Hubertus (Daniel Brühl). 

A primeira tentativa na Áustria não surtirá efeitos. Eles iniciaram um processe de restituição de obras de arte roubadas, mas não destas grandes, isto eles não querem fazer. Alegam que Adéle doou em testamento o quadro ao museu, o que porém não é verdade, uma vez que o proprietário do quadro era seu marido que fugiu durante o nazismo e deixou seus bens para suas sobrinhas. E Adéle jamais teria expressado este desejo, porque era isto que era o suposto testamento, se tivesse vivido o suficiente para ver o que aconteceria em seu país. 

Será preciso que surja a brecha para poder entrar com o processo nos Estados Unidos, uma vez que levar aos tribunais na Áustria é impossível pelo valor do custo. É a partir deste momento que as coisas começam a mudar. 

Há filmes e livros sobre o roubo das obras de arte pelos nazistas, mas este livro e filme se diferenciam porque contam a história do quadro e da família. 


Simon Curtis nasceu em 1960 em Londres, Reino Unido

sexta-feira, 26 de junho de 2015

FILME: O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD 2 - 2015


Direção: John Madden - 2015
Duração: 120 min
Título Original: The Second Best Exotic Marigold Hotel
País: Reino Unido e Estados Unidos

Sequência do primeiro filme. Agora Sonny (Dev Patel) quer comprar mais um hotel e parte para os Estados Unidos com Muriel (Maggie Smith) em busca de investimentos. Eles são informados que será enviado um inspetor para verificação do Hotel e seu funcionamento. Enquanto isto ocorrem os preparativos para o casamento de Sonny com Sunaina (Tena Desae). 

Reencontramos todos os hóspedes do Hotel. Evelyn (Judi Dench) agora faz um trabalho de compra de tecidos e acaba sendo contratada pela empresa. Ela continua interessada em Douglas (Bill Nighy), mas ainda não estão juntos. Norman (Ronald Pickup) junto com Celia (Madge Hardcastle) cuidam do clube. 

O Hotel recebe dois novos hóspedes, Lavinia (Tamsin Greig) e o Senhor Chambers (Richard Gere). Sonny pensa que Chambers é o inspetor e não dá muita atenção à Lavinia. Chambers se interessa pela mãe de Sonny e diz que é um escritor. 

A melhor parte do filme é o casamento de Sonny com Sunaina, com todos os rituais da Índia.


Mas também com toques de modernização.


Um bom filme para relaxar.


John Madden nasceu em 1949 em Portsmouth, Reino Unido