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sexta-feira, 29 de maio de 2015

FILME: ELA NÃO CHORA, ELA CANTA - 2011


Direção: Philippe de Pierpont - 2011
Duração: 78 min 
Título Original: Elle ne pleure pas, elle chante
País de origem: Bélgica e Luxemburgo

Adaptação da autobiografia de Amélie Sarn 

Excelente filme sobre o abuso sexual infantil, no caso incesto, e suas consequências, traumas, e de como as pessoas reagem à isto.

Laura (Erika Sainte) fica sabendo que seu pai sofreu um acidente e está em coma no hospital. Ela então revolve voltar e vai visitá-lo. É o momento do acerto de contas ou até mesmo de se vingar.

Laura sofreu abuso sexual na infância por parte de seu pai e sofre com as consequências disto. Ela tem dificuldade de se relacionar, de amar, em sua sexualidade. Carrega a dor e o ódio. Quando vê seu pai em coma começa a falar com ele, sobre tudo o que sente e o que pensa dele, ela revive o que ele fazia com ela, lembra de suas palavras - de ele a amava e que nunca lhe faria mal. Ela sentia medo, deixava e ficava quieta pois achava que ele iria deixar de ama-la se não se submetesse. Agora ela sabe que ele fazia isto para fazer com que ficasse quieta. Ela lhe diz que não acredita que ele não esteja escutando, que esteja em coma, que ele sempre faz de conta, finge. 

Ela deixou sua casa e foi morar sozinha num apartamento, tem um namorado, aliás teve vários que sempre terminam. A relação dela com o rapaz é estranha, ela o chama a noite e o manda embora de manhã. É como se repetisse tudo de novo, durante a noite. Ele gosta dela, mas não compreende o comportamento dela. 

Sua mãe fica feliz por ela ter voltado, seu irmão também. Ele tem dois filhos e em um dia onde Laura fica com as crianças e menina começa a cantar uma música que fala de cama, ela se assusta, faz algumas perguntas à menina, mas percebe que ela está projetando na criança o que ela passou. Que seu irmão não precisa ser como seu pai. 

A mãe tenta se reaproximar, e vai visitá-la pela primeira vez em seu apartamento. É o momento do confronto das duas. A mãe reage pela negação, dizendo que Laura inventa histórias, imagina, e que seu pai está lutando entre a vida e a morte e ela é uma egoísta como sempre, pois só pensa nela. Ela vai embora, diz que a filha a enoja. 

Laure decide então contar tudo ao irmão que nunca soube de nada. Ele a acolhe, pergunta porque ela nunca lhe falou nada, mas a criança abusada nunca fala, mesmo depois de adulta é muito difícil falar. Mas o ato de contar ao irmão a liberta, e também de alguma maneira a faz se sentir vingada do pai, pois agora ele pode viver, uma vez que nunca mais poderá fingir ou fazer de conta. 

O filme retrata bem as consequências do abuso na infância, o silêncio, a culpa, a dor, o ódio. A reação da mãe que infelizmente é o de muitas mães que acabam negando tudo, dizendo que a filha inventou tudo, que não conseguem aceitar que seu marido, o homem que amam faz isto, e que com isto pioram a situação da criança ou da filha mesmo adulta. 

Philippe de Pierpont 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

FILME: TRISTANA - UMA PAIXÃO MÓRBIDA - 1970


Direção: Luis Buñuel - 1970 
Duração: 95 min 
Título original: Tristana una pasion morbosa 
Roteiro: Luis Buñuel e Julio Alejandro
País: Espanha 

Baseado em romance homônimo de Benito Pérez Galdós

Trist(Ana) - triste Ana, um filme que pode ser olhado pelo viés do desejo e do abuso.

Tristana (Catherine Deneuve)  é uma orfã que é entregue aos cuidados de Dom Lope (Fernando Rey). Dom Lope é como um pai, mas é também um homem que não nega seus desejos e acaba tornando sua pupila sua amante.

Um sociedade hipócrita, moralista, católica onde um beijo na rua é um atentado ao pudor. Lope mantém Tristana em casa onde ela sufoca, vai à missa para poder respirar. Sai escondida e um dia conhece um pintor italiano Horácio (Franco Nero) com quem irá fugir, mas retorna dois anos depois doente. É levada a seu pedido para a casa de Lope. Tem sua perna amputada e está amarga e rancorosa, com ódio. Dom Lope dizia que a mulher correta era a que ficava em casa com a perna quebrada.

Tristana acusa Horácio de tê-la levado para lá, que um homem que amasse sua mulher não a levaria para outro. Ele disse que aguardaria até ela se curar, mas ele partiu após sua amputação. Ela se casa com Dom Lope, o padre estava certo, era uma forma de aplacar sua culpa e ser olhada de outra forma pela sociedade. Só que isto não acabou com seu rancor.

Tristana não conseguiu lidar com seu desejo inconsciente, ela desejou Dom Lope, mas não aceitava isto. No início do filme o sonho que se dá com os meninos, o despertar da sexualidade, ela meio que se defendendo, porque tem que ser assim, mas não efetivamente, o jogo da adolescência, do deixar tocar e afastar, eles sobem uma escada nesta brincadeira e quando chegam em cima Tristana vê a cabeça de Dom Lope no badalo do sino. Assustada acorda.

Por outro lado Dom Lope ocupa o lugar de pai, há um incesto aí pois ocupa simbolicamente este lugar apesar de não ser seu pai. Ela se deixa levar por ele, não resiste, entre o asco e o desejo, ela o quer mas não suporta isto.

Este ódio que se volta contra si mesma por ter permitido algo que não se suporta mas se deseja ao mesmo tempo ou contra quem o provoca.  Se ele tivesse se comportado como um pai ela poderia tê-lo amado. Na psicanálise desejamos o pai, mas ele castra a filha levando-a a desejar um outro homem, mas continua a amá-la com carinho paternal, ele não pode ser o objeto de desejo dela que é transferido para outro, e Tristana não o transferiu, apesar de tentar com Horácio, mas ela tem que ficar doente para retornar e ter sua perna amputada para não poder ir embora. Só matando ela vai se livrar disto, vai aplacar seu desejo, simbolicamente ou de fato. Ela não o mata, mas o deixa morrer fingindo ter solicitado socorro médico.


Luis Buñuel nasceu em 1900 em Calanda, Espanha e faleceu em 1983 na Cidade do México, México. Trabalhou com Salvador Dalí . Estudou com os Jesuítas em Saragoça e em 1917 foi para Madri onde conheceu Federico Garcia Lorca e Dalí, depois formou-se em Filosofia e Letras em 1924. Seu filme "Um cão Andaluz" é um marco do cinema surrealista. Com a Guerra Civil na Espanha mudou-se para os Estados Unidos e depois foi para o México naturalizando-se em 1949. Morreu aos 83 anos vítima de câncer. 

sábado, 28 de dezembro de 2013

FILME: VOLVER - 2006


Direção: Pedro Almodóvar - 2006
Duração: 121 min 
Roteiro: Pedro Almodóvar
País: Espanha 

Ganhou vários prêmios entre eles: European Film Awards, Prêmio Goya, Festival de Cannes, Festival de San Sebastián, César entre outros.

Volver - Retornar - repetir

Um filme de Pedro Almodóvar que enfoca o feminino e o materno, dentro de uma repetição patológica do trauma.



A avó, a mãe e a filha. Raimunda ( Penélope Cruz) foi estuprada quando adolescente pelo pai, e deste incesto nasceu sua filha. Agora ela vive com um homem que assumiu a paternidade da garota, sem que esta saiba que ele não é seu pai. Mas a história se repete, e este tenta abusar da jovem, que para se defender o mata.

Raimunda assume este assassinato, porém há algo que vai muito além do que se poderia pensar, ou seja, que fosse uma mãe protegendo a filha e sendo generosa e altruísta com ela. O que ela realmente faz assumindo a morte do companheiro é se vingar do pai que a violou. Seu pai e o pai da adolescente que matou de fato.



Este pai assassinado de forma inconsciente pelo ato real da morte do padrasto na verdade foi realmente assassinado, pela mãe de Raimunda, sua mulher que se cansou de suas infidelidades.

O filme mostra como um trauma se repete por várias gerações, até que num determinado momento se coloque um fim nisto, e a melhor forma é falando a verdade. Os segredos criam seus fantasmas e sempre aparecem de novo. Somente quando fantasmas não choram é que se pode acessar a verdade.

Mas também fala da morte, e daquela que é social, que se divide. O ritual de lavar os túmulos para o dia de finados que se repete todos os anos e que é sempre feito por mulheres. Mas lavar túmulos também se associa a limpar, tirar as manchas, eliminar o sujo. Elas limpam obsessivamente, é um ritual de purificação.

Assista ao trailer em espanhol





Pedro Almódovar nasceu em 1949 em Calzada de Calatrava, Espanha.

Música de Estrella Morente

Estrella Morente nasceu em 1980 em Las Gabias, Granada, Espanha. É uma cantora de flamenco. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

FILME: MÁ EDUCAÇÃO - 2004




Direção: Pedro Almodóvar - 2004
Duração: 106 min 
Título original: La mala educación 
Roteiro: Pedro Almodóvar
País: Espanha 

Durante uma crise criativa um cineasta recebe a visita de um rapaz que se identifica como seu amigo de infância e lhe traz um roteiro baseado nas experiências que ambos tiveram na infância num colégio. Ignácio (Gael García Bernal)  foi o primeiro amor do cineasta - Enrique (Fele Martínez) , que aceita fazer o filme, mas haverá revelações surpreendentes no decorrer do filme que trata do homossexualismo, mas também da pedofilia.



Revela a hipocrisia da sociedade em relação ao abuso sexual de menores, e ao mesmo tempo mostra o que ocorre dentro da igreja católica, tantas vezes envolvida em escândalos deste tipo.



A cena que mais me marcou foi o abuso na infância e quando ele corre e cai, um filete de sangue lhe desce dividindo seu rosto ao meio, dividindo sua vida no antes e no depois, cisão traumática.

A partir daí, nunca mais será a vida que ele poderia ter tido.

Assista ao trailer em espanhol






Pedro Almodóvar nasceu em 1949 em Calzada de Calatrava, Espanha. É um dos cineastas mais premiados na história do cinema. 

Pequenos Cantores da Catalunia

Trilha Sonora de Alberto Iglesias