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domingo, 26 de janeiro de 2014

LIVRO: DOLCE AGONIA - NANCY HUSTON


Huston, Nancy. L&PM Editores, 2008
Tradução: Cássia Zanon
240 páginas

Quem relembra o jantar de Ação de Graças que Sean Farrell oferece aos seus onze amigos é Deus. Se na "Menina que roubava livros" era a Morte, aqui temos Deus, porém, qual a diferença? pois se é Deus que determina o fim de cada um deles e os chama para si?

Logo no início no Prólogo no céu Deus fica espantado com sua própria criação, mesmo conhecendo tudo a respeito de cada um deles, são capazes de surpreendê-Lo. "Cegos, cegos... eternamente esperando e tateando, esforçando-se por acreditar na minha bondade, descobrir o sentido de seus destinos, entender os meus planos. Simplesmente não conseguem evitar a busca por um significado."

E lá estão eles reunidos para o jantar de Ação de Graças e enquanto se desenrola o jantar entre conversas, risos, piadas, lembranças, também cada um deles irá pensar em episódios de suas vidas, a dor, a velhice, a doença, a morte, a perda. A cada final de um capítulo, Deus nos contará como um deles irá voltar  para ele, independentemente do que eles desejam, do que sonham, a vida termina um dia, e nem sempre na hora que eles considerariam a melhor, a esperada. Neste ponto, Deus nos mostra uma faceta nada bondosa, uma vez que devido sua lógica do que traçou para cada um, dentro do universo que criou, ele os arrebata em momentos que impedem a alegria de uma criança, um reencontro, um momento de amor, mas em outros momentos Ele chega a tempo para fazer parar um sofrimento, uma dor que está se tornando intolerável.

Todos ali tiveram bons momentos, mas humanamente conseguem se apegar mais aos maus momentos, mesmo que ele tenha sido só um instante, mas outros, carregam traumas que são difíceis de esquecer. Como é fácil e perigoso julgar ao outro sem saber nada dele. Como um episódio, uma história é cômico para uns e desperta algo horrível para o outro. Como uma simples palavra - avião - pode trazer boas e más lembranças.

Um grande painel do que é o ser humano e do mundo ali, entre quatros paredes, como uma pintura, como uma Santa Ceia, muito bem construído por Huston.

Nancy Huston nasceu em 1953 na cidade de Calgary, Canadá. O abandono por parte de sua mãe quando tinha seis anos a levou para a literatura. Ela escreve principalmente em francês e é sua própria tradutora para o inglês. Obteve o Mestrado em Paris na École de Hautes Études en Sciences Sociales tendo como orientador Roland Barthes. Ela vive em Paris com seu marido Tzvetan Todorov e seus filhos.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: MARCAS DE NASCENÇA - NANCY HUSTON





Huston, Nancy. L&PM Editores, 2007
Tradução: Llana Heineberg
272 páginas
Prêmio Femina

"UM ADULTO NADA MAIS É DO QUE UMA CRIANÇA QUE SOFREU"

O livro retrata 04 gerações dividido em 04 capítulos que retrocedem narrando a infância de cada um quanto tinha 06 anos, no seu contexto histórico e social. A bisavó, a avó, o filho e o neto, iniciando com Sol, o neto, em 2004 e finalizando com a bisavó no fim da Segunda guerra. Ao terminar o livro senti vontade de lê-lo ao contrário, o que também seria possível.
Eles tem uma marca de nascença, porém as marcas são muito mais profundas e além do biológico, dos laços sanguíneos, deixando claro como estas marcas, traumas, questionamentos, dúvidas, ficam no inconsciente de uma família.
Huston nos mostra a infância como realmente ela é, sem a tão propalada inocência infantil, mas ao contrário, com a crueldade infantil que marca, o édipo, o ódio ao irmão(ã), o onipotência, típicas da infância. Os medos, as dúvidas, a descoberta da sexualidade, a falta de entendimento, as suposições que marcam, a experiência escolar, as descobertas, as discussões familiares, as alegrias, os traumas. Retrata como se forma o adulto através da criança, e deixa claro que nunca saímos da infância, como diria Manoel de Barros que chama suas memórias de infância, inclusive a velhice. A força das palavras e gestos que ficam, a força da mãe, como se grava na criança, a violência psíquica.
Vê-se claramente o inconsciente atuando, regendo uma vida, intemporal, sem idade, a eterna criança que ali está no adulto e que irá se transmitir ao outro, ao filho.
Um belo livro.

Nancy Huston nasceu em 1953 na cidade de Calgary, Canadá. O abandono por parte de sua mãe quando tinha seis anos a levou para a literatura. Ela escreve principalmente em francês e é sua própria tradutora para o inglês. Obteve o Mestrado em Paris na École de Hautes Études en Sciences Sociales tendo como orientador Roland Barthes. Ela vive em Paris com seu marido Tzvetan Todorov e seus filhos.