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segunda-feira, 8 de junho de 2026

FILME: TO KILL A TIGER - (Matar um Tigre)

 

Direção: Nisha Pahuja – 2002

Duração: 2h 7 min

País – Canadá – Índia

Disponível na Netlfix – acesso em junho/2026


Durante uma festa de casamento em uma pequena aldeia da Índia – Jharkhand - uma menina de 13 anos não retornou para casa. Algumas horas depois, ela é encontrada cambaleando.

Ela havia sido levada à força para uma área de mata e estuprada por três homens. Seu pai, Ranjit, vai à polícia, e os homens são presos. No entanto, as famílias dos homens detidos e os líderes da aldeia iniciam uma campanha para que ele retire as acusações.

É o início da luta de um pai para obter justiça por sua filha. Os moradores da aldeia alegam que a questão deve ser resolvida pela comunidade, e não pela justiça, e a solução é um casamento forçado para reestabelecer a honra da menina. O pai não aceita essa solução. Não aceita casar sua filha com um dos estupradores.  

O documentário é filmado ao vivo, e inclusive a equipe de filmagem é hostilizada pelos moradores da aldeia, ao mesmo tempo que a família da menina. Mesmo diante das ameaças e pressões, o pai decide ir até as últimas consequências para obter justiça por sua filha.

Não é um documentário fácil de assistir. A luta é árdua, e ficamos torcendo por esse pai que não aceita a imposição da comunidade. Para o Estado indiano, ao qual a grande maioria dos crimes sexuais não são reportados e resolvidos nas aldeias com casamentos forçados, é um caso inédito.

Os líderes das aldeias são homens, patriarcais, que olham para a mulher como um objeto. E temos um pai, também um homem, que se opõe a eles. Ele enfrentará inúmeros obstáculos e dificuldades, inclusive para sustentar sua família, mas não irá desistir de defender os direitos de sua filha na justiça e de buscar a condenação dos estupradores.

To Kill a Tiger é um documentário sobre violência sexual, mas também sobre a coragem moral. Sua luta transforma um caso particular em uma discussão universal sobre justiça, dignidade e os direitos das meninas e mulheres.


Nisha Pahuja nasceu em Nova Delhi, Índia, em 1967. É uma cineasta nascida na Índia radicada em Toronto, Ontário, Canadá. 


sábado, 6 de junho de 2026

FILME: QUANDO BANGLADESH CHOROU – FARAAZ



 

FILME: QUANDO BANGLADESH CHOROU – FARAAZ

Direção: Hansal Mehta – 2023

País: Índia

Duração: 1h 52 min


O filme é inspirado no atentado em Daca, Bangladesh, em 2016, em um restaurante que deixou 20 civis mortos, além de policiais e dos próprios terroristas. O local era o Holey Artisan Bakery, localizado no bairro diplomático.

A importância deste filme neste momento, no Brasil, é que mostra o que são, de fato, terroristas. Diante da tendência de considerar narcotraficantes ou grupos de resistência armada, em outros lugares, como terrorismo, é importante saber diferenciar essas três categorias.

A resistência armada, ou guerrilha, tem como objetivo lutar contra invasões de seus territórios, ocupações, ditaduras ou governos opressores e busca a libertação do território, a independência ou uma mudança de regime político.

O terrorismo, por sua vez, tem como objetivo coagir governos, impor ideologias, desestabilizar a ordem pública ou o governo através da intimidação e do medo generalizado.

Enquanto a resistência armada procura evitar atingir a população civil, o terrorismo não se importa com isso; ao contrário, a população costuma ser seu principal alvo, atacando locais públicos e cidadãos desarmados.

O narcotráfico são organizações criminosas que atuam no tráfico de drogas, pessoas e outras atividades ilícitas em larga escala, formando redes de crime organizado.

O filme relembra o atentado em Bangladesh perpetrado pelo Estado Islâmico (ISIS), um grupo extremista armado de ideologia jihadista sunita. Seu objetivo é instituir o califado, isto é, um governo sob interpretação rigorosa da lei islâmica – a sharia. São considerados terroristas devido seus ataques contra civis, execuções brutais, extrema violência e destruição de patrimônios históricos e culturais.

Cinco jovens foram cooptados pelo ISIS. Um deles é bem educado e formado em Universidade. Eles passam a acreditar em uma interpretação extremista e distorcida do Alcorão, convencendo-se de que, ao morrerem, irão para o paraíso e de que o martírio representa uma honra.

Faraaz (Zahan Kapoor) é um jovem muçulmano que está no restaurante acompanhado de duas amigas estrangeiras. Ele conhece o líder do grupo (Aditya Rawal), justamente aquele que estudou na Universidade. O confronto entre os dois deixa clara a diferença entre suas interpretações do Alcorão.

Durante o ataque, os terroristas matam todos os estrangeiros e não-muçulmanos, enquanto poupam os muçulmanos. Ao mesmo tempo, começam a pregar, afirmando que Bangladesh precisa voltar a ser o que era no passado. Em determinado momento, as críticas feitas pelo líder ao Ocidente apresentam questões legítimas, mas isso não serve, em hipótese alguma, como justificativa para atos terroristas.  

Foram horas de terror até que eles libertam os muçulmanos. No entanto, Faraaz se recusa a sair sem suas amigas estrangeiras e sela seu destino.

Outro ponto que chama a atenção, e não apenas neste filme, é a sensação de desorganização na polícia indiana e, neste caso, bengalesa. Elas aparecem sempre discutindo entre si e demonstrando dificuldade para agir de forma rápida e coordenada. No filme, ao final, quem invade o restaurante e mata os terroristas é o Exército.

Preciso incluir aqui um adendo: os Estados tendem a definir como terroristas os grupos que desafiam sua autoridade por meio da violência. Ao mesmo tempo, grupos insurgentes costumam se apresentar como movimentos de libertação, resistência ou revolução. “O terrorista de uns é o combatente da liberdade de outros”.

Terrorismo é um conceito frequentemente disputado na política internacional, mas naquele dia em Daca, no restaurante, se manifestou de forma concreta.


                          Hansal Mehta nasceu em Mumbai, Índia, em 1968. É um cineasta indiano. 


quinta-feira, 4 de junho de 2026

FILME: A VOZ DE HIND RAJAB


 

A VOZ DE HIND RAJAB

Direção: Kaouther Ben Hania - 2025 

Duração: 1h 30 min

País: Tunísia


É muito difícil falar deste filme por várias razões. Em primeiro lugar, por se tratar de uma obra que, mesmo sendo uma dramatização, utiliza as gravações originais da criança pedindo ajuda e repetindo sem parar: “Vem me buscar! Estou com medo!”

Em segundo lugar, devido ao contexto atual, no qual se trava um embate entre o que é considerado antissemitismo e o que é entendido como antissionismo. O Ocidente, de modo geral, se posiciona ao lado de Israel, sendo que as vozes dissidentes, em muitos lugares, enfrentam detenções, expulsões de Universidades e outras formas de retaliação.

O impacto do filme é avassalador. Não tenho conhecimento de nenhum outro que traz literalmente ao vivo, o desespero de uma criança em uma guerra. Temos muitos filmes realizados posteriormente com sobreviventes, mas aqui acompanhamos o drama praticamente em tempo real.

Uma menina palestina de 5 anos chamada Hind Rajab ficou sozinha e presa dentro de um carro em Gaza após todos seus familiares terem sido mortos pelo exército de Israel quando tentavam sair de uma região sob ataque, em janeiro de 2024.

Durante horas, ela manteve contato por telefone com o Crescente Vermelho na Cisjordânia, distante 83 km de onde ela se encontrava. Ela implorava ajuda. Ao fundo, ouvem-se tiros. Ela está escondida sob os corpos de seus familiares.

O desespero das pessoas que estão do outro lado da linha. Em vários momentos, a impotência as leva ao descontrole. A ambulância estava a apenas oito minutos do local onde a criança se encontrava.  Havia, porém, toda uma burocracia exigida por Israel para eles poderem chegar até ela.

Era necessária uma coordenação junto a Cruz Vermelha, o Ministério da Saúde e o Exército de Israel. Após uma espera de 3 horas, chega o sinal verde para a ambulância seguir até o local. Quando os socorristas finalmente chegaram, perderam o contato tanto com a menina quanto com a equipe de resgate.  

O filme encerra-se nesse momento. O que sabemos depois vem das notícias que podemos ler em jornais e dos letreiros finais do filme.

 Somente em fevereiro, após o fim do cerco naquela região, as equipes de resgate conseguiram chegar ao local. Encontraram a ambulância destruída e os corpos dos dois socorristas e um pouco mais à frente, o carro da família e o corpo da criança. O carro foi atingido por mais de 350 tiros, segundo noticiado em jornais.

A sensação que permanece é a de uma imensa crueldade. Exigir durante horas que se estabeleça uma coordenação com rota segura para o resgate e depois simplesmente alvejar a ambulância e assassinar uma criança.

As normas internacionais de guerra determinam que ambulâncias sejam protegidas, equipes médicas não podem ser alvos em conflitos e civis não devem ser atacados diretamente. Hospitais devem, na medida do possível, serem preservados. Israel ignora essas normas sob a alegação de que o Hamas se esconde nesses locais e se utiliza de ambulâncias para se deslocar.

O que torna o filme quase insuportável não é apenas a morte da criança, mas a longa espera. Durante horas, ouvimos Hind pedir ajuda. Sabemos que ela está viva, sabemos que está com medo, sabemos que há pessoas tentando alcançá-la. Ainda assim, o socorro não chega. O espectador termina o filme com uma sensação profunda de impotência diante de uma violência que parece ter perdido qualquer limite moral.

 

                               Kaouther Bem Hania nasceu em Sidi Bouzid, Tunísia, em 1977. 



domingo, 31 de maio de 2026

FILME: A NEGRA DE ....


 

A NEGRA DE ....

Direção de Ousmane Sembène – 1972

Duração: 65 minutos

País – SenegalFrança


Baseado em um conto da coleção Voltaique de Sembène, de 1962, que por sua vez foi inspirado em um incidente da vida real. Embora, tenha sido mal recebido pelos críticos de cinema ocidentais em seu lançamento inicial, na década de 2010 passou a ser visto como um clássico do cinema mundial. 


Diouana (Mbissine Thérèse Diop) é uma jovem senegalesa que vive em Dakar, no Senegal, e está a procura de emprego como babá. Passa dos dias batendo de porta em porta até o dia em que conhece um rapaz, que se tornará seu namorado, e que a leva a um local - A Praça das Babás - onde estão várias mulheres aguardando para que sejam escolhidas por alguém para trabalhar. 

Surge então Madame (Anne-Marie Jeninek), uma francesa em busca de alguém para cuidar de seus filhos. As outras mulheres imediatamente cercam Madame, enquanto Diouana permanece sentada e, juntamente por isso, foi escolhida, por não ter sido agressiva nem exigente. 

Diouana fica muito feliz por conseguir um emprego e oferece aos patrões uma máscara tradicional de presente, que comprou de um menino por 50 francos. A máscara agrada aos patrões, que passam a exibi-la em uma parede de sua casa. A vida segue, Diouana cuida das crianças e, quando está de folga, encontra o namorado. 

Madame e Monsieu (Robert Fontaine) vão retornar para a França e convidam Diouana a ir com eles para continuar cuidando das crianças. Ela fica absolutamente encantada, vai conhecer a França. Conta para sua mãe, que autoriza que ela vá. Ela sonha com o dia em que pisará nesse país que colonizou o Senegal. 

Assim que chega, Madame a encarrega de trabalhos domésticos que ela não fazia em Dakar. As crianças estão de férias, e ela terá que limpar, cozinhar, lavar e passar, o que a deixa indignada, pois não foi para isso que foi contratada. A patroa passa a tratá-la com rispidez, ao contrário do que fazia no Senegal. Ela, que tanto sonhou em conhecer a França, não sai do apartamento, é praticamente uma prisioneira. Não conhece ninguém, não fala a língua, e Madame não a leva sequer para conhecer a cidade e as lindas lojas sobre as quais dizia à Diouana que havia na França e que a encantariam. 

Madame agora a trata praticamente como uma escravizada. Manda-a tirar seus sapatos de salto alto, dizendo: "Não esqueça de que você é uma empregada doméstica". Todo o racismo vem à tona, tanto o dela quanto o dos convidados que vão almoçar na casa dos patrões. Um deles a beija no bochecha e diz: "Nunca beijei uma negra antes". Durante o almoço, ouvimos as conversas dos franceses, marcadas por visões colonialistas e racistas. 

Chega uma carta da mãe de Diouana, que o Monsieur lê para ela. Na carta, a mãe pergunta por que não tem notícias dela e por que não enviou dinheiro, conforme combinado? Diouana a cada dia que passa fica mais deprimida. Levanta tarde, não faz mais nada, e Madame diz que, se ela não trabalhar não vai comer. 

Monsieur tenta animá-la e lhe paga seu salário, que ela não aceita. Em seguida ela recupera a máscara, arruma sua mala, e se mata na banheira da casa. 

A notícia do suicídio sai no jornal - A negra que se matou no apartamento de franceses. 

Monsieur então vai para Dakar, leva a mala e a máscara para entrega à mãe de Diouana. Também quer dar o dinheiro do salário, mas a mãe recusa. Ele vai embora e é seguido pelo menino que havia vendido a máscara, agora recuperada, que corre atrás dele usando-a sobre o rosto. 

O roteiro de A Negra de... foi rejeitado pelo então chefe do Departamento de Cinema do Ministério da Cooperação, que financiava filmes francófonos, provavelmente devido ao tema do filme. Sembène reduziu o filme para uma hora de duração para cumprir as exigências do Centre National du Cinéma e a produção foi feita com um orçamento muito baixo. Em 1981, Angela Davis observa (sobre as trabalhadoras domésticas): "O seu dilema trágico é brilhantemente captado no filme de Ousmane Sembène intitulado A Negra de...."

As críticas dos países colonizadores na época do lançamento do filme foram a favor de Monsieur que segundo eles era atencioso. A observação sobre a recepção de Monsieur mostra como muitos espectadores europeus da época enxergavam a violência colonial apenas quando ela era explícita. Como Monsieur não agride Diouana fisicamente e demonstra alguns gestos de aparente gentileza, parte da crítica ignorou que ele participa da mesma estrutura de exploração e confinamento que a destrói. A dominação nem sempre se apresenta como brutalidade aberta; muitas vezes ela se manifesta como paternalismo, tutela e "boa intenção".

A obra aborda questões raciais, a persistência das relações coloniais e os efeitos psicológicos da dominação colonial. Nesse contexto, a máscara presente ao longo da narrativa assume um forte valor simbólico, representando identidade, apropriação cultural e resistência.


Ousmane Sembène nasceu em Ziguinchor, Senegal, em 1923 e faleceu em Dakar, Senegal, em 2007. Foi um diretor senegalês e escritor. 

O filme está disponível na plataforma do Telecine. Acesso em maio de 2026. 


 



segunda-feira, 8 de maio de 2017

FILME: EDVARD MUNCH - A vida do pintor de O Grito - 1974



Direção: Peter Watkins - 1974
Duração: 221 min
País de Origem: Noruega - Suécia

São 4 horas de duração que apreciei a cada minuto. A arte de Munch sempre me interessou e mesmo não sendo quadros que se poderia chamar de bonitos são de uma beleza imensa e intensa, retratando o interior do pintor, o que via e sentia. Acompanhamos toda a criação artística que reflete sua vida. Aliás o filme é considerado um dos melhores filmes já realizados sobre o processo de criação artística. 

Marcado pela infância que o persegue que o filme nos traz com constantes flash backs. Uma família puritana, a mãe morre quando ele era pequeno de uma hemorragia no pulmão. Neste momento antes de morrer ela o faz prometer que continuará seguindo e amando Jesus. Depois é a morte do mesmo modo de sua irmã Sophie. 

Os desencantos amorosos e com as mulheres que define serem de três tipos: a sedutora, a inocente e a mãe, mas que estão em uma só. 

O filme mostra sua trajetória e também um painel da história e dos artistas e intelectuais, escritores e filósofos. É o retrato de uma época onde os intelectuais se rebelam contra a burguesia e seus valores. Niilistas, anarquistas, Marx escreve "O Capital". A mulher e a sexualidade. 

A pintura de Munch é escura, melancólica, incomoda. Me lembram os quadros dos pacientes de Nise da Silveira. É o psiquismo que se projeta ali. Seu quadro mais famoso é "O Grito". 

Peter Watkins nasceu em 1935 no Reino Unido

06/06/16 

domingo, 29 de maio de 2016

FILME: ELE ESTÁ DE VOLTA - 2015



Direção: David Wnendt - 2015 
Duração: 101 min
Título Original: Er ist wieder da 
País de Origem: Alemanha 

Baseado no livro Ele está de volta de Timur Vermes.

Um filme comédia e documentário que todos deveriam assistir.

O ano é 2014 e Hitler (Oliver Masucci) acorda perto de seu bunker em Berlim e tenta entender o que ocorreu ao mundo, para isto se vale de ler todos os jornais numa banca de um jornaleiro que o acolheu. Enquanto isto em uma grande emissora de TV uma mulher toma posse da diretoria e o vice que acreditava que seria promovido se torna seu inimigo. É ele quem demite um cinematógrafo, justamente quem irá encontrar Hitler.  Resolvem então rodar pela Alemanha para que Hitler possa ouvir as pessoas. 

O estarrecedor, ou não, já nem sei, é que as filmagens sobre Hitler falando com pessoas é real, e a reação que as pessoas tem assustam até mesmo o ator. Hitler ouve atentamente o que o povo tem a dizer sobre a Alemanha.   

A emissora de TV lhe dará espaço e o promoverá, tudo por audiência. Até mesmo quando o vice consegue tirar a nova diretora e lhe perguntam se então é a favor de Hitler ele responde - agora eu sou o diretor. Ou seja, a partir deste momento seus princípios, se é que tinha algum, deixam de valer, e o que importa é a audiência. 

O filme mostra claramente o que é a mídia, mas pior que isto, é ver como as pessoas buscam um herói que as livre de tudo aquilo que consideram estranho, diferente, pois uma das principais queixas dos alemães são os emigrantes, apenas trocam os judeus pelos muçulmanos, africanos e outros. 

Hitler sabe que o povo espera este salvador, e sabe fazer uso da propaganda. Interessa-se de imediato pela Televisão e pela internet. Mas também percebe que na TV só passa besteiras, entretenimento, o que evita que as pessoas pensem. As pessoas riem com o personagem Hitler, mas que no filme é o próprio. Hitler sabe que o melhor momento para ele é quando há crise, insatisfação, problemas econômicos. O discurso de salvar o país, a Alemanha para os alemães, recuperar a moral e a tradição, a família. Os alemães que aparecem no filme dizem que é necessário uma experiência nacionalista para que se recuperem os bons costumes, se combata os corruptos, haja emprego. Temas atuais e tão conhecidos nossos também. 

O filme que serviu de alerta para o povo alemão deve servir para outros países também. Há uma tendência para a extrema-direita seja na França, Áustria e outros países, inclusive o Brasil. O que fica visível no filme é a manipulação da mídia e da política, do discurso que vai de encontro ao que deseja o povo. Isto é impactante. O final do filme quando Hitler diz que não adianta matá-lo, que ele está em cada um de nós é uma verdade que é difícil de digerir. Ele lembra então que quem o elegeu foi o povo. 

Após a apresentação dos nomes dos participantes há cenas do mundo atual, que em nada diferem do que foi o fascismo. E o único que se deu conta e resolveu agir, bom este, acaba internado num hospital psiquiátrico.

Temos que ver este filme, pensar, se analisar. O racismo, o sexismo, a violência, o desejo de se livrar do diferente e estranho, a necessidade de que venha um salvador e resolva tudo isto, tudo isto ainda é atual. 

David Wnendt nasceu em 1977 em Gelsenkirchen, Alemanha

terça-feira, 24 de maio de 2016

FILME: NISE O CORAÇÃO DA LOUCURA - 2015


Direção: Roberto Berliner - 2015
Duração: 108 min

Após sair da prisão, foi presa por suspeita de ser comunista, Nise da Silveira (Glória Pires) volta a trabalhar em um hospital psiquiátrico, o Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II - Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Ela retorna quando está em voga os novos tratamentos com eletrochoques e a lobotomia. Assiste a apresentação de um psiquiatra que demonstra com um paciente os efeitos do tratamento com choques. Aquilo a choca profundamente e é incapaz de aceitar isto. Por isto a única opção que lhe resta é o Setor de Terapia Ocupacional que é de responsabilidade dos enfermeiros. 

Ela encontra um ambiente desolador, bagunçado e sujo. A primeira coisa que faz é limpar e organizar o lugar. Apresenta aos médicos sua proposta, uma vez que eles são os responsáveis pelo tratamento dos internados, e não há receptividade, mas mesmo assim alguns pacientes lhe são encaminhados. É o início de uma nova maneira de se tratar a doença mental, tratando ao doente de forma digna e humana. 

Nise irá lutar com a resistência dos médicos que se baseiam muito mais no organismo, o cérebro, sem levar em conta a afetividade, as relações humanas. Até hoje a ciência foca no organismo e não no psiquismo, visto a utilização de remédios para "curar" a depressão, a ansiedade, ou qualquer outro transtorno. 

A incapacidade de enxergar os resultados, considerar isto como ocupação e não um tratamento, olhar para os desenhos e pinturas e não ter a sensibilidade de captar o simbólico que está ali no lugar da palavra. A necessidade da paciência e da observação do psiquiatra e deixar o cliente como Nise passa a chamar os internados livre para fazer o que deseja, é mais fácil os eletrochoques, a lobotomia, os remédios. O caminho da melhora e da cura é longo para aquele que está na escuridão de sua mente, de seu psiquismo, cindido, e tentando um contato com o mundo a sua volta. O psiquismo sempre procura se recompor, e é isto que ocorre nos sonhos, nos desenhos, nas pinturas, nas esculturas. Nise acompanha cada um na sequência do que vai produzindo, é ali, nesta trajetória que ela lê e compreende o que se passa, percebe a melhora, as tentativas de falar. 

Os que participam do projeto de Nise aos poucos melhoram, alguns chegam a voltar para suas casas, sua família, a agressividade diminui, o distanciamento diminui. É lamentável a falta da compreensão do hospital com os animais, cães encontrados na rua que são dados aos clientes para que cuidem deles, levando a uma crueldade de matá-los por envenenamento. Um dos internos surta neste momento, e será feito uma lobotomia nele. 

Um famoso crítico de arte verá as obras e ficar impressionado. A partir deste momento será levado ao público esta produção, mas Nise nunca permitirá a venda delas, pois ali não se trata de uma obra para venda, mas todas tem seus significados psiquiátricos, e devem ser vistas no conjunto. 

Entre os que se destacaram artisticamente estão Adelina Gomes (Simone Mazzer), Carlos Pertius ( Julio Adrião), Fernando Diniz (Fabrício Boliveira), Lucio (Roney Villela), Otávio (Flávio Bauraqui), Raphael (Bernardo Marinho)  e principalmente Emygidio de Barros (Claudio Jaborandy). 

O filme foca no tratamento pela arte que Nise desenvolve apoiada em Jung, principalmente devido as mandalas que os internos desenham. Nise é uma mulher admirável, e por sorte, teimosa, persistente, diante dos médicos todos homens, machistas, e da sociedade que até os dias atuais tem medo do que chamam de loucos, e tem preconceitos com doenças mentais. 


Roberto Berliner nasceu em 1957 no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

FILME: O BALÃO VERMELHO - 1956


Direção: Albert Lamorisse - 1956
Duração: 34 min
Título Original - Le Ballon Rouge
País de Origem - França

Paris, anos 50, um garoto encontra um balão vermelho indo para a escola. Ele o pega e o leva junto. É o início de uma história mágica. O balão é quem o segue, lhe obedece. Porém logo o ciúme dos outros meninos irá estragar esta amizade diferente entre o menino e o balão. Um professor também não gostará nada disto e o castigará. 

O ciúme, o preconceito, a rivalidade, a não aceitação de algo diferente levará a um final trágico, mas também especial e mágico. A solidão de uma criança excluída dos bandos que se apega a um balão, pode parecer fantasioso, mas é comum, a criança solitária se apegar a algo inanimado e lhe dar vida para ter companhia. 

Recomendo!!

Albert Lamorisse nasceu em 1922 em Paris, França e faleceu em 1970

FILME: XXY - 2007


Direção: Lucia Puenzo - 2007
Duração: 90 min
País de Origem: Argentina - Espanha - França

Um belo filme que nos fala da transexualidade que serve para que as pessoas possam compreender melhor do que se trata e de como uma pessoa que nasce com as duas características sexuais se sente e o preconceito que existe. 

Alex (Inés Efron) filha de Kraken (Ricardo Darin) e de Suli (Valeria Bertuccelli) nasceu com ambas as características sexuais. Seus pais para se afastar dos preconceitos e dos que acreditam que é necessário corrigir a ambiguidade sexual da criança se mudam para um vilarejo no Uruguai onde kraken trabalha como biólogo. 

Alex toma hormônios para se tornar uma menina, mas começa a resistir a isto e para de tomá-los. Nesta época recebem a visita de um casal de amigos com um filho adolescente, Alvaro (Martin Piroyansky), cujo pai é um médico que faz as cirurgias de correção. A mãe de Alex deseja esta cirurgia, porém seu pai não acredita que isto seja a solução, considerando que seria uma violência ao corpo de Alex.

Alex e Alvaro se sentem atraídos, até que tem um encontro sexual revelador para ambos. Os garotos do vilarejo desconfiam que há algo de errado e acabam cercando Alex numa praia e descobrem que ela é uma menina com órgãos genitais duplos. 

O filme é uma lição, pois o pai de Alex compreende o drama de Alex, e a apoia em suas decisões quando opta por não fazer uma cirurgia e ser como é, escolha difícil diante de uma sociedade que não aceita isto. 

O filme é sensível, e vem ao encontro dos preconceitos, da dificuldade que as pessoas tem em aceitar tudo que não seja o considerado normal. Mas o importante é que mostra que sexo biológico, gênero e opção sexual são coisas diferentes, e isto ainda é muito pouco compreendido. 

Lucia Puenzo nasceu em 1976 em Buenos Aires, Argentina

segunda-feira, 16 de maio de 2016

FILME: A ONDA - 2008



Direção: Dennis Gansel - 2008
Duração: 108 min
Título Original: Die Welle
País de Origem: Alemanha


Assisti ao filme A Onda, é um excelente filme para mostrar como o passado retorna mesmo quando se acredita que não irá mais acontecer. Os alunos do Prof. Rainer (Jürgen Vogel) são adolescentes que participam de um projeto da escola cujo tema é Autocracia, governo de um só, ou seja uma ditadura. O exemplo que usam é do nazismo, porém alegam que isto nunca mais acontecerá. Então o professor utiliza de um método diferente fazendo com que eles vivenciem uma situação de autocracia onde ele é o líder. É o suficiente para que os efeitos em um grupo que busca amparo, mudanças, que está enfrentando questões difíceis, no caso deles, de família, de exclusão, de aceitação, de identidade, se unifiquem num só pensamento excluindo os que não aderiram. O líder passa a ser a autoridade e a voz maior, um deus. 

Por outro lado, no filme "Romero" que postei recentemente no blog  isto também acontece, mas o resultado não é um fascismo, um fundamentalismo, mas ao contrário, é a luta pela liberdade, pelo fim da ditadura. Romero consegue dar esperança ao povo que sofre, luta por ele, o defende, e eles passam a acreditar que podem sair da situação em que estão e ter uma vida melhor. Onde estaria a diferença? Provavelmente no líder e na sua necessidade ou não de poder? de domínio ou não? 
Esta situação se repete a cada vez que haja pessoas com medo, com questões difíceis e que buscam alguém que as salve ou lhes traga respostas e alternativas, elas irão seguir este líder, irão agir com um só em relação à ele. Por isto uma das formas que as ditaduras possuem de desmantelar um espírito de grupo, de união e identificação deixando as pessoas temerosas e sem rumo, é justamente lhes proibindo associações e até mesmo a religião, ou fazendo o contrário como o nazismo fez, trazendo a todos para junto do líder seguindo suas idéias. 


O filme se passa numa escola na Alemanha, o grupo se denomina "A Onda", usam uniforme e tem até uma saudação. Somente uma aluna percebe o perigo e se opõe, mas não é ouvida e dizem que ela age assim por que não fazem o que ela deseja. O professor acaba perdendo o controle da situação o que leva a um desfecho trágico e ele não consegue mais conter o grupo. 

Dennis Gansel nasceu em 1973 em Hanôver, Alemanha

sábado, 14 de maio de 2016

FILME: ROMERO - 1989



Direção: John Duigan - 1989
Duração: 102 min
País de Origem: Estados Unidos

O filme Romero nos mostra a situação de El Salvador em 1977 frente a uma crise de poder em um país onde o povo vive na miséria. A igreja se mantém distante alegando que é a vontade de Deus, o que gera o conformismo e a alienação, conforme Marx já nos alertava. Porém alguns padres não concordam com isto e se aliam ao povo acreditando que seria o que Jesus teria feito e alegando que no fundo a Bíblia é revolucionária. A situação piora, os militares ganham a eleição, como ocorreu em vários países da América Latina neste período, e passam a eliminar os que se opõem a eles, baseando-se supostamente na lei e na ordem a serem mantidas e na garantia da perpetuação do capitalismo, que beneficia os ricos e mantém o povo na pobreza. Romero (Raul Julia) que no início era visto como o padre certo para ser o arcebispo devido sua pacificidade, diante do que vê começa a repensar sua posição e começa a lutar pelo povo seguindo o preceito que a fé exige que se mergulhe no mundo e que a igreja se identifica com os pobres. Acaba assassinado em 24 de março de 1980. 
Esta é uma situação que se repetiu em outros lugares, no Brasil temos vários padres que também lutaram contra a ditadura ajudando ao povo, aos familiares dos desaparecidos, falando em nome da paz e do amor.

Romero vivia voltado para a reflexão, leituras, e acreditava na paz, porém ao entrar em contato com a realidade de eu país e dos pobres que sofriam, ao perder para a ditadura amigos como o Padre Rutílio Grande (Richard Jordan) assassinado, ver outros serem torturados, ele começa a mudar sua posição e a lutar contra o governo militar. 

A situação de El Salvador é a mesma de inúmeros outros lugares que passaram e passam por um regime ditatorial, porém adepto do capitalismo. A aristocracia almeja viver como os americanos e para isto explora os pobres. Romero acredita que a igreja se identifica com os pobres, diz que a fé exige que se mergulhe no mundo, se torna um adepto da teologia da libertação. 

Sou a favor de um Estado laico até mesmo para ser justo com todos os que vivem no país garantindo a liberdade de cada um por optar ou não por uma religião. Porém a igreja não precisa ficar isenta do que se passa no país, deve defender aquele que está desamparado, com medo e que busca um apoio, um consolo por sua situação e uma luz para sair de sua atual situação.

Diante disto se pode dizer então que a igreja não pode estar separada do Estado e deve intervir, mas podemos também pensar que a igreja em seu papel espiritual e formadora de sentidos deve acolher as pessoas diante de suas dificuldades, dores, desespero, medo, mortes, pobreza, sem com isto se imbuir na política, mas sim, agindo ao lado do povo, uma vez que a igreja se identifica com os pobres seguindo o exemplo de Jesus, neste caso específico por se tratar da igreja católica no filme.
  


John Duigan nasceu em 1949 em Hartley Wintney, Reino Unido. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

FILME: A GAROTA IDEAL - 2007


Direção: Craig Gillespie - 2007
Duração: 91 min
Título Original: Lars and the real girl
País de Origem: Estados Unidos e Canadá

Lars Lindstrom (Ryan Gosling) vive na garagem de seu irmão mais velho, Gus (Paul Schneider) e sua cunhada Karin (Emily Mortimer). Ele é introvertido, tenta escapar de todos os convites insistentes de sua cunhada para tomar café ou jantar com eles. Tem um emprego, frequenta a igreja, mas é distante apesar de educado e simpático com todos. 

Através da internet ele encontra Bianca. O problema é que Bianca é uma boneca inflável erótica, mas Lars a recebe como uma mulher de verdade, e diz a todos que ela é uma missionária religiosa. Quando ela chega fala com sua cunhada inclusive para que ela possa ficar na casa deles, uma vez que não é bem visto uma mulher solteira ficar junto de um homem sozinho em sua casa. Karin fica feliz com esta novidade até... descobrir que Bianca é uma réplica de uma mulher mas feita de silicone. 

Karin e Gus procuram ajuda com uma psicóloga Dra Dagmar (Patricia Clarkson)  que lhes diz que ela é real. Esta ali na sala de espera com Lars, e para ele se trata de alguém. 

O filme é muito interessante, uma vez que vemos que questões psíquicas que normalmente seriam tratadas através de medicação, internação aqui tomam outro rumo, com a sociedade local que é pequena fazendo parte da encenação de que ela existe e é real. Falam com ela, a levam passear, lhe arrumam até um emprego de manequim numa vitrine.  

Desta forma surge a possibilidade para que Lars consiga expressar o que sente, e principalmente o que lhe faltou em sua infância, com a morte de sua mãe por ocasião de seu nascimento. Aos poucos Lars irá passando de apaixonado por Bianca ao afastamento, como no Édipo, e começará a se interessar por outras pessoas. Em seus encontros com a Dra. Dagmar sob o pretexto de tratar de Bianca, ele irá se abrindo e falando. Mas somente ele mesmo poderá encontrar uma saída para isto, e ao final poder afastar Bianca de sua vida da forma que lhe é possível e inclusive necessário para que possa se libertar de suas angústias e dores da infância. 

O filme é de extrema sensibilidade e respeito ao ser humano em suas dores de viver. E nos mostra que nem sempre tudo é patológico como a psiquiatria e a sociedade considera, levando a um tratamento através de medicação e que não iria resolver a questão de Lars. 

Craig Gillespie nasceu em 1967 em Sidney, Austrália

quarta-feira, 11 de maio de 2016

FILME: EM TRÊS ATOS - 2015



Direção: Lucia Murat - 2015
Duração: 76 min

Este filme se baseia no livro "A Velhice"  e "Uma morte muito suave" de Simone de Beauvoir. 

O filme é poético e através da dança contrapõe uma bailarina de 85 anos (Angel Vianna) e uma jovem no auge de sua carreira (Maria Alice Poppe ) tendo como pano de fundo uma intelectual de 80 anos (Nathália Timberg) que se confronta com as questões da velhice e se recorda de quando tinha 45 anos (Andréa Beltrão) e enfrentou a morte de sua mãe. Os diálogos são inspirados nos livros de Simone de Beauvoir. 

As questões levantadas é como lidar com um corpo que envelhece, que caminha para a morte. A experiência de perde alguém amado e a própria morte que se aproxima. O filme trabalha com o corpo através da dança e com a palavra através dos textos de Beuavoir. 

No livro "Uma morte muito suave" Simone fala da morte de sua mãe. No "A Velhice" é um estudo profundo sobre a situação dos velhos quando ela mesma se defrontou com a questão. 

Lucia Murat nasceu em 1949 no Rio de Janeiro. 

FILME: POESIA - 2010


Direção: Lee Chang-Do - 2010
Duração: 139 min
Título Original: Shi
País de Origem: Coréia do Sul

Um belíssimo filme sobre a velhice, solidão e de como a arte pode ajudar a viver. Mija (Yun Jeong-Hie) vive com seu neto adolescente cuja mãe está distante em outra cidade. Ela trabalha para um senhor de idade como faxineira, além de lhe dar banho uma vez que ele supostamente deve ter sofrido um AVC já que tem dificuldades em falar e se locomover. 

Ao procurar um médico devido uma dor na coluna acaba descobrindo que tem alzheimer o que ela não conta para ninguém, nem mesmo para a filha com quem diz manter contato direto e que contam tudo uma para a outra. Mija resolve aprender a fazer poesia num centro cultural. 

Ela é ativa, dinâmica, mas é notório sua solidão. Passa pelas pessoas em sua rua e tenta falar com elas e não obtém respostas, conversa com a filha de seu patrão e esta mal lhe dá atenção. O neto por sua vez não quer saber de nada, somente de computador e dos amigos, é mal educado, não ajuda em nada, por mais que Mija o chame as suas responsabilidades. O que se nota é que não há protagonismo para os velhos, não são escutados, a médica acha estranho ter que falar para ela do que tem, pergunta se ninguém veio com ela, que preferia falar com outro, como se ela fosse incapaz, quase uma criança. 

O filme começa com um rio, o Han, e um corpo de uma jovem é encontrado. Mija ao ir ao hospital para ver sobre sua dor nas costas verá o desespero da mãe quando chegam com o corpo da jovem. Mal sabe ela o quanto isto irá interferir em sua vida e de seu neto. 

Mija inicia seu curso de como fazer poesia. Ela quer compreender de onde surge a inspiração para conseguir escrever um poema. Seu primeiro momento virá após um encontro com os pais dos meninos envolvidos no estupro de uma jovem na escola que se suicidou no qual seu neto está envolvido. Estes pais querem pagar à mãe da menina que é uma pobre camponesa para que não denuncie os garotos, ato com o qual a escola também é conivente. Mija ouve tudo aquilo com angústia, e sai do local, do lado de fora há uma flor vermelha, uma flor vermelha como sangue, algo sangra nela, é uma metáfora. 

Mija não parece concordar com o que os pais e a escola desejam. Ela está angustiada, ela recorda a mãe da menina, consegue se colocar no lugar dela. O Alzheimer progride lentamente, ela esquece nomes de coisas simples. Mas ela não desiste, e será a poesia seu veículo para falar, dizer o que sente, o ato poético é uma nomeação à algo interno, produzindo diferenças. O suicídio é a falta de palavras, vem dizer algo que não se pode falar. 

A doença não é igual à velhice, e Mija é uma protagonista de sua vida através da poesia. Ela irá tomar duas decisões fortes ao final do filme, e as expressará através de uma poesia, a canção de Agnes, nome da menina que se matou, dando voz a ela e fundindo sua trajetória com a dela. 

O filme é longo e denso, extremamente rico, há muito neste filme para ser dito, mas deixo a cada um que o assista suas possibilidades de interpretação e compreensão. 

Lee Chang-Do nasceu em 1954 em Daegu, Coreia do Sul 

quarta-feira, 9 de março de 2016

FILME: MARAVILHOSO BOCCACCIO - 2014


Direção: Vittorio Taviani e Paolo Taviani - 2014
Duração: 115 min
Título Original: Maraviglioso Boccaccio
País de Origem: Itália

O filme nos traz alguns dos contos de Boccacio do Decamerão. Em 1348 a peste negra atinge Florença, na Itália. Um grupo de dez jovens, 7 mulheres e 3 homens fogem para uma casa de campo onde irão contar histórias para passar o tempo. 

São histórias morais e muito boas. A primeira delas nos fala de um casal dominado pela mãe do rapaz. Ele ama sua esposa, mas ela está com sintomas da peste e é levada para morrer numa capela onde é recuperada por outro homem que a ama também. Ele lhe salva a vida. A questão é que ela é casada, e como resolver isto? Com engenhosidade e criatividade ele fará de tudo para poder viver com sua amada de maneira aceita pela sociedade. 

Outra nos fala de um rapaz que é sempre ridicularizado por seus amigos e colegas. Dois deles resolvem lhe pregar uma peça dizendo que uma pedra preta o deixa invisível, e vão a procura de tal pedra que obviamente já está colocada no local. Ele então passa a acreditar que é invisível, pois todos colaboram na brincadeira fingindo não vê-lo. Eis então que ele surpreende a todos mostrando seu lado cruel e irascível.

Todas as histórias refletem os sentimentos dos jovens que desejam viver, mas estão diante da morte, e também o contexto da época e a situação da mulher, e principalmente sobre o amor, que é o principal interesse do grupo. 

As paisagens visuais da Itália são belíssimas. 

Um filme que recomendo. 

Elenco: Riccardo Scamarcio, Kim Rossi Stuart, Jasmine Trinca, Rosabell Laurenti Sellers, Lello Arena, Paola Cortellesi, Carolina Crescentini, Flavio Parenti. 

Vittorio Taviani  nasceu em 1929 e Paolo Taviani em 1931, ambos em São Miniato, Itália. 

terça-feira, 8 de março de 2016

FILME: PODEROSA AFRODITE - 1995



Direção: Woody Allen - 1995
Duração: 94 min
Título Original: Mighty Aphrodite
País de Origem: Estados Unidos

Após um casal, Lenny (Woody Allen) e Amanda (Helena Bonham Carter) adotarem um menino, o pai adotivo resolve saber quem é a mãe biológica do menino. Após algumas peripécias e persistência ele descobre que se trata de uma prostituta chamada Linda (Mira Sorvino) também conhecida pelo seu nome artístico em filmes pornos por Judy Cum. Após conhecer a mãe de seu filho adotivo ele resolve aconselha-la a mudar de vida. Linda não sabe quem é o pai de seu filho e sequer imagina que está diante do pai adotivo dele. 

Tudo começa num restaurante onde dois casais, sendo que um deles aguarda um filho, e o outro é Lenny e Amanda discutem sobre filhos, adoções, parricídio, pais. Paralelamente veremos no decorrer do filme um Coro, nos remetendo à Grécia e seus coros nas tragédias. Na verdade Woody allen traz para este filme as tragédias de Medeia e de Édipo, trazendo-as para o mundo atual. Lenny não quer ter filhos e muito menos adotar um pois teme que seu sangue seja ruim e ele se volte contra ele. 

O Coro nos fala então sobre as tragédias de Medeia, que matou seus filhos, de Édipo que matou o pai e de como todos são vítimas do desejo proibido. Quando Lenny parte em busca da mãe de seu filho, equipara-se a Édipo que busca o assassino de seu pai, e o coro o alerta. "Ó maldito destino. Certas ideias é melhor não tê-las". 

O Filme nos fala das relações incestuosas, da violação da lei, do destino, do desejo, a culpa, o adultério. Vale a pena assistir e o final é ótimo. 

Woody Allen 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

FILME: MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA - 2015


Direção: Justin Kurzel - 2015
Duração: 118 min
País de Origem: Reino Unido - França - Estados Unidos

Macbeth (Michael Fassbender) e Banquo (Paddy Considine) são generais do exército do Rei Ducan (David Thewlis) da Escócia. Eles vencem uma revolta chefiada por Macdonwald e pelo Barão de Cawdor o que muito agrada ao rei. No caminho de volta os dois encontram-se com as três feiticeiras que lhes fazem profecias, saudando Macbeth como Barão de Glamis, Barão de Cawdor. Elas então dizem: Salve Macbeth, ainda serás rei! Menor do que Macbeth e maior! Nem tão feliz, entretanto muito mais feliz! E para Banquo - Tu engendrarás reis, embora nunca o sejas. 

A primeira profecia logo se realiza quando chegam os emissários do rei e saúdam Macbeth como Barão de Cawdor. Lady Macbeth (Marion Cotillard) que sofre por não poder dar um herdeiro à Macbeth incitará o marido para que haja e seja rei, matando o Rei Ducan durante seu pernoite na vila onde moram. A partir deste feito o medo e a culpa irá atormentar Macbeth que passará a agir para eliminar qualquer um que possa se intrometer em seu caminho, a começar por Banquo. Aos poucos todos estes atos de morte, o sangue em suas mãos que ele nunca mais limpará o leva cada vez a atos mais infames, movido pelo medo, pela ambição e pela ganância. 

Chega o momento onde Lady Macbeth já não suporta mais, o marido enlouquece, tem visões de todos que assassinou. Ele procura as feiticeiras e novamente ouve previsões, desta vez vindo de fantasmas de mortos: Cuidado com Macduff! Ninguém nascido de mulher poderá vencê-lo! Macbeth só será vencido quando o grande bosque de Birnam, subindo a alta colina de Dunsinane, marchar contra ele. 

Macbeth então decide atacar Macduff (Sean Harris), mas este fugiu. Ele então mata toda sua família, esposa e filhos. Lady Macbeth já não suporta. Ela morre. Macduff retorna para se vingar. Cerca o castelo, o bosque de Birman é incendiado, e sobe ao castelo em fumaça. Chega o momento do confronto entre Macbeth e Macduff, que vence ao dizer que nasceu de uma cesariana, retirado de dentro de sua mãe, não tendo nascido pelas vias normais. 

Macbeth era um homem bom, honrado, mas ao ouvir as profecias ele se deixa levar pela ganância e desejo de poder. Sua esposa o confronta ao seu desejo e ao dela, que também deseja ser rainha. Eles cometem o primeiro crime hediondo, com barbaridade. Mas a crença de que farei isto somente para atingir o poder e depois viveremos em paz não funciona, a culpa e os fantasmas os perseguem. O medo de que outro se apodere do trono fazendo com que este ato criminoso se torne vão o leva a cometer outros na ilusão de desta forma ficar livre. Lady Macbeth é perseguida pelas manchas de sangue que não consegue limpar. Ele aos poucos enlouquece. 

Após vencerem a batalha ambos, Macbeth e Banquo, podem estar desejando a recompensa do feito, eles lutaram e venceram para que o reino da Escócia seja livre, então provavelmente inconscientemente desejavam a coroa. Isto se projeta nas feiticeiras que verbalizam o desejo. A questão é que um será rei e o outro pai de reis. Há um descompasso entre os dois que desejam a mesma coisa, mas se por um lado Banquo se ressente por nunca ser rei, Macbeth se angustia por não ter descendência, levando seu ato criminoso a um final, sem continuidade e que vai perdendo a razão de ser. O homem deseja a imortalidade. 

Se as feiticeiras não surgissem, o desejo inconsciente de ambos teria ficado adormecido, em sonhos, mas ao serem simbolizados pela palavra passam ao consciente, e daí para a ação. Por outro lado o rei Ducan é uma figura paternal, era um velho de barba branca. Aqui então temos o parricídio. Outro ponto é que no inicio do filme vemos um Macbeth temeroso, em dúvida, que quer desistir. É lady Macbeth quem o instiga, como uma mãe ao filho, mas depois ocorre a inversão, é ele quem comanda e ela aos poucos definha. 


Justin Kurzel nasceu em 1974 em Gawler, Austrália

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

FILME: VINCERE - 2009



Direção: Marco Bellocchio - 2009
Duração: 118 min
País de Origem: França - Itália

O filme relata a relação de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) com Benito Mussolini (Filippo Timi) quando este era um jovem militante socialista radical. Ida apaixona-se perdidamente por ele, absolutamente fascinada por este homem, ela se desfaz de tudo que possui para ajudá-lo a fundar o jornal Il Poppolo d'Italia, o início do Partido Fascista. Ela engravida e nasce um menino. 

Durante a 1ª Guerra Mundial, Benito se alista no exército e fica um tempo sem dar notícias. Ela irá reencontrá-lo num hospital onde também encontrará a nova esposa dele, Rachele (Michela Cescon). 

Trata-se de uma história real pouco conhecida. Ida morreu em 1937 num manicômio psiquiátrico, sozinha, devastada, após sua imensa luta para ser reconhecida como esposa  do Duce, antes do casamento com Rachele que permaneceu sua esposa oficial até o fim de sua vida, e ter seu filho reconhecido como primogênito. Ao longo do filme vemos flashes de mulheres internadas em hospícios e trechos de documentários sobre a época e a ascensão de Mussolini ao poder. 

Logo no início do filme, estamos em 1910 e Benito desafia os cristãos dizendo que irá provar a inexistência de Deus: " se Deus não me fulminar em 05 minutos será demonstrado que ele não existe." Ida está fascinada por este homem, como em breve estará o povo italiano, que será, como Ida, traído e subjugado. 

Ida após ter sido abandonada por Benito não consegue ultrapassar isto, irá destruir sua vida na tentativa de ser reconhecida. Era uma mulher independente, bonita, inteligente, com posses, dona de uma casa de moda feminina em Milão. Abre mão de sua vida por ele. As cenas de amor dos dois no começo do filme mostram seu olhar vidrado nele, e o dele distante, em outro lugar. Há uma falta de limites dela em relação à ele, lhe entrega tudo, corpo, alma, posses. Apesar de dar tudo como ela mesma diz com alegria, como se isto fosse uma felicidade para ela de poder ajudar, no fundo o que ela deseja é ser única para ele, é ser A mulher. 

Ela se fixará nisto por toda sua vida, neste lugar que deseja acima de tudo, sendo incapaz de aceitar o fato que ele a deixou e trocou por outra mulher. Abrirá mão de qualquer possibilidade de reinício de uma vida com seu filho (Filippo Timi), com isto levando a ambos para o trágico. Lembra Antígona, uma vez que também vai contra o Estado e sua lei. Sua obstinação em afirmar que era a esposa e que o filho foi reconhecido, o que nunca foi comprovado oficialmente. 

Ida não é louca, ela sabe onde está, quem é, mas se fixa na loucura deste amor, me lembrando Camille Claudel com Rodin, que também se fixa nele. Acaba sendo internada após gritar para todos ouvirem que já escreveu ao papa, ao primeiro-ministro, ao presidente do tribunal de Milão para que ele vá preso. Depois vai viver com sua irmã e seu cunhado tem a guarda de seu filho. O indício da erotomania, ela diz que só ela o compreende e que está convencida que ele também a ama. É um certeza delirante e que a impede de fazer algo diferente com sua vida. Acabara sendo subjugada pela polícia fascista, seu filho será afastado dela e entregue para outra pessoa criá-lo o que trará um grande sofrimento para ele. E ela dirá que ele está fazendo isto para testá-la, que quer ter certeza de que pode sacrificar tudo por ele, e que quando ele tiver esta certeza irá buscá-la e a apresentará à Itália como sua legítima esposa. 

Ela não pode dar uma outra vida a seu filho, uma nova família. Ele acabou internado em um manicômio e morreu aos 26 anos abandonado. 

Marco Bellocchio nasceu em 1939 em Bobbio, Itália.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

FILME: CAROL - 2015


Direção: Todd Haynes - 2015
Duração: 118 min
País de Origem: Reino Unido - Estados Unidos


Este filme é de uma delicadeza ímpar, e a parte o amor homossexual, o que mais me chamou a atenção foi o enfoque no amor feminino. Therese Belivet (Rooney Mara) trabalha numa loja de departamentos na sessão de brinquedos infantis, vive sozinha e tem um namorado. É época de natal, e Carol (Cate Blanchett), uma mulher elegante e refinada vai até a loja em busca de uma boneca para sua filha e é atendida por Therese. 

Carol é casada com Harge (Kyle Chandler) de quem está se divorciando. Há uma troca de olhares entre ela e Therese logo no início do filme, mas a aproximação das duas se dará pela solidão de ambas, pela insatisfação com suas vidas, pelas restrições que a sociedade impõe e pelo que espera da mulher, o que nem sempre está de acordo com ela deseja. 

Quando o marido de Carol a impede de passar o natal com sua filha, exigindo que ela vá junto passar com sua aristocrática família que condena o comportamento de Carol e sua amizade com Abby, madrinha da menina, ela se revolta e decide convidar Therese para fazer uma viagem com ela.

Carol está passando pelo processo de divórcio e a questão da guarda da filha, sendo que foi acusada de comportamento imoral devido sua relação com Abby. Esta viagem aproximará de vez ela com Therese, mas elas não sabem que estão sendo seguidas. 

O que toca é o singelo, a delicadeza, a busca de ser feliz, de poder viver sua vida. O que enfrentam, principalmente Carol, numa época onde o homossexualismo era condenado pela sociedade, o que talvez não difira muito de hoje no sentido do moralismo, uma vez que ainda é tabu. Sem apelos ao erótico, apesar de sua presença sutil, sem apelos ao vulgar, o filme nos traz duas mulheres apaixonadas que encontram uma na outra um sentido para suas vidas tão vazias até aquele encontro. O quanto esta relação transforma as duas. 


Todd Haynes nasceu em 1961 em Encino, Los Angeles, Califórnia, EUA.