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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

FILME: BABEL - 2006


Diretor: Alejandro González-Iñárritu - 2006
Duração: 142 min
País: Estados Unidos - México - França
Roteiro: Guillermo Arriaga

Babel é um filme denso e extremamente atual que pode ser visto sob várias perspectivas. Um ônibus com turistas travessa uma região do Marrocos, nele estão Richard (Brad Pitt) e sua esposa Susan (Cate Blanchett), um casal de americanos, e outros europeus. Eles fazem esta viagem numa tentativa de reconciliação. No alto das montanhas estão dois garotos, Ahmed e Youssef que são pastores de cabras. Eles acabam de ganhar um rifle do pai para proteger os animais dos chacais. Eles competem entre si para ser o melhor atirador e duvidam do alcance do tiro da arma, para tirar a dúvida atiram primeiro contra um carro que passa na estrada, não acerta, e depois contra o ônibus. Susan é atingida.

Os filhos de Richard e Susan ficaram nos Estados Unidos aos cuidados de Amélia ( Adriana Barraza) que é a babá dos dois desde pequenos. Ocorre que é o dia do casamento de seu filho e não há ninguém para cuidar das crianças. Richard lhe diz que sente muito, mas que ela não poderá ir. Amélia porém não quer deixar de ir ao casamento que é numa cidade no México, e decide levar as crianças junto. Seu sobrinho Santiago (Gael García Bernal) vem buscá-la de carro.

No Japão um homem tenta superar a morte trágica de sua esposa que se suicidou e ajudar sua filha (Rinko Kinkuchi) que foi a primeira a encontrar a mãe e é surda. Ela é jovem, e vive a adolescência com toda a efervescência da sexualidade.

Partindo deste roteiro estas vidas irão se entrecruzar de alguma maneira, e o tiro dado nas distantes montanhas do Marrocos de alguma maneira afetará a todos. O interessante é que isto nos leva a pensar justamente no fato de vivermos num mundo global, onde algo que ocorre num lugar distante afeta a vários outros lugares e pessoas, mas o paradoxo é que se por uma lado tudo parece ligado e próximo, o isolamento é cada vez maior. Podemos também ver a história em dois planos familiares, dos pais e dos filhos. O casal americano que tenta se reconciliar no Marrocos e seus filhos que estão nos Estados Unidos e que com a babá irão para o México. O japonês que deu a arma a um guia marroquino que é o pai da jovem que é surda, e a família marroquina e seus filhos de onde parte o tiro inicial da trama.

Há também todos os aspectos culturais e do medo do estranho e os preconceitos. Aqui também novamente vemos também a falta de comunicação em função seja de ideias preconcebidas em relação ao outro ou pela própria língua falada, onde quando um marroquino fala a um americano, não há muita diferença da surdez da jovem em Tóquio. 

O comportamento dos europeus no Marrocos e do casal americano. Eles sentem medo das pessoas, se sentem em perigo na aldeia marroquina, estranham tudo e querem ir embora. Susan antes de ser atingida tem um gesto com o gelo quando almoçam jogando fora, dizendo que não se sabe de onde vem a água. Já os Marroquinos estão curiosos com o que está acontecendo, é uma vila do interior, algo de diferente está ocorrendo. Eles são prestativos, mas com sua aproximação assustam ao estrangeiro. Porém serão eles que serão solidários com Richard e seu drama, pois os europeus irão embora com o ônibus abandonando-os a sua sorte. O guia marroquino fará de tudo que for possível para ajudar e eles serão acolhidos na casa dele. 

Nos Estados Unidos o sobrinho de Amélia não se agrada dela levar as crianças, mas aceita. O menino diz que sua mãe lhe falou que o México é perigoso. Mas apesar do receio inicial, dos sustos, como crianças, acabam brincando com as outras crianças e se divertem muito na festa de casamento. O problema é na volta, quando o sobrinho embriagado cria confusão na alfandega diante da desconfiança do policial que ali está. Aqui vemos nitidamente os dois lados, o policial que desconfia dos mexicanos e os considera de alguma maneira um problema, e o mexicano que por saber que são vistos assim não é nada simpático e inclusive um tanto revoltado. Ele fura a barreira e se dá início uma perseguição que o levará a abandonar a tia e as crianças em pleno deserto. Amélia tenta encontrar ajuda, mas é presa. Apesar disto as crianças são encontradas, mas afastadas do perigo chamado Amélia, que ao ver da polícia é perigosa para elas, justo ela que as criou desde pequenas. O resultado é sua deportação para o México. A lei é fria e não leva em conta nada, as relações humanas que existiam ali, os 16 anos de vida de Amélia nos Estados Unidos, tudo isto é desconsiderado.

Os meninos marroquinos logo no início percebemos a rivalidade dos irmãos e que se acentua quando o pai designa o menor para dar o primeiro tiro o que faz com que o mais velho reaja. Ele pode dar o primeiro tiro, mas erra e isto é comentado. Youssef também observa a irmã se trocando, e depois acaba se masturbando nas montanhas. É esta rivalidade que irá levar ao tiro que dá início ao que ocorre no filme, é o gatilho. Youssef ainda é uma criança, mas que já se interessa por seu corpo e pelo o que sente. Seu irmão que é mais velho se contém, mas provavelmente também desejaria ver a irmã nua, que por sua vez é conivente com o irmão. Isto virá a tona quando o pai descobrir o que eles fizeram e que foram responsáveis pelo tiro, e ao inquiri-los Ahmed falará tudo, inclusive sobre isto, onde percebemos a raiva e a inveja que sentia de seu irmão mais novo e entregando-o se ilude ao acreditar que agora será o bom filho amado.

O tiro irá se transformar num atentado terrorista, principalmente com o incentivo da imprensa. De um acidente, de uma rivalidade entre irmãos que acabam cometendo um grande erro, chegamos ao terrorismo, e a polícia procura os terroristas. Um absurdo neste contexto, mas que demonstra a paranoia que é muito atual em relação ao outro, e principalmente do Ocidente em relação aos muçulmanos  confundindo pessoas que tem uma religião com pessoas desta mesma religião, mas que são terroristas. 

Enquanto isto a jovem no Japão se defronta com suas questões de sexualidade, ela tem dificuldades em lidar com isto, e acaba apelando para formas simbólicas ou gestuais para sinalizar seu desejo, de uma forma errônea, sem saber como agir. Como isto é recebido ou com risadas ou com rejeição ela se sente cada vez mais só em seu mundo. Ela tenta chamar a atenção, ser desejada, ser amada. Apesar de seu pai tentar ajudá-la há uma distância entre eles, primeiramente a típica de jovens em relação aos pais, mas também há uma frieza, uma falta de afetos, de aproximação maior, até que finalmente diante de algo que talvez desperte em seu pai um medo do suicídio, ele se rende a abraçá-la com amor. 

Poderíamos questionar o que leva um pai a dar uma arma a duas crianças? Ali trata-se de um ritual masculinizante, e para proteger o rebanho, matar os chacais que atacam as cabras. Mas a imaturidade dos dois os leva a competir entre si para dar tiros. A jovem no Japão apesar de surda tem um grupo, ela é inserida socialmente, mas lhe falta a mãe e outra mulher mais velha para lhe servir de espelho em sua feminilidade e como atuar com ela. Eles vivem num belíssimo apartamento com conforto, mas este espaço é frio e silencioso. 

Há também a questão do enfoque do filme. Em alguns momentos senti que o Marrocos e o México estariam sendo enfocados por um ângulo de muita pobreza, promiscuidade, como por exemplo, alimentos cheio de moscas em cima, mas se pararmos para analisar o filme veremos que o enfoque do europeu e dos americanos nos mostra uma suposta demonstração de superioridade , que estão amedrontados, são preconceituosos, tentando preservar-se longe de tudo que eles consideram uma civilização inferior, mas são tão sozinhos e desamparados quanto os outros. O Japão e sua bela cidade moderna, belos apartamentos, e a solidão, o vazio das vidas. Já o Marrocos com sua aparência de pobreza, não se esquecendo que as vilas de montanhas são assim, nos mostra um povo muito mais caloroso e hospitaleiro. Assim como os mexicanos e toda sua festa em torno do casamento. Como poderia uma mãe mexicana deixar de ir ao casamento de seu filho? A cena que mais me tocou foi quando Richard ao ir embora abre a carteira e retira dinheiro para pagar ao guia, que por sua vez recusa. Há uma incapacidade do americano em ver no outro alguém que foi solidário e que o acolheu em seu momento de dor e dificuldade, é como se ele considerasse que o outro lhe prestava um serviço e que teria que ser pago, e com isto também não há uma dádiva ali, mas ele quitaria sua dívida pagando.

Também me chama a atenção que apesar de Richard não dar queixa de Amélia, em momento algum ele se dispõe a defendê-la perante as autoridades levando em conta que ela estava com eles desde que seus filhos eram pequenos. O que vejo é a repetição do ato com o guia, ela era paga, ele não devia nada à ela. E por um lado não deixa de ser correto, é um trabalho, mas por outro me pergunto se caso fosse uma pessoa americana se ele não agiria de outra forma. De qualquer maneira talvez o fato de não dar queixa já seja uma maneira de demonstrar que ele aprendeu algo com tudo que ocorreu, seja o possível para ele dentro da cultura que vive. 

Ao final o que vemos são acontecimentos da vida, não há nenhum terrorismo, nenhum sequestro de crianças, nenhum tráfego de drogas nem de armas, exceto os criados pela mente humana dentro de seus preconceitos, medos, intolerância ao outro, dificuldades em lidar com o diferente, e a arrogância de alguns de se considerarem superiores ao outro e os efeitos que isto provoca. E é muito válida a crítica à imprensa que sempre sensacionaliza tudo, apelando para estes jargões e deduzindo em tudo um ato terrorista. 



Alejandro González Iñárritu nasceu em 1963 na Cidade do México, México. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

FILME: COISAS INSIGNIFICANTES - 2008


Direção: Andrea Martínez - 2008
Duração: 98 min
Título Original: Cosas insignificantes

País de Origem: México

Esmeralda (Paulina Gaitan) é uma adolescente que coleciona objetos que encontra em seu dia a dia e os guarda em uma caixa. São objetos esquecidos, perdidos ou descartados, insignificantes para ela, mas que possuem um significante em cada um para aqueles que os deixaram para trás. 

O filme nos mostra as histórias de cada uma dessas pessoas que tem em comum o fato de não conseguirem demonstrar e expressar o amor. Cada um destes objetos foram esquecidos, feitos ou descartados em momentos onde faltou a palavra, onde algo não pode ser dito. Um pai que passou 20 anos sem ver a filha, uma mãe que não consegue expressar seu amor pelo filho, um casal que tem problemas e a própria Esmeralda que não consegue expressar seu amor pela irmã e pela avó. 

Os pequenos objetos da caixa representam esta falta, ausência de comunicação, mas também a sua possibilidade. 

Quantas vezes não falamos através de algo? Quando guardamos uma flor que ganhamos de alguém que amamos, este gesto é um significante, fala de amor, que muitas vezes não foi dito, falado. Objetos que representam algo que nunca foi dito, que não chegou ao outro. 

No momento que Esmeralda consegue ultrapassar esta barreira e expressar seu amor pela irmã e pela avó, participando inclusive das alucinações desta, ela não precisa mais da caixa e a repassa ao médico que não consegue falar com sua filha. 

Ao assistir o filme me lembrei que também tenho uma caixa assim, com flores secas, um guardanapo de uma lanchonete, um maço de cigarros, uma bonequinha, um papel de bala, e que todos representam amores que tive em minha vida. Será que consegui expressar os significantes que estão ali? 


Andrea Martínez 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

FILME: FRIDA, NATUREZA VIVA - 1986


Direção: Paul Leduc - 1986
Duração: 108 min
Título Original: Frida, Naturaleza viva

Já havia assistido ao filme Frida de Julie Taymor de 2002 que já postei aqui no blog. Agora encontrei este que é anterior e o primeiro filme sobre a pintora mexicana Frida Kahlo.



Diferentemente do segundo filme este nos mostra fragmentos da vida de Frida nos remetendo à própria pintora que teve seu corpo fragmentado e invadido por inúmeras cirurgias após o acidente que a vitimou ainda bem jovem.

Toda sua pintura se remete a ela mesma, a sua dor e vazio que ela expressa na arte.

No filme temos Frida (Ofelia Medina) que se recorda de sua vida quando está beirando a morte. Através de seus quadros ela recorda seu grande amor por Diego Rivera (Juan José Gurrola), suas participações políticas , sua vida sentimental incluindo alguns casos com mulheres e também seu caso com Trotsky (Max Kerlow) que graças as intervenções de Diego conseguiu asilo no México e ficou na casa dos Rivera onde se encantou com a beleza e personalidade da pintora.



A solidão de Frida é profunda e o vazio de seu ventre diante do desejo de ter um filho que a leva a pintar o aborto, seu corpo mutilado, uma pessoa cindida, dividida desde a infância, pai alemão e mãe mexicana, se retrata no quadro das duas Frida(s) .

Gosto muito dos quadros de Frida, apesar da dor que está ali são vivos, coloridos, sempre com fundos de natureza, plantas ou animais. A mexicanidade de Frida que aparece na maneira como ela olha para a morte e para a dor. Uma vida que sofreu reveses desde a poliomelite que teve na infância, o acidente, sua paixão por Diego Rivera, a traição deste com a irmã da pintora, mas Frida continuou e não se entregou a uma depressão ou desistência, a dor ia para os quadros mas aquelas cores fortes ainda mostravam que estava viva.



Paul Leduc nasceu em 1942 na Cidade do México



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

FILME: COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE - 1992


Direção: Alfonso Arau - 1992 
Duração: 150min 

Baseado no romance homônino de Laura Esquivel 

Um filme belíssimo e que nos traz um retrato do feminino dos mais belos e completos.

Logo no início vemos a sobrinha-neta de Tita na cozinha com o livro de receitas que foi dela, e que irá nos narrar esta história.

Tita (Lumi Cavazos) nasceu na cozinha do rancho onde vive sua família no México quando sua mãe Elena (Regina Torné) estava cortando cebolas. . Seu pai logo a seguir morre de um ataque do coração ao saber que talvez ela não seja sua filha legítima. Segundo a tradição da família a filha caçula não se casará pois deverá permanecer solteira para cuidar da mãe até sua morte. Eis o destino de Tita.

Tita é alimentada por Nacha (Ada Carrasco) na cozinha e ali ela cresce e brinca entre cheiros e temperos. Suas irmãs são totalmente diferentes, Gertrudis (Claudette Maillé) irá embora e se tornará uma revolucionária, já Rosaura (Yareli Arizmendi) se casará com o grande amor de Tita, Pedro (Marco Leonardi) por determinação de sua mãe Elena, uma vez que Tita não pode se casar. Porém Pedro só se casa com Rosaura para poder ficar perto de Tita.



Tita é uma cozinheira excelente, aprendeu com Nacha os segredos e também a sentir com seu olfato ou paladar se a comida está boa. A cozinha é um local de muito trabalho, mas também de criatividade, talento, paciência.



Mama Elena é uma representante do mundo patriarcal, assim como sua filha Rosaura, Tita, Nacha e Gertrudis nos apresentam um lado muito mais feminino, sensual, do prazer, sem tantas preocupações com a aparência, o pudor, a decência, elas vivem muito mais, apesar de confinadas à cozinha e ao rancho, Tita sente muito mais prazer na vida do que sua mãe. Ela luta para manter sua individualidade e criatividade.

O Filme vai se desenrolando por capítulos como no livro. No primeiro temos o mundo doméstico e a opressão de Mama Elena. Tita resiste tecendo uma colcha. No segundo é o casamento de Rosaura e Mama Elena ordena que Tita ajude na preparação do banquete e que não chore. Porém enquanto prepara a cobertura do bolo ela chora e suas lágrimas caem na mistura. Todos que comem do bolo começam a sentir uma profunda tristeza ao lembrar amores perdidos e tem acessos de vômito. Nacha também sente a falta de alguém e é encontrada morta com uma foto na mão. Mama Elena está convencida que foi Tita quem envenenou o bolo e a espanca.



No capítulo três Tita ganha flores de Pedro. Sua mãe a manda jogar fora, mas ela escuta a voz de Nacha dentro de si e prepara codornas com rosas. Se Rosaura não gosta e passa mal, Gertrudis sentiu um calor forte, a comida agiu como um afrodisíaco. Ela corre para tomar um banho e o banheiro se incendeia, é salva por um rebelde e foge com ele. Pedro também sentiu um imenso prazer ao comer. As rosas de um homem são transformadas no desejo. Do passivo para o ativo.


Na sequência nasce o filho de Pedro e Rosaura, mas ela não consegue amamentá-lo e será Tita quem fará isto. Mas Mama Elena mandará Pedro e Rosaura para longe, e o menino more de fome. Tita acusa sua mãe e quase enlouquece de dor refugiando-se no pombal. Será o Dr. Brown (Mario Iván Martinéz) que vai socorrê-la e a leva para sua casa. O silêncio cai sobre Tita, a comida da casa do médico não é boa, ela olhava suas mãos e não sabia o que fazer. O médico conta a Tita o que dizia sua avó. Que todos nós nascemos com uma caixa de fósforos dentro de nós, mas não podemos acendê-los sozinhos. O oxigênio que é o agente de combustão deve vir de outra pessoa, do amor que ela tem em si. Mas não devemos acender todos de uma só vez. Esta história se transforma numa metáfora para Tita e tudo que ela sente.

Ao receber a visita da índia que trabalha no rancho com seus caldos que ela traz Tita volta à vida. Mama Elena morre num ataque ao rancho e Tita retorna. Nasce Esperanza e que deve ter o mesmo destino de Tita, já que Rosaura não pode mais ter filhos. Mais uma vez Rosaura não pode amamentar e é Tita quem cuida da alimentação do bebê. É a festa de Reis, e Gertrudis volta ao lar para comemorar. Pedro cai na fogueira e tem queimaduras feias. Tita irá curá-lo com receitas caseiras. E finalmente chega o dia que Tita após enfrentar o fantasma de sua mãe enfrenta também Rosaura, e lhe diz que Esperanza não terá o mesmo destino que ela.

Rosaura morre de problemas digestivos, e finalmente após alguns anos temos o casamento de Esperanza e a união de Pedro e Tita, quando todos os fósforos que trazem dentro de si se acendem.

O filme todo nos fala da criatividade e da narrativa que as mulheres desenvolvem, mesmo confinadas a um pequeno espaço. O livro de receitas de Tita traz estes segredos e anotações a parte que conduzem uma mulher a se libertar. É na cozinha que se desenvolve a história, é ali que ocorrem as mudanças, é ali que as mulheres vencem a ideologia patriarcal que atua não somente na sociedade, mas dentro de casa, neste caso representado pela mama Elena e por Rosaura. A culinária é uma arte, o tecer também, e podem criar coisas novas e diferentes, mas também cuidam das feridas e da dor. Alimentam a alma.

Alfonso Arau nasceu em 1932 na Cidade do México. É casado com a escritora Laura Esquivel. 


Trilha sonora de Leo Brouwer 

Leo Brouwer nasceu em 1959 em Havana, Cuba 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

FILME: BIUTIFUL - 2010





Direção: Alejandro González Inárritu - 2010 
Duração: 147 min 
Roteiro: Alejandro Gonzáles Inárritu , Nicolás Giacobone e Armando Bo 
País: Espanha e México 

Prêmio de melhor ator para Javier Bardem no Festival de Cannes 2010 


É um filme que mostra a cidade do outro lado do espelho reluzente que todos adoram ver, principalmente Barcelona. O lado considerado negro por alguns e criminoso, marginal por outros, mas alto lá, o que o filme mostra é a realidade, a vida de milhares de pessoas é assim em muitas cidades. Para os que não se atrevem a chegar perto deste lado de uma cidade, é pavoroso, é crime e haverá muitas críticas. Imigrantes, o que vieram fazer aqui? Esquecem que no país deles há fome, guerra, falta de trabalho, e que são seres humanos e a terra lhes pertence tanto quanto. 

Ao saber que vai morrer, Uxbal ( Javier Bardem)  parece que continua com sua vida sem que isto se faça presente. Pode-se dizer que é o véu que temos para a morte. Só quando caímos e o corpo não reage mais a morte se faz presente para si mesmo. Enquanto ainda podemos comer, caminhar, falar...

Ele vive no meio da miséria, onde todos lutam para sobreviver, imigrados presos num porão, que trabalham por uma miséria explorados por outros de seu país. O filme é escuro, não há alegria, festas cheias de droga e sexo, bebida. A mulher dele Marambra (Maricel Álvarez)  é doente, e no final é internada novamente. Prostituição, corrupção.
Que vazio de palavras, de ouvir, de procurar ver o lado do outro, mas ao mesmo tempo ele tenta ajudar os outros, dentro do sistema em que vivem. Pode-se dizer que ele também explora, mas se arrisca junto, apesar de que ganha mais. Ali todos sabem o risco que correm ao vender produtos de contrabando. Não são bandidos, são seres humanos lutando para sobreviver, num mundo onde não conseguem um bom trabalho, um bom lugar para morar. Somente uma vez aparece a catedral de Barcelona em meio às brumas. Ela não pertence a este mundo. Temos uma Barcelona feia, triste, suja, com sofrimento. Tão diferente daquela que se vende ao mundo, aos turistas e aos que podem morar e viver nela em outros locais.

Mas temos Ige, acho que é assim seu nome, que ao final volta, poderia ter ido embora, e volta, vem cuidar dos filhos dele. Ela tinha dinheiro e poderia ter seguido seu caminho, mas como lidar com a culpa deste dinheiro. Seria suficiente a raiva que ela sentia dele, por culpá-lo de seu marido ter sido preso? Mas ele avisou, mas eles tinham alternativa, era só lá que vendia?

 A mãe deixa o filho de castigo. Este castigo é para o filho ou para ele? Que não foi e não disse por que. Que não lhe contou que estava morrendo de câncer? que não confiou nela. Que voltou para ela quando precisava dela, mas não moveu um dedo para reatar com ela. Ele queria ficar em paz para ter com quem deixar as crianças. Ninguém dá muita atenção a este menino, logo no começo ele fala ao pai que nem o ouve, sobre a roupa do astronauta. A filha tem que assumir um lugar que não é o dela. O anel que lhe passa ao dedo.

 E a morte. Ele sabe que vai morrer, será que tenta então melhorar algumas coisas para os outros para se sentir melhor? E compra aqueles aquecedores que quando vi entrando naquele porão adivinhei na hora o que iria ocorrer. Ele escolheu os mais baratos, para ficar com dinheiro, para deixar aos filhos. E seus filhos teriam ficado sem nada se Ige não volta. Iriam ficar sozinhos, a mãe internada, o pai morto. Igual a ele? que também perdeu o pai e a mãe? Pede a filha que nunca esqueça seu rosto. O rosto que ele precisou ver na exumação do corpo do pai. Um pai que não tinha rosto e passa a ter.

 O filme é a vida, o que ela é, sem enfeites, sem colorido, não há final feliz. O final é a morte. Sim, poderia haver uma certa alegria ali, mesmo com todas as dificuldades, mas só quem vive nesta situação sabe o quanto é difícil ser alegre e contente vivendo assim. Só tem duas cenas de alegria: Ana, sua filha, sorrindo para um bebê. O primeiro morre asfixiado, o segundo, é o filho de Ige. Não há prazer, pois até a viagem que era para ser algo alegre, prazeroso, perde seu encanto, quando ele não vai e a mãe deixa o filho. Não é mais a Disneylandia que a mãe desejava. Um mundo de sonho.   
Vidas onde não há o desejo, onde não há a paixão e o amor, nem mesmo na declaração de amor que ele fez a ela, quando conta aos filhos, e diz que ele enfiou o dedo no nariz dela. O desejo existe, mas não se realiza. E é a vida da maioria das pessoas.
O filme começa e termina no pós morte. O pai jovem, que o encontra, vai buscá-lo quando ele morre. Nem mesmo aí temos o paraíso. Mas temos uma coruja que expele uma bola de pelos, aquela, que nós carregamos dentro de nós a vida toda. E então ele pergunta: o que temos lá? precisamos morrer para saber.

Ele que passou a vida com medo do fundo, do escuro, da morte, e falava com os mortos, se encontra com ela, como todos nós, pois a morte está na vida e a vida na morte. Viver é beautiful, mas a vida não é beautiful, é no máximo, biautiful, uma aproximação, uma tentativa, de acertar. 

Trailer do filme:


Alejandro González Inárritu nasceu em 1963 na Cidade do México, México.

Música de Gustavo Santaolalla

Gustavo Santaolalla nasceu em 1951 em El Palomar, Argentina. É músico e compositor.