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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O SAGRADO COMO ESPELHO DO BRASIL


 

APARECIDA

A biografia da santa que perdeu a cabeça, tornou-se negra, foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil

RODRIGO ALVAREZ

RECORD – 1ª ED. – 2023

256 páginas


Em Aparecida, Rodrigo Alvarez constrói uma biografia que escapa ao tom devocional tradicional para narrar a história de Nossa Senhora Aparecida como fenômeno religioso, político, social e cultural. A santa não aparece apenas como objeto de fé, mas como personagem atravessada por disputas de poder, violência simbólica, racismo e projetos de nação.

O ponto de partida do livro é conhecido, mas ganha densidade narrativa: a pequena imagem de terracota encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, no século XVIII, quebrada, escurecida pelo tempo e pela água. A partir daí, Alvarez reconstrói como essa imagem frágil se transforma na padroeira do Brasil, acompanhando as metamorfoses simbólicas que a cercam.

Um dos aspectos mais instigantes da obra é a atenção dada ao corpo da santa. Uma imagem que perde a cabeça, é recomposta, escurece, é roubada, restaurada, coroada e politicamente disputada. O livro mostra como cada uma dessas etapas produz sentidos distintos: a santa negra, a santa do povo, a santa nacional, a santa apropriada por projetos de poder. Nada disso é neutro.

Alvarez articula a devoção popular com o contexto histórico brasileiro: escravidão, Império, República, ditadura e democracia. Aparecida atravessa esses períodos como símbolo maleável, capaz de acolher tanto a fé dos pobres quanto os interesses das elites políticas e eclesiásticas. Presidentes, militares e governantes tentam se aproximar da santa, buscando legitimação simbólica por meio dela.

O livro também evidencia a tensão constante entre religiosidade popular e Igreja institucional. A devoção a Aparecida nasce fora dos grandes centros de poder e resiste às tentativas de controle absoluto. Mesmo quando institucionalizada, ela carrega marcas de insubordinação: uma santa negra em um país racista, uma devoção popular em uma estrutura hierárquica masculina, uma fé que não se deixa reduzir à doutrina.

Outro mérito do livro está em tratar o roubo da imagem, e sua posterior restauração, não apenas como episódio policial, mas como acontecimento simbólico. A violência contra a santa revela o quanto ela se tornou objeto de disputa e projeção. Restaurar Aparecida não é apenas recompor um objeto quebrado, mas decidir qual imagem, qual narrativa e qual Brasil se deseja preservar.

Sem idealizar a religião, Alvarez mantém um olhar crítico e jornalístico. Ele não transforma a santa em mito intocável, mas tampouco desqualifica a fé. O livro reconhece a força da devoção como experiência coletiva, afetiva e política, especialmente em um país marcado por desigualdades profundas e exclusões históricas.

Aparecida é, assim, menos uma biografia religiosa e mais um retrato do Brasil visto a partir de sua santa mais emblemática. Ao acompanhar a trajetória de uma imagem pequena, frágil e negra, o livro revela como o sagrado, no Brasil, nunca esteve separado da política, da raça, do gênero e da disputa por sentido. Aparecida não apenas conquistou o Brasil, ela expõe suas contradições.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro


domingo, 15 de fevereiro de 2026

QUEBRANDO O ESTEREÓTIPO DE SHERAZADE

 

EU MATEI SHERAZADE: CONFISSÕES DE UMA ÁRABE ENFURECIDA

JOUMANA HADDAD

RECORD – 1ª ED. - 2011

144 páginas

Eu Matei Sherazade, de Joumana Haddad, aborda questões de gênero, liberdade e representação da mulher na sociedade árabe. O livro combina memórias pessoais com reflexões políticas e sociais, e o título simboliza a ruptura com o estereótipo da mulher submissa e silenciosa presente na cultura árabe. Haddad escreve com paixão e honestidade sobre sua própria trajetória, revelando os desafios que enfrentou como mulher e escritora em uma sociedade patriarcal. A obra é inspiradora e instiga a reflexão sobre gênero, autonomia e liberdade de expressão, oferecendo uma perspectiva única e corajosa sobre as tensões entre tradição e emancipação feminina.


Joumana Haddad nasceu em Beirute, Líbano, em 1970. É uma escritora, palestrante, ativista de direitos humanos e jornalista libanesa. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

MULHERES, TECNOLOGIA E O APAGAMENTO DA PRÉ-HISTÓRIA

 


SEXO INVISÍVEL: o verdadeiro papel da mulher na pré-história

OLGA SOFFERJ.M. ADOVASIOJAKE PAGE

RECORD – 1ª ED. - 2009

312 páginas 

Cheguei a este livro depois de já ter lido obras mais recentes sobre as mulheres no Paleolítico e no Neolítico, como O homem pré-histórico também é mulher e Lady Sapiens. Ainda assim, quando Sexo Invisível foi citado em um curso online sobre a história das mulheres, meu interesse foi imediato. Li e a leitura se mostrou relevante, apesar do tempo decorrido desde sua publicação.

É evidente que, por se tratar de um livro mais antigo, muitas descobertas arqueológicas e revisões teóricas ocorreram depois. Ainda assim, para quem se interessa pela reconstrução crítica da pré-história, a obra permanece valiosa, sobretudo por seu gesto fundador: questionar frontalmente a narrativa androcêntrica que dominou a arqueologia e a história por décadas.

Escrito por três pesquisadores, o livro trouxe para mim uma contribuição específica e decisiva: a ênfase nas pesquisas sobre fibras. O avanço tecnológico permitiu estudar vestígios de cestos, cordas e tecidos — materiais tradicionalmente desconsiderados por se deteriorarem mais rapidamente. Em determinados contextos arqueológicos, no entanto, esses objetos se preservaram parcialmente, revelando um universo técnico sofisticado, invisibilizado pela centralidade atribuída às armas e à caça.

Essa discussão imediatamente remete ao texto de A ficção como cesta: uma teoria, de Ursula Le Guin, no qual ela defende que o cesto — e não a lança — foi a grande invenção do período. Sem recipientes, não haveria como carregar, armazenar ou partilhar alimentos. Hoje, sabe-se que a base da alimentação humana na pré-história era composta majoritariamente por vegetais e pequenos animais, e não pelos grandes mamutes caçados esporadicamente, como insistiu o imaginário heroico masculino.

Foram as mulheres, segundo os autores, que desenvolveram o cesto, as cordas, os tecidos e, mais tarde, a agricultura. Tecnologias essenciais à sobrevivência, à sedentarização e à própria emergência daquilo que chamamos civilização. Ao recuperar essas práticas, Sexo Invisível devolve às mulheres um lugar central na história humana — um lugar que lhes foi sistematicamente negado.

O livro também evidencia como historiadores e arqueólogos do século XIX projetaram seus próprios valores sobre o passado, valorizando apenas aquilo que se alinhava a uma visão masculina de poder, força e conquista. O resultado foi uma narrativa profundamente distorcida, que reduziu o papel das mulheres a algo marginal ou inexistente.

Sexo Invisível não é apenas uma obra sobre a pré-história: é um exercício de crítica epistemológica. Ele nos obriga a perguntar não apenas quem fez a história, mas quem foi autorizado a ser visto como agente histórico. E essa pergunta segue sendo atual.


Olga Soffer nasceu em 1942. É antropóloga

James M. Adovasio nasceu em Youngstown, EUA, em 1944. É arqueólogo e especialista em artefatos perecíveis.

Jake Page nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 1936. É um escritor. 


 




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

MISTÉRIO, PODER E ERUDIÇÃO NA IDADE MÉDIA

 


O NOME DA ROSA

UMBERTO ECO

RECORD – 25ª ED. - 2019

592 páginas 

O Nome da Rosa é muito mais do que um romance policial ambientado na Idade Média; é uma obra que atravessa literatura, filosofia, história e semiologia. Umberto Eco nos transporta a 1327, a um mosteiro beneditino remoto, onde o jovem noviço Adso de Melk acompanha o franciscano Guilherme de Baskerville em uma investigação que mistura assassinatos, intrigas religiosas e debates intelectuais.

O livro fascina por sua densidade histórica e erudita. Eco recria minuciosamente a vida monástica, a política e os conflitos teológicos da época, mostrando o embate entre fé e razão, ortodoxia e heresia, autoridade e questionamento. Cada detalhe — desde a organização da biblioteca labiríntica até os rituais litúrgicos — serve não apenas para ambientar, mas para refletir sobre o poder do conhecimento e da interpretação.

A escrita de Eco exige atenção: sua prosa é rica, por vezes irônica, e repleta de referências filosóficas e literárias, das quais a obra se alimenta continuamente. O leitor é convidado a mergulhar em um labirinto de signos e significados, numa espécie de jogo intelectual que desafia tanto a curiosidade quanto a paciência.

Um dos aspectos mais marcantes é a reflexão sobre o conhecimento e a censura, sobre como a história, os livros e as ideias podem ser controlados, ocultados ou reinterpretados. O romance nos leva a pensar na relação entre linguagem, poder e verdade, questões ainda profundamente atuais.

Apesar de ser uma narrativa de mistério, O Nome da Rosa não se limita à trama investigativa. Ele se abre como ensaio histórico, tratado de filosofia e estudo literário, oferecendo ao leitor múltiplas camadas de interpretação. Ler Eco é, acima de tudo, um convite ao pensamento crítico, à reflexão sobre a construção da história e o valor do conhecimento.

Um clássico que transcende gêneros e tempos, exigente e generoso, capaz de fascinar leitores interessados tanto na história medieval quanto na natureza da própria leitura.


Umberto Eco nasceu em Alexandria, Itália, em 1932 e faleceu em Milão em 2016. Foi um escritor, filósofo, semiólogo, linguista e escritor italiano. 




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

QUANDO ATÉ O AFETO É ATRAVESSADO PELA FOME

 

VIDAS SECAS

GRACILIANO RAMOS

RECORD - 1984

155 páginas 

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE

Vidas Secas é um daqueles livros lidos na juventude que permanecem como imagem, quase como cicatriz. No meu caso, o que ficou de forma mais nítida foi a morte de Baleia. Não apenas por ser uma cadela, mas porque Graciliano Ramos consegue concentrar nela uma humanidade que, ao longo do livro, vai sendo arrancada dos próprios personagens humanos. Baleia sonha, sente, imagina um mundo melhor, algo que a seca, a fome e a miséria já haviam tornado quase impossível para Fabiano, Sinhá Vitória e os filhos.

A seca não é apenas um fenômeno natural no romance; ela é estrutura de vida, destino imposto, força que empurra à migração, ao deslocamento contínuo, à perda de qualquer possibilidade de enraizamento. A família caminha, trabalha, foge, retorna, sempre sem escolha. A migração não é aventura, é expulsão. O sertão não aparece como espaço mítico, mas como lugar de sobrevivência mínima, onde o tempo se repete sem promessa.

O que impressiona em Vidas Secas é a linguagem seca, contida, quase árida, que acompanha a experiência dos personagens. Há pouco espaço para elaboração emocional, porque a própria vida não oferece esse espaço. A violência é cotidiana, a humilhação é naturalizada, o silêncio é uma forma de existência. Graciliano escreve como quem retira tudo o que é excesso, deixando apenas o essencial — e o essencial é duro.

Mesmo lido muito jovem, o livro já se impõe como denúncia. Não há heroísmo, não há redenção. Há apenas a exposição de um Brasil que empurra seus habitantes para fora de si mesmos. A morte de Baleia, tão lembrada, talvez seja o momento mais doloroso justamente porque revela o quanto a sensibilidade ainda resiste ali, mesmo em condições extremas.

Voltar a Vidas Secas hoje é perceber que ele continua atual. A seca, a migração forçada, a pobreza estrutural, o deslocamento de populações inteiras seguem presentes. O romance permanece como um espelho incômodo, que nos obriga a perguntar até que ponto essa história realmente ficou no passado — ou se seguimos, de outras formas, caminhando sob o mesmo sol.


Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro. 


A VIOLÊNCIA FRIA DO PODER E O SILENCIAMENTO FEMININO

 

SÃO BERNARDO

GRACILIANO RAMOS

RECORD – 109ª ED. – 2019

288 páginas 

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


São Bernardo é um romance que permanece na memória não pelos acontecimentos espetaculares, mas pela atmosfera de secura que atravessa tudo: a linguagem, as relações, os afetos. Lido ainda na juventude, o que mais me marcou foi a situação da mulher de Paulo Honório: a maneira como ela é tratada com frieza, desconfiança e progressivo apagamento, num ambiente onde o poder masculino se exerce como posse.

Paulo Honório é um personagem árido, endurecido pela ambição e pela lógica da propriedade. Tudo para ele é cálculo, domínio, resultado. Essa forma de estar no mundo se estende à relação conjugal: a mulher não é parceira, mas parte do patrimônio, algo que deve obedecer, se ajustar, permanecer silencioso. O amor, se existe, aparece deformado pela incapacidade de lidar com o outro como alteridade.

A violência em São Bernardo não é estridente. Ela se manifesta no controle, na vigilância, no ciúme paranoico, na redução da mulher a um objeto suspeito. A aridez do personagem masculino é também emocional: Paulo Honório não sabe escutar, não sabe compartilhar, não sabe amar sem dominar. E é justamente essa incapacidade que conduz à destruição do vínculo e à tragédia.

A figura da esposa — intelectual, sensível, deslocada naquele universo — funciona como contraste absoluto. Ela representa tudo o que Paulo Honório não compreende e não tolera: pensamento, dúvida, palavra, autonomia. Seu sofrimento não é apenas individual, mas estrutural: é o sofrimento de uma mulher inserida em um mundo moldado por homens para homens, onde não há espaço para fragilidade, reflexão ou dissenso.

Reler São Bernardo hoje é perceber o quanto Graciliano Ramos constrói uma crítica profunda às formas masculinas de poder. O romance não absolve seu narrador. Ao contrário, deixa exposta a pobreza afetiva de um homem que conquistou tudo, menos a capacidade de se relacionar sem destruir.

Talvez seja isso que torna o livro tão incômodo e tão atual: ele mostra que a violência não está apenas nos gestos brutais, mas também, e sobretudo, na frieza cotidiana, na lógica da posse e no silenciamento sistemático das mulheres.

Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro. 




sábado, 7 de fevereiro de 2026

EXÍLIO, FEMINISMO E RESISTÊNCIA FEMININA

 


ENVELHECER É PARA AS FORTES

HELENA CELESTINO

RECORD – 1ª ED. 2022

168 páginas 

Helena Celestino, jornalista e pesquisadora, nos apresenta neste livro a história de mulheres exiladas em Paris durante os anos 70, obrigadas a deixar o Brasil pela ditadura. No exílio, elas formaram círculos de apoio mútuo e descobriram novas possibilidades de ação, incluindo o feminismo, ainda incipiente e desconhecido para muitas delas.

Celestino narra a trajetória de cada uma, acompanhando os encontros em Paris e a posterior volta ao Brasil. Com o tempo, essas mulheres envelheceram, e novos desafios se impuseram: o corpo, a velhice, as transformações da sociedade e o confronto com uma nova geração de mulheres que tinha perspectivas diferentes. Assuntos como envelhecimento, sexualidade e autonomia na velhice ainda permanecem tabus, mesmo entre feministas.

A narrativa evidencia que essas mulheres, que já haviam sido pioneiras ao lutar contra a ditadura, participar da revolução sexual, viver múltiplas experiências, casar ou recusar a maternidade, construir carreiras e reinventar-se, agora enfrentam a necessidade de novas reinvenções. Elas lidam com a perda de garra ou motivação de uma juventude que já passou, e com a percepção de que podem estar vistas como ultrapassadas diante da nova geração.

O livro é uma faceta da história das mulheres durante o período da ditadura e do exílio, mas seu mérito é mostrar como essas experiências moldaram vidas cheias de coragem, movimento e transformação. Ao mesmo tempo, revela a complexidade do envelhecimento feminino, a necessidade constante de adaptação e a persistência da força, mesmo quando o corpo e a sociedade impõem limites diferentes.



                                            Helena Celestino é pesquisadora e jornalista. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

UMA MULHER INTELECTUAL NA INGLATERRA VITORIANA

 


GEORGE ELIOT: A VOZ DE UM SÉCULO

FREDERICK R. KARL

RECORD – 1998

884 páginas 

Como parte da pesquisa sobre o feminino no século XIX, a leitura da biografia de George Eliot se impõe quase como um gesto preliminar. Antes dos romances, antes da obra literária, há uma vida marcada por escolhas intelectuais, afetivas e políticas que ajudam a compreender a singularidade de seu pensamento.

Frederick R. Karl constrói uma biografia extensa, que acompanha Mary Ann Evans da infância à morte, passando por toda a sua produção literária, bem como pelos comentários críticos que seus livros suscitaram ao longo do tempo. Trata-se de um trabalho minucioso, por vezes exaustivo — especialmente quando se detém longamente nas negociações com editoras, contratos e rendimentos financeiros, trechos que tendem a quebrar o ritmo da leitura. Ainda assim, o livro se sustenta como uma fonte importante para entender o percurso intelectual de Eliot.

Um de seus méritos está em situar a autora no interior da Inglaterra vitoriana, fazendo do contexto histórico e cultural um pano de fundo constante. Karl insere George Eliot em diálogo com figuras centrais da época, como Dickens, Charlotte Brontë e John Stuart Mill, revelando um ambiente intelectual vibrante, atravessado por debates morais, religiosos e políticos que ecoam diretamente em sua obra.

Mary Ann Evans era uma mulher profundamente intelectualizada, pertencente a uma elite cultural e integrada ao meio literário de seu tempo. Ainda assim, enfrentou forte preconceito, sobretudo quando decide viver com George Henry Lewes, um homem casado. Essa escolha, escandalosa para os padrões morais da época, contribui decisivamente para a adoção de um nom de plume masculino, estratégia que lhe permitiu circular com maior liberdade no campo literário.

George Eliot raramente se pronunciava publicamente. É nos romances que seu pensamento se revela com maior clareza: suas reflexões éticas, suas críticas sociais, suas posições sobre religião, moralidade e vida privada. A ficção torna-se, assim, o espaço onde ela elabora não apenas ideias abstratas, mas também justificativas implícitas para suas próprias escolhas.

Nesse sentido, a biografia de Karl cumpre um papel fundamental: mostrar que conhecer a vida de George Eliot não significa reduzir sua obra a dados biográficos, mas compreender melhor as tensões que atravessam seus romances. Antes da leitura da ficção, há uma mulher que pensa, escolhe, transgride, e é dessa fricção entre vida e escrita que emerge a força duradoura de sua obra.



Frederick R. Karl nasceu em Nova Iorque em 1927 e faleceu na mesma cidade em 2004. Foi um biógrafo literário. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Memória familiar e a história de um país dividido


 

MINHA UCRÂNIA: A JORNADA DE UMA MULHER EM BUSCA DA HISTÓRIA DE SUA FAMÍLIA E SEU PAÍS.

VICTORIA BELIM

Record – 1ª ed. 2023

294 páginas

Para compreender melhor a história da Ucrânia comecei por este livro de Victoria Belim, uma ucraniana que vive atualmente na Bélgica e que retorna ao seu país natal, antes da guerra, para visitar a avó. A partir de suas memórias familiares, vamos conhecendo a história da Ucrânia, suas tradições e seus costumes.

A autora reconstrói a trajetória de seus bisavós, Asya e Sergy, que atravessaram a Revolução Bolchevique, a Guerra Civil, o Terror Vermelho, a coletivização forçada, o Holodomor, os Grandes Expurgos dos anos 1930, a Segunda Guerra Mundial, a fome de 1946, a decadência dos anos 1970 e, por fim, o colapso da União Soviética na virada dos anos 1980 para os 1990. Victoria Belim viveu sua infância e adolescência ainda sob o regime soviético.

Ela se hospeda na casa da avó materna, Valentina, filha de Asya e Sergy. A partir do diário do bisavô, descobre a existência de um irmão sobre o qual ninguém jamais falava — e decide investigar o que lhe aconteceu.

Há também a figura do tio paterno da autora e o embate político entre ele e a sobrinha: ele pró-Rússia, ela pró-Ocidente, pró-Europa. A Ucrânia aparece como um país profundamente dividido. O oeste, historicamente ligado ao Império Austro-Húngaro dos Habsburgos, é majoritariamente pró-Ocidente; o Leste, que fez parte da Rússia, é pró-Rússia; e há ainda a região de Kiev, a capital. São histórias distintas convivendo em um mesmo território.

No país, falam-se duas línguas, o russo e o ucraniano — ao menos até a recente proibição do uso do russo. Quase todas as famílias têm russos e ucranianos em sua composição. Alguns comemoram o Natal em janeiro, segundo o calendário juliano; outros seguem o Natal ocidental, de acordo com o calendário gregoriano. Trata-se de um país multiétnico.

A autora também fala dos bordados ucranianos feitos pelas mulheres — belíssimos — e das pinturas florais nas casas, que funcionam como marcas de identidade, memória e resistência cultural.

É um livro de leitura fluida que, ao narrar a história da família da autora, apresenta como pano de fundo a história da Ucrânia. Para quem, como eu, sabia muito pouco sobre o país, a leitura é altamente recomendável.


Victoria Belim nasceu em 1978 na Ucrânia. É uma memorialista. 


Quando a memória vira romance

 


VIVER PARA CONTAR 

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ 

Record - 15ª ed. 2003

476 páginas 

Após assistir à série Cem Anos de Solidão, fui até a minha biblioteca e peguei para ler a autobiografia de Gabriel García Márquez, Viver para Contar.

Foram 474 páginas de um mergulho na vida dele e na história da Colômbia. A cada episódio de sua trajetória, encontrei traços claros de seus livros, especialmente de Cem Anos de Solidão: personagens baseados em pessoas reais, familiares, situações vividas.

Ele reconstrói sua história a partir da memória, mas também com uma boa dose de imaginação. Recorda a infância, a adolescência e os primeiros anos no jornalismo. Li recentemente, em outro livro que ainda não postei, que muitas vezes a imaginação acaba se transformando em memória. A memória é um romance: é a forma como lembramos, e nem sempre corresponde exatamente aos fatos. A psicanálise que o diga.

Há também, de forma muito presente, a história da Colômbia: suas divisões internas, tanto geográficas quanto políticas; as lutas, principalmente entre liberais e conservadores; a censura, os militares, as revoltas e os assassinatos de políticos.

Gabo, na juventude, era muito pobre. Vivia um dia de cada vez, frequentava bares e bordéis, e teve muitos amigos — sempre fiéis. Mas nunca abandonou completamente a família e sempre a respeitou, mesmo vivendo apenas alguns períodos com os pais. Foi criado pelos avós maternos, que marcaram profundamente sua vida. Após a morte do avô, vai morar com os pais, mas logo parte para estudar. Primeiro em uma escola católica, depois em um colégio e, por fim, chega à universidade de Direito, curso que não irá concluir.

Sempre foi uma pessoa muito tímida, cheia de receios e medos — e ainda assim se tornou o autor de uma obra magistral: Cem Anos de Solidão.


Gabriel García Márquez nasceu em Aracataca, Colômbia, em 1927 e faleceu na Cidade do México em 2014. Foi escritor, jornalista, ativista editor e político. 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

LIVRO: A MÃE ETERNA morrer é um direito - BETTY MILAN


Milan, Betty. 1ªed.- Record, 2016
141 paginas


Após o livro "Carta ao filho" desta vez Milan nos fala da mãe. É um relato fictício, mas que é sincero sobre os sentimentos de uma filha diante do envelhecimento e da morte da mãe. 

Fui tocada pelo livro pois passei por isto, em dado momento tive que ser a cuidadora da que cuidou de mim, daquela que me deu a vida e me escutou, instruiu, consolou. Como é difícil aceitar que esta mãe, com a qual contamos sempre, deixa este lugar, já não escuta direito, não consegue mais conversar com você, envelhece e pode morrer. Por outro lado temos consciência do que é envelhecer, perder sua liberdade e autonomia, pelo menos a física. Um corpo que já não permite que se faça o que deseja, até mesmo as menores coisas, como ir a um cinema, visitar um filho, chegando ao ponto de não poder tomar um banho sozinha. 

A filha que cuida da mãe sente raiva, medo, se sente sendo subjugada nisto tudo, obrigações que não deseja, pesos em sua vida, mas não consegue deixar de fazer, de cuidar, pelo imenso amor que sente. E não há como falar sobre isto. Dizer que se sente raiva? não pode!! Milan é corajosa ao falar com honestidade, franqueza sobre estes sentimentos.

O filho no livro que não aceita, não ajuda e não participa. No fundo sente o mesmo mas reage de outra forma, não consegue aceitar o envelhecimento da mãe, a perda da mãe. Filhos desejam que a mãe seja eterna, a mesma, e se não pode ser assim no real, o imaginário se ocupa disto. 

Quantas vezes me senti assim. Não aceitar, não querer que minha mãe envelhecesse, ficar com raiva quando ela ficava mal, doente. Não era por ter que socorrer, era por não querer que ela envelhecesse e morresse. 

A imagem da mãe que cuidou de nós é a que fica. É esta que desejamos e mantemos. Nada mais cruel para um filho ou filha do que ter que se tornar mãe da mãe. Milan tem razão, é o momento em que perdemos a mãe, em que ela deixa de ser mãe, se torna filha. E como é difícil enfrentar isto. E penso que para a mãe também, tanto que ela vai reagir, com atos que chamamos de teimosia, rabugice, estar fora da casinha. Ela também deseja preservar sua independência e autonomia. Vai fazer coisas que não pode, vai comer coisas que não pode. Com diz Milan, "a velhice castra antes de a morte ceifar e por isso é tão aterradora". 

Segundo Freud há uma fusão entre mãe e bebê, que carregamos pela vida, nunca nos separamos totalmente. A morte da mãe nos leva um pedaço, morremos junto. Uma parte de nós se foi. E ver a mãe morta é ver a si mesmo morta, e saber que um dia também vamos morrer. 

Betty Milan nasceu em 1944 em São Paulo. É psicanalista e escritora.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

LIVRO: O MAPA E O TERRITÓRIO - MICHEL HOUELLEBECQ


Houellebecq, Michel. Record, 2012
399 páginas
Tradução: André Telles
Título Original: La carte et le territoire

Este é o segundo livro que leio de Houellebecq e noto que há pontos que se repetem em relação ao outro - Submissão - já postado aqui no Blog.

Primeiramente o protagonista, um homem solteiro, que mora sozinho e que tem  dificuldades de se relacionar com o outro. O distanciamento dos pais, ser inapto para o amor, a sexualidade, e um mundo moderno com suas supostas vantagens que acabam sempre não o sendo, o solitário, o isolamento. Outra característica é que o autor costuma colocar como personagens pessoas públicas e que ainda vivem, mas em forma de ficção, nem sempre correspondendo à realidade, e neste livro ele coloca a si próprio, o escritor Michel Houellebecq é um dos personagens. 

Neste livro ao invés de François, um professor, temos Jean Martin, um artista plástico, que mora sozinho em Paris e tem seu pai já com certa idade que ainda mora na antiga casa da família. Após se aposentar, era um grande arquiteto, resolveu ir morar numa casa de idosos e finalmente optou pelo suicídio assistido que é permitido na Suíça. 

Jean tem vários momentos em sua arte, a fotografia, a pintura à óleo, mas o que nunca imaginou é que um dia seria famoso e que suas telas valeriam fortunas. Tem uma relação amorosa com Olga, uma russa que está na França e que depois retorna ao seu país, ela o ama, porém ele em momento algum tem um gesto para retê-la ou pensar em ir com ela. Simplesmente deixa acabar. 

É um retrato da modernidade, do vazio, da melancolia, onde as relações perdem seu verdadeiro sentido e são apenas vividas no momento sem criar laços. O mundo da arte, as frivolidades, o dinheiro. Um dos principais pontos de Houellebecq em seus livros é o mercado de consumo e neste livro vamos encontrar várias passagens onde diante de algo vital para a existência se dilui em pensamentos fúteis, em análises sem profundidade. 

O que marca no livro é perceber que Jean se torna um artista famoso e vale muito dinheiro, porém, será arte mesmo o que ele faz? ou será o merchandising que o tornou famoso? E ele ao invés de se pavonear com isto e viver a fama se isola cada vez mais. Não posso deixar de pensar que quando um artista dá seu suor e cria uma obra ele não pode ficar indiferente, há algo de produzido neste boom pelas obras de Jean e que não foi ele quem fez isto. 

Apesar de ser este o livro que ganhou o Prêmio Goncourt, eu prefiro Submissão, que veio depois, onde a realidade do mundo moderno se apresenta com questões muito atuais, sendo que este O Mapa e o território, conta uma história que nos mostra o retrospectivo, a diferença que podemos imaginar entre o que foi e o que é. Entre o antes do mundo do consumo e o de hoje. 

Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França

terça-feira, 28 de julho de 2015

LIVRO: QUE FIM LEVOU JULIANA KLEIN? - MARCOS PERES



Peres, Marcos. 1ªed. Record, 2015
347 páginas

Um livro que traz como cenário Curitiba tanto a de Dalton Trevisan como a do Batel

Um delegado de polícia de Maringá é chamado para ajudar num caso em Curitiba. Irineu chega no aeroporto Afonso Pena e se dirige para o casarão do Batel para encontrar Gabriela Klein, a filha de Juliana que está traumatizada com o último episódio sangrento da família. Aos poucos Irineu vai nos contando esta história que começa na Alemanha, a briga filosófica entre os Klein defensores da filosofia de Nietzsche e os Koch, que agora são professores da Universidade Federal do Paraná e da Puc.

O desaparecimento trágico de Juliana Klein foi precedido por outros assassinatos como o de Teresa Koch, professora da Puc, assassinada no teatro Guaíra pelo marido de Juliana após uma conferência onde ela defende que o destino não existe.

Irineu foi o responsável pela prisão de Salvador, o marido de Juliana, e se apaixonou por ela lhe prometendo proteger sua filha Gabriela. Agora diante de mais um assassinato,desta vez de Mirna Klein, a irmã de Juliana, ele volta a se envolver nesta eterna briga de famílias.

Ao longo das páginas somos informados do passado e acompanhamos as novas ocorrências trágicas que envolvem estas família e de sua briga dita filosófica. Juliana sempre dizia que tudo se repete, tudo retorna, e explicava para Irineu o pensamento do Eterno Retorno de Nietzsche, que tudo se repetiria.

Um romance policial filosófico onde a resposta para o mistério se encontra na filosofia de Nietzsche. Não quero me adiantar mais para não tirar o prazer de quem for ler o livro, mas me permito ter um enfoque por outro viés, ou seja, pela psicanálise. Aliás, sempre encontro um paralelo muito grande entre Nietzsche e Freud.

O Eterno Retorno de Nietzsche e a herança psíquica são muito próximos, e é o que veremos no decorrer do livro. A repetição de tudo, com a diferença que  podemos romper o círculo da repetição ou o tempo cíclico de Nietzsche, desde que conheçamos o que move o inconsciente e que nos faz sempre repetir e que acabamos passando aos nossos filhos. E no livro percebemos isto, o quanto tudo se repete e volta, e retorna, só que a ruptura não ocorre.

O autor também se utiliza da Divina Comédia de Dante, com a inscrição da porta do inferno onde contém uma aviso sobre deixar toda esperança do lado de fora, e na porta do quarto de Gabriela tem uma placa que diz que ali tem esperança. Associando a filosofia de Nietzsche o que realmente isto quer dizer é que a esperança é algo que se projeta, algo que se espera, e com o eterno retorno ela deixa de existir.A questão é um tanto religiosa, ou seja, não há vida após a morte, não há esperança que algo mude, exceto no aqui e agora. O inferno é o aqui, o presente, o único lugar onde se pode fazer algo de bom que então irá se repetir.

Ao final do livro teremos três versões para o que aconteceu, mas eu não deixo de fazer uma pergunta em relação à uma das pessoas assassinadas e que é: como o corpo foi retirado da mansão? O que deixa em aberto mais uma possibilidade que foi levantada pelo delegado Irineu já no final da história.

Marcos Peres nasceu em Maringá - PR. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

LIVRO - ARROZ DE PALMA - FRANCISCO AZEVEDO



Azevedo, Francisco. 12ª ed. Record, 2013
362 páginas

Família é prato difícil de preparar!

E como, e todos nós temos que prepará-lo. Um belo livro sobre a família, com tudo que ela contém, amores, apoios, desavenças, ciúmes, inveja, arrogância, humildade, acordos, desacordos, e muito mais. 

Tudo começa em Portugal no ano de 1908 numa aldeia chamada Viana do Castelo. Os pais de Antonio, José Custódio e Maria Romana, se casam e ao sair da igreja recebem a tradicional chuva de arroz. Palma, irmã de Antonio ao ver todo aquele arroz no chão resolve recolhê-lo e o oferece como presente aos noivos com os seguintes dizeres:

" Este arroz - plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido na pedra - é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha benção. Palma "

José Custódio, orgulhoso, se sente ofendido, mas Maria Romana vê nisto um belo gesto de amor e guarda o arroz, arroz este que permeará a vida desta família por muitos anos, até o aniversário de 88 anos de Antonio, ou melhor, dois infinitos

Vamos acompanhar toda a trajetória desta família. A vinda para o Brasil, o nascimento dos filhos, a partida deles para outras cidades, os casamentos, o nascimento dos netos. Mas é Antonio quem  nos conta a história, é do ponto de vista dele que acompanhamos tudo, e também a história do arroz. 

Um belíssimo livro sobre família, sem ser piegas, sem ser romântico, sem ser só desavenças, mas tendo tudo isto, porque família é assim, família é um prato difícil de preparar!

Francisco Azevedo nasceu em 1951 no Rio de Janeiro 

domingo, 12 de abril de 2015

LIVRO: O SENHOR AGORA VAI MUDAR DE CORPO - RAIMUNDO CARRERO



Carrero, Raimundo. 1ª ed. Record, 2015
111 páginas

Na madrugada de 18 para 19 de outubro de 2010 o escritor Raimundo Carrero sofreu um AVC, que o deixaria com o lado esquerdo comprometido. Após sair do hospital o que mais o atormentava era se ainda conseguiria ser um escritor, se conseguiria escrever. E conseguiu. 

Mas este livro sobre o que lhe aconteceu demorou mais. Ele escreveu três versões e não se satisfez com nenhuma delas. Ele não conseguia escrever na primeira pessoa, então optou por escrever na terceira pessoa e através de metáforas, e o resultado é este pequeno imenso livro. 

Belíssimo! a medida que vamos lendo sentimos em nós mesmos a angústia que ele sentiu, o medo, mas junto a isto tudo também as recordações da vida, do antes, e novamente a angústia, do agora. São sonhos e pesadelos, a verdade e a invenção. 

Mudar de corpo, mas como o autor nos diz, o corpo está sempre mudando, desde que nascemos. Por outro lado costumamos imaginar que a vida se passa fora do corpo, não o sentimos ali junto vivendo junto com nossos pensamentos, sensações, dores, por mais paradoxal que seja, uma vez que a dor e as sensações só as conseguimos captar e sentir através do corpo. 

Fiquei emocionada, me tocou profundamente este livro. 

Raimundo Carrero nasceu em 1947 em Salgueiro, Pernambuco, Brasil